FOTOS&FRASES-04

Akio Kimura - 21/11/2009

Fotos maravilhosas em circulação na Internet

 

01 - Taturana

       Um olhar para o futuro

       Borboleta.

 

02 - Um caramujo

       Carrega sua casa.

       Artigo de luxo

 

 

 

03 - Vai, taturana!

       Metamorfoseie-se!

       Toda florida!

 

 

04 -  A Joaninha,

       Sem saída, cede ao Joanão,

                                           de plantão.

 

 

 

05 - Um lindo inseto

       Jóias coloridas

       Um lindo objeto.

 

 

06 - Um tiro certo

       Bala verdadeira

       Gizes quebrados.

 

07 - Ô, meu Papai Noel!

       Que bons tempos aqueles.

       Boas Festas.

 

08 - Caminhão.

                  A ordem dos fatores

                                 alterou o pontilhão.

 

09 - Estrelas do mar

       Não iluminam o céu

      Águas apagam.

 

 

10 - A tartaruga,  de nervosa,

                            ofende um "paparazzi".

                              

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

11 - "Há uma certa ordem

                                     de equilíbrio nessa bagunça"

 

12 - Há um certo desequilíbrio

                              nessa ordem de fatores.

 

 

13 - Há um contraste de culturas

                                 dentro dessa ordem moral.

 14 - Na ordem dos fatores,

                                     ordem,

                                              sem alterar o produto.

 

15 - Um exagero a mais,

                  não quer dizer que o barco afunde.

 

16 - Dependendo da ordem dos fatores,

                                       alterar um dos produtos.

 

FIM

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Créditos - Fotos: Unglaublitichm, Suprenant, Publicity_ Art, NationalGeographics, Cool_Photos

 

 

 

 

FOTOS&FRASES-03

Akio Kimura - 14/11/2009

Fotos em circulação na Internet

 

01 -  A rã folheia

        Gotas se despreendem

        Chuva de verão.

 

02 - Abra o livro

       Assopre a poeira

       Sabedoria.

03 - Bolhas de sabão

       No espaço aberto

       Cai na minha mão.

04 - O símio grita

       O homem se assusta

       É amizade.

05 - Som de piano

       Técnica perfeita

       Primor sonoro.

06 -  Esqui radical       

        É inverno, é neve,

        É salto mortal.

 

     

07 - Inocência,

       Beleza da alma

       Felicidade.

 08 - Jardim eterno,

       Frente ao infinito 

       Paraíso moderno.

09 - Peixe gigante

       Cercado por cardume

       Uma revolta?

10 - Navio tombado

       Inclinado no cais

       Fotografado.

11 - Livro aberto

       Leitura rápida

       Sem atropelo.

12 - Dono do gato

       Compara ao seu corpo

       Gato obeso.

FIM

Crédito - Fotos: GermanPhotographer, Animeux, Suprenant, Minha avó(form. H. Pinho), Sculture, National Geographics.

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MINI-FOTOCONTOS

Akio Kimura - 24/10/2009 - Fotos geniais circulando na Internet

(Últimas fotos)

01 - O galo disse às galinhas que se o seguissem, seriam premiadas, 

encheu o peito e cantou. Uma das aves cacarejou:

- Vamos! Nós somos galinhas mesmo! 

02 - O pombo apareceu na vidraça da janela e sabia que não havia perigo.

Os gatos, dentro de casa, não sabiam porque não conseguiam atacá-lo.

A ave, virou-se de costas e balançou o seu traseiro. 

03 - O garoto, de férias na fazenda, respondeu ao avô que tomaria cuidado

e que iria apenas jogar game no cais, porque da última vez, 

o garoto quase fôra devorado por uma sucuri.

 04 - Quando cheguei no ponto de ônibus, notei que havia esquecido

a minha mochila. Telefonei pra minha avó e ela me respondeu:

- Eu levo pra você! É pra já!

05 - Diante da desobediência de seus cães farejadores

que entraram em greve, o cãomandante impôs uma punição:

que eles ficassem de quatro até às quatro da tarde.

05 - O doutor macaco não entendia porque o seu paciente insistia

em fazer exame de toque e sempre dizia: não assopre! 

E o falso médico respondia: não peide!

06 - A moça, cansada de ser trombada por trás nos metrôs, trens e ônibus,

resolveu colocar dois faróis no traseiro.

07 - O bichinho verde, depois de muito tempo fora de seu habitat,

estranhou o lugar. Olhou para os lados e resmungou: é aqui mesmo! 

Ele mal sabia que o seu lugar tinha virado um condomínio fechado.

08 - Naquela manhã, o peixinho no aquário percebeu quatro olhos gordos

observando os seus movimentos: é provável que eu não viva até à noite.

Identifique as fotos de acordo com o texto acima.


FIM

Créditos - Fotos: Unglaublitchim, Cool_Photos, Erik Johansen

Créditos - Fotos de jornais: JT, Folha, Diário de São Paulo, MSN.

ÚLTIMAS FOTOS

Akio Kimura/07/10/2009

(Belas fotos circulando na internet)


01 - A felicidade é como automóvel de um colecionador.

Para conservar o patrimonio, é necessário manutenção até o limite 

 

do possível.


  1. 02 - Que nasça apressado, que viva intensamente e se realize.

mas com pouca pressa de morrer.


03 - Ainda bem que há pessoas que tem iniciativa de demonstrar

ao mundo, a grandeza de seus atos.

 

04 - O progresso fez com que as renas do Papai Noel

fossem libertados, mas de que adiantou? São perseguidos.


05 - Enfim, o símbolo do capitalismo conquista o reduto animal.

 

06 - Na presença de humanos, é necessário rir diante das câmeras,


mesmo que seja um sorriso verde.


07 - Esta foto é para lembrarmos que ainda existe guepardo.

O animal mais veloz do planeta. Com risco de extinção.

08 - Um dia disse para uma mulher triste: 


As folhas que cairam no outono, não serão as mesmas que nascerão na

próxima estação. 


E ela respondeu: - Folhas são simplesmente folhas.


09 - Os frutos de um confronto armado são a miséria e sofrimento,

resultado de governos corruptos e ditatoriais. Quem perde é o povo.

10 - A natureza nos surpreende! Como pode um bichinho como esse,

calcular a distância com precisão matemática?

O FUTURO DO JORNAL EM 3D

 

FIM

CRÉDITOS: Fotos - JT, Folha, Diário de São Paulo, Veja, The Economist, Valor, Simca/Google.

CRÉDITOS: Fotos - GermanPhotographer 2007, Erik Johansen, Publicity_Art, Suprenant, Ungalaublitchm, NationalGeographics, Animeux, Jarekco-Pixidaus, Rozane de Holleben.

FOTOS GENIAIS

Akio Kimura - 01/10/2009

SEM NOÇÃO 

01 - O que está acontecendo? Que lugar é esse?

Cadê areia? E o deserto?


02 - O faxineiro: - Esse cara está pensando faz um tempão,

mas na prática, quem acaba resolvendo sou eu.


03 - Não, Excelência, ninguém está escutando. O ato secreto nunca virá à tona.


Fique tranquilo, as paredes não tem ouvidos.

 

04 - O modelo ideal de identificação para os favorecidos

do ato secreto.


05 - Compartilhar democraticamente sem prejuízo a outrem 

 é um ato transparente.


06 - A ingenuidade faz parte do negócio, mas carregar dinheiro nas mãos?


Ele tem muito a aprender com a turma do mensalão. O dinheiro se carrega na cueca!

 

07 - Todas as invenções e criações realizadas pelo Homem 

são um mal necessário.


08 - Nada pode deter a procriação, ela acompanha o progresso.

Ou será ao contrário?


09 - A necessidade de sobrevivência faz com que o Homem


construa caminhos engenhosos


em locais exuberantes.

 

10 - Quem discursa de olhos tapados,


pode ver depois, imagens distorcidas. 

 

07 - A crítica é uma forma de aviso para o Homem adquirir 


 e aprimorar o bom senso. 

FIM

Fotos - Créditos: Fotógrafos do JT, Folha de São Paulo, Valor, Veja, Diário de São Paulo, Associados.

Fotos - Créditos:GermanPhotohrapher 2007, Erik Johansen, Publicity ART, Suprenant, Unngalaublitchm, National Geographics, Animeux, Jarekco-Pixidau

* Crédito: A frase "não coloque as suas palavras na minha boca" é do jogador de futebol Dagoberto, do São Paulo FC.

* Crédito: Nico Bozzolan pela sugestão em "A Turma"

 

 

O CORPO UNIVERSAL

Akio Kimura - 17/09/2009

FOTOS INCRÍVEIS (Circulando na Internet)


Vamos percorrer a coluna vertebral do corpo do mundo.


Vamos observar o coração universal.



Ele bate fundo.



Vamos ver seres,


belezas,

 

forças

da

 natureza.


Vamos observar


algumas espécies


de animais e seus predadores,


selvagens ou não.

E verificamos

que, mesmo assim, 

 são livres e felizes.


Vamos ver também, lugares inabitáveis e gelados,

contudo,

existem seres. Este é o nosso mundo.


Vamos observar também, 


as cáries ambientais, 

 Elas fazem doer fundo.


Vamos observar as cordas vocais, 

elas gritam em todos os cantos do mundo.


E em todos os seres,

sabemos que correm sangues de uma cor,

 neurônios iguais

e pedaços 

de dor.


Vamos observar o passado. Eram seres que sonhavam alto

e se empinavam nos ares.

Hoje,


seres transportam seres,

 brincam rasgando espaços, destruindo pazes.

Ultrapassam a barreira do som que explodem nos ares.


O fígado negro do poder e da política


nos transforma,


nos adoece,


nos mutila


e nos faz doer a cabeça.

Embaixo, um apendicite

e em cima,

uma tosse seca.


Hoje, sentimos que o Homem não se dá o valor


da vida que usufrui, 


nem mesmo do seu belo jardim que possui.


Será o Homem, o seu próprio predador?

FIM

Créditos: Buscas no Google/Wikipédia-enciclopédia livre - Galáxia/Universo - Uol ciência.hsw.uol- Fotos: Paulo Santos Reuters - Gazeta do Povo - Vida e Cidadania

                                                                           Fotos: Fome no mundo - www.webciência.com

                                                                           Fotos: Bomba Atômica - Holocausto

                                                                           Fotos: La domination française-4/7/1943

                                                                           Fotos:  GermanPhotograher 2007, Erik Johansen(ed. Arango-fotos impossibles, FotoAgua-autor Sistem User; Nature's Best photographer: Breton; Publicity_Art(autor/ed.Iancu); Suprenant: autor/ed. Jose; Unnglaublitchm: título-Personajes del Intennè: NationalGeigraphics-autor:Dept. MME; Animeux; Jarekco-Pixidaus.

 

 

 

 

IMAGENS FANTÁSTICAS

Akio Kimura -10/09/2009  (Fotos circulando na Internet)


01 - Mesmo uma pessoa pura pode cometer um dia, um ato comercial.


Também tem direitos.

 

02 - Na política, uma mão conserta a outra.

 

03 -  Não sou o que falo e nem o que escrevo. Sou o que não penso em mim.


Penso no mundo.

04 - As forças que nascem do chão,


são lágrimas


caídas do céu. 


 

05 - Com um IPOD em meus ouvidos, vivo duas vezes,

       

      mas morro aos poucos quando fumo.

06 - No vermelho, paro. No amarelo, me preparo.

No verde, ouço uma freada.

 

 Depois, sigo a vida.

07 - Todos os seres selvagens, pressentem o perigo. Nós também.

 

08 - O maior sonho de um político desonesto, é construir um castelo,

         uma mansão e abrir uma conta bancária no exterior.

        São provas maiores de corrupção.

Ele não tem noção disso?

 

09 - Para subir e alcançar o topo é necessário dar tudo de si.


      E para descer, é necessário, ter trabalhado honestamente para sentir o sabor de vitória.

 

10 - O mundo perde o encanto quando,


no passado, você viu o paraíso.


 

11 - A solidão é uma sombra, a luz é a esperança.

Continue a viver.

 

12 - Se a reencarnação existe,


há grande possibilidade de eu estar usando cérebro e espírito usados.



13 - A perfeição é ser 100%, portanto não é normal.

