CIDADÃO ILUSTRE 54-FINAL ALTERNATIVO

Akio Kimura-11/10/2012

ATO FINAL - ALTERNATIVO

Avenida Rebouças estava calma e livre de congestionamento. A chuva fina da noite parecia não incomodar as pessoas esperando os seus respectivos ônibus e nem tampouco os estrondos de fogos vindos do Pacaembu. Provavelmente, um gol do Corinthians. Virei à direita e  estacionei numa vaga de rua. Estava preocupado, afinal de contas, o jaleco branco improvisado de Lina me apertava demais e a maleta preta, pesada e envelhecida não combinava com o visual elegante de um médico. E assim, postei-me erecto em frente ao INCOR ensaiando o caminhar do falecido doutor Cristo para enganar os vigias.  

No saguão, por surpresa minha, estavam o delegado Ari, um homem de terno com jeitão de advogado e Godofredo da PF e mais três homens uniformizados. E fiquei pasmo quando vi Lina e os meus primos Wagner e Katinha que deveriam estar no velório do tio Antonio; e logo que me viram, aproximaram-se de mim como se eu tivesse devendo algo e me perguntei como eles sabiam da minha presença aqui? O delegado Ari pronunciou-se rapidamente sem sequer me cumprimentar: - recebemos um torpedo e corremos para cá imediatamente.

- Quem enviou torpedo?; perguntei enrrugando a cara de curiosidade.

Godofredo entrou no meio e disse: - pelo celular, era você! Era a sua voz. Disse-me que J.J. estava morinbundo e que viria visitá-lo.

- Eu? Não!

Lina aproximou-se de mim e me abraçou:-calma, Herbin! É preciso ouvir o que eles tem a dizer.

E ao mesmo tempo, Wagner se intrometeu também com voz firme e pausada:- você disse que queria assassiná-lo! Ficamos preocupados e vimos urgente para cá. Não é Katinha?

Katinha com olhar meigo respondeu: - primo, não queremos que você vire um assassino!

O delegado Ari com ar de confirmação disse em tom de repreensão:- lembra-se Herbin?; você prometeu!

De repente, a Lina:-não queremos que você mate o J.J.! Ele não merece morrer! Ele tem que estar vivo para pagar o que deve à sociedade.

- E o que vocês querem que eu faça?

Godofredo da PF respondeu secamente: - queremos que faça uma cirurgia para retirar o "Chip" instalado no J.J.

- Senhores, não posso fazer isso! Sou Herbin e não o doutor Cristo...

Delegado Ari entrou no meio cortando as minhas palavras:- Incorpore-se em doutor Cristo! O Oficial de Justiça, senhor Rafael trouxe uma ação judicial para você efetuar a operação. O quarto de cirurgia está prontinho da "Silva".

Todos me olharam enviesado tentando incutir palavras na minha consciência. Fiquei estático e em silêncio e fiz gestos para que cessassem de falar. Não tinha condições de discutir com várias pessoas ao mesmo tempo; suspirei, fechei os olhos e pausei. Continuei estático transmitindo em meu rosto, um tom de intolerância e concordei. Peguei o chaveiro cibernético e acionei o automático. E como sempre, senti aqueles "tremeliques" e todos eles me respeitaram. Ficaram em silêncio. Eles sabiam que eu estava em transição.

Lina sorriu e logo percebeu pela voz que Herbin estava incorporado em doutor Cristo: - Ah! Doutor Cristo!

- Doutor, o senhor me acompanha? Agora queremos que o doutor examine o J.J. para retirar o "Chip". O procedimento é simples, não é?; perguntou Godofredo da P. F.  

- Não, não é tão simples assim! Se retirarmos o "Chip" poderá surgir sequelas e nunca mais será o mesmo.

Delegado Ari respondeu:- o importante é que ele esteja vivo para escalrecer perante o tribunal as suas falcatruas.

- Delegado, retirando o "Chip" ele não se lembrará de nada. Ele voltará a ser um homem de antes. Ele não entenderá por que está sendo julgado ou por que está sendo preso; respondeu Cristo.

Godofredo disse laconicamente:-ele pagará por crimes que ele cometeu antes do "Chip". A lista de crimes é enorme! Lembre-se doutor, estamos com uma "bomba" em nossas mãos. Se este caso for ao público, será um escândalo para o governo.

Doutor Cristo concordou. E foram em direção ao quarto.

Por surpresa, nem precisaram se identificar. Estava tudo preparado como se fosse uma reunião de familia por ordem dos delegados. No corredor, eles pararam e gentilmente, ofereceram ao doutor, a entrada ao quarto. No mesmo instante, quando virou às costas para o pessoal, o botão do chaveiro acionou automaticamente para voltar ao Herbin sem que ninguém percebesse. Desta vez, apenas os meus olhos viraram para os lados.

Todos eles entraram e ficaram à distância, exceto Wagner e Katinha que queriam ver o rosto de J.J., mas na verdade, não passava de um plano. Eles não sabiam que eu tinha voltado para Herbin. O problema era como executar o meu plano de colocar o revólver debaixo do travesseiro de J.J. que estava de bruços. Realmente ele estivera na caverna para me agredir e como prova, os ferimentos que eu causei em seu pescoço e nas costas. 

Num canto superior da parede havia uma câmera de vigilância. Coloquei-me à esquerda da cama e Wagner e Katinha ficaram atrás de mim que por sorte, cobriram a gravação. Olhei para Lina discretamente e disse para que interpretasse o movimento dos meus lábios. Esperta, imediatamente ela pôs o plano em ação aproximando-se do pé da cama de J.J.: - Tadeu! Volta pra mim!; e fingiu desmaiar numa atuação surpreendente. Todos foram socorrê-la levando-a para o leito vago, menos Wagner que eu pedi para que permanecesse no lugar encobrindo a câmera de vigilância. A Katinha entendeu a leitura de meus olhos e juntou-se a eles encenando preocupação com alguns rompantes de choro. Retirei da maleta, o revólver e coloquei sorrateiramente por debaixo do travesseiro onde J.J. estava sedado. De repente, entraram no quarto, dois PMs com armas nas mãos além de dois enfermeiros para levar a Lina para o atendimento de urgência.

Depois de sanada a confusão, eles se enfileiraram como se me esperassem a cometer algum ato. A minha preocupação eram os PMs com as mãos nos coldres. Prendi a respiração e passei a analisar o ambiente enquanto encenava uma oração sem palavras e sem "fé". E passei a pensar o por quê eles não me prenderam se eu representava um perigo real para J.J.? Será que a intenção era me incriminarem e acabar com esta história? Ou simplesmente queriam me salvar pensando estar eu no corpo de J.J.? Uma enfermeira entrou com uma equipe espalhando instrumentos de cirurgia  na pequena mesa ao lado. Pediu licença e certificou se o soro estava em sua completa ordem. E estava. Todos colocaram máscaras, inclusive eu. Sorrateiro, peguei o chaveiro, mas fui interrompido pelo Godofredo da PF que aproximou-se de mim e tomou o aparelho:- doutor, eu fico com isto! 

Pasmo, eu como Herbin, como poderia extrair o "Chip" da nuca do J.J.? De súbito, senti um tremor no corpo. Alguém manipulava o chaveiro e olhei em direção ao Godofredo e nenhum sinal de movimento em suas mãos. E a seguir, um aperto nos olhos e senti flutuar no ar indo em direção ao "Chip" de J.J.; e o "download" em fase de processamento. Em segundos tudo se tornou silêncio. Todos falavam, todos eles moviam os lábios como se estivessem conversando, inclusive a Lina, que já estava de volta e "refeita".  Após alguns segundo, eu, Herbin, estava incorporado em J.J.; movimentei a mão direita de J.J. sob o travesseiro e retirar a arma rapidamente e antes que todos vissem, o fiz J.J. enfiar o cano do revólver na boca e acionar o gatilho.

Bum! O estampido foi seco, os miolos voaram para todos os lados manchando a cabeceira da cama. Herbin caiu violentamente batendo a cabeça no chão. A equipe que estava em volta da cama saiu em disparada emitindo vozes de desespero trombando com a mesa deixando cair intrumentos cirúrgicos para todos os lados.

Todos estavam surpresos pela ação rápida. Todos estavam assustados a ponto de ficarem estáticos por alguns segundos 

 No mesmo instante, senti-me flutuar e a escuridão invadir a minha visão. Perguntava-me: - matei o J.J.? Ou morri?

Lina me viu e estranhou o fato de ouvir uma outra voz conhecida:- você?; e olhou em volta e notou que todos estavam satisfeitos por se livrarem do homem que poderia trazer problemas no futuro. Talvez fosse uma solução paliativa, mas era alguma coisa.

Fora um suicidio perfeito na frente de testemunhas oculares.

Todos acompanharam doutor Ari e Godofredo para prestarem depoimento. Os dois nem sequer perguntaram quem havia colocado a arma debaixo do travesseiro e respondendo por si mesmo: - decerto, adquririu a arma durante a sua escapada.

Lina e "Herbin" sairam abraçados como se conhecessem há tempos.

Lá fora, Will encostado na parede sorria no canto da boca com um chaveiro na mão: - "yes" Herbin! Venci o "game"!

FIM

Agradecimentos a todos que suportaram e acompanharam esta ficção de entretenimento.

Akio Kimura.

  

     

CIDADÃO ILUSTRE 54

Akio Kimura - 16/09/2012

ATO FINAL

A última vez que vi Lina foi ontem...não...antes de ontem? Só me recordo que sai do "apê" e alcancei o corredor. Vi apenas a porta do elevador se fechando. Voltei e liguei a TV. No jornal da manhã anunciava o tempo frio sem chuva até o final da tarde de segunda. Depois, um arrastão num prédio do Itaim-Bibi. E a reportagem mais temerosa - J.J. havia retornado por si só para o Hospital da Clínicas, perto daqui. As autoridades ficaram estupefatas com J. J. e redobraram a vigilância. Ele me metia medo. De relampejo, desejei a sua morte imediata. Os meus pensamentos estavam nervosos e adrenalina a mil. Até pensei em visitar o hospital e tentar matá-lo. Para mim ele era um demonio que estava para nascer mas o meu lado bom prevaleceu: não tinha instinto assassino, mas algo estranho estava ocorrendo, J. J. não era assim de se entregar. Ou a intenção dele teria sido apenas "passeio"? Para onde ele teria ido?

 Telefonei para Will e avisei-lhe que iria folgar mais um dia, afinal de contas, como patrão não deveria dar satisfação a ninguém, mas Will merecia a minha atenção porque era o meu braço direito. Mas o fato que me espantou foram suas palavras de que folguei tres dias! E o churrasco de Sábado em Lemópolis no sitio de Marcelo? O engraçado é que Will não tinha ido e me garantiu que estive lá. E assim, tentei recordar. Fiz um drinque e sentei-me no sofá da sala e passei a manipular o chaveiro cibernético. Descobri mais alguns aplicativos como "Subjetive eyes" quando acionado, ele grava tudo que o possuidor vê e simula na tela os próprios movimentos do corpo na tela. Por isso, aciono e vejo-me estacionado no acostamento trocando o pneu traseiro por uma estepe quase na entrada da cidade de Lemópolis. Estranhei porque estava em sentido que vai para São Paulo e me pergunto como poderia ocorrer o inverso se estava a caminho de Lemópolis? Aciono o quadro seguinte e vejo o caminho de retorno para o sitio de Marcelo.

Ao redor do enorme casarão estilo colonial havia muita gente. A churrascada estava no ápice. Muita gente falando, cantando e tocando violão e batucada fervilhando. Lá estava eu saindo do carro e dirigindo-me às mesas improvisadas no quintal em frente a casa. Mais ao fundo, inúmeras pessoas sentadas ao redor de outras quatro mesas sob um barracão. Mais ao lado, várias pessoas cuidando de um boi no rolete e crianças correndo de um lado a outro. Lá no fundão, um grupo de pessoas jogando futebol soçaite. Vejo Marcelo, meu meio-irmão vindo em minha direção com expressão de surpresa: - Herbin, o que houve? Esqueceu alguma coisa?

- Esqueci? Já estive aqui?

Marcelo:- esteve! Você conversou com muitas pessoas e fez muitas amizades aqui e conversamos sobre a adaptação do filme em "game" e depois, sumiu à francesa!

Vejo pelo monitor do chaveiro o quanto estava perdido. A gravação às vezes ficava a esmo chicoteando para os lados. Algo tinha acontecido porque subitamente voltei para o carro deixando Marcelo a só.  Abri a porta mala e lá estava o pneu inutilizado. Era uma lacuna que não me lembrava e então fiz uma retrospectiva rápida: - após ter chegado em São Paulo com Lina, devo tê-la levado  para a casa dela para depois me reencontrar novamente um dia depois da churrascada.

- Desculpe-me Marcelo! Devo ter me surtado!

- Herbin, nós compreendemos o seu cansaço, afinal de contas, você teve uma aventura e tanto! A babá do pai fez alguns curativos em seu rosto que estava escoriado. Vou buscar um calmante para você e um copo de água, você me aguarda? 

Passei as mãos no rosto e realmente havia dois "band-aids", um na testa e outra no queixo:- aguardo, obrigado pela atenção, Marcelo!

Quando ele se afastou, senti a preocupação sobre o que havia acontecido. Servi-me de uma caipirinha e me dirigi até o boi no rolete e retornei com um prato repleto de carne. Degustei com toda voracidade de um glutão, bebi estalando a língua! De repente, a voz de Marcelo ressoou como se estivesse me repreendendo:- Herbin! você está comendo e bebendo de novo?  Está tão faminto assim? Você comeu um monte antes!

Então vejo a minha outra meia-irmã, a Marjô, surpreendida com a minha presença:-então você voltou?

Levantei-me e abracei-a forte para me esconder do constrangimento:- vou ficar mais um pouco! Queria ver o meu pai Antonio, ele está aí?

Marcelo e a irmã se olharam com se perguntassem "será que podemos permitir? Será que Herbin não vai surtar? Ele já esteve com o pai."

E me indicaram o caminho e no caminho devo ter pensado " o que está acontecendo comigo? Não me lembro de ter vindo antes!"

Era uma casa simples de alvenaria com varanda ao seu redor. Logo uma senhora com voz ofegante me atendeu: - Ah! É o senhor Herbin! Veio conversar com o seu pai novamente? Esqueceu o livro que ele te deu?

- Ah! Não! Só queria saber como ele está! Tive maus pressentimentos. 

A senhora se explicou: - Ele não está bem! Vou repetir - ele quer se isolar das pessoas. Parece que está numa fase de preparação para a morte. As pessoas sentem quando a morte se aproxima. Ele se trancou no quarto. Se quiser posso chamá-lo.

Assustei-me com as palavras desta senhora; eram  palavras frias, curtas e diretas, mas realista:- Deixa prá lá! Veio mais alguém visitá-lo?

 - O senhor não se lembra? 

- Quem?

- O seu primo Wagner e a Katinha!

- Eu conversei com eles? Tem certeza, Matilde?

- Absoluta! O senhor veio junto com eles. A Katinha estava toda molhada. Ela tinha caido num lago da caverna do morro Careca do Padre.

 - Estive lá?

- Sim! Katinha e Wagner também! Ela disse que o senhor estava estranho, mas permitiu que o senhor entrasse na caverna.

Relembrei genericamente. Na gruta Katinha seguiu em frente iluminando o caminho. Era o mesmo lugar onde eu estivera na semana passada onde a Lisa se encontrava "jaz". Era lá que eu tinha escondido outro chaveiro de J.J.

Enquanto Katinha trocava o vaso de flores, num lance de surpresa fui agredido pelas costas por um desconhecido onde caimos abruptamente no chão. De repente, recebi uma saraivada de socos principalmente no meu queixo e na cabeça e em seguida, senti as suas enormes mãos a me esganar. A Katinha, deseperada, deixou o farolete sobre uma pedra e veio me  socorrer subindo no dorso dele tentando enforcá-lo, mas foi derrotada pela força do homem que a arremessou para o lago abaixo. O grito dela ecoou no ar seguido de um barulho de choque contra a água. Aproveitei a sobra e tentei me levantar, mas novamente fui dominado pela garganta. Num lance de sorte, vi um brilho emitido por uma estalactite devido a luz da lanterna. Ela estava ao alcance da minha mão direita. Não, não poderia usar esta maravilha da natureza como arma para um ato criminoso. Jamais! Faltava pouco para morrer quando num movimento lateral, a luz iluminou o rosto. Era o J.J. em carne e osso. E assim não pensei duas vezes, arranquei a estalactite e com toda a minha força perfurei as suas costas. Ouvi um gemido e o ataquei ferindo o pescoço. Ele me largou e foi-se cambaleando, expelindo palavrões. Após uma pausa para respirar, ouvi estampidos e um barulho de carro em fuga. E assim, gritei com todas as minhas forças para que essa pessoa viesse nos socorrer. Às essas alturas do tempo, Katinha deveria ter se afogado, mas não sabia o tempo que tinha levado a luta. Levantei-me ofegante e vi a figura de Wagner com um revolver na mão e antes que perguntasse qualquer coisa, avisei que a Katinha tinha sido jogada no lago. Wagner sem dizer uma palavra sequer, mergulhou nas águas escuras. Peguei o farolete e iluminei atentamente o lago. Houve um silêncio e depois ouvi voz de Wagner: -  Katinha está bem! Herbin, pegue a corda no meu carro e salve-nos!

Abraçamo-nos alegres da vida. E por acaso, encontrei um revólver cano curto com iniciais J.J.; guardei-o no bolso e me perguntei: - como ele conseguiu a arma?  

- Herbin, você está disposto a ir para a churrascada?; perguntou Wagner.

- E a Katinha? Ela está bem? Não precisa levar para o hospital?

- Estou bem! O sol está batendo forte. Vamos, não quero perder a festa.

Eles foram em frente. Entrei no meu carro e peguei o chaveiro. Uma dor de cabeça começava a me incomodar e no monitor tinha uma mensagem:-você vai perder a memória seu imbecil! Assinado J.J.

Fiquei desesperado e passei a manipular o chaveiro para a minha defesa. Bloqueei todas as entradas e reforcei com mais dois anti-virus.

E assim, segui o carro de Wagner até a churrascada. Após muitas conversas e matanças de saudades com os parentes no sitio, comecei a sentir efeitos estranhos. Sai da festa e fui para o carro e direcionei-me até a estrada. Estava com náuseas e precisava vomitar. A ânsia era tanta que tive sair do carro e soltar tudo de uma só vez. E não bastasse, ao acelerar o carro em direção a São Paulo, o pneu estourou. E foi nesse instante que devo ter perdido a memória. E voltei para o sitio, pois ainda restavam algumas sequelas benignas. Para me lembrar de algo, precisava reforço de palavras ou imagens. Era isso!

Estudei o chaveiro e iniciei-me a manipular e estudar profundamente. Tinha que frear J.J. de qualquer forma e descobri que o chaveiro tinha caminhos surpreendentes. Mas antes de qualquer coisa, tinha que me proteger. Telefonei para Will mas ele havia saido da empresa para uma visita ao cliente. Fiz mais um drinque e fui ao quarto. Ah! Por que não pensei nisto antes? Abri o guarda-roupa e lá estavam as roupas de Lina. Era certeza dela ter voltado para sua casa e retornado com suas roupas para "ficarmos". Tinha até jaleco branco de professora. Era sinal que o nosso relacionamento estava seguro. Sentei na beirada da cama com o livro do meu pai Antonio e iniciei a ler e parei numa página onde o personagem se isolava no quarto. Ele se preparava para a morte. Até me assustei quando o meu celular tocou. A voz da Marjô anunciava a morte de meu pai Antonio. No livro, a morte de um personagem com o mesmo nome, coincidências a parte:- Adeus, meu pai Antonio!

Estava chocado com a notícia, mas para me acalmar, iniciei a leitura do livro onde o personagem principal manipulava o chaveiro e havia decidido assassinar o vilão invadindo o seu Chip para um confronto virtual. Como seria? Levantei-me vagarosamente e direcionei-me até o espelho do guarda-roupa. Mirei-me em meu olhar e com a mão direita, teclando até identificar o olhar maligno. A medida que teclava, a minha expressão modificava. Por vezes, era o olhar de Tadeu, outras vezes do doutor Cristo. Mas o que desejava era o olhar de J. J. 

Sim, tinha descoberto como entrar no corpo de J.J. rapidamente no tempo real eliminando aqueles trancos, dores de cabeça e ânsia de vômito. 

Os sons das primeiras trovoadas anunciavam chuvas torrenciais. Bom para o evento que iria acontecer. Vesti o jaleco branco de Lina e saí em direção ao Hospital das Clínicas.

Assinei a lista de visitantes como doutor Cristo e para surpresa minha, não havia vigilância redobrada. No quarto, outra surpresa - estavam presentes Wagner e Katinha:-o que vocês estão fazendo aqui? Vocês não param quieto!

- O mesmo que você! e no mesmo instante solicitei aos dois para que me ocultassem da câmera de vigilãncia. E assim observei atentamente o J.J.; ele dormia de bruços devido ao ferimento nas costas e lá estava a cicatriz no pescoço comprovando que o confronto na caverna fora com ele. A enfermeira apenas pediu para que não o acordasse e saiu do recinto. Melhor para mim. Primeiramente, retirei debaixo do travessseiro, o chaveiro que ele tinha surrupiado na caverna. Assustei-me um pouco quando ele abriu os olhos e com a voz do doutor Cristo o acalmei: - está tudo bem, J.J. Eu estou aqui.

Preparei-me para executar o plano. Coloquei o revólver na sua mão direita acobertando com o lençol. Manipulei o chaveiro e invadi seu Chip. Chamei a enfermeira para testemunhar o que iria acontecer. Desta vez era definitivo. A sua catalepsia não iria funcionar, era para sempre. Não bastasse tantas surpresas, a enfermeira entrou acompanhado do delegado Ari: - Herbin, não faça isso que você está pretendendo.

A voz de Katinha me surpreendeu:- vai em frente, Herbin!

Wagner:-faça o que tem de ser feito! Só nós conhecemos os problemas!

Delegado Ari - Lembre-se da nossa conversa, Herbin! Você me tinha prometido deletar o "Chip"! Você não teve palavra! Posso revistá-lo?

Respondi que sim e ele aproximou-se de mim ralhando:- Herbin, o que você pensa que é? Deus?

- Delegado, quem informou ao senhor sobre a minha pretensão?

- Recebi uma mensagem no meu celular e acreditei! Foi o J.J.! Herbin, por mais que ele seja um criminoso, você não pode executá-lo. É a lei!

 Revistou-me sem nada encontrar. De repente, entraram na sala, Doutor Godofredo da PF, GARRA e COE.

Wagner interferiu:- doutor, é apenas uma visita! Eu estou desarmado, Herbin está desarmado e o que mais os senhores querem?

Godofredo: - então porque vocês não se retiram com as mãos na cabeça?

Um dialogador da COE:- vamos em paz amigão! Iremos sair da sala como se nada tivesse que ocorrer. Não temos prova de nada. Uma ameaça não é crime, portanto, todos aqui são inocentes! 