 

 

14 - Lula diz: - Sarkozy, baixa...

        Sarkozy responde: - Lula, aqui não! Todos estão olhando...

        Lula: - ...baixa o valor desses armamentos.

                    Tá caro demais!

                    Preciso de verba para Saúde e Habitação! 


15 - Nelson Jobim pergunta: - Brigadeiro, deixa tocar a mão aí?

O senhor não tem Pomo de Adão?

FIM

Créditos - Fotos de jornal: Folha de São Paulo

Créditos - Fotos: GermanPhotographer; Erik Johansen(ed. p/ Arango-Fotos Impossibles) 

                  FotoAgua-autor : Sistem User; Nature's Best Photographer: Breton; Publicity_Art

                 Autor/ed: Iancu; Surprenant: autor ed/Jose; Unnglaublitchm: título-Personajes    

                 del Intennè; NationalGeographics-autor: Dept. MME; Google(Castelo da Disney)

 

 

 

 

FRASES IMPERFEITAS

Akio Kimura - 11/1982


01 - Políticos! Com esses meus olhos, estou vendo um circo de horrores. Já sei em quem não votar nas próximas eleições.

 

02 - Os supérfluos são tão interessantes que os seus valores são exorbitantes.

 

03 - Amar nunca foi pecado. Pecado é pecar sem amar. Então, somos todos pecadores.

 

04 - Nós nos deformamos pela boca: pelo que comemos e pelo que falamos. E os atos? Pela consciência, cada um com a sua.

 

05 - O amor é um mistério. Ora se ama, ora se mata. Oremos.

 

06 - O céu é mais bonito à noite porque os humanos dormem e as estrelas acordam.

 

07 - A política é como casamento, cheio de casuísmos.

 

08 - A música é uma linguagem universal em forma de ilusão. O som é o que cada um interpreta.

 

09 - Dizem que os loucos são felizes, então, prefiro ser infeliz.

 

10 - Entrevistas com jogadores de futebol: falam que o árbitro deixou o pau comer e que deixou de dar penalidade máxima.

      E os políticos? Eles continuam jogando uma partida sem fim, mesmo recebendo cartão vermelho. Súmula arquivada pelo juiz.

 

11 - A morte é o sonho real da vida, mas ninguém a quer.

 

12 - Nas rodas de um automóvel, o mundo gira. Fui atropelado.

 

13 - No clique de uma máquina fotográfica, um momento de vida arquivada. Então, existo.

14 - Cada vez que olho nos ponteiros de um relógio, tenho a impressão de que estou atrasado.

(Recorte da Revista Veja São Paulo, da crônica de Walcyr Carrasco: "Por que a pressa?")

 

15 - O meu medo não é morrer, é estar morrendo como um peixe no aquário.

 

16 - Quem foi traído por uma linda mulher, não se estresse! Faça como eu.  Veja!

FIM

Créditos - Fotos/desenhos: Revista Veja, JT, Folha, Caras, Diário de São Paulo.

Créditos - Fotos: GermanPhothographer, Universal Geographer e Pixdaus(http://pixdaus.com)

 

O FUTURO DO PASSADO

Akio Kimura 22/08/2009 

São Paulo, 2009.

Converso com um colega de primário, morador do mesmo bairro. Ele acabou de ter alta do hospital há alguns dias, infarto do miocárdio. Mas tudo sob controle. Ouço o que ele diz, é claro, ele tem o que dizer depois de um tempo de cama. Fala sobre os tempos de escola, sobre seus amigos e sobre uma luz que viu durante a operação. Ele era da outra turma, mas mesmo assim, não deixamos de nos reconhecer depois de quase meio século sem nos encontrarmos, isso, no mesmo bairro, incrível. E a conversa se arrasta até chegarmos no assunto moradia. Ele residia numa avenida e havia se mudado para outra rua mais distante, casa própria, perto de uma caixa d'água. E do local onde estávamos, via-se o panorama. E engraçado que eu tinha tinha em mãos, um recorte de jornal para tirar cópias sobre o assunto.

A conversa vai e ouço tudo que ele diz enquanto descíamos  ladeira.

- Você percebeu, meu caro colega, que o nosso bairro está sofrendo mudanças?

E eu reforçando o bate-papo admirando a paisagem: - Pois é, cidade está crescendo verticalmente, novos edifícios surgem num piscar de olhos. 

- É meu caro, o pior é que cada passo dado, ouvimos: especulação imobiliária. E é verdade, mas não podemos evitar. Sou corretor de imóveis. Fico entre dois gumes. Mas graças a essa profissão que estou mantendo o meu emprego. Construção é sinônimo de emprego, meu caro. Respondí:

- Sim, mas você não acha que alguns edifícios deveriam ter menos andares? Veja essa construção à nossa frente. Não é um prédio, é um monstro! Encobriu até o Pico do Jaraguá ao fundo!

- Meu caro amigo, a tendência é essa. Os terrenos estão rareando e a saída é verticalização das moradias.

- Teremos, futuramente, que ceder as nossas casas para que construam mais edifícios em lugares como esse. Veja, há muralhas ao nosso redor.

- Sim, meu caro, você tem filhos?

- Tenho quatro.

- Então, eles vão crescer, vão comprar um dia, carros e apartamentos. Eles irão constituir famílias e quantas famílias têm dois filhos a quatro aqui nesse país ? Um monte! Junte-se todas as famílias só em São Paulo. São inúmeros apartamentos que serão vendidos. Os carros, nem se fale. Isso, com incentivo do governo reduzindo impostos temporariamente até que a crise passe. E consequentemente, o governo terá de alargar avenidas, contruir túneis, metrôs, trens, monotrilhos e se puder, no futuro, um "Expresso 2222", igual o do Gil, se movendo no espaço à base de força condutora magnética. Ah! O 2222 é exagero meu. E você não acha que devemos deixar a cidade com mais facilidade de locomoção para as futuras gerações?

E reforcei.

- Sim,  mas com obras estudadas, com aval dos moradores, senão São Paulo vai virar um queijo suiço. O espaço vai pro espaço que Deus não vai enxergar a gente. E quantas pessoas fazem dezoito anos hoje? Acho que quase duzentas mil nesse país. E a partir dos dezoito, cem mil resolverem trabalhar, serão cem mil desempregados até que se empreguem. E amanhã são outros tantos. E residirão em novos apartamentos que estão aí construindo. Prédios enormes em ruas estreitas. Mais esgotos, mais águas, mais energia, mais petróleo e mais buracos, sugando sangue negro da Terra, ferro, manganês, pré-sal.  Um dia, a Terra vai ficar oca e leve. Assisti a um filme em que a protagonista citou: "A Terra é um imenso jardim, nós somos a praga"!

- Meu caro amigo, não adianta filosofar, tentar socializar. É muito bonito, até admiro, mas o destino da Terra vai ser uma esfera errante no espaço como muitas foram. Para evitar essa situação, só mesmo anticoncepcional, ehehe.  

- Ehh! Também não funciona. O ser humano, assim como os animais, tem necessidade de procriar. As mulheres querem ser mães e os homens, querem deixar herdeiros com imagens à sua semelhança e personalidade, uma escultura perfeita.  

- Por isso que te digo agora, meu caro amigo, viva da melhor maneira possível. Há muitos especialistas do meio-ambiente. Nós temos representantes à altura.

 

 

Há cientistas, urbanistas e arquitetos procurando soluções.  Deixe pra eles. Eles sabem mais do que nós. Tem mais poderes. São corajosos e amam o que fazem. Eles tem a oratória. 

- Tem razão. Há pessoas competentes para isso, mas temos de participar pelo menos o mínimo que seja.  Você está vendo esse recorte? Mostrei o jornal.

- Estou, jornal velho, meu caro?

- É. De 1986. Encontrei em meus arquivos. Estava pensando em me desfazer de tudo, quando me interessei por essa reportagem. E o assunto: moradia. Era um estudo do governo da época sobre o problema das moradias para a população de baixa-renda. Na época, eu estava nessa estatística e agora não. Moro numa pequena casa térrea, sem aglomerações.

- Meu caro amigo, eu também tive sorte. Sempre trabalhei com vendas de casas. Sou um privilegiado. Nem me esforcei em procurar uma. Comprei da empresa em que trabalhava com prestações a perder de vista.

- Eu tive muitas dificuldades. Lembro-me que o projeto das casas populares sempre foram empecilhos orçamentários. Tive que provar a minha renda. O meu patrão me ofereceu uma declaração de renda acima do que eu realmente ganhava.

- Sei, meu caro! Foi devido à especulação fundiária e imobiliária e financiamentos a juros altos. Eles tinham que solicitar toda essa papelada para garantir pagamentos, exigência dos bancos.

- Sim. Mas muitos se arriscaram e hoje estão bem. Outros tiveram que devolver as casas e que foram para leilões. Um sonho desfeito. É triste. 

- Há muitos casos ainda nos dias de hoje, meu caro. É uma depressão total. Os sistemas bancários são cruéis. São negócios e eles não podem perder um tostão. 

- E o comprador pode! 

E para não me revoltar, mostrei o artigo de jornal.

-  Olhe que interessante: 1986. O recorte favorece o seguinte título: "Pesquisas buscam moradias baratas e de boa qualidade". As famílias com renda de até três salários mínimos enfrentavam sérias dificuldades para adquirirem casas próprias.

- Meu caro, renda de três salários mínimos não dá para fazer nada. Nem nos dias de hoje.

- É muito sacrifício! Tem que fazer "bico"! Veja, nessa reportagem de 23 de Junho de 1986, publicada na Folha de São Paulo, houve abordagem de várias alternativas tecnológicas para construção de casas populares.  

PRIMEIRA FOTO: "COM TIJOLOS BAIANOS PARA MUTIRÕES" - Criação do arquiteto Joan Villá da UNICAMP.

- Meu caro, é um belo projeto. Os tijolos baianos tem a preferência nacional. Seria necessário uma visita ao bairro do Grajáu para confirmar a sua eficácia.

- Temos que ir lá um dia. Veja esse agora:

SEGUNDA FOTO: "TERRA MISTURADA COM CIMENTO" - Construída em Pindamonhangaba e o projeto é da CIA. DO DESENVOLVIMENTO HABITACIONAL DO ESTADO DE SÃO PAULO.

- Meu caro, é um projeto perigoso. Pode haver rachaduras e risco de desabamento. Uma casa barata que pode sair cara. Só fazendo uma visitinha em Pindamonhagaba. Talvez já tenha sido reformada pelo próprio morador com tijolo baiano.

TERCEIRA FOTO: "TERRA E CARBURETO"  - Desenvolvida pela PREFEITURA DA USP

- É meu caro amigo, este projeto parece ter dado certo. Há milhares de moradias nas imediações da USP. Não há notícias de acidentes até hoje. Mas será que todas as casas foram construídas de terra e carbureto?

- Para mim, à primeira vista, de tijolo baiano e bloco de concreto. 

QUARTA FOTO: "NA FAVELA, CASA DE ALVENARIA" - Casas de alvenaria, construídas em mutirão na favela Jardim das Vertentes, projeto da SECRETARIA DA HABITAÇÃO E DESENVOLVIMENTO URBANO DA PREFEITURA DE SÃO PAULO.

- Eu creio que essas construções de alvenaria é que tiveram mais sucesso. Basta ir à periferia. Não é necessário ir ao Jardim das Vertentes para confirmar. Nas imediações da USP parecem ser desse tipo. As fotos em jornais, mostram as casas de alvenarias.

- É, meu caro, acho que é isso mesmo! 

QUINTA FOTO: "MADEIRA DE REFLORESTAMENTO" - Desenvolvida pelo IPT e construídas no Campos de Jordão.

- Olhe, essa construção de madeira de reflorestamento talvez não tenha suportado a ação do tempo. É necessário reformas constantes e manutenção rigorosa.

- Ô meu caro, uma casa de madeira é tão fácil de incendiar. Houve um assalto, não me lembro onde, numa casa dessas. Os bandidos atearam fogo com a vítima dentro. Era uma idosa.

- Lamentável!

SEXTA FOTO: "MADEIRA DE LEI E TELHADO DE ZINCO" - Projeto do IPT construídas em Manaus-AM

- Meu caro, se tiverem durado até hoje, talvez precisem de uma reforma geral. Seria necessário uma adaptação de sua estrutura para época atual devido às cheias.