Quando a enfermeira começou a examinar o corpo de J.J. comecei a manipular o chaveiro e me incorporei no J.J.  A enfermeira soltou um grito de pavor olhando para os olhos de J.J. afastando-se dele, provavelmente tinha visto o revólver. De imediato, J.J. se direcionou a mim liberando um olhar repleto de revelações. Ele movimentava os lábios e fiz a leitura, era para se pensar. E por minha vez, na pele de Herbin, direcionei-me o olhar para o delegado Ari. Os olhos dele também pareciam guardar segredos. E delegado Godofredo e o pessoal da GARRA e COE, estranhamente levaram a enfermeira para fora da sala. E em volta da sala os PMs parados como estátuas com armas engatilhadas.

De repente, a minha moral veio à tona. A minha ética. O meu arrependimento! Olhei para todos e movimentei os lábios como J.J. movimentou. De repente, o silêncio absoluto. Eu sabia que estava tudo facilitado para a minha entrada aqui no hospital. Sabia também que nada iria me acontecer porque não haveria provas contra mim. Estava incorporado no J.J. completamente. Deitado de bruços, tirei as mãos de debaixo do travesseiro com dedo no gatilho e enfiei o cano do revolver na boca e acionei.

O estampido soou forte e os seus miolos tinham se espatifado e se espalhado para todos os cantos. O revolver com a sigla J.J. havia caido no chão sob os olhares policiais assustados 

E voltei rapidamente para o meu corpo como se nada tivesse acontecido.

O delegado, sem saber o que fazer, apenas me olhou com sorriso no canto da boca. Todos se sentiram aliviados com o suicídio.

Era o que eles queriam.

Um assassino como eu.

FIM. (Aguardem Final alternativo)

  

 

 

CIDADÃO ILUSTRE 52

Akio Kimura - 11/08/2012

UMA QUESTÃO DE MORAL

A prisão de Evilate era especial. Ainda estava em voga, a mordomia para pessoas de nível universitário. Era uma espécie de quitinete, banheiro asseado, faxina (a cargo do preso), chuveiro quente, uma mesa e uma TV que estava quebrada. A voz do carcereiro ecoou em meus ouvidos: - Herbin, outra visita!

Larguei o diário de Lisa sobre a mesa e me levantei da cadeira. A primeira pessoa que entrou foi a tia dona Odete e respectivamente, o Wagner e a Katinha. Conversamos muito para matar saudades até chegar no ponto onde eu queria; a confirmação de Wagner, meu primo como integrante da ROME (grupo armado que atuava á noite para eliminar os fugitivos dos inúmeros presídios da região). Ele confirmou com segurança e me deu explicações que coincidiam o que havia assistido no filme. Era membro da ROME e ao mesmo tempo, membro de outro grupo armado de contenção à violência, exatamente como o seu pai Jorge se portava: de ser um espião que jogava dos dois lados. E me veio uma pergunta: - Wagner, como você não está preso? Você foi membro de dois grupos armados clandestinos. E você matou o número 5 na Praça das Flores!

Ele ficou pasmo e respondeu defensivamente: - sim, mas aleguei ser portador de um CHIP implantado e que os meus atos não eram da minha responsabilidade. Era o J.J. que me dominava e aí está você, Herbin, na mesma situação. Quem garante que você continuará ser Herbin amanhã? Quem garante que J.J está morto? Eles vão te soltar, pois a voz que eles ouviram quando a sua pessoa fez refém do delegado era do J.J.  Quanto aos grupos armados, os homens eram recrutados pelo J.J. com remuneração generosa através de uma ONG. E tem outra, Herbin, ele tinha apoio total da população. Os habitantes viviam em constante depressão por causa de inúmeros presídios na região. E o J.J. ofereceu essa segurança. Agora, com a mudança do pessoal aqui na cidade, não sei o que será de mim, acredito que vá levar anos para ir ao julgamento. Por enquanto, a ordem e permanecer na cidade. Estou proibido de viajar para o exterior. E outra, tenho certos privilégios devido a propriedade que temos - uma usina de álcool, empresa de exportação de açúcar e transportadora. Empregamos muita gente Herbin, sou necessariamente um mal necessário. Só estou aguardando o resultado disso tudo. Creio que não dê em nada, pois a a cidade depende muito de nossas empresas. A única dificuldade minha é assumir a clínica na qual doutor Cristo era o responsável. Nomeei por enquanto, o doutor Pedro, aposentado há um ano. Ele, por enquanto está na direção. Os implantes de CHIP estão proibidos. Somente atendimento clínico.

E depois perguntei à Katinha se ela tinha um CHIP implantado, afinal de contas, este CHIP para uma menina de dez anos era muito arriscado. Poderia ter problemas de personalidade e o pior, confundir outras pessoas sob pena de ser condenada por falsidade ideológica. A minha intenção, por ora, era retirar os CHIPS e destruir: - primo Herbin, não estou com nenhuma vontade de retirar o CHIP porque ninguém sabe de mim. Só você e minha família! Mas aprendi a lidar com isso. O CHIP é a minha razão de viver. É a minha felicidade!

Fiquei sem entender. Felicidade! Pensei nos prós e contras. Até que ela poderia dominar bem a parte ética, pois a Katinha apesar da idade, tinha noções do mal e do bem. Mas o meu medo era alguém invadir o CHIP e tomá-la por completo. Era uma situação difícil e ela continuou a conversa:- no CHIP, tenho cópias da doutora Márcia Silvia e da Lisa na qual já a incorporei, mas entenda, com responsabilidade. Possuo todas as proteções contra os invasores. Se quiser, instalo os antivírus para você, primo.

Agradecí e antes de encerrar o assunto, perguntei como seria a sua vida com três personalidades e ela me respondeu: - serei Katinha para sempre. Serei a doutora quando necessitar de alguma urgência e serei Lisa para decidir algumas questões que eu não entenda. É só isso! E você Herbin? Você tem em seu poder, doutor Cristo que fazia o bem, Tadeu e Wagner para se defender e o mais importante, sem o homem mau do J.J. que você deletou de vez.

Tapei o meu rosto com as duas palmas da mãos forçando buscar uma resposta: -  É um dilema e uma mudança brusca! Por enquanto, estou pensando em retirar o CHIP. Não desejo romper os paradigmas da felicidade. Não quero outras pessoas em meu corpo, entende? Quero ser eu mesmo!

E Katinha respondeu:- você será você mesmo! O fato de você se transformar em Tadeu, não implica a sua vida de Herbin. Você  não se lembrará que se incorporou em Tadeu ou doutor Cristo, a não ser que você se machuque fisicamente. Aí, todos terão a mesma dor tentando descobrir como isso ocorreu. Uma vez adaptado, você será feliz.

E respondí: - é por isso que estou aqui, Katinha, nesta prisão. O J.J. invadiu o meu corpo e fez o delegado Ari de refém apontando a arma em seu ouvido. E como vai se resolver este problema? Estou com problemas de consciência.

- É só não cometer delitos, mas você deletou J.J. e ele não vai mais voltar!, respondeu Katinha. Se você for ético, tudo vai sair bem. Você tem que dominar o CHIP. Não há problema nenhum.

Wagner apoiou totalmente a Katinha, comentando que ele próprio estava seguro, pois não pretendia utilizar para fins maléficos e se possível, sem utilizar para o resto da vida, mas mesmo assim, a minha decisão era de desfazer. A minha tia desejou-me felicidades e também apoiou permanecer com CHIP alegando que era um grande privilégio desfrutar desta tecnologia, que era para poucos. Era uma loteria que eu tinha ganhado. E avisou-me que um advogado da família estava à disposição.  Agradeci e perguntei pela Lina e Wagner me respondeu prontamente que ela permanecia na cidade e deu-me o recado que ela queria conversar comigo fora da prisão. E assim despedimo-nos com abraços e beijos. 

Em 6 horas estava livre da prisão com retorno para depois de amanhã. O que se esperava aconteceu. Era noite e ao sair para a rua, Lina estava à minha espera iluminada pela luz de um poste. Ela virou-se vagarosamente para mim e repentinamente mudou de humor. Ela percebeu que eu ainda era Herbin e não Tadeu.

Ela aproximou-se e beijou o meu rosto. É claro, retribui com carinho com um abraço forte e disse em seus ouvidos: - Lina, vou continuar Herbin, temos que respeitar código de conduta. Ela sorriu apertando os lábios e olhando para o chão com se quisesse dizer algo e peremptoriamente, disse: - você tem onde ficar?

- Tenho. Talvez eu vá para a fazenda da minha tia Odete que você bem conhece. Mas o que gostaria mesmo era repousar num quarto de hotel para pensar. Estou proibido de sair do país. Estou autorizado a permanecer em minha residência em São Paulo e continuar trabalhando. Ofereci a eles a minha total confiança.

- Vem comigo! Já estou quase indo embora, já não tenho mais nada a fazer por aqui. Estou desolada porque Tadeu se foi. No mais tardar, preciso me ir e rever os meus valores. Aconteceu de tudo em menos de um mês e devo ter sofrido uma transformação que só outros poderão me julgar. Vamos andando, Herbin, enquanto conversamos. Vamos para o meu hotel.

 Passamos num super-mercado e adquirimos dois copos de vidro, um vinho tinto e branco doce, metade de um queijo Camembert, alguns gramas de salsicha alemã e uma linguiça defumada, azeite extra virgem e é claro, duas garrafa de água mineral.

Enquanto Lina estava no banho, passei rapidamente a preparar os petiscos à minha moda. Liguei a TV e fiquei pasmo com as manchetes do apresentador: "A POLICIA DESBARATA UMA QUADRILHA DE CIENTISTAS CLANDESTINOS"; e logo após, a apresentadora - "A NANOTECNOLOGIA A SERVIÇO DO MAL", provavelmente referindo-se ao doutor Cristo. E sem querer, li no jornal na poltrona:- "A ERA DAS ALMAS ELETRÔNICAS"; "OS EMPRESÁRIOS DE EVILATE ENVOLVIDOS EM CONTRABANDO DE CHIPS". Notei que éramos considerados do mal. É claro, algumas emissoras eram de propriedade de J.J. e essas manchetes poderiam mudar a opinião pública. Naqueles cinco minutos, ponderei: Será que estávamos sem noção de nossos atos? Quem estava errado? Será que eles tem razão? Tinha muito a pensar aqui dentro deste hotel. E repentinamente, Lina chegou  enrolada numa toalha encostou-se a mim e disse: - Herbin, queria falar com Tadeu. É o meu último desejo antes de ir embora.

Pensei um bocado e senti o olhar triste de Lina. Como decidir? Se eles se amarem, quem será responsável pelo gozo? Estava confuso, tudo que pensava, achava que era fora de ética. Lina insistiu fervorosamente chegando a ajoelhar. Perguntei-me até onde iria este amor tão profundo pelo Tadeu.

E ainda pensando trinta vezes, decidí seguir o coração, peguei o "chaveiro mágico" e liguei a tela. Entrei no aplicativo e fiz o "download". Senti-me flutuar e ouvi a voz longe de Tadeu: - Lina!

E assisti a última cena.

Ela tinha deixado a toalha de banho cair aos seus pés.

FIM continua

CIDADÃO ILUSTRE 51

Akio Kimura - 22/07/2012

NOVELA DAS NOVE

Alguém chamou por meu nome na delegacia: - Herbin, queira se dirigir até a sala do delegado Ari.

Levantei-me da cadeira, joguei o copo descartável de suco e o prato de papelão de "Beirute" e fui em direção ao destino.