- Essas casas são semelhantes às palafitas. Acho que poderiam subir aproximadamente dois metros contra invasão de águas na casa. Você viu até onde subiu a água esse ano?

- Vi, meu caro. É melhor se prevenir para o futuro. As águas estão subindo.

E dê uma lidinha rápida, que interessante: - o projeto "Loteria da Habitação", criação do governo Montoro para arrecadar 400 milhões de Cruzados com a estimativa de construir 25.000 casas para famílias com renda de até três salários mínimos. A pretensão do governo é transferir essa arrecadação para as prefeituras e para a CIA. DE DESENVOLVIMENTO HABITACIONAL. Só que não tive notícias até hoje sobre a Loteria da Habitação.

- Meu caro amigo, acho que não arrecadou nada e encerraram o projeto.

- É que cada governo, tenta fazer do seu jeito. Será que essas moradias ainda existem?

- Meu caro, existem sim, mas a medida que as rendas familiares aumentam, as casas se modificam. Um "puxadinho" pra lá, um pra cá. Devem estar irreconhecíveis.

- Estamos no mês de Agosto de 2009, vinte e três anos depois. Provavelmente, todos os moradores estarão com prestações quitadas e casas modificadas, até que se provem ao contrário.

- Final feliz, meu caro!

- Vem mais gente por aí!  É só o início! É gente que não acaba mais!

E assim despedi-me do amigo, cada um em direção à sua casa própria. Mas o problema de moradia persiste. 

Vejo a polícia repreendendo os invasores revoltados em confrontos violentos.  

 

As negociações deveriam ser mais extensas. Aos poucos, os moradores, com auxílio de uma ONG ou da Assistência Social poderiam deixar o local quando encontrassem abrigos provisórios. Era uma questão de bom-senso. 

  

As pessoas deveriam ter direito a um respaldo, ao menos, o governo ceder  barracas provisórias para os desabrigados ou um albergue de urgência até que eles encontrem um teto. 

 Ou, o governo construir moradias de aluguel a preços módicos com a ajuda de empresas multinacionais. Principalmente, bancos.

 

Na Marginal, próxima a CEAGESP, a desfavelização. Edifícios modernos no lugar dos barracos.

FIM

 Fonte: Jornal Folha de São Paulo e Diário de São Paulo.

 

 

ELES NÃO ESTÃO AQUI - 10

PEQUENOS CASOS BANCÁRIOS - FINAL

Akio Kimura - 02/01/2009

Depois de encerrado o final de ano numa fila de banco e iniciado o ano com o pé direito, estou aqui desejando Feliz Natal e Ano Novo antecipado. Desejei no ano passado, no ano retrasado e desejarei a mesma coisa nos próximos anos.

Tudo igual, sou um sobrevivente desses anos todos. E pensar que muitos morreram num dia de Natal. E foi o que aconteceu uma vez. Fui a um velório num dia de Natal. Defunto? Nunca o tinha visto ou não me lembrava quem era. Pensei no Pavão, Lui e Caquinho, China. Zelão tinha se ido no ano passado. Quem seria? Retornei aos anos 60.

Época efervecente.

Eram lugares que havia convivido e trabalhado.

De repente ouvi um nome: China.

 Aproximei-me do caixão e minuciosamente analisei o rosto. China sempre fora obeso desde a infância e estava magérrimo no caixão. Mas o nariz era parecido, era grande e um pequeno corte no lóbulo esquerdo da orelha e tinha uma cicatriz na testa, bem leve, fruto de um tombo na infância. Era ele, com certeza.

Recordo-me do seu primeiro emprego, numa redação de um jornal de bairro, ele havia me pedido ajuda. Era o seu primeiro trabalho de redação na qual ele tinha a função de escrever como se fosse um consultor sentimental chamado Doutor Jack Fedeaux. E solicitei uma falsa consultoria, digamos, exagerada e guardo até hoje o recorte de jornal:

Prezado doutor Fedeaux:

Sou casado há dois anos. Tenho 26 e ela 21 anos. Somos felizes e não possuimos qualquer tipo de problema. A nossa vida a dois é a mais saudável que se possa imaginar, porém nos últimos meses o ritmo de relações íntimas tem se acelerado exarcebadamente. Emagreci cinco quilos numa só semana. Expliquei a ela que seria viável reservarmos energia para o futuro e diminuir o ritmo de relações, pois sexo demais também mata. Mas ela insiste em continuar a e acelerar mais ainda, e eu, estou apavorado, pois tenho que manter o ritmo para preservar a minha honra de Homem com H maiúsculo, e ainda mais, porque ela me acha um anjo em potencial. Acontece, doutor Fedeaux, que sou um simples ser humano. O que devo fazer?

Um anjo em extermínio-SP

Doutor Fedeaux responde:

Meu prezado anjo em extermínio, considere-se um homem feliz.

Hoje em dia não se encontram mulheres como a sua. Elas se casam com o seu carro, com o seu apartamento e com a sua conta bancária. E quando elas querem amar realmente, as relações sexuais se restringem somente a três ou quatro vêzes por semana. É muito pouco! Se você quer mais amor, elas contrariam alegando cansaço, doença e até poluição.

 Não tenho nada a aconselhar, anjo em extermínio. Só resta um caminho, você passar de anjo em extermínio para anjo exterminador antes que se torne um anjo exterminado e corneado. Para entrar em forma,  basta deixar de fumar, beber e praticar exercícios físicos todos os dias, alimentar-se de proteìnas como carne, pão, ovos de codorna e principalmente grãos como castanhas do Pará e a sua majestade amendoim. Se mesmo assim não conseguir, talvez sejam problemas dentários ou amígdalas inflamadas, nesse caso, marque uma consulta e siga conselhos médicos. Se não for nenhum desses problemas, meu caro amigo, aguente!

Felicidades

Obs.: Não dê de maneira nenhuma, amendoim para ela!

Doutor Fedeaux é diplomado pela Universidade de Cornologia de Atol das Rocas.

Atualmente ocupa cadeira titular da FISUNSPUNS de São Paulo.

E assim, se tornou um estagiário.

Acredito que o China tenha emagrecido por recomendações médicas. E o meu Natal foi assim, no velório. No caso do Zelão, nem participamos do enterro.  Levamos ao pé da letra o que ele sempre dizia: "meus amigos, quando eu me for não precisam ir ao meu velório. Bastam ir ao "Nosso Bar de Sempre" onde costumamos jogar dominó, pedir cinco rabos de galo e deixem a minha cadeira vazia que estarei lá. Não deixem ninguém sentar". É o que fizemos nós quatro, eu, Caquinho, Lui e China. Avisamos ao dono que Zelão iria se atrasar. Não jogamos dominó nesse dia, cantamos as músicas prediletas que ele não deixava de cantar: "eu bebo sim, estou vivendo, tem gente que não bebe e está morrendo..." e "quando eu morrer, me enterrem na Lapinha.." como se ele tivesse prenunciado a sua iminente visita ao céu. E saímos naquele dia prometendo a nós mesmos que não iríamos ao nosso velório. O encontro seria naquele "Nosso Bar de Sempre". E eu tinha vindo ao velório do China. Depois do enterro, fui até o bar, por sorte estava aberto e num dia de Natal. O dono, seu Ambrósio, deve ser um ateu, pensei. Ou ele tinha abrido o bar por nossa causa?

 Pedí uma mesa e cinco cadeiras e cinco rabos de galo e deixei a cerveja para mais tarde. Provavelmente eles iriam aparecer, no mínimo, deveriam saber da morte do China. Notei que o dono do bar queria me dizer algo, mas por algum motivo, eu desviava atenção pedindo cerveja. Já de noite, cansado de esperar, peguei os cinco rabos de galo, fui até a entrada do bar e dei pro santo, um copo de cada vez e o restante, traguei. Ao ir embora, percebí que estava caminhando com pernas trançadas. O dono me levou até em casa e me disse o que ele queria dizer desde que entrei em seu bar: eles não estão vindo mais aqui. 

Mas nem tudo estava perdido. O meu verdadeiro Natal sempre foi a ceia de Natal, dia 24. E na antevéspera, havia conseguido comprar todos os presentes, fora os panetones, num total de 25 e recebí de volta, 26. Um a mais com a marca tradicional. Quem seria? Esquecí de alguém? Deixa prá lá!

Foi uma verdadeira gastança e comilança nessas festas de fim de ano. Ficar no vermelho, virou hábito e se ficar no azul, com dinheiro sobrando, é estranho nos dias de hoje e imperceptivelmente, sem querer, deixo no negativo mesmo, normal, já é vício. E pensar que muita gente está passando dificuldades com desemprego, inundações, terremotos, crimes e o pior de todos, que assolou o mundo inteiro, a misteriosa crise financeira mundial. Há indícios de que ninguém saberá o que ocorreu realmente, nem mesmo os mais "experts" da economia mundial que aplicavam fortunas das empresas numa tal de "pirâmide".

Com o fim das festas, volto a comer arroz com feijão, já estava com saudades e cansado de comer as sobras do peru, o resto do tender que virou um sanduíche improvisado num sábado, e o delicioso pernil que já era e que apodreceu nas águas do Rio Pinheiros que "tá um fedô" danado! O governo tem que dar um jeito. O pior de tudo é que nós estamos acostumados com o cheiro. É caminho da USP onde muitos estudantes estrangeiros transitam.

Se eles não sabem que o rio é fedorento, um vai desconfiar do outro que soltou uns "PUMmmss!" É o que aconteceu justamente comigo, quando acompanhei um amigo, o Jacozinho que levava três americanos que falavam "amerituguês".  Não seria "portunglês"? Bem, se eles são da terra do tio Sam. Os três sentados atrás e eu ao lado do motorista. O terceiro era um senhor distinto, estava quieto ao lado da janela como se tivesse exagerado numa feijoada. O seu rosto me era familiar, conhecia-o de algum lugar. Foi surpresa minha quando atravessamos a ponte do Rio Pinheiros, e um deles, com terrível sotaque "amerituguês", disse no pé do meu ouvido esquerdo:

- Foi você que peidou? E respondí: - It is riva! Riva! E eles não entenderam o meu porturicano! E o Jacozinho, com sorriso no canto da boca, disse: - desculpe, Paxá! A culpa foi minha! Fizemos um intercâmbio de cultura, ensinei isso que ele falou e mais alguns palavrões como fiadap_ta, caraio, cátiço e eles em troca, money, up to date, business..

- Tá bom, meu mui amigo! Você é um péssimo representante da nossa cultura! Sabia que eu poderia ter levado sapatadas iguais a do Bush?

- Eles gostam de dar sapatadas?

- Não, mas o pessoal do Oriente Médio gosta. Os americanos levam sapatadas e se esquivam com facilidade!

- Eles devem treinar muito!

E virei-me para trás, não entendí porque aquele senhor estava fazendo beicinhos e respondi: - mas eu não treino, Jacozinho. Vamos parar com a brincadeira. Acho que eles estão entendendo!

FELIZES FESTAS PARA TODOS OS ANOS SEGUINTES!

Bye! Bye!

Assinado: Paxá

Fotos antigas de São Paulo - Autor desconhecido - recebido via e-mail.

Fotos da dupla Russel Crowe e Brad Pitt - Revista Veja.

O CELULAR - 09

PEQUENOS CASOS BANCÁRIOS

Akio Kimura - 24/08/2007

Lembro-me, era um Domingo pela manhã, mais ou menos 8 horas.

Toco a campainha da casa do professor Thomawisky. Ele me atende com sorriso cordial. A sua barba, bigode, já grisalhos, a testa com duas profundas entradas indicavam o sinal de idade. Os óculos redondos me lembrava um pouco John Lennon, lembram-se? O ex-Beatles? Pois é, assim era o professor. Ele havia me informado pelo celular que eu retirasse a encomenda da tinta removível que estava em fase de testes. Até me elogiou pela minha preocupação com o meio ambiente. Exagero da parte dele. Só um pouco. Ele era do tipo que não admitia sacos plásticos, embalagens, bitucas de cigarros no chão. Vamos dizer, no bom sentido, um "mala" e conseguia ganhar de mim. Ele era o misterioso homem que à noite, andava com um espeto e um saco para recolher o lixo nas praças.  Eu cheguei a acompanhá-lo algumas vezes, triste sina. É preciso muito tempo e muita força de vontade, fora as palavras que ouvimos frequentemente: - deixa esse serviço pra prefeitura! A gente já paga impostos! Poderíamos sim, deixar como está, mas a questão é individual. Confesso também que não suporto ver lixo espalhado no chão, às vezes passo direto, é verdade, mas sei que os garis irão varrer, mas a preocupação é com a possibilidade de chuva e a certeza do entupimento dos bueiros.