Lá estavam os delegados Ari e Godofredo, um do Estado e o outro, Federal respectivamente. Eram perguntas de praxe, apresentação de documentos e algumas perguntas, pois a minha pessoa fez refém, nada mais nada menos do que  um delegado da cidade. Eles não sabiam como proceder sobre a minha situação. Mas por lei, eu deveria estar preso mesmo, pois é a minha pessoa física que havia cometido o crime e não o J.J., mas o ato era exclusivamente dele. E como explicar para os outros que o fator gerador era o CHIP que eu tinha dentro de mim?

E ficou decidido que haveria consulta a outros advogados e juízes e que fizesse uma demonstração sobre o poder do CHIP diante de todos. O escrivão registrou tudo em computador. Assinei os papéis de autorização e eu teria de permanecer na cela até a segunda ordem. Perguntei sobre o corpo de J.J. e me surpreendi com a resposta: - ele está em estado de coma sob cuidados de um hospital famoso; respondeu o delegado Godofredo.

 O J.J. teria que estar morto, ele não deveria viver. Mas tive que entender a situação da parte deles, todo o ser humano, mesmo portador de periculosidade extrema, tinha direito à vida. E marcamos para amanhã outra reunião, agora com direito a psicólogo, psiquiatra, advogado e até um cafezinho. Enquanto tentava folhear as páginas do diário de Lisa, de repente anunciaram visita: - é a senhorita Marcelina, a Lina! 

Lina me abraçou forte como se abraçasse o seu namorado, mas por questões de ética moral, a atendi como Herbin sem me tranformar em Tadeu. Eu expliquei as razões e ela me entendeu que era imposição dos delegados também. Conversamos sobre o CHIP e ficou decidido que eu ficaria apenas como Herbin. Lina me deu razão, mas ficou triste por saber que não veria Tadeu para o resto da vida. 

À noite, deitei-me na cama e passei a ler o diário de Lisa. Folheei algumas páginas e não constava datas e nem o local onde foram escritas. Descartei poemas, cartas de amor, desenhos e rascunhos da revista em HQ que ela publicou. Escolhi uma página que julguei interessante apesar dos erros de português.

"Quem és tu, minha mãe, que um dia te vi suplicar a Deus para me protegeres através da música? E quem sou eu que nasci sob a tua égide, fruto de um amor ocasional? Quem é este homem do campo que te abrigou em teu relento e te passou a magia do amor? É aqui que tudo aconteceu? O que te atraiu?"

As palavras davam a crer que ela conhecia a mãe. Havia páginas em branco, figuras mal desenhadas de um homem de chapéu. Passei para outras páginas e encontrei uma interessante com letras diferentes em alto e baixo como se fosse uma réplica: "Sou tua mãe eternamente. A tua vida é a minha e tenho feito orações para ti em todos os momentos da minha vida. Sou cantora lírica, canto para Deus e para os Homens, canto a fé, tu sabes. Tu és filha também de teu pai que sempre te acolheu. Foi um momento mágico de traição, um amor divino que precisava ser feito porque havia um fruto a ser colhido e Deus me permitiu que tu fosses este fruto. Este teu pai surgiu como um estranho santo, um anjo pecador e que foi perdoado por Deus."

A religiosidade estava presente em todos os momentos e o pecado também. Dava-se a impressão que a mãe era uma pecadora e não queria ser julgada como tal. Na outra página, havia novamente desenhos de um cometa passando diante da lua cheia com céu salpicado de estrelas. Folheei mais páginas e vi figura de um homem de chapéu olhando o céu em direção contrária ao do desenho e tinha algumas frases que pareciam perguntas. As letras eram de forma, em caixa alta: "Seria aqui o Jardim do Éden? Não teria sido a serpente que te induziu a procurar o fruto, que sou eu? Para quê se tens um filho? O desejo da carne foi mais forte do que a moral? Esta fraqueza de teu espírito te deixou livre para o amor? Desejavas sim uma filha que teu marido não conseguiu te dar! E eis me aqui realizando o teu desejo! Tu fostes egoísta, deixou-me ao desapego a mercê do destino. Tu me escondestes! Tu me esquecestes!"

Pelo visto, a mãe havia abandonado-a. As folhas eram intermináveis e a história parecia um novela das vinte e uma horas. Ela confundia a história real com a estória de seu HQ. E assim que lí nas páginas seguintes: "Mãe, tentei ser justa em todos os momentos da minha vida, tentei ser humana e rezei muito! Um belo dia veio-me um anjo, em forma de uma ave, um abutre num momento que mais sofria - JÔ! As minhas ilusões foram-se quando  perdi um grande amor, depois outro e mais outro. E esta ave foi a minha salvação, JÔ, minha companheira!

E notei que a depressão começava vir à tona. Descartei algumas páginas onde se constavam palavrões, invocações ao demonio e vingança. Para quem seria esta vingança? Numa das páginas finais, li: "O meu pai partiu para sempre. Não sabia o que fazer, minha mãe, sempre ajudei aos outros mas não soube ajudar a mim mesmo. E era tão simples como a vida, mas mesmo assim, mergulhei-me ao inferno. Deixei meu pai sobre a mesa e trancamo-nos eu e JÔ, o anjo que surgiu no meu caminho. Pratiquei magias para que o meu pai retornasse. JÔ, no mesmo dia saboreou a carne podre de meu pai morto. Segui o teu ato e também o devorei por acreditar que ele viria à vida para me ajudar."

Estava claro que a sua doença mental começava a se aflorar. A sua ficção se misturava com a sua vida real. E numa página repleta de desenhos infantís, notei uma figura interessante - um garoto empinando uma pipa e uma menina. Sobre o desenho, uma seta indicava o meu nome - HERBIN em letras maiúsculas. E pensei que a cantora lírica pudesse ser a minha mãe, ela era religiosa ao extremo e já tinha estado por aqui várias vezes. Ela poderia ter se apaixonado pelo pai da Lisa e tê-la concebido. Mas era difícil de acreditar numa hipótese dessas, mas não seria impossível. E eu, poderia ser meio irmão dela. Na última linha da página, uma frase: "Remova o pó do teu corpo para que tu vivas e caminhes nestas escuras ruas de pedras mortas onde a cruz desta pequena cova queime a luz do meu silêncio"

Era uma frase desconexa, uma espécie de poema, mas tinha muito a ver com a sua religiosidade, da sua loucura e da vida sofrida que tinha tido. Tinha muito a ver com a sua alcova secreta. No verso da capa, o número 4 - Wagner. Era o que esperava, o número 4 era o Wagner, irmão de Tadeu e Katinha, consequentemente, meus primos.

E numa letra rebuscada, no contracapa, o nome da Katinha, doutora Marcia Silvia e uma seta indicava a palavra CHIP. Provavelmente, uma delas tinha em seu poder, o poderoso CHIP e a única sobrevivente era a Katinha. Sim, ela poderia se transformar em Lisa. E mais abaixo: Herbin, Tadeu, J.J., Vanderson e doutor Cristo. Tadeu, ex-delegado Vanderson e doutor Cristo estavam mortos, J.J. em coma e eu, Herbin, aqui esperando o que me destina.

Dentro de um enorme coração desenhado constava o nome de Tadeu, do Número 5 e Ari. Agora estava entendendo, o delegado Ari fora também um grande amor dela. Veio em minha memória que ele havia me dito que conhecia o morro Careca do Padre na palma da mão.  

E deixei para ler o diário no dia seguinte.

FIM continua

 

 

 

CIDADÃO ILUSTRE 50

Akio Kimura - 01/07/2012

UMA VELA ACESA PARA VOCÊ

Após ter manipulado o chaveiro controle remoto, percebi a minha estranha transformação. Era como se mudasse de canal de TV. A minha voz modificou e notei repentinamente que os meus pensamentos ficaram à margem dando aos poucos, lugar aos de Tadeu. E outra coisa interessante é que ele deu prosseguimento pensando e falando em primeira pessoa. Era um erro a ser corrigido para que futuramente as personalidades não venham a se misturar e caso aconteça, as consequências seriam desastrosas para todos, principalmente para mim. Só teria que ser cuidadoso com o J.J., já deletado, mas caso ele esteja embutido em algum arquivo, poderia retornar abruptamente como aconteceu há pouco. Era eu, Herbin em pessoa, com quatro ou cinco espíritos construídos tecnologicamente habitando o meu corpo através de um CHIP da espessura de um fio de cabelo. E agora, sou Tadeu e neste momento, a minha personalidade está se esvaindo como se fosse poeira levada pelo vento. Espero que Will, o meu gerente de segurança esteja me acompanhando e caso aconteça algum imprevisto, me socorrer urgentemente. Ei Will, fique atento!

Estou desaparecendo...

Tive alguns contratempos em escalar o morro "Careca do Padre". No início, muitos arbustos e plantas espinhosas ao redor. Subi uma escada feita de toras de árvores segurando no corrimão de correntes de aço. Na verdade, este local pertencia ao meu pai Jorge, morto numa emboscada covarde no sítio do Riverios com uma bala na cabeça. Lamentável! O que passou, passou. O local estava em bom estado de conservação. O meu pai idolatrava este morro e vinha uma vez por semana para assistir ao por do sol e à noite, para contemplar o nascimento das primeiras estrelas. Ele acreditava que havia forças cósmicas ao redor porque à noite, as estrelas se mostravam nítidas e vivas e saia dali com alma rejuvenecida. Mas a minha estadia por aqui tinha outros motivos: Lisa estava sob debaixo daquelas pedras mortas e tinha um diário destinado a mim. Que pedras seriam essas? Seriam aquelas lápides enfileiradas de um cemitério calandestino no tempo da escravidão? Sim, o cemitério estava em outro atalho. Era lá que deveria ir.

Após analisar as lápides, não me convencí. O chão ao redor não tinham marcas recentes e nem pistas de violação. E fui em outra direção.

Ao caminhar por lugares inócuos, repleto de cobras e lagartos, sentei-me para raciocinar. Pedras mortas. Seria no topo do morro? Estaria ela por debaixo daquelas placas de pedras quadradas uma sobre a outra? Era muito interessante e Lisa, há muito tempo havia citado que era fascinada por aquelas sete placas de pedras moldadas pelo vento.

E subi. E pensei no último namorado, o Oliveira Cinco, o elemento que cometeu eutanásia em Lisa e conseguiu trazê-la até aqui. O fato é que ele conhecia o lugar. E veio uma dúvida na minha cabeça - o Número 01 era provavelmente o J.J., o 02 Vanderson; o 3 Praxedes, o 4 era incógnito e o Cinco, irmão do Rodrigo, no qual acertei uma pedrada na cabeça numa brincadeira de infância consolidando em morte após alguns anos. A sequela era desta pedrada, diziam as más línguas. Faltava o Número 04. Quem seria? Ele estava presente na patrulha? O fato é que era de difícil identificação, pois não tiravam capacete de maneira nenhuma. O fato de eu estar vivo poderia ser graças ao número Quatro?

Encontrei uma gruta sob as placas de pedra e entrei. Com a luz do meu chaveiro, iluminei o caminho, sempre atento às paredes onde poderiam ter uma espécie de leito, uma fenda ou sinal de uma entrada de difícil acesso. Passei por vários caminhos escorregadios e curvos. As estalactites brilhavam feito lâmpadas com a minha passagem e teria que ser cuidadoso para não avariar estas criações maravilhosas da natureza. Para mim, era uma vida de séculos. De súbito, uma entrada chamou-me atenção, deparei com uma estalactite quebrada e caminhei pelas pedras escorregadias e escuras. Nas paredes tinham saliências para se apoiar com as mãos. Estava sim na pista certa. Arrisquei-me preocupando-me com a volta. E me indaguei como a Elisa encontrou este lugar labiríntico, solitário e tão bonito? O que ela pretendia? Ser eremita? Somente a mente dela poderia responder e na melhor das hipóteses, a resposta teria que ficar enterrada neste lugar eternamente. E eu só tinha medo de uma resposta - de ser minha culpa por não ter retornado à Evilate para me unir a ela.

E lá estava um leito de pedra. Caminhei uns três metros e iluminei. Lá estava o esqueleto erecto de Lisa. As pernas e braços mecânicos estavam em bom estado de conservação, o que suscitou dúvidas sobre o Cinco. Disseram as más línguas que ele trucidava o corpo da amante enquanto amava, mas a impressão que tenho é que quando Lisa conheceu o Cinco, ela já tinha próteses nas pernas e nos braços; portanto o Oliveira Cinco poderia ser inocente. Ele seria do tipo que matava os foras da lei, mas era incapaz de matar-se. E aí que meu irmão Wagner, o provável número quatro disparou o tiro certeiro em sua cabeça na Praça das Flores.

Ao lado de Lisa, flores secas, velas e cinzas de incensos no qual sentia no ar, este cheiro de fumaça indicava que alguém tinha marcado a presença por aqui há algumas horas. Quem seria?  E era triste sempre me perguntando. Nunca havia imaginado uma situação semelhante, uma ex-namorada enterrada debaixo de uma gruta. Na verdade, ela estava vivendo num inferno. De repente, iluminei mais ao fundo e encontrei outra fenda e lá estava um pequeno baú de plástico. Fiz um esforço contorcendo-me com dificuldades, pois o espaço era parco. De bruços, abri o baú. Era um pequeno diário de Lisa com várias revistas em quadrinhos de sua autoria. A capa mostrava uma menina de capuz no dorso de um abutre gigante chamado Jô. Lembrei-me que tinha lido esta revista, mas nunca tinha imaginado que fosse dela. E aí, aquela confusão mental em que me metí de me confundir a realidade com a ficção. Lembro-me que o personagem foi salvo de uma execução sumária pela menina montada numa ave tomando-lhe a arma do Cinco. E era eu que estava como vítima! Mas como se ainda tenho a sensação de ter conversado com a Lisa no primeiro encontro? Vi com os meus próprios olhos aquela ave gigantesca chamada Jõ! Mas na realidade, não existia abutre dessa espécie na região a não ser nas montanhas altas da Cordilheira dos Andes, o Condor. Guardei o chaveiro de J.J. e a sua arma dentro do baú. Não queria de maneira nenhuma ser flagrado com arma alheia. No mais, achei por bem deixá-la em paz e aproveitei para acender uma vela, uma vela acesa para você Lisa! Não era do meu feitio este ato tão religioso, mas Lisa merecia ao menos uma luz, a minha luz pela última vez. Peguei o pequeno diário e enfiei no bolso do blusão e retornei.

Aos quinze minutos de caminhada, ouvi barulhos de motor rompendo o silêncio do lugar. Surgiu de repente um helicóptero da PM em voo rasante. Eles, certamente me identificaram, pois havia um na porta apontando o dedo em minha direção. E logo atrás dos arbustos, ouvi vozes e me indaguei como eles conseguiram subir num morro tão íngreme em pouco tempo? Por precaução, escondí-me e deitei no meio da mata porque poderiam me tomar por J.J.; e teria que escolher em quem poderia me transformar. E me deixei como Tadeu por possuir o tom grave na voz onde a maioria poderia me reconhecer.

 Os PMS passaram por mim e dei graças à sorte por eles não terem trazido cães farejadores porque não saberia se o cheiro do J.J. estaria impregnado em mim. E pensei adiante se o cheiro da pessoa mudaria com a incorporação de outra pessoa. E passei a me cheirar e não reconheci. Lembrei-me que espírito não possuia cheiro. 

Arrastei-me por um bom tempo como se fosse um reptil. O meu plano era me entregar para uma pessoa amiga porque não conhecia o tal de  comandante Godofredo da PF e nem tampouco, doutor Ari, filho do ex-delegado Vanderson. Quando saí para a USP, o Ari era um moleque de dezesseis anos e nem dava a mínima para existência dele. E agora, ele era um perseguidor. Eram uns dez PMs, todos desconhecidos e por parte da PF, uns quatro homens. Por que PF? Sim, o J.J. era um criminoso muito importante. Pudera, um falso juíz que conquistou a todos pela sua personalidade forte e palavras contundentes a ponto de ser um deputado federal com forte influência política. E depois de vários cargos no governo federal e amizade com muitos políticos influentes, adquiriu várias empresas de construção e ainda mais, dono de cassino no Paraguai e nestes últimos anos, prefeitura de Evilate, agora, deposto. Por que ele tinha escolhido uma cidade tão pequena para ser o centro de operações? O que haveria de interessante por aqui? Provavelmente terras e minérios no sítio dos anões, os Rivérios. Onde havia cheiro do dinheiro e corrupção, lá estava ele. E a PF esta lá para levá-lo. Mas como se este corpo de Herbin está emprestado a mim, eu, Tadeu? Como explicar que J.J. foi deletado?

Deitado quase eternamente perto de umas pedras cheias de arbustos, topei com uma jararacuçu. Prendi a respiração e fiquei imóvel, pois tinha horror às cobras. Ela, provavelmente fora atraída pelo calor do meu corpo e passou pelas minhas costas e resvalou na minha orelha e ficou parada por uns momentos mostrando a língua, mas não revidei, é claro! Ela se foi com a presença de alguém mais poderoso. Ufa, já estava preferindo me entregar quando alguns PMs se afastaram do lugar por causa da bendita cobra, mas um ficou parado. Os seu pé direito pisou a minha mão. Fiquei inerte mais uma vez e ele se foi. Levantei-me todo suado, sujo e estressado. Não aguentava mais ser foragido quando, de súbito, o cano de uma arma roçou no meu ouvido direito: - fique quieto J.J. e se deite novamente! Vou revistá-lo!

Provavelmente era a voz do delegado Ari. Ele revistou e encontrou o diário, deu uma folheada e jogou ao meu lado. Achei estranho ele não ter mexido no chaveiro, pois ele sabia que era um controle remoto.  E mais sorte ainda que tinha deixado o chaveiro do J.J. e a arma do J.J. na caixa de plástico de Lisa.

- Agora fale para identificar a sua voz!

Ainda deitado de bruços, pedi para me virar e ele consentiu. De fato, era o doutor Ari e logo disse-lhe:- sou Tadeu!

O delegado comunicou a todos os integrantes que tinha me encontrado. O difícil era provar, pois hoje em dia havia muitos artistas que imitavam personalidades importantes. E ainda mais, eu estava no corpo de Herbin, embora a semelhança física enganasse alguns incautos. O delegado fez algumas perguntas de praxe na frente do delegado Godofredo e me reconheceu como Tadeu, raciocinando que J.J. não saberia responder sobre a minha vida pessoal devido a minha ausência em Evilate. O que confirmou realmente que eu era Tadeu foi o fato de que o delegado Ari era meu fã quando me apresentava como jogador de capoeira com o Mestre Dinda. Nem sabia disso que era conhecido assim.

- Delegado, posso pegar o diário que está do meu lado?; perguntei-lhe.

- Pode. Lisa era a sua namorada, não era?

- Era, delegado. Vínhamos aqui e escrevemos este diário (mentindo) que deixamos naquela casa abandonada.

- Você quer dizer, naquela gruta. Conheço o local na palma da minha mão.

Fiquei pasmo, mas achei por bem não falar muito mas não resistí: - o senhor este lá?

- Estive na semana passada. Ela foi minha namorada antes do Oliveira 5. E depois fui para São Paulo cursar Faculdade de Direito.

- Doutor, tinha cheiro de incenso lá! Quem esteve?

- Não sei, Tadeu. Provavelmente, o último namorado.

E assim fomos em direção ao local mais aberto onde o helicoptero se preparava para pousar.

Lisa esteve a vida inteira à procura do amor sem no entanto encontrar.

No amor, ora se ama, ora se mata. Oremos.  

FIM continua

FIM continua 

CIDADÃO ILUSTRE 48

Akio Kimura - 09/06/2012

MORTE AOS MORTOS

No calor da situação, a igreja abandonada estava em franca ebulição.

O delegado substituto Ari Peçanha entendeu ou fingiu entender que seu pai, ex-delegado Vanderson não estava louco. Ele não acreditava nessa história de "CHIP" da finura de um cabelo pudesse cometer tanta balbúrdia. Só se convenceu quando eu manipulei o chaveiro minimizando o "CHIP Tadeu" e o fiz voltar para o verdadeiro Vanderson com o seu trejeito e voz original contorcendo o rosto como se estivesse voltado de um sono profundo e disse as primeiras palavras quando viu o seu filho Ari: - filho, o que você faz aqui? O que estou fazendo aqui? O que aconteceu?

O delegado Ari abraçou-o forte e só não derramou lágrimas para não comprometer a sua imagem perante a turba que já estava em posição de fila: - pai, como vai você? Aonde você estava? Tente se lembrar!

Vanderson olhou ao redor e ao ver pessoas e policiais  e principalmente o J. J. E prosseguiu a fala sem oferece oportunidade do seu filho falar:- J. J.? O que houve com ele? Ele está paralisado! Ele se reelegeu como prefeito?

E entrei na conversa: - É um longa história, Vanderson.

Ele logo me reconheceu:- Herbin! Que prazer de sua visita!

E então cheguei a conclusão de que J. J. estava usufruindo a imagem de Vanderson há muito tempo. E para provar para o delegado que havia um CHIP dentro dele, acionei o chaveiro para que Tadeu voltasse a substituí-lo e se surpreeendeu com a transformação de Tadeu/Vanderson: - ganhei o jogo contra J. J.? Ele está parado!

Para não ter problemas futuros, acionei novamente o chaveiro deixando-o paralisado como se fosse um robô quando ouvi o delegado: - Herbin, não estou acreditando! Como vou explicar isto? Já basta crimes de corrupção que não é pouco, mortes no trânsito, homicídios! E agora, este tipo de crime que ninguém sabe que existe? Como julgar?

E fiquei a pensar que este tipo de crime que J. J. inventou poderia tomar proporções exageradas e que futuramente poderia transformar as personalidades das pessoas em artificiais. E com o avanço rápido da informática, problemas inimagináveis poderiam surgir.  

De repente, para surpresa de todos, a porta da igreja se abriu e surgiram figuras de Katinha, doutor Cristo com uma mochila nas mãos e a doutora Márcia. Os três passaram a caminhar pelo corredor observados por todos os presentes da igreja parando próximo às estátuas de santos. Katinha tomou a palavra como se fosse um líder: - primeiramente agradeço à Lina pelo telefonema e vimos imediatamente para cá. O doutor Cristo não tem muito a dizer mas tem muito a fazer. Para vocês que não o conhecem, ele tomou uma decisão e deixo com ele, a palavra.