Há um pessoal que não consegue entender, como não consegue aquele que anda importando lixo tóxico e doméstico da Inglaterra. Como esses exportadores fazem? São brasileiros de fora? Como os importadores brasileiros conseguem liberar? Qual a seria a denominação da  mercadoria, da nomenclatura? Plásticos recicláveis de Polietileno? Que seja, mas que venha o Polietileno e não 49 contêineres de lixo. Ou teria sido um golpe que os empresários daqui levaram? Tá certo, há lixos culturais, até aí, tudo bem. É para nossa diversão, eu aprecio muito, mas lixo de verdade, é surrealismo demais! E isso porque, o Brasil tem fama de ser um país extremamente burocrático e fiscalização rigorosíssima. Qualquer vírgula , erro no código, atraso no pagamento do GARE ou coisa parecida, estende-se a um pagamento de multa irreal e exorbitante, impossível de quitar, é uma punição como se fosse uma cadeira elétrica para pessoa jurídica, mas para esse lixo que recebemos, os responsáveis deveriam se eletrocutar de vergonha. Também não pretendo generalizar e nem julgar, mas um pouco de bom senso não faria mal a ninguém. Dinheiro jogado fora, lixo de ida e volta. Missão para a PF. Surpresas poderão vir à tona, coisas do outro mundo. É aguardar.

O laboratório do professor é um perfeito cenário de filmes de Frankestein, muitos tubos de ensaio, robôs para testes, sacos de pó químico cuidadosamente empilhados numa prateleira, dois microscópios, botijões de oxigênio, vários "Laptops", gavetas de aluminio com amostras de minerais e vegetais e balanças. Tinha até um forno em forma de disco voador. Agora entendo porque ele é pobre até hoje. Gasta a sua aposentadoria em apetrechos científicos e experiências.

Ele me leva mais para os fundos e me mostra setor de testes: - Paxá, essa é a parede que você pichou.  

- Sim, está limpo, o nome não está aí. O senhor repintou? Ou removeu?

Ele sorriu e com ar de vitória me respondeu: - encontrei um elemento químico, que não posso revelar por enquanto, não me leve a mal.

- Professor, o senhor é o dono!

- Obrigado por me entender. Olhe, preparei um composto químico naquelas latas de tinta comum que você encomendou e pintei essa parede antes de você pichar. As tintas dos "sprays" comuns não conseguiram penetrar. E com um simples pano molhado, removi as letras. É a sua encomenda.

- Muito bom, professor! É aquele valor ainda?

- Sim, o combinado, R$ 800,00. Acredito que tenha esse tipo de produto no mercado e por isso fiz outro diferente, com Neutrozilomioplan, especialmente para pichadores, esse que você vai testar pra mim. A tinta desse "spray" ecológico tem duração de duas semanas na parede e depois a tinta envelhece fazendo com que as letras rachem e caiam. Assim, os pichadores poderão manifestar as suas existências sem que sejam perseguidos. Eles também são filhos de Deus, né? O que você acha?

- Gostei! Ótimo! Mas não sei se eles irão adotar esse "spray" porque eles adoram o proibido, a adrenalina, a fuga, o suor frio. Mas seria bom vender em escala industrial, acho que tem mercado.

- Tudo bem. Eles que escolham o que lhes convierem. Mas queria iniciar com você, Paxá. Vamos trabalhar em parceria. Você tem duas empresas registradas, uma de serviços e outra de produção e vendas.

- Professor, se eu entendí bem, o senhor me quer como sócio.

- Exato. Vamos começar aos poucos, principalmente esse "spray" mágico. Topas, Paxá?

- É claro! Obrigado pela consideração. Vou consultar o meu contador para os procedimentos.

Fiquei assombrado. Esse homem era um gênio e não sabia. Ele tinha que patentear essa descoberta ou já haveria algo similar em algum canto do mundo? Imaginou lançar esse "spray" em escala mundial? Eu queria mesmo ser sócio dele: - professor, posso testar esse "spray" por duas semanas na minha casa? 

E assim, levei a encomenda da tinta removível e pintei as paredes da mansão de um político que reclamava das pichações, tipo: "Fora! Seu ladrão", "A sua propriedade é produto de um roubo!". Quando fui chamado fiquei em dúvida se aceitaria o trabalho. O contratante era um corrupto sem dúvida alguma. Ele tinha tanta força política que havia conseguido um cargo no governo federal mesmo sendo da oposição. Aceitei o serviço porque a mão de obra estava em época de entressafra. Que coisa mais absurda, diriam alguns. Mas o fato é que existe, principalmente no meu ramo polivalente, e por outro lado, aceitei por achar que as pichações agrediam o meio-ambiente, principalmente pelo gás que o "spray" emitia. Na verdade, sentia-me um traidor, um corrupto por ganhar dinheiro em cima de um político corrupto. Mas como sou desvinculado de qualquer compromisso com partidos políticos e religiosos, encarei como um serviço qualquer. Não podia desperdiçar o meu ganha pão.

 A caminho do banco, encontrei-me com Zelão. Ele pediu-me para efetuar um pagamento de R$ 255,00 em dinheiro vivo no banco diferente do meu e guardei no bolso da camisa. Ficamos de marcar um encontro com a turma no bar de sempre.

Quando entrei na agência, já havia um pequeno entrevero entre um caixa e um cliente por causa de um saco de plástico repleto de moedas. O cliente se achava no direito de reclamar sobre a ausência da máquina contadora de moedas. Por outro lado, pelo banco não possuir a maquininha, o caixa achava que o cliente deveria ter trazido as moedas contadas e separadas. Azar do caixa! As moedas de todos os valores estavam misturadas. E assim foram discutindo a caminho da mesa do gerente. Mas o que mais me chamou atenção, não foram esses dois, mas sim, uma pessoa atrás de mim alheio à tudo e que falava no celular. Dei uma viradinha e vi um jovem de físico avantajado, tatuagem de caveira no braço, um boné escuro com pinturas imitando o fogo do inferno. Não queria ouví-lo, era falta de decoro, mas não pude evitar. Dei-lhe o nome fictício de Hércules e no outro lado do celular, o apelido mencionado por ele era Amigão.

- Amigão, estou tentando falar baixo porque o papo é  muito privativo  e (Eu: - até parece! Ele quer que todos ouçam!) a moça que está atrás de mim é uma tremenda duma "jururu" e o cara da frente (Eu: - ele está falando de mim.) é um Jeca Tatu, ele tá preocupado com um boleto de R$ 35,00!(Eu: - pô! Ele conseguiu ler o meu boleto! Abelhudo!) O cara deve ser muquirana pacas! (Eu: - vai tomar naquele lugar, Hércules!)

Ele sorri falando.

- Amigão, sabe o Polaco? Ele trouxe fantasias do Paraguai. Soube que você está interessado. Dependendo da quantidade, faço mais barato que na Rua 25. O Carnaval tá chegando. O quê? Só uma fantasia? Pra sua sobrinha? Da Mulher Maravilha? Mas esse tamanho que você citou é para adulto e você disse que ela tem 12 anos. O quê? Para você? Ah! Entendi! Tá! Vocês vão desfilar num bloco do Rio. Já ouvi falar. Não se preocupe, eu te entendo. Hoje, ser gay é "top".

De repente ele muda de tom. Imagino que o Amigão deve ter dito algo terrível.

- O quê? Você não é? Tá! Não! Você ouviu falar que também sou? Não! Foi um mal entendido. Foi na época em que mudei de residência. Na minha casa antiga tinha aqueles vidros espelhados, conhece? Tenho costume de andar nu dentro de casa. Quem está fora, não vê a pessoa dentro e quem está dentro, vê tudo do lado de fora. E nessa nova moradia, não tem vidro espelhado e só me lembrei quando tinha polícia na minha porta. E tinha uma platéia! Fui vaiado e levei até um tapa na orelha. (Eu: - Ah! Você é sem-vergonha, isso sim!) Fui preso por três dias e não prendem os colarinhos brancos! Que moralidade é essa? (Eu: - calma Hércules! Atentado ao pudor também é crime.)

E de repente, Hércules parou de falar e baixou o tom de voz: - Acho que o Jeca estava escutando! (Eu: - Pô! Até parece que você leu meus pensamentos!)

Disfarcei e me agachei para amarrar o meu cadarço que não estava desamarrado, enquanto o caixa voltava da gerência acabrunhado e o cliente das moedas com sorriso de vitória, carregando a sua sacola. Com certeza, o gerente havia obrigado o caixa a contar, quando, subitamente, o saco estourou espalhando moedas para todos os cantos. Vi o sorriso do caixa no canto da boca. Ninguém se atreveu a ajudá-lo porque se tratava de dinheiro.

- Amigão, vou desligar. Acho que esse panaca do Jeca está rindo! (Eu: - Panaca? Vai te catar, Hércules! Vai procurar a sua turma!) Ôpa! Ele saiu da fila!

Na verdade, tinha saído do lugar para catar as três moedas para o homem, quando ele me disse num tom severo: - o senhor fique sabendo que não preciso de ajuda! Fiquei surpreso com a bronca e voltei para o meu lugar sem falar nada. Notei que Hércules me observava e ria: - Amigão, o Jeca pagou maior mico! O cara é "trouxa" mesmo! O cara foi ajudar a catar moedas! (Eu: - Larga do meu pé, Hércules! Vai tirar sarro com a sua tia!).

 Hércules havia esquecido da sua privacidade no celular. Notava-se que todos os presentes conseguiam ouvir. Paguei o meu boleto, retirei R$ 800,00 referente ao pagamento das tintas removíveis do professor, guardei na pasta e fui para outro banco para pagar o boleto do Zelão. Incomodava muito carregar tanta quantia em dinheiro.

Hércules nem deveria se preocupar comigo. Se ele era "gay" ou não, para mim não interessava, pois hoje em dia, o direito de ser estava garantido para todos os cidadãos.

A poucos metros da minha chegada na outra agência bancária, vejo três motoqueiros pararem alternadamente na minha frente, e ví um deles dobrando a chapa. O outro ficou mais adiante e o mais forte, fez a meia-volta vindo em minha direção. Logo pensei: - é assalto! E atravessei a rua para evitar o encontro, mas o outro já estava me esperando com a arma apontada na minha cabeça: - o dinheiro! Você tem R$ 800,00 nessa pastinha! Mantive calmo e pedí para que me revistassem.  O outro, o mais forte, pronunciou: - Vamos, Jeca! Seu panaca! Passa logo essa grana! E o outro, que apontava a arma para a minha cabeça disse num tom feroz: - para de olhar pra minha cara!

E sem alternativas, entreguei a pasta calmamente. O grandão enfiou a pasta na mochila e disse para os comparsas: - Amigão, Polaco, rápido! Vamos! E sairam numa disparada impressionante. Numa questão de menos de um minuto, havia perdido os R$ 800,00 do professor que tanto necessitava para cobrir as despesas. De repente, outro motoqueiro para na minha frente: - você precisa de ajuda? Eu vi o assalto mas não pude fazer nada. Os três estavam armados. Quer que leve até a polícia? Pedí carona até o banco do Zelão e no caminho, o motoqueiro, muito curioso, perguntou-me quanto haviam levado. Desconfiei. Ele havia me dito que os três estavam armados, mas no entanto, só um tinha apontado o revólver. E para que ele quer saber da quantia roubada? Então, arrisquei e menti: - Me levaram R$ 3.000,00 e agradecí a carona, paguei o boleto do Zelão e fui fazer B.O. Peguei o ônibus e no caminho, bem mais adiante, um tumulto, parecia que o local tinha sido uma praça de guerra, com dois carros batidos. Tinha também, uma viatura de polícia e um caminhão de resgate. Dois motoqueiros estavam caídos e baleados. Vi a minha pasta revirada e papeladas espalhadas por todos os cantos. Reconheci a moto com chapa virada do Amigão e o outro era o grandão, o do celular, o Hércules, inerte. O Polaco parece que tinha escapado. O motoqueiro que me havia dado carona, decerto, era o chefão. Os R$ 3.000,00 fictícios tinham causado esse enorme estrago.

 

Eis o meu lado ruim que preciso eliminar em momentos como esse, ausência de remorso.

Desculpem-me Hércules e Amigão.

E às outras pessoas que não tinham nada a ver.

E assim, descí do ônibus para recuperar os meus papéis e fazer B.O. junto à viatura policial.

FIM

O meu agradecimento à Nicolle pela idéia do "spray" especial para os pichadores.

Desenho do caminhão de resgate - X-MEN EXTRA - 70 ANOS - MARVEL COMICS

OBS.: O Paxá é um personagem fictício. Não é recomendável, num caso de roubo, citar a cifra para terceiros.

 

APARÊNCIAS - 08

Akio Kimura - 25/05/2007

PEQUENOS CASOS BANCÁRIOS

A APARÊNCIA NÃO É UM DOCUMENTO

É Sexta-Feira.

E a garoa fina paulistana, rara nos dias de hoje, dava um tom poético às ruas e avenidas. Era uma sensação de paz, de nostalgia, vamos dizer, um dia perfeito para um fotógrafo captar imagens com pessoas caminhando debaixo de guarda-chuvas ou algum compositor inspirado em criar uma música sobre uma garota de cabelos molhados. Beleza. O dia parecia um poema e eu, em direção ao banco para depositar um cheque. Aí, o meu materialismo acabou com o poema, tinha pagamentos a fazer. E também um encontro com a turma do passado para uma cerveja: Caquinho, Zelão, Luisão e China. E assim vinha pensando após ter entregado um anel de bijuteria para uma advogada nos Jardins. Para quem não sabe, os Jardins são bairros de área nobre de São Paulo ao redor da Avenida Paulista. Muitos alguéns perguntariam: - Paxá! Entrega de um anel de bijuteria nos Jardins?

Explico. Esse anel tem uma pedra de ônix preta arredondada e no seu centro, um orifício, que girando, aciona o aerosol emando um perfume agradável, aromático, de cheiro infinito e suave. Não se enganou quem pensou que fosse um desodorante bucal. Sim, já fiz uma encomenda de emergência para um ator. Poderia ser também um desodorante para as axilas? Sim, já fiz para alguns motoristas de taxi. E para os pés? Sim, para os maratonistas e para mim também para aliviar o meu chulé e refrescar um dente cariado. E esse perfume possui ingrediente que faz mudar o cheiro de acordo com a pele e o suor de cada pessoa. Genial. Mas esse anel era especial e para outro fim. E estão pensando que sou o criador desse perfume? Não, não sou, e nem estou imitando aquele livro "O perfume".  O criador é um amigo, ex-engenheiro químico, o Doutor Thomawisky, vivendo de aposentadoria defasada, pesquisador nato, estudioso, anônimo e pobre. Convencí-o a colaborar comigo sem compromissos. O perfume, quando aspirado, deixa a pessoa sonolenta por três minutos. E era um perigo em mãos impróprias, por isso, ele incluiu uma propriedade química chamada Zeropassion II para neutralizar o sono quando for de uso comum. Quando tenho esse tipo de encomenda, recorro-me a ele e dividimos o lucro, mas se por ventura, eu for pego pelas autoridades, a responsabilidade será minha, de papel assinado. E até fiz o teste com este perfume de difícil identificação odorífera. Senti-me descansado, leve e até larguei o cigarro.  O doutor me disse que depois do teste, era a primeira vez que me via simpático. Devo ser um mala daqueles, pensei. Ele está pesquisando constantemente esse perfume para aperfeiçoar em benefício da medicina, queria encontrar o ponto certo, um efeito moderador e relaxante para que o cérebro conseguisse inibir as ações de violência, queria bloquear os efeitos da dor e que não viciasse e nem deixasse sequelas. No caso da advogada, o anel era para defesa pessoal de sua filha, uma adolescente mimada, principalmente pelo pai, que, tragicamente perdera a vida num arrastão no condomínio em que eles residiam. Ele fora executado à queima roupa com um tiro no coração por ter reagido e era um membro de uma ONG que dedicava-se à defesa dos Direitos Humanos. Por esse fato, a advogada afastara-se dessas instituições, decepcionada com o ser humano. Solicitei então, uma declaração escrita por parte dela na questão da não divulgação do anel. Era exclusivo, um ato secreto.

A garota, muito antipática se dera bem nos treinamentos. Ela sabia exatamente o que fazer na hora de uso do anel: prender a respiração e acionar rapidamente na cara do agressor e depois, ligar para 190. Fizera também o teste de aspiração do perfume, que depois de adormecida, havia voltado a si com surpreendente bom humor, tornando-se simpática de uma hora para outra.

 Esse meu amigo químico estava fazendo milagres e não sabia. Não seria ele, o novo Cristo? Poderia aplicar em bandidos, presidiários, quem sabe, eles voltariam a ser cidadãos, todos eles? Seria correto e ético? Pensando bem, poderia acarretar um grave problema social e econômico: milhares de policiais e investigadores ficariam desempregados, assim como a falências de muitas fábricas de armas, fechaduras, cadeados, empresas de vigilância eletrônica e muitas lojas do ramo. E para os certos políticos? As consequências seriam o desemprego de parentes, amigos e muitos diretores, não teriam atos secretos para beneficiar a quem bem entendessem, mas em contrapartida, não se perderia tempo julgando os corruptos que duram meses e anos gastando verbas consideráveis. Eles se ocupariam com reais problemas do povo e do país. Profundo isso, não é?

Ao chegar ao destino, notei algo estranho no ar. Dava-se a impressão de que os íons negativos estavam impregnados nas pessoas. Logo na entrada do banco, deparei-me com um rapaz aloprado cantando "Trem das onze" de Adoniran Barbosa com desafino total. Na porta giratória, uma senhora obesa ameaçava tirar roupa por causa do travamento da porta e lá dentro, um jovem vomitava na poltrona do atendimento com um vigia apontando-lhe a arma para expulsá-lo em vez de ajudá-lo: - mãos ao alto! Pensei: - o que está acontecendo hoje?

Nessa agência, as filas eram paralelas, uma normal e outra preferencial, esta última, reservada para idosos, deficientes físicos, gestantes e crianças de colo.

As pessoas estavam espalhadas por todos os lados de tal maneira que não se conseguia distinguir qual fila entrar. E caminhei juntamente com uma mulher de óculos de sol, aparentando 67 anos dirigindo-se para a preferencial, baseando-se na aparência, atrás de uma senhora que parecia ter 57, portando uma bolsa vermelha. E eu, como conhecia o esquema, fui para a fila normal, à esquerda, atrás de um senhor magro, de bigode, que parecia ter 66. Ele me fitou de cima para baixo e disse: - o senhor entrou na fila errada. Surpreendi-me e respondí: - Não tenho 60 ainda. Não seria o senhor que deveria estar lá na preferencial? O senhor tem 66, não tem?

Ele aproximou-se de mim e sussurrou em meus ouvidos: - 66 o cacete! Você não me conhece! Seu cavalo!

Instintivamente, respondí balabuciando:

Eu: - Cavalo é o senhor!

Ele: - Você! Seu velho cara de bunda!

Eu: - Reflexo da sua!

Ele: - Da sua!

Ao perceber que o caso estava degringolando, parei e me contive. Não queria que esse ambiente se parecesse com o Parlamento Coreano, um quebra-pau sanguinário para todos os lados, até mulheres se enfrentando. Imaginou? E a minha atitude, confesso, era infantil. Até parecia aquele ministro japonês que, para espantar a gripe, havia tomado um comprimido com acompanhamento de dois litros de saquê e consequentemente, um vexame internacional na Convenção de Doha. Já com nervos refeitos, o 66 virou-se para mim com sorriso de deboche e disse educadamente: - Pois é meu amigo, tenho 54; ele expôs o seu RG, quase que esfregando gentilmente na minha cara e imaginei o que ele queria dizer: (olha o RG, seu cretino!) Remoendo-me de raiva e com sorriso amarelo até as orelhas, vi o documento. De fato, ele tinha 54.

- Parabéns! E achei que eu não deveria mudar de fila, se ele tinha 54 e eu, um pouquinho a mais, era a minha fila também e fatalmente, teria de concordar comigo e selar as pazes. 

Ele: - Você tem cara de 68. Tenho certeza! Me mostra o seu RG!

De repente, vejo um motoboy que vinha diariamente ao banco na outra fila. Interrompi a conversa e instintivamente, dirigi-me até lá, atrás da 67, a de óculos vermelhos, se lembram? Ela se virou surpresa com a minha vinda e me perguntou: - Por que o senhor veio para cá? A fila dos idosos é na outra fila! Atrás daquele senhor de 66 e logo respondí: - ele tem 54; e então resolvi analisar a fila. Por que o motoboy está na fila dos idosos? E aí entendí: o motoboy havia seguido um senhor de cabelos grisalhos que tinha aspecto jovial, uns 55 anos e estava entre duas filas dificultando a identificação. Fui até a ele e perguntei a idade: - qual é a idade do senhor?; e ele me respondeu: 68, por quê?

Eu: - Parece que o senhor tem 55. Então o senhor está na fila dos idosos?

O 68: - Sim. Na fila dos velhos. Pareço tão jovem assim? Obrigado.

Ele olhou para trás e percebeu a confusão e saiu do meio e se definiu para a fila preferencial. A senhora de bolsa vermelha, a 57 se manifestou: - Pessoal, tenho 62 anos, ex-delegada de polícia, advogada e aposentada. Venho esclarecer que, devido as confusões generalizadas nestas duas filas, informo-lhes que a idade para fila de idosos é de 65 anos para homens e 60 para mulheres. É só isso! Obrigada!

Os que tinham menos de 60, o motoboy e eu fomos para a normal. Estranhei o fato da senhora de óculos de sol, a 67, ter mudado, pois ela deveria ter permanecido lá e perguntei: -  a senhora não precisa vir. É só para quem tem menos de 60 e imediatamente, num tom de fúria me respondeu: - tenho 56! E pensei que a ex-delegada tivesse 57! Por isso que fiquei lá!

Pedi desculpas. Fiquei transtornado. Como pude julgar a idade sem antes perguntar?  Era um mico que nunca iria esquecer, e assim, para me resignar, dei a minha frente para os dois, mas educadamente, o motoboy respondeu: - deixa pra lá! Não esquenta a cabeça! Fica na minha frente. A 67, agora 56 concordou.

E assim fiquei novamente atrás do 54, e ele: - o seu lugar é na outra fila.

Eu: - Não, obrigado. Vou ficar por aqui mesmo.

O 54: - Me mostra o documento que eu quero ver!

Com jeitão de vitória, enfiei a mão no bolso à procura do RG. É verdade, tinha trocado de blusão e o documento tinha ficado em casa.

Eu: - Não estou com ele aqui.

O 54: - Sabia que o senhor iria encontrar uma desculpa! O senhor fugiu da conversa aquela hora que pedi RG.

E deixei pra lá. Esse senhor era um mala e mala com mala que sou eu, dois malas. Preocupação: zero!

O importante para mim, era o depósito do cheque e nada mais. Estava a salvo pelo menos neste mês. Lá fora, passei a ver a poesia do dia. A garoa continuava. Peguei o meu celular e fotografei as pessoas com guarda-chuvas e como não sabia compor uma música, cliquei uma garota qualquer com cabelos molhados pensando na cervejada de hoje à noite.

FIM

Minhas desculpas à Michelle por ter roubado o seu desenho de rascunho (da garota).

ENCONTROS CASUAIS - 07

PEQUENOS CASOS BANCÁRIOS

Akio Kimura - 9/07/2009 - Somente para maiores de 18 anos.