Doutor Cristo - Ao delegado de Evilate e aos membros da Polícia Federal, sou o responsável por produzir estes CHIPS de nanotecnologia e implantar em humanos. Não desejo maneira nenhuma contar a história da minha vida aqui, apenas quero dizer que estou dando um fim neste projeto que eu e o Jorge, pai de Tadeu, Vagner e Katinha realizamos e com fim humanitário. No início, era um projeto de ajuda para pessoas doentes e desfavorecidas. Com o correr do tempo, o alto custo operacional se tornou inviável e para não abortar o projeto foi necessário obter verbas e partimos para atendimento à pessoas com posses. Isto, não para nos enriquecermos, mas para nos sustentarmos com a nossa pesquisa em nossas operações. E obtivemos sucesso, mas nunca imaginávamos que surgissem pessoas com mal intencionadas aproveitando-se  das vantagens do CHIPS para proveito próprio e até para cometer atrocidades. Eu e a doutora Marcia trabalhamos todos estes últimos anos para destruir o que construimos. Não imaginávamos também do grande poder que o CHIP proporcionava e o uso indiscriminado deste poder teve proporções irreparáveis na cidade de Evilate através do ex-prefeito J. J. que não soube limitar as fronteiras da cibernética. Ele foi descobrindo caminhos obscuros do mal menosprezando a ética moral e espiritual. Por isso, estamos aqui com um aparelho que construimos para reparar os danos causados à população. Estas pessoas beneficiadas terão as suas vidas ceifadas para o bem do futuro. Eu sei que estou cometendo uma espécie de eutanásia, mas na verdade, se trata de enviar a alma em seu devido lugar. Isto, muito necessário para que o mundo não se torne um inferno mais do que é. O delegado poderá nos prender por este ato se considerar criminoso. Nós nos renderemos e enfrentaremos a justiça se por acaso sobrevivermos, mas o fato é que também seremos sacrificados por estarmos hospedados em corpos alheios. Mas acreditem, descansaremos e morreremos com uma parte da consciência limpa.

Todos ficaram calados sem acreditar. Muitos não sabiam da existência do CHIPS e queriam prender o doutor que já estava com o aparelho acoplado ao Notebook. O delegado Ari e um membro da PF chamado Godofredo levantaram as mãos para impedir a prisão. O doutor Cristo teclou o computador e explicou:- Deletarei estes CHIPS e todos que tiveram CHIPS implantados há quatro anos terão suas vidas artificiais devolvidas à verdadeira morte. O efeito da desintegração será suave, sentirão uma sonolência e fecharão os olhos para sempre. Gostaríamos que todos  sentassem no chão. E o Cristo foi o primeiro.

O delegado preocupou-se e estava na eminência de impedir este ato, mas julgou necessário que o doutor consolidasse a ação. Eu, Herbin estava a salvo. O meu CHIP era antigo. O Cristo baixou a cabeça e apertou o enter.

O J. J. foi primeiro a cair. O delegado correu até o corpo e verificou. Estava sem vida. E por impulso peguei o chaveiro e e antes de completar o DOWNLOAD fiz a transferência de dados do CHIP de Tadeu para mim. E por puro egoísmo, repetí a operação quanto ao CHIP do doutor Cristo. Seria uma perda irreparável perder um CHIP como a dele.

O doutor apertou outra tecla e Vanderson caiu. Estava provado que J. J. o assassinara. O delegado Ari Peçanha correu até o seu pai desesperado. Verificou o pulso e o coração. Estava sem vida. Ele se levantou com ódio e disse: - você, doutor Cristo, é um assassino! Você matou meu pai! Ele não tinha nada a ver com isto! E foi em direção ao doutor empunhando a arma e foi seguido pelos PMs e pelos homens da P. F. 

Doutor Cristo emitiu uma voz tranquila:- Senhores, adeus!

O DOWNLOAD havia se completado. Doutor Cristo e a doutora Márcia já não existiam. Só a Katinha ficou de pé.

Era o fim de quase tudo. Verfiquei a tela do chaveiro que comunicava que o procedimento fora um sucesso.

E ouvi dizer do delegado:- e agora, como relataremos no B. O.? Que o meu pai morreu porque estava morto? E o J.J. que todos o viram sendo sepultado, ressuscitou e morreu novamente?

Os anões e os policiais que viram o ocorrido estavam boquiabertos, mas em alguns minutos se recuperaram e passaram a colaborar na condução de cadáveres.

Delegado Ari disse em voz alta: - pessoal, vocês estão livres! Vamos elaborar um B.O. convincente com a lei.

E para testar se realmente a ação tinha obtido sucesso, acionei o chaveiro virei-me para Lina :-  e agora? Estou Tadeu! Você me reconhece?

Lina se surpreendeu mas se conformou: - sim, meu bem!

FIM continua

 

 

CIDADÃO ILUSTRE 47

Akio Kimura - 27/05/2012

MILAGRES ELETRÔNICOS

Na mentira, esta igreja abandonada tinha a fama de ser mal assombrada e na verdade, era o quartel general do bando de J. J., então, o maior prefeito corrupto que surgira em oito anos de sua gestão. Mal sabia que o povo de Evilate estava em mãos erradas, enganado pelo carisma e oratória contudente do ex-prefeito. E ele estava ali em corpo e em alma "chipada" de Tadeu.   

A figura de J. J. representada pelo CHIP de Tadeu (J. J./Tadeu) levantou-se vagarosamente olhando todos os cantos das paredes. Fixou seus olhos na figura do anjo da asa quebrada perto do altar como se quisesse se comunicar com ele e contou a quantidade de estátuas de pedra sabão sentados no assento e falou em voz baixa:- já estive aqui! Reconheceu os seus amigos anões, principalmente o Volnar, o líder e deu alguns passos e ajoelhou-se para abraçá-lo. Volnar recuou, não abraçaria de maneira nenhuma um inimigo em comum. E por precaução, me afastei junto com a Lina e ficamos por detrás de um pilar para que ele não nos visse. Seria estranho ver um primo na pele de um ex-prefeito corrupto e dirigir-se a mim:- Herbin, o que faz aqui? Eu hein?

J. J./Tadeu se expressou de imediato em direção ao anão: - Volnar, não se afaste! Sou eu, Tadeu! Não reconhece a minha voz?

- Você? O que houve? Baixou espírito? Você foi cremado!

- Volnar, estou incorporado no corpo de J. J. através de um CHIP da espessura de um fio de cabelo. O corpo de  J. J. se move às ordens do meu CHIP. O espírito de J. J. está deletado.

E Volnar não acreditou então cochichei em seu ouvidos:- pode cumprimentar, ele é Tadeu.

Volnar olhou de soslaio para o pessoal e com desconfiança, deu um passo a frente e o cumprimentou oferecendo-lhe apenas a mão.

De repente, pela porta da sacristia, o ex-delegado Vanderson e mais três capangas mal encarados e troncudos surgiram com ares de arrogância e em tons ameaçadores: - é aí que você se engana, Tadeu.

Todos se voltaram para a figura de Vanderson, o responsável pela operação no massacre dos anões no sitio de Volnar e este, não suportou vê-lo frente a frente e virou o rosto aos prantos. Ele se aproximou de mim como se fosse um filho e acalentei-o batendo as palmas das minhas mãos em suas costas:- fique calmo, Volnar. Vamos ver o que este ex-delegado quer. Neste mesmo instante, J.J./Tadeu me reconheceu:- Primo! Que surpresa!

Fiquei desnorteado. Não sabia como me recompor. A única alternativa era cumprimentá-lo, mas Vanderson me impediu:- Alto lá! Quem manda aqui sou eu! Então vocês se conhecem? Fazendo social aqui nesta igreja abandonada? Parabéns!; e ironicamente bateu palmas pausadas: - então, pessoal, deixe-me apresentar, sou o Vanderson/J. J. Daqui a pouco retomarei o meu corpo, Tadeu! Deletarei a sua alma cibernética em segundos. Ele pegou o "chaveiro mágico", o que seria na realidade um controle remoto para acionar o "CHIP". 

Ao perceber a má intenção de Vanderson/J.J., J.J./Tadeu sacou o seu "chaveiro" do bolso e iniciou o duelo. Parecia um duelo de "faroeste".

Ao notar que os seus "chaveiros" eram iguais, descobri que o meu também era idêntico e retirei-o do bolso cuidadosamente sem que os homens de Vanderson/J.J. percebessem. E assim tentei manejá-lo. Era como se fosse um "game". Enquanto Vanderson/J.J. e J.J./Tadeu se degladiavam com seus respectivos "chaveiros", procurava me adaptar procurando atalhos e bloquear alguns para a minha proteção. Os segundos pareciam séculos, pois os chaveiros dos dois eram do sistema 'touch" e o meu era antigo, um teclado virtual. O "touch" era moderno e mais rápido.   

Era tarde demais! Vanderson/J.J. já tinha se incorporado em seu verdadeiro corpo. Para evitar que Tadeu fosse deletado, incorporei o J.J./Tadeu para o corpo de Vanderson e os papéis estavam trocados. Quanto Tadeu e J.J. não havia entendido esta troca, pois eles não sabiam que eu tinha "o chaveiro mágico". E não precisaria mais me encontrar o doutor Cristo para perguntar se eu era portador do "CHIP". O meu "chaveiro" já tinha me explicado tudo. Eu era um deles. O que me salvava no momento é que eu era um ótimo jogador de "game", é claro, depois do Will, o meu funcionário braço direto da minha empresa.

Agora, J.J./Tadeu era J.J./J.J. e Tadeu era Tadeu/Vanderson.

- Ahahah! Tadeu está deletado! Vocês viram? Agora estou incorporado em meu corpo original!; disse J.J./J.J. com sabor de vitória. Ressuscitei-me! Nunca tinha imaginado que a minha catalepsia pudesse me salvar!

Tadeu/Vanderson, estupefato, não conseguia acreditar. Estava no corpo do ex-delegado e rapidamente respondeu:- aí que você se engana, J.J.!

O J. J./J.J. se surpreendeu:- como você fez?

Tadeu/Vanderson também não sabia explicar. Nenhum dos dois fazia idéia da minha participação. E por precaução, estava preparado para tudo. O "chaveiro" era de fácil manejo. E percebi que tinha habilidade suficiente para dominar o jogo.

Enquanto os anões tentavam entender alguma coisa, a voz de um dos homens armados de J.J./J.J. apontou o dedo e veio em minha direção para no mínimo dar uma coronhada na minha cabeça: - é ele! Aquele que está do lado da moça! Está com um apetrecho na mão!

 Antes que J.J./J.J. respondesse, acionei as teclas e bloquei a sua fala e inclui a minha na dele.:- deixem-no em paz! Ele é meu amigo!

E acabei descobrindo vários atalhos. Deixei os dois degladiantes mudos. Agora havia entendido a minha situação após sair daquele hospital sem fala. O doutor Cristo não tivera tempo para me explicar sobre este "chaveiro" e Vanderson mal sabia que o J.J. tinha se apossado do seu. E sempre pensei que fosse um portador das sequelas em razão daquele acidente de carro juntamente com a minha mãe.

Ninguém estava entendendo. Os dois faziam gestos e de fato, não sabiam a linguagem de surdo-mudo. Os homens de J.J./J.J. olhavam-se uns aos outros e quando ele ameaçavam caminhar para resolver a situação, eu acionava a mão de J.J./J.J. solicitando para que eles não se intrometessem.

Neste momento, ouvi som de carros e luzes fortes de farol. O dia já havia escurecido. Entraram brutalmente vários PMs com fuzis e alguns homens de preto da PF. Renderam a todos e antes de guardar o "chaveiro" deixei o Tadeu/Vanderson e J.J./J.J de mãos levantadas em sinal de rendição.

O primeiro a entrar no recinto foi o promotor Ari, substituto temporário do ex-delegado Vanderson e logo ao vê-lo disse: - pai! O que você está fazendo aqui?  

E matei a charada. O delegado ex-Vanderson era na verdade, um homem bom. O que havia atrapalhado a vida dele era o J.J. que se incorporava em seu corpo e comandava todas as atrocidades cometidas durante a sua gestão safando-se das culpas e dos julgamentos.

E o promotor Ari assustou-se com a presença do J.J. ao vivo! Ele participara do enterro do ilustre cidadão, chorou até.

- J. J.? O que siginifica isto? J.J. vivo? O que eles estão fazendo? Ficaram mudos?

Lina me cutucou: - Herbin, se manifesta, pô!

- Como eles souberam do lugar, Lina? Ah! Já sei! Você se comunicou com ele! Parabéns, tinha até me esquecido que você estava aqui e com celular!