Após ter saído do apartamento de um cliente, fiquei a pensar se havia preenchido corretamente a minha Nota Fiscal de Serviços de Qualquer Natureza: Serviços prestados de mão de obra e o valor em reais. Não discriminei o trabalho feito. Simplesmente, poderia ter ignorado a Nota e ficar livre do pagamento do ISS, mas por exigência do cliente, a emiti porque haveria um reembolso devido ao seu novo cargo. Não pensem que é um ato secreto. O trabalho era remover a tatuagem de um dragão das costas do homem, muito bonito por sinal(o dragão), que começava no pescoço, seguia pelas costas do lado direito, fazia curva para os dois lados, passava por cima da bunda e se estendia até as panturrilhas. Era um trabalho difícil, mas o mais difícil era ver um homem pelado, deitado de bruços, soltando peidos silenciosos na minha cara durante uma semana. Se por ventura tiver outro trabalho semelhante, solicitarei doze horas de jejum. Mas o uso da máscara e luvas amainaram esse incômodo. Enfim, para a minha felicidade, ele não tinha tatuagem "ali na frente". O homem tinha sido promovido a diretor de um departamento do Senado e por precaução, queria apagar os traços da sua juventude rebelde, isto quer dizer, de um "bad-boy" para um importante cargo. Uma guinada de um milhão de graus. E pensei: esse cara vai ser o dono do país qualquer dia.

Não tinha segredo nenhum em remover a tatuagem. O procedimento era normal, com equipamento completo de raio laser, com exceção da pomada que Tobyen, o meu amigo dermatologista inventara, mas não patenteada e que o segredo iria para os seus filhos. Na verdade, havia testado a pomada em meu cachorro vira-lata. Cortei os seus pelos na região lombar, anestesiei, tatuei um pequeno desenho. Um dia depois, apliquei o laser e em seguida, passei a pomada durante uma semana.

 

E fiz assim também com um gato barulhento da vizinhança que à noite provocava o meu cão passeando em frente ao portão. Ah! Se a Sociedade dos Protetores de Animais me pega! O resultado foi excelente! Os animais nem reclamaram. Vejam as fotos.

 Cá estou eu, como sempre, na fila de banco, num dia 13 de sexta, sossegado, quando, de súbito, encontro o Luís, o Luisão, mas o chamo de Lui desde quando era um beque de fazenda, bom nas bolas altas, mas com os pés, todos gritavam: chuta pra frente, Luisão! Rápido! Dá para se entender o que significa "chuta pra frente". Ele é separado e tem um filho que joga num time em Ubequistão, lá pelos lados da Rússia. Assim como eu, Lui estávamos próximo da aposentadoria. 

Noto também, atrás de mim, uma moça linda, cara de dançarina do Faustão, simpática e corpo escultural. Quem me dera, se fosse há um tempo, seria a mulher dos meus sonhos. Lui chega de mansinho e logo de cara, sem me cumprimentar, pede-me para pagar um boleto de um hiper-mercado, verifiquei e estava tudo correto e ele, folgado, foi se sentar nos assentos do atendimento. De repente, por trás, a mulher dos meus sonhos me cutuca e com a sua voz sensual e macia de arrasar qualquer coração de marmanjo, me diz: sou Jeanie , muito prazer!

Atordoado com a surpresa, joguei um sorriso fatídico e um olhar fulminante(totalmente infantil): - prazer é todo meu! O meu nome é Paxá, e aí me lembrei vagamente do nome de um ator de cinema, Paxá Del Caprino! 

- Nome bonito! Parece nome de corno! Quando tiver um filho, posso adotar esse nome?

Assustei-me com as suas palavras proferidas delicadamente e depois num tom irônico e discriminatório, mas me contive e respondí: - fico orgulhoso de ser o pai, se você me permite, Jean. 

- Ah! Sim, é claro! Tudo pode acontecer, mas só depois que senhor me esclarecer o seguinte; notei que o senhor pegou um boleto do seu amigo. O senhor tem mais de 65? É na outra fila.

- Não, ainda falta muito, mas muito mesmo. A minha aposentadoria está bem longe!

- Então o senhor tem que tomar vergonha na cara. Esse boleto que está na sua mão está furando a fila! É a mesma coisa que entrar uma pessoa na minha frente sem me dar satisfação nenhuma, no caso do seu amigo ali, sentado, numa boa!

 Fiquei surpreso com a reclamação da moça. Todos no banco se utilizam desse recurso. Eu mesmo, nem me atentava quando alguém na minha frente pegava os boletos. Era normal ou estávamos mal acostumados?

Demorei a responder porque a mulher dos meus sonhos dizendo algo que nunca gostaria de ouvir e expliquei: - Jean, é normal e todos são tolerantes porque é apenas um simples boleto!

Ela olhou para o teto mostrando toda a parte branca dos olhos(como ela consegue?) que pensei até que fosse desmaiar.

- Um pagamento é para mim, uma pessoa. O dono desse boleto é uma pessoa. Eu sou uma pessoa: conclusão: o seu amigo furou a fila! Ele está abstratamente aqui na minha frente! E tenho esse direito de reclamar, correto?

 - Abstratamente? Ah, sim! Correto!; respondí engolindo em seco; mas são cinco segundos só! É uma mixaria de pagamento! Ele é pobre!

- Pobre ou rico, ele é gente! O senhor então, fique atrás de mim, na minha frente, jamais. Só se devolver esse boleto pro dito cujo! Se quiser, eu pergunto para o pessoal e tenho certeza que vai concordar comigo!

Pensei no bom senso. Ela tinha razão e dei a permissão.

- Passe na minha frente. Você tem razão.

A mulher dos meus ex-sonhos sorriu ironicamente.

- Muito obrigada! O senhor é muito gentil. Parabéns!

Passei para trás e surpreendentemente, uma senhora de uns 40 e muitos anos, solta a voz num tom educadíssimo: - Oi, por gentileza, o senhor poderia ficar atrás de mim? Eu ouvi a conversa e concordo com a moça.

Soltei um sorriso amarelo, arreganhando os dentes e dei o meu lugar a ela e logo a seguir, um motoboy de fala grossa funga em meus ouvidos: - ô véio, não me leve a mal, na minha frente você não fica.

E foi acontecendo com um japa, um mecânico e assim sucessivamente até chegar ao fim da fila. Alguém me cutuca e eu, já ia cedendo o lugar. Era o Lui reclamando: - Pô, você é burro! Porque você não me devolveu o boleto? Quando chegasse a sua vez no caixa, eu me aproximaria e entregaria o meu boleto para você. Fácil!

- Fácil? Nem pensei nisso, Lui! A propósito, por quê você não veio pegar o boleto? Você estava sentado naquele sofazinho gostoso e só agora me aparece? Ficou assistindo o massacre?

Enquanto discutíamos, uma moça de sainha curtíssima, decote generoso pergunta: - vocês estão na fila?

Quando ia responder, Lui me toma à frente e responde afavelmente para a garota: - por favor, a fila é toda sua. Lui me pede o boleto e quando ia entregar o meu, disse num tom de responsabilidade: - Paxá, não se lembra da treta que deu agora? Não posso pegar o seu boleto, o pessoal vai reclamar!

- Lui, sou o último da fila!

E fui para o sofá e instantes depois, vi Lui se espernear no chão, se contraindo violentamente, com pernas se entrelaçando. Imediatamente fui em seu socorro, levei até um canto e perguntei sem obter a resposta: - até parece que você levou um chute no saco!

- Paxá, me leva daqui! Lá fora! Quero ar puro!

Levei e sentamos num degrau: - ô Lui, não é a primeira vez que isso acontece. Você precisa consultar um médico. Quando éramos jovens, você sentia a mesma coisa. Se lembra no vestiário? A gente estava tomando uma ducha e você era o único que tinha se lavado e de repente, tinha essa convulsão.

Um silêncio e depois, Lui soltou-se com uma energia incomum: - que médico que nada! Você salvou a minha vida. Eu poderia ser linchado!

Achei a resposta muito estranha: - por quê? Ninguém lincha por alguém furar a fila. Só eu tenho essa vontade, Lui! Só eu!

- Paxá, tive essa convulsão por causa daquela mocinha de sainha.

Fiquei pasmo sem entender: - mas como? Ela chutou o seu saco?

Lui ficou em devaneio por alguns segundos e respondeu quase sem jeito: - tenho uma doença desde os meus dez anos de idade.

- Que doença? Contingência urinária? Eu também tenho! É normal, coisa de velho, Lui!

Lui abaixou a cabeça e sem olhar para a minha cara, disse-me em meus ouvidos: - tenho ejaculação precoce. Não pude evitar!

Assustei-me com a surpresa: - ô cara! É crime, sabia? É assédio sexual, atentado ao pudor! Isso dá cana, Lui! Você não tem noção! Vai até o Hospital Brigadeiro! Lá na avenida Brigadeiro Luis Antonio 2651! É de graça! Olha, tenho o telefone! Pega essa anotação: (11)3289-2421 e fax: (1103284-8650. Você precisa de tratamento urgente!

Eu mesmo teria que ter ido a esse endereço há muito tempo para um exame de próstata, mas adiado até hoje.  Era necessário, pois já tinha perdido dois amigos de infância, e eu diria que eles morreram por um dedo. Ele enfiou o recado no bolso: - obrigado, Paxá! Agora, você sabe porque a minha mulher foi embora de casa.

Enquanto ele falava, de repente me veio a lembrança do passado, principalmente no vestiário. Lui era sempre o primeiro a tomar banho e depois ficava assistindo os retardatários se banharem. E de repente, aquela convulsão que pensávamos que era enfarte do miocárdio: - Lui, venha cá! Por quê você ficava assistindo a gente tomar banho? E você tinha esse tremelique!

- Peraí, Paxá! Não é nada que você está pensando!

- Seu safado! Você nos violentou e abusou da gente (lembrei-me da palavra da Jean) abstratamente!

- Paxá, não foi nada disso! Deixa explicar!

Fiquei raivoso e disse num tom de repreensão:  - você não vai explicar nada! Vou caguetar pro pessoal!

Lui, sentindo-se ameaçado, sem se despedir, saiu em disparada e gritei: - peraí! Volta aqui, seu fiadap_ta!

Confesso que tinha errado em falar grosseiramente. Na verdade, queria somente ajudá-lo. Espero que ele se trate.

Na volta, por distração, peguei um ônibus e a linha errada e tive que descer no bairro da Previdência, um lugar alto, ainda com resquícios da mata atlântica, à beira da Raposo Tavares. Do lado esquerdo, abaixo, a Vila Sõnia. Fui para a direita, desci até chegar à praça Elis Regina e casualmente, encontrei o seu Correia, um velho morador do bairro há 40 anos.

Conversamos sobre a praça, desde a época da olaria e campos de futebol até chegarmos no ano 2000. Recordamos específicamente da nova reforma da praça. Em meados de 2001, um grupo de estudantes japoneses havia visitado a EMEI - Emir Macedo Nogueira, ao lado da praça, em intercâmbio cultural e educacional. Naquele sábado, havia também um grupo de alunos de pesquisa da FAUUSP consultando os moradores para a reforma da praça. Pasmem! Consultando a população, coisa rara hoje em dia! Muito bacana! Os futuros arquitetos, aproveitando-se de uma "simpatia" da tradição japonesa, solicitavam aos moradores que escrevessem no papel, como desejaria que a praça fosse e depois pediam para pendurar num varal que eles tinham montado. O meu desejo no cartão: a substituição da calçada, um palco para shows do tipo arena, uma pista de skate em M e uma quadra de basquete de um cesto só. Parecia um pedido pro Papai Noel: - Imagine!  Papai Noel, seu Correa! E o que senhor pediu?

- Pedi um jardim bonito, bancos e mesas para jogar dominó. As outras pessoas pediram parque de diversão para os seus filhos, os jovens pediram apetrechos de ginástica. A praça está do jeito que eu queria!

Interrompí e disse-lhe: - ganhei somente a reforma da calçada. E o senhor ganhou bem, há muitos aposentados jogando dominó! Mas seu Correia, e aquela silhueta da Elis Regina? Devolveram ao dono? Ou arrancaram e jogaram no lixo? Cadê?

- Não estava aqui quando levaram a obra. Espero que esteja em boas mãos.

- Seu Correia, se não estiver em boas mãos, foi total desrespeito ao artista plástico. Bem que essa silhueta caberia no centro da praça! É uma pena! Deveríamos averiguar.

- Já é tarde. Já deve ter virado sucata industrial há muito tempo!

O seu Correia estava com semblante transtornado, ele não estava feliz e me perguntou: Paxá, na sua concepção, como você tinha imaginado essa praça?

- Além dos meus pedidos, o meu sonho era rodear essa praça de ipês amarelos para Setembro e ipês roxos para Julho para tirar aspecto sombrio. Gostaria muito de instalar um arco-íris bem alí no centro para as crianças brincarem de escorregador. Quem sabe, uma fonte luminosa aproveitando o manancial que vem lá de cima, do Parque Previdência.

E assim me despedí do seu Correia, pois tinha que me apressar para ir a outro banco, afinal de contas, esse encontro casual tinha aliviado a minha tensão, quando, após alguns passos, com voz sôfrega, ele gritou: - Paxá! Sabia que tem um projeto de um túnel que vai passar embaixo do bairro da Previdência e vai desembocar aquí? Essa praça vai virar avenida!

FIM

Agradecimentos ao Nico pelo detalhe da posição do personagem tatuado.

Cleusa, roubei a foto do seu gato e se você se sentir incomodada, o substituirei. Grato.

A figura da Jean foi retirada da HQ X-Men Extra - 70 anos de Marvel Comics.

 

 

 

O CAPETA BONDOSO - 06

CONFRARIA DO CAPETA BONDOSO

Akio Kimura - 16/11/2007 - PEQUENOS CASOS BANCÁRIOS

Depois de um fiasco nas vendas, recupero-me da estafa. Era uma encomenda de um soldado da PM em vias de ir para o presídio Romão Gomes. Lembro-me que ele dizia: "p_ta profissão ingrata! Se mato um bandido, sou culpado; se não mato, sou um covarde; se erro, sou um incompetente e se atiro primeiro, nem se fala! É proibido errar! E errei! E era por causa disso que ele tinha vindo a mim, dizendo-se inocente em alguns casos. Tem um filho de três anos. Pai de família trabalhando na polícia!

Ele havia pedido um implante de uma micro-câmera na testa do seu boné e que fora usado numa numa perseguição. O nosso PM fora tocaiado por um criminoso, mas arma havia falhado dando ao nosso PM a chance de acertá-lo. A imagem estava gravada. Só que a imagem não mostrava o tiro do oponente e nem clique que fora encoberto pelo disparos, já que os dois tinham acionado o gatilho simultâneamente. E é aí o motivo de sua reclamação: a possibilidade do áudio ter falhado no clique da arma do bandido.

Enquanto a sua conduta era analisada pela Corregedoria, o nosso amigo se envolvera em mais uma fria. Numa briga anunciada entre torcidas de futebol, ele agredira um jovem em represália às ofensas que havia recebido. Ele não estava preparado para assumir uma missão que envolvia multidão. O boné espião tinha servido para ampliar o seu poder de força, ele se sentia seguro por isso. E é aí que entro na estória. Para se vender um serviço que envolve conflitos, cheguei a conclusão de que seria necessário a inclusão de um exame psicotécnico para os interessados. Para não me deprimir com essas situações de risco, sentindo-me um monstro, decidí não aceitar serviços de implantação de micro-câmeras em bonés e capacetes, exceção para os repórteres investigativos. Fila de banco é para isso mesmo, refletir.

Saio do banco e ao ver nuvens carregadas, vento com cheiro de chuva, apresso-me e ao atravessar a rua, atentei-me apenas para o lado esquerdo, a mão certa para os carros, sem notar que uma moto avançava em sentido contrário, vindo de um contorno. Súbito, sentí uma câimbra na batata da minha perna direita. Paralisei-me de dor que o pé parecia estar colado no asfalto. A moto revalou o meu nariz tombando mais à frente. Por sorte, saimos ilesos, e no meio da aglomeração, ouço uma voz.

- Posso te ajudar? O senhor parece uma estátua. Parou para pensar?

Aceitei a ajuda e fui levado até a calçada com perna esticada. Observei o motoqueiro e nada havia acontecido a ele.

- Sim! Estava pensando e andando num lugar errado e a cãimbra me parou no lugar certo.

- O senhor não é o Paxá?

- Sim! Sou Paxá! Quem sois?

- Adivinhe.

Aos poucos fui me recuperando e com ajuda de pessoas ao redor, fiz um alongamento na perna. Agradeci a todos, afinal de contas, nunca fui tão bem tratado na minha vida. Eu, um "mala" de galochas e as pessoas me servindo como um rei. Olhei para o japa, magro, portando cabelos ralos e branqueados e cara fina. Quem seria? Aos poucos fui me situando. A minha memória foi se abrindo para metade dos anos 60 para cá, o Homem na lua, a caída do Jango e depois, dos times do bairro, dos amigos e das músicas que curtíamos: os Beatles, Jackson Five, Roberto Carlos, Chico, Gil, Caetano, João Gilberto, Tom e outros. No futebol, Pelé e no cinema, Kirk Douglas, Gregory Peck, Clint Eastwood, Anselmo Duarte, Paulo Autran, Fernanda Montenegro e a minha última diva, Liza Minelli.

 Eram inúmeros artistas para se idolatrar. A memória me levou à uma avenida estreita e iluminação parca e cheguei à residência desse senhor nipônico, protegida pelo muro baixo, um pé de goiabeira no quintal e um estúdio de fotografia na sala. 

- O senhor é o Paulo, disse-lhe arriscando, pois tinha quatro conhecidos com esse nome.

- Adivinhou! E assim, conversamos até pararmos num botequim para um almoço tardio. Pedi um comercial e ele, sem perder o antigo hábito, dobradinha. Recordamos o nosso tempo de moleque como futebol, jogo de piões, bolinhas de gude, caça aos mini-balões chamado na época de "chineisinho" até entrarmos na época em que ele herdou o estúdio do pai. Mas a lembrança maior foi no dia em que o ajudei a fotografar. Inesquecível! Paulo estava endividado e havia pego o serviço sem ao menos cobrar uma entrada de 50% para as despesas e nem sequer sabia o local onde iria fotografar. Tinha apenas um mapa. Era uma época em que se usava filmes e tinha que revelar nos laboratórios da Kodak, Fuji e o caçula Curt. Quem não se lembra?

O local era longe. Com o seu "fusca" seguimos o mapa pela Raposo e depois por um atalho de terra quando avistamos três ônibus, alguns fuscas, um Rural Willys, duas Romisetas, um Mercury, uma lambreta e um Cadillac. Era um sítio quase abandonado, tinha uma vaca no pasto e ao lado, um galpão com um letreiro: "Confraria do Capeta Bondoso": - Paulo, o que é isso? É aqui mesmo?

- É!

- O que vamos fotografar? Você perguntou o que era? 

- Uma missa.

- Missa? Aqui? Não tem nada a ver com Confraria! Nunca ouvi falar num capeta santo, você ouviu, Paulo?

- Não. Mas ele afirmou que a reza seria leve e vai abençoar um casal de velhos que fizeram Bodas de prata.

- Paulo! Bodas de Prata? Está esquisito! Tá parecendo golpe!  Não são Bodas de sangue?

- Vire essa boca pra lá, Paxá! Estou tremendo até o rabo! Se for missa satânica, vou "picar a mula"! Só de ouvir em sacrifícios de animais, me dá calafrios! Você já viu isso?

- Não Paulo, só em filmes! E você?

- Também. Parou, Paxá! Você é chegado nessas coisas?

- Não tenho esse perfil. Conhece o pai do Caquinho? Ele era satanista. Ele me explicou por cima, bem rasteiro. Esses que matam animais são "pseudo-satanistas" que tornaram essa palavra assustadora para adoração ao diabo. Para os satanistas normais, cada pessoa tem que se responsabilizar pelos seus atos. A pessoa que erra, tem que pagar com o mesmo valor e seguem à risca, a lei de Talião, que é incompatível com a minha formação. 

- Olho por olho, dente por dente. Ei! Você está fazendo apologia ao satanismo comigo?

- Paulo, sou um cristão não praticante, mas aceito qualquer tipo de pensamentos. Os satanistas  levam em conta, o valor do Eu, exaltam a individualidade, diferente de mim, que estou sempre "fudido" me xingando! É só isso que eu sei. Dá pra entender?

- Não, Paxá!

- É fácil! Cada um com a sua convicção  sem tolher a liberdade de outros.

- Paxá! Vamos trabalhar! Senão vai sair tudo errado. Estamos atrasados!

Entramos. Era um galpão.

Tinha um altar sobre o palco e o templo estava repleto de pessoas mascaradas. O sacerdote tinha uma máscara e vestes brancas, quase um Klu-Klux-Klan. Ele já finalizava a sua pregação para iniciar a cerimonia capetista. Dizia ele, com o seu tom grave, que a Terra era o purgatório e que estávamos sendo avaliados pelas divindades. E para isso seria necessário preencher um formulário com nome, RG e endereço e alertava que não precisavam se preocupar porque o cobrador iria recolher o dízimo na casa de cada pessoa. Pensei de imediato, é golpe! Qualquer idiota perceberia! Mas como ele havia conseguido reunir tantas pessoas em nome do capeta?

No centro do altar, um desenho enorme do Capeta Bondoso, sorridente com seu chifre caído e uma auréola na cabeça. Ao seu redor, muitos castiçais com velas acesas, incensos perfumando o ambiente e do lado esquerdo, o casal de idosos, também com rosto coberto. Um outro mascarado, alto e forte surgia dos bastidores com livro branco nas mãos colocando sobre a mesa do altar. E no centro, um enorme gongo e um bastão de madeira sobre uma almofada de veludo azul.

Antes de dar iniciação à cerimonia, o sacerdote pronunciou:

- Oh! Santo Capeta Bondoso! Tu que apagastes o fogo do inferno, iluminai os caminhos escuros das cinzas para os fiéis que aqui se encontram. Quando o gongo bater três vezes, o caminho estará aberto para aqueles  que pagarem a mensalidade em dia!

A seguir, o homem alto entrega o livro branco para o sacerdote e começa a ler com pronúncias indecifráveis. Essa voz me era familiar. Notei também que o homem alto não sabia o que fazer, ele ia até o altar, fazia gestos de adoração levantando as mãos como se um goleiro agarrase a bola e depois ficava de joelhos chorando, apagava as velas e acendia e depois, cansado, sentou-se para ler um gibí. O mais engraçado é que o sacerdote não o reprimia, seria ele o capeta? Só se for na casa dele!

Fiquei na parte de baixo, em frente aos convidados, umas setenta e nove pessoas e Paulo, no altar com a sua Nikon 35 mm. A minha função era apenas segurar o flashe acoplado à uma fotocélula apontado para o foco central que era o casal. Todas às vezes que Paulo acionava o botão da máquina, a minha fotocélula captava a luz do seu flashe e o meu, emitia a luz em direção ao altar. Não havia escada de frente e a entrada para o palco era pelas laterais. Após ter fotografado algumas vezes, Paulo interrompe o trabalho e me sinaliza com as mãos. Larguei o flashe num assento vago e fui até a ele. 

Logo de cara, ele me entregou a máquina e me disse: volto já! É só focar e clicar! e saiu apressado pela porta fundos.

 

 

Logo, quando fotografei a primeira, vi alguém gesticulando da platéia. Era um mascarado apontando para os meus pés. Na hora, pensei na possibilidade de ter pisado na bosta de vaca, sentei-me e tirei os sapatos, vistoriei e cheirei. Ainda bem que era num só pé. De repente ouço um assobio e vejo um mascarado de terno gesticulando-me para que eu levasse os sapatos num canto. Sai de cena e retornei sem os calçados. Fotografei o casal várias vezes, mas para que fotos se estavam mascarados? De repente, o sacerdote, sem interromper a leitura, dirigiu-me o seu olhar aguçado em direção aos meus pés quando vi o bastão e o gongo à minha frente. Ele precisava de ajuda, pois o homem alto estava adormecido, encostado na parede. Notei que ele me mostrava os três dedos e interpretei como pontas de um tridente e me lembrei da frase: quando o gongo bater três vezes, o caminho do paraíso estará aberto. Peguei o bastão e batí três vezes com todas as minhas forças. Todos taparam ouvidos. Não sabia que o gongo soava tão alto! O casal quase chegou a demaiar de susto. Pela oração em tom alto do sacerdote, que mais parecia me xingar, percebi que não era isso que ele pretendia me transmitir. Os seus punhos estavam cerrados como se quisessem me esmurrar. Ele aproximou-se de mim, colocou a mão na minha cabeça como se estivesse me abençoando, quando ouvi uma oração com voz bem baixinha: tira essas meias furadas, seu fiadap_ta! Tem três furos na sua meia! Burro! E saiu suavemente voltando para o altar com seus murmúrios estranhos. Voltei descalço mas sem retirar o BAND-AID do meu dedão do pé direito. Ao acionar o botão da máquina, o flashe havia falhado! Verfiquei os fios e pressionei para que ficassem encaixados. Dei outro clique e nada. A cerimonia parecia desenrolar-se em alta velocidade e o suor frio da testa escorria ardentemente em meus olhos. Outro clique e nada! Já, sem noção de bom senso, passei a estapear o flashe que mais parecia uma sessão de tortura. E o milagre surgiu na hora H! Paulo havia voltado com expressão de extrema felicidade e passei o equipamento para ele.