E com muita má vontade, resolvi falar:- doutor Ari, sou Herbin.

- E daí? Estes dois não param de fazer gestos! Que brincadeira é essa, Herbin? O J. J. vivo! Nâo me conformo! 

- É uma longa história! O J. J. é portador da catalepsia patogênica. Os anões trouxeram para cá, doutor Ari! 

- Só de Ari, por favor! Eles trouxeram para quê? Para salvá-lo?

- Não, para malhar como se fosse o dia de Judas! Uma vingança ingênua, Ari!

- Herbin, não existe vingança ingênua! O que eles fizeram é crime!

- Mas J. J. está vivo! Ele está são e salvo! Sem querer, salvaram a sua vida.

O promotor esticou a boca e olhou-me com uma risada marota:-você tem razão! E agora você pode me dizer por quê eles não param de fazer gestos repetidos? O problema do J. J. entendo, ele acabou de sair da tumba. E o meu pai? Ficou doido? Ele nunca foi assim!

De repente, uma voz de um PM:- delegado, tem um cara trucidado! Parece o Praxedes!

O delegado se aproximou da vítima:- nossa! parece que queriam fazer churrasco dele! Que horror! Todos os presentes estão presos como suspeito da morte de Praxedes!

Todos foram enfileirados e levados  para fora. O delegado providenciou um caminhão do IML quando A voz de Praxedes ecoou no ar: - doutor Ari, me salve! Chame uma ambulância! O meu corpo está todo doído! Acho que fui atropelado!

Olhei para Volnar, o lider dos anões: - nós o salvamos, promotor!, "chutou"

No momento, fiquei calado concordando com o seu "chute", mas o fato é que foi prazeroso vê-lo vivo. Não saberia dizer até quando ele sustentaria a afirmação de que havia sido atropelado. E ouvi o promotor Ari falando consigo mesmo: - depois dessa, vou procurar um analista!

- Herbin, e estes dois? O meu pai e o J. J.? Eles não param de fazer gestos!

Logo enfiei a mão no bolso sem que o doutor Ari percebesse e desativei os movimentos deixando-os estáticos:- e agora, chefe?

- Quero que você me conte esta longa história. Afinal de contas, quem é você, Herbin?

- Primo de Tadeu, aquele que morreu. No momento, ele está hospedado no corpo de seu pai.

O promotor Ari botou as mãos na cintura e ficou observando os dois:- o que que eu vou fazer?

E chamou o líder da PF para conversar.

Neste momento, ouvi a voz de Lina: - que dia louco que foi hoje!

Promotor interrompeu a fala com o PF, virou-se e respondeu à Lina: - louco digo eu!

FIM continua


 

 

CIDADÃO ILUSTRE 46

Akio Kimura - 12/05/2012

LEVANTE-SE!

Will levantou-se do assento e disse para Herbin:- este meu apartamento está ficando pequeno. Veja esta sala, Herbin, está repleta de equipamentos de informática de última geração e se estende até o meu quarto. Estas máquinas vão acabar me expulsando para alguma prisão virtual.

Herbin riu satisfeito por ter entrado em acordo. Will era um gênio. O "game" teria que ser corrigido porque o filme de seu primo Marcelo não havia ido bem nas bilheterias até então. A idéia de transformar "CIDADÃO ILUSTRE num "game" era uma forma desesperada de se recuperar financeiramente.

- Will, quanto tempo vai levar para terminarmos a adaptação do filme para o "game"?

- Não muito,Tadeu. Temos que fazer você entrar na estória. Explico: você entra no filme como Herbin, um parente próximo de Tadeu, o que é verdade e terminamos com você. Tadeu já está desgastado com aquela ação das cenas do õnibus. Tadeu já não é Tadeu 100%, é J. J.

Os dois dirigiram-se até a cozinha e fizeram um sanduíche americano com uma pitada de bacon moído, o alimento predileto de Will:- o correto seria dispensar a maionese, mas ela é imprenscindivel. Já tentei outros ingredientes, mas deu maionese na cabeça.

Após o lanche, Will conduziu Herbin para o quarto com paredes verdes. Num dos cantos perto da porta, um computador com uma tela de 40" conectado a um aparelho eletronico e ao centro do quarto, uma poltrona reclinável.

Will - Herbin, sente-se e coloque os óculos. Ele produzirá imagens do jeito que você imaginar e se projetará no fundo verde, OK?

Herbin espantou-se com o estúdio e não resisitu a uma pergunta: - Will, se eu me imaginar estar dentro de um carro e me dirigir até a cidade de Evilate, vai aparecer neste fundo verde?

Will - Exatamente como nos filmes a que assistimos. É uma nova tecnologia holográfica. Confesso que o manejo no PC é complicado, mas nada que não me faça resolver. Vamos lá? Concentre-se. Vou preparar alguns aplicativos que vão levar cinco minutos, OK?

Herbin - OK! Então, vamos pra Evilate!

O MUNDO VIRTUAL

" Imediatamente me conduzo ao meu apartamento. Faço as malas e tomo rumo à estrada com o meu carro. Penso que é madrugada, porque há pouca movimento e faz frio. O trânsito está livre e por isso, acelero até o limite da minha habilidade, não mais do que isso. Ganho a rodovia Castelo Branco, passo por alguns pedágios e rodo pela estrada livre. De repente, o sol começa a nascer na minha frente, um parto exuberante da natureza, por isso fiz questão de receber os primeiros raios do sol para aquecer a minha alma. Hummm...

Vejo uma placa: LEMÓPOLIS - 1 KM - EVILATE - 10 KM.

Evilate - Estaciono o carro onde é permitido e entro num estabelecimento chamado "Santo Café". Era um misto de padaria, loja de conveniência, banca de jornal, livraria e comida à quilo. Só faltava serviços de mecânica e borracharia. Sento-me perto da janela por hábito. Gosto de assisitir a movimentação de pessoas e automóveis. De repente vem uma moça me orientar - era para pegar um prato e me servir. Entendi então que era um "self-service" de pães.

Enquanto saboreava um pão de massa folhada de palmito com catupiri e um café encorpado, resolvi pensar por que motivos estaria aqui:

1.º -  A frase dita por uma voz da suposta Elisa no bairro do Bixiga na visão de Tadeu - : "siga-me com seus rastros de fogo nestas nebulosas ruas feitas de pedras mortas". Nada demais, mas por quê Tadeu ouviu estas palavras sem nexo? Para mim, a resposta estava no passado. Elisa, amiga e namorada de infância escrevia frases em postes ou em paredes que oferecessem espaços. Mas pela estória no filme, esta frase remetia a minha lembrança ao morro chamado CARECA DO PADRE, de caminhos escorregadios e perigosos. Elisa estava lá enterrada como indigente. O "5", o membro da extinta ROME era o criminoso que tinha confessado que praticara eutanásia a pedido de Elisa diante de seu deplorável estado físico e espiritual. Para quem não se lembra, o "5" era o maníaco que praticava ferimentos em namoradas enquanto praticava sexo,  morto pelo Vagner na Praça da Flores. Que Deus o tenha.

2.º - Outra, o doutor Cristo existe. Ele foi o neurocirurgião que me tratou quando aconteceu aquele acidente automobilístico quando eu e a minha mãe discutimos dentro do carro. Quando saí do hospital, não conseguia falar e me comunicava através de gestos até a minha volta da viagem de Piaui. De repente, descobri que conseguia realmente falar. Seria o controle remoto da TV que me fez voltar acidentalmente como eu era antes? A resposta estava na boca do doutor Cristo.

3.º - O que Tadeu viu naquela igreja abandonada? Ao escapar do cativeiro, ele presenciou através de uma fresta, algo terrível. O que seria?

Terminei o meu café e rumei para o mesmo hotel onde Tadeu havia se hospedado e por sorte, consegui o quarto ao lado. Precisava falar com a Lina. Ela teria ido embora? E fui visitá-la. Bati à porta e uma voz respondeu: - é o taxista?

Logo pensei - Lina vai embora. Vai esquecer tudo! Ela não teria coragem de amar Tadeu no corpo de outra pessoa. A porta se abriu e vi a Lina, mesmo sem sorrir, irradiou simpatia. Uma mulata de olhos verdes, cabelos cacheados, corpo em forma e mesma estatura que a minha:- muito prazer! Sou primo de Tadeu, o meu nome é Herbin.

Lina - Primo? Herbin? Ele tinha me dito que você era surdo-mudo!

Herbin - Até outro dia, era. Você me convida para entrar?

Entrei e sentei-me naquela poltrona em frente a TV e ela se pronunciou:- você nem se parece com ele. Qual a razão da sua visita? Eu estou esperando um taxi para ir embora. Os meus pais estão preocupados. Estou aqui há trinta dias e é preciso mostrar a minha cara para que eles não fiquem preocupados. Filha única, você me entende?

Herbin - Entendo. Eu sou também! Então, vou ser direto ao assunto. Gostaria que você me levasse até o doutor Cristo. Fui operado por ele e fiquei sabendo que ele implanta CHIP nas pessoas em que ele faz cirurgia. E como você sabe, fui surdo-mudo até outro dia. E agora falo normamente, uma mudança radical. Creio estar "chipado".

Lina interrompeu repentinamente: - Posso levá-lo até lá sem problema algum. Você tem provas de que você é o primo de Tadeu? Não está se confundindo com o filme? Tem R.G.?

Retirei da minha carteira e mostrei R. G. e algumas fotos minhas quando era surdo-mudo: -  que você acha?  

Ela analisou e respondeu categoricamente: - sim, quando você era surdo-mudo tinha as linhas do seu rosto mais forte e os olhos mais fechados, o corpo estava ligeriamente curvado. Hoje você está mais firme, erecto. A sua feição está mais magra. Sim, está um pouco diferente. Só por causa disso você quer se encontrar com doutor?

- Sim. Você já teve contato com ele e Tadeu tem um implante dele que agora está no corpo do ex-prefeito J. J.

Lina se surpreendeu: - como você sabe disso?

Respondí - Assisti ao filme.

Lina - Tadeu me falou sobre ele. Então o filme do Marcelo tem tudo sobre o meu relacionamento com Tadeu?

- Sim. É uma longa história. Depois eu conto. E sabia que a fisionomia do J. J. pode vir a parecer com a de Tadeu?

Lina - Eu sei disso. Mas J. J. morreu. Só voltarei para cá no dia dos mortos para oferecer crisântemos em seu túmulo.

Ela não sabia de nada mesmo tendo presenciado o mal estar de J. J. e parou de respirar. Logo Doni acionou o IML no qual Tadeu morrera também: - Lina, você se lembra do grito do J. J. naquela noite no UTI?

- Lembro-me muito bem. Foi um ataque fulminante no coração! Foi horrível!

- Lina, J. J. sofria de catalepsia patológica! Talvez ainda esteja vivo! Vamos desenterrá-lo?

Lina arregalou os olhos e comprimiu a feição com total incompreensão do que tinha ouvido: - você é louco? É crime! É imoral! Só mente insana faria uma coisa dessas! Não estou entendendo!

Fiquei surpreso também pela sua atitude. Ela se assustou julgando-me louco e disse-lhe em tom alto: - Lina, Lázaro tinha catalepsia e Cristo apenas falou - "levanta-te Lázaro"! Então vamos comprar picareta, martelão e outras ferramentas para abrir aquela tumba antes que seja tarde!

Lina paralisou-se por um momento. De repente, os olhos de Lina brilharam como se tivesse acendido por uma luz e o amor ao Tadeu que ela sentia: - topo! Mas vamos já ou você quer se encontrar com doutor primeiro?

Logo respondi me levantando: - por regime de urgência, vamos até o jazigo! E agora!