- Aonde você foi Paulo? Você está fedido!

- Fui ao banheiro. Foi a dobradinha que guardei na terça. Comi antes de vir para cá.

- Aonde que é? Preciso ir também!

- É só seguir a seta. Segui mais de 150 metros, não tinha fim, parecia que ia pro inferno! Parei no meio do caminho e fiz no mato mesmo. Leva papel, Paxá.

- Não tenho! E como você fez para se higienizar?

- Lá tem folhas grandes de plantas. Cuidado que essas folhas possuem pequenos espinhos e dá uma coceira danada!

- Então aguento mais um pouco, Paulo.

Desci e acomodei-me no meu lugar quando ouço palavrões: acende seu fiadap_ta! Acende! Era Paulo estapeando o flashe! Tinha esquecido de avisá-lo! Subi rapidamente, expliquei, entreguei o meu flashe e tudo correu bem.

Nós rimos ao recordar essa fase, é claro, com todo respeito aos credos.

- Paulo, você recebeu o honorário do capeta charlatão?

- Não. Ele me disse que estragamos a cerimonia. O que houve durante a minha ausência naquele dia?

Pensei e respondí: Batí o gongo antes da hora. Se quiser, eu pago o prejuízo, se bem que, o sacerdote era o pai do Pavão, o 171. Ele me repreendeu do mesmo jeito que repreendia o filho.

- Ah! O goleiro! Bem que tinha desconfiado! Mas precisava da "bufunfa" e por isso arrisquei!

Fiquei chateado por isso. Fui prestar ajuda e acabei dando prejuízo. Combinamos um dia para outro almoço e quando já me ia, ele gritou de longe: não fique preocupado, Paxá! Naquele dia, deu tudo errado! Esquecí de colocar o filme na máquina!

FIM

Agradecimentos à Michelle pela câimbra que ela realmente teve no meio da rua e ao Nico pelo detalhe no palco.






 

 

 

 

O CICLISTA - 05

Akio Kimura -26/03/2007 - Todos os direitos reservados

PEQUENOS CASOS BANCÁRIOS 

Naquele dia, temperatura marcava quase 30 graus.

Estava depositando um cheque no caixa eletrônico. Ufa! Tinha vendido algumas encomendas que me renderam um bom dinheiro, mesmo com IPI  e ICMS atrasados, lucro, agora vinha o CSLL(Contribuição sobre lucro líquido), Imposto de Renda, enfim, DARF's que não acabavam mais.

O cliente, um executivo de uma multinacional, conhecido como Babywilson, tinha saído ileso após sofrer um assalto. Devido a violência dos dias atuais, ele queria proteção para a sua esposa, o filho de 15 e filha de 10. Enganou-se quem pensou que eu tivesse mudado de profissão para guarda-costas. Ele fez encomendas de saias, blusas, sutiãs, camisas, calças e bonés, enganou-se também quem pensou que eu tivesse virado estilista. Eram roupas a prova de balas sem despertar suspeitas de blindagem.

Desenhei e executei. Deu trabalho. Para os seus filhos, camisas pólo, camisetas e blusinhas com um bolsão que começava rente ao pescoço até abaixo do embigo, confeccionado com tecido de cerâmica alumina, fórmula química A12O3. Nesse bolsão, seria guardado um caderno universitário, cujas páginas continham algumas folhas laminadas de aço e a capa, plástico de polietireno. As camisas sociais de Babywilson, todas tinham bolsos para guardar porta-documentos protetor, na área do coração. 

Algumas camisas eram especiais, feitas com o tecido OstrogonJPXII, leve e elástico, o mesmo tecido da roupa que Super-Homem utiliza na ficção, capaz de neutralizar a velocidade da bala sem sentir o impacto forte e adotei o mesmo procedimento para as vestes femininas, para as cortinas do carro, nos bancos e nos encostos. No para-brisas, blindagem normal. Fomos até o sítio e testamos em bonecos. Entreguei também, mochila de brinde, esta, para proteger as costas e o boné com aba comprida transparente na parte superior que cobre a cabeça, que  num caso de um tiroteio, abaixaria a aba de modo que o cliente tivesse uma visão ampla durante a fuga.  Uma máscara protetora.

Levei um instrutor de tiros para testar em mim, com sucesso. Só tive um ferimento leve na orelha esquerda.

Voltando ao banco.

De súbito, o caixa eletrônico havia anunciado manutenção técnica. E nesse meio tempo, presenciei uma discussão entre vigilante e um ciclista que havia guardado a sua mochila no guarda-volumes e mesmo assim, a porta havia travado porque as suas sapatilhas continham reforços de metal.

 Os ânimos chegaram a se exaltar a ponto da gerente interferir na discussão, linda, exuberante e quem a visse, poderia até confundir com as mocinhas de "mangá". Exagero meu, mas por alguns centésimos de segundos, sonhei: ela seria a mulher da minha vida.

O Ciclista - Quero que você me apresente uma legislação que proíba de um cidadão entrar descalço na agência de um banco! Me mostra, quero ler esse papel!

A Gerente - Não se trata de legislação. São normas internas do nosso banco.

O Ciclista - Não senhora, sem essas de normas internas. Sou um cidadão que não está armado, não agrediu ninguém e nem emitiu palavras de baixo calão! Se estou tentando pagar a conta, por quê me impedir? O boleto vence hoje. Cadê a Elisa? Ela me conhece!

A Gerente - Elisa está de férias.

O Ciclista - Férias? Essa é boa! Esses casos acontecem quando a gerente de contas se ausenta! Como você se chama?

A Gerente - Lourdes!

O Ciclista - Lourdes, isso é uma injustiça! Uma discriminação! Enquanto estava à sua espera, entrou um mendigo descabelado e um casal com chinelos de borracha cheirando chulé. O cara era um gordo, de camiseta regata mostrando os pêlos das axilas, dos braços e a sua bermuda caindo abaixo da cintura exibindo o "cofrão"! Olha, não estou falando do cofre do banco não, o "cofrão" a grosso modo, é o início do "culhão". A sua namorada então vestia um shortinho tão curto que deixava à mostra, as suas lindas protuberâncias traseiras e a metade de seus seios lindos. E eu, um ciclista uniformizado, magro, sem pêlos e sem chulé não posso entrar? Por quê? Isso se chama discriminação!

A gerente emitiu um sorriso disfarçado e respondeu num tom irônico.

A Gerente - Discriminação? Ah Ah! Não discriminamos ninguém! Meu querido e lindo ciclista, não se trata de tudo isso que você falou. Cada banco tem uma norma, é igual na sua casa. Você não pode ficar pelado perto da janela, pode? São normas morais! É por isso que não se pode entrar descalço e pronto! Sou uma funcionária e tenho que obedecer senão perco o meu emprego! Entendeu? Não importa se você é lindo! Ou se o outro é feio e gordo, se é japonês ou chinês. Não pode e acabou!

- Lourdes, só quero ver essa norma ditatorial escrita! Vocês tem que ter isso no banco para mostrar! Não vou ficar na imaginação, minha querida! Parece governo! Projetam uma obra, não consultam os moradores, não fazem layout e nem disponibilizam no site para o povo entender! Faltam 2 minutos para fechar o banco e você fica com essa linda cara de meiga? Eu sou correntista dessa agência, minha lindíssima gerente! Sabe de uma coisa? Vou reclamar com PROCON!

A gerente fica preocupada mas se manifesta com expressão simpática.

A Gerente - Estã bem, meu príncipe! Eu poderia solicitar à atendente para efetuar o pagamento para você, mas ela está ocupada no momento. Tive uma idéia! Se quiser, empresto os meus sapatos e você entra rapidamente. Ninguém vai perceber porque os saltos são baixos.

O ciclista nega a oferta e com sorriso irônico responde com impaciência.

O Ciclista - Lourdes, você é linda, simpática e inteligente, tudo que eu desejaria de uma namorada. Mas você não tem bom senso. Você acha que eu vou me sujeitar a entrar na agência com sapatos femininos? Olhe os bicos! O meu pé vai ficar com cara de cascavel! Você está zombando de mim, minha linda! Quero mais respeito! Vou te processar! O meu pai é advogado e com uma caneta, ele pode fazer estragos maior do que se possa imaginar. E o meu avô é um influente juíz!

De repente, um mendigo sai da agência reclamando.

O Mendigo - Que banco miserável! Pedí esmolas pros caixas, todos contando um montão de grana e eles não me deram um tostão! Muquiranas do cacete! Deus vai castigar! Seus f.d.p!

A seguir, a gerente vê o casal saindo, exatamente aquele, o "cofrão" e a de seios lindos e os interpela mantendo um diálogo rápido. O "cofrão" faz sinal de concordância, tira os chinelos e oferece ao ciclista.

A Gerente - Você aceita? É a única alternativa! Você entra com os chinelos e depois a mulher dele entra para trazer de volta.

O ciclista faz uma cara de entojo fitando os chinelos.

O Cofrão - Ô gente fina, te empresto os meus chinelos e pode usar sem medo. Não ligo se você tem chulé. Depois dou uma lavada e passo um creme nos meus pés. Não faz cerimônia, pega.

O ciclista olha para os 3, consulta o seu relógio e coloca os chinelos e humildemente agradece.

O Ciclista - Obrigado! Desculpe o incômodo, o seu nome?

O Cofrão - Todos me conhecem por "Paulistão", tenho uma churrascaria aqui perto. Pega o meu cartão de visitas. E o seu nome?

O Ciclista - Que concidência! Todos me chamam de "Paulistinha" depois que tirei 2.º lugar na prova de ciclismo da 9 de Julho.

A gerente interrompe.

A Gerente - Paulistinha, pode entrar senão perde a hora.

O ciclista entra e a mulher dos seios fartos o segue.

A gerente observa, fica atenta e desconfiada porque tudo isso poderia ser um golpe, alvo de um assalto, tão comum em portas de banco. O mendigo não estava descartado como cúmplice. Lourdes sai à rua para verificar se não havia um quarto homem num carro para uma possível fuga. Beleza, nada de suspeitos.

Um minutos depois, a mulher sai segurando as sandálias na ponta dos dedos e o companheiro, por questão de higiene, pede à mulher para colocar dentro de um saco de super-mercado e se retiram satisfeitos por terem realizado uma boa ação.

Depois, o ciclista chega até a porta e num tom de gozação, dirige as palavras à gerente.

O Ciclista - Lourdes, minha querida, posso sair do banco descalço?

A gerente entende a brincadeira e sorri.

A Gerente - Pode, meu lindo ciclista!

O ciclista - Quero ver essa norma por escrito que deixa o cliente sair descalço do banco!

A gerente responde.- Senhor Paulistinha, vou mostrar essas normas para você por escrito. É só deixar o número do seu celular e assim, poderemos discutir as normas bancárias em outro lugar. Também sou ciclista.

- Ah! Então temos algo em comum. Muito prazer em conhecê-la! O ciclista anota e dá o seu e se despedem com beijinhos no rosto.

Nesse meio tempo, o caixa eletrônico se recupera.

Ah! Se fosse comigo, perderia as estribeiras e estaria discutindo normas bancárias com a gerente na delegacia.

Como é duro ser feio, nervoso e impulsivo!

FIM

Agradecimentos à Nicolle pelo desenho dos filhos do empresário Babywilson.



 

 

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