E saimos em disparada após ter adquirido algumas ferramentas. Enquanto Lina indicava o caminho, apreciava o vasto campo canavial. Havia alguns tratores e caminhões com carregamentos lotados. Para entrar na propriedade de J. J., paramos numa estrada de terra e cortamos a cerca de arame farpado. E lá chegamos. Realmente parecia um mini-vaticano. Era o fruto do dinheiro da corrupção. Ele gostava de luxo até depois da morte. Peguei os binóculos e vi a mansão enorme do ex-prefeito e pensei: - quem estaria tocando esta plantação uma vez que o dono estava morto? A movimentação de trabalho estava normal. Eram caminhões que vinham e saiam. Com certeza, os administradores da fazenda estavam no comando. Pegamos luvas, uma picareta e o martelão para arrombar a tumba. Uma surpresa - a tumba estava violada e sem o caixão, certas pessoas tinham tido a mesma idéia que a minha. Sentamos exaustos e iniciamos a pensar. Quem teria tamanha ousadia de roubar o corpo de J. J.? Lina não se conformava. Passou a chorar ininterruptamente. E eu, tentei recordar-me do filme desde a chegada de Tadeu à cidade de Evilate até a sua morte. Lembrei-me daquela igreja abandonada, onde Tadeu fora feito refém. Isso! Quem sabe uma boa alma tenha levado o caixão para uma missa? Seria a única alternativa: - Lina, vamos até aquela igreja abandonada? Você sabe o caminho. Não é longe. É só ultrapassar aquele 4x4. Mas de repente, veículo preto parou bruscamente. Brequei. Do carro sairam dois homens com pistolas. Sem pensar, dei a ré e fiz um "cavalo de pau" e acelerei ao máximo. Olhei pelo retrovisor e eles estavam longe e atirando. Algumas balas ricochetearam o carro. Virei à direita e segui a rua e depois à esquerda quando me deparei com um ciclista. A freada fez derrapar o carro parando dentro da plantação. A surpresa maior foi a identidade do ciclista: Katinha. Ela reconheceu a Lina e logo notou que estávamos sendo perseguidos. Ela largou a bicicleta, deu um isqueiro nas mãos de Lina e fez gesto para que seguíssemos por dentro do canavial. Fui adiante derrubando pés de cana fazendo "ziguezague". De repente, o celular de Lina tocou. Ela atendeu e era Katinha. Lina só balançava a cabeça e depois desligou e me pediu que parasse o carro: - Katinha ordenou que incendiasse o canavial, pois o vento estava contra nós e contra os nossos amiguinhos lá atrás. Molhei o dedo indicador com saliva e logo entendí. Parei o carro, abri o tanque e acendí o isqueiro. O meu carro! Quase zero! O fogo se alastrou rapidamente devido ao vento e as folhas secas do canavial. Partimos a pé no meio da plantação, correndo a esmo por dezenas de metros fazendo "ziguezague". Quase mortos, alcançamos uma rua e atrás, vimos a nossa obra - incêndio de grandes proporções, a seguir, uma explosão e depois mais outra. Ao longe, os dois perseguidores chamuscados e enfezados solicitando ajuda. A Katinha, tranquilamente pedalava como se nada tivesse acontecido. O que ela estria fazendo por aqui?

Lina com cara de cansada apontou o dedo em direção sudoeste: - é alí!

E fomos enfrentando a pé os caminhos de terra em direção ao local. Lá estava a velha igreja. A porta estava fechada e lembrei-me de uma fresta que tinha no escritorio da igreja. A porta estava semiaberta, igual aos filmes de ação, sempre tinha uma "deixa" fácil para não travar a continuidade da ação. E olhei primeiro. Era assustador: - Lina, dê uma olhada! 

 Era uma cena horripilante. Seria a mesma cena que Tadeu havia visto? Lina apenas sussurrou: - Nossa!

Reconhecí a corpo de Praxedes pendurado de ponta cabeça e mutilado. Faltava um pedaço de seu pé e o outro, pregado com um enorme prego. Era um sacrilégio torturar um ser humano mesmo que fosse um homem que havia executado várias pessoas e que fora o autor da explosão de uma instituição de crianças deficientes da cidade. O seu pescoço estava ligeiramente cortado com sangue escorrendo e os olhos arrancados e ainda pendurados no rosto. E o pior, estava vivo pedindo para morrer. Os vilões eram os anões. Alguns deles faziam malabarismos no ar com cordas improvisadas, rindo, gargalhando e cantando. E próximo ao altar, o caixão de J. J. Em volta, alguns anões cuspiam e proferiam palavrões ameaçando depredar o caixão para tirar o defunto. No canto da igreja, Lá estavam Volnar e mais dois amarrados e amordaçados. Era um motim e provavelmente, alguns revoltosos estavam cometendo atrocidades por vingança. De repente, um dos anões abriu o caixão e derrubou-o. O defunto de J. J. rolou pelo chão manchado de sangue. Lina desesperou-se, afinal de contas, o CHIP de Tadeu estava lá poderia se perder por ser tamanho de um fio de cabelo. Não aguentei. Entrei abruptamente e interrompi a algazarra da morte. Lina acompanhou-me e rezei para....Deus...não, rezei para Will me livrar desta.

- Parem! O que vocês estão fazendo é um tamanho sacrilégio! Lina, desamarre Volnar.

O líder dos anões respondeu: - quem são vocês para falar deste jeito? Este homem é um demonio e merece ser malhado!

- Não! Não podem fazer isso! É fora de ética!; respondeu Volnar.

O líder gargalhou e sarcasticamete respondeu:- na terra, paga-se quem erra! O inferno é pouca coisa para ele!; e virou-se para o resto e convocou para o massacre; - chega de vocês ficarem pendurados aí! Temos que resolver um problema aqui!

Os anões que faziam malabarismos com as cordas, desceram e se aproximaram munidos de toras de madeira e facas. Um deles chutou o defunto e depois chegaram outros e cercaram-no preparando-se para espancá-lo. Por outro lado, a voz de Volnar eccou no ar:-esperem! Vocês vão matar uma pessoa que não tem nada a ver? Este homem apenas quer colocar a ordem!

Os revoltosos vaiaram Volnar e começaram a cercá-lo quando vi o corpo de J. J. se mexer, o efeito cataléptico havia passado e logo apontei o dedo em sua direção e gritei: - levante-se J. J.!

Todos se viraram e se assustaram com o que estavam assistindo. E aproveitei a "deixa" e repeti a frase: - levante-se!

E J. J. se levantou apoiando-se no pilar da igreja.

Todos se afastaram com olhares assustados.

E aí tive a certeza de que a maioria não conhecia esta doença.

Foi tranquilizante, pois havia a possibilidade de um diálogo aberto: - pessoal, livrem Praxedes lá de cima e chamem uma ambulância!

Tarde demais. Ele estava morto.

FIM continua

 

 

 

CIDADÃO ILUSTRE 44

Akio Kimura - 14/04/2012 

A INCORPORAÇÃO

Quase meia-noite. As duas vítimas baleadas chegaram à clínica do doutor Cristo e foram examinadas superficialmente na maca. Foi constatada que uma não corria risco de morrer e conduzida para o quarto em estado de observação. Era o J. J., ex-prefeito cassado. E a outra, levada diretamente para UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Era Tadeu. O cirurgião de plantão tentava extrair um projétil alojado na região próxima ao coração.

Na sala de espera, Lina cochilava no assento quando doutor Cristo e doutora Silvia dirigiram-se apressados para UTI. Por último, Doni com seus passos lentos parou e a acordou acarinhando a testa: - Lina, precisamos de ajuda. Vamos até o almoxarifado pegar os aventais, máscaras e bonés.

A moça, ainda meio desacordada, acompanhou-o sem falar.

Na UTI, o médico de plantão Reinaldo Galvão conversou rapidamente com doutor Cristo:- retiramos a bala e agora falta verificar o seu estado de saúde. Ele perdeu muito sangue.

- E a sua auxiliar? Ela pode me ajudar?

Doutor Reinaldo baixou a cabeça pensativo e respondeu com uma expressão de dúvida: - não sei se é recomendável, pois ela está aqui há quatorze horas.

No mesmo instante em que conversavam a voz de Doni ecoou no ar: - não é necessário, a Lina está disposta a ajudar-nos. Ela me disse que já foi voluntária numa creche em sua comunidade!

Riram.

Com calma e paciência, Cristo analisou os batimentos cardíacos: - Ok! Doutora, pode instalar os eletrodos no corpo e na cabeça. Precisamos captar o estado do corpo!

Lina ficou estarrecida ao ver Tadeu entubado com  respiração forçada. Em suma, o seu estado de saúde era precário. Por um momento, não havia conseguido evitar que as lágrimas rolassem, mas conteve-se discretamente eliminando emoções em seu interior.

Doutor perguntou: - Doni, tudo OK? Podemos retirar o CHIP de Tadeu? Doni assentiu balançando a cabeça positivamente.

Lina logo se pronunciou: - doutor, ele estava satisfeito com o CHIP!

Cristo - Calma, Lina! Temos que retirar o CHIP para evitar acidentes. Um pequeno curto pode danificá-lo e provocar uma parada cardíaca na vítima. Depois o recolocaremos.

De súbito, um "e-mail" de uma enfermeira surgiu na tela de Doni: - doutor Cristo, urgente! O ex-prefeito J. J. teve uma convulsão. Ouça o que está escrito -"Descobrimos um projétil alojado no abdomen. Grato!"

Alguns minutos depois, J. J. foi trazido de maca para a sala de cirurgia. Ele portava máscara ligado a um tambor de oxigênio e respirava com dificuldade. Doutor resmungou: - dois pacientes em estado grave! Que noite!

E ficou assim: Doni em auxílio à doutora Silvia a montar os eletrodos em Tadeu e Lina e Cristo em J. J. para retirada da bala.

Após duas horas, êxito.

O J. J. estava a salvo. Na tela do Doni mostrava o desenho interno do corpo apontando as causas. Só não conseguiram ler a parte da cabeça. O mapa indicava baixo nível de melatonina no cérebro e que poderia ser "uma inibição da sinapse na região do tronco cerebral causando despolarização de movimentos dos nervos". Mas era apenas suposição. O interessante era a súbita manifestação de J. J. que acordava e depois dormia. O doutor acreditava que J. J. era portador do sonambulismo e menos provável, da catalepsia patológica. Mas era apenas um palpite, pois os eletrodos não estavam captando informações necessárias. Faltava atualização no "software", pois era uma linguagem difícil de decifrar.

Enquanto Cristo analisava o desenho da sinapse no computador, um telefonema. Doni atendeu e passou as informações ao Cristo: - Doutor, é do hospital de Lemópolis. A enfermeira está informando que Wagner está correndo risco de morte!

 Doutor Cristo - Convoque o doutor Simão!

Doutora Silvia - É dia de folga dele! Teremos que ir até lá e urgente doutor!

- Que raios de hospital é este? Tem que ter pelo menos um médico de plantão! Então vamos! É uma medida de emergência. Doni, você administra aqui e me avise se houver algum problema! Acredito que eles estão a salvos. Mas fique de olho em Tadeu, ele necessita de mais atenção. Qualquer agravante, chame o doutor Reinaldo em sua residência. Lembre-se que temos duas pessoas importantes - o herdeiro deste hospital e o ex-prefeito cassado. E em Lemópolis, está o irmão de Tadeu, o Vagner que também é herdeiro. Doni, hoje é sem dúvida um dia de cão! É a primeira vez que tenho que acreditar em Deus! Deus me ajude!

E sairam

Enquanto Doni estava compenetrado em interpretar os sinais dos neuronios do J.J. no computador, Lina ouviu a voz agonizante de Tadeu: - Lina, estou sentindo dores! Não aguento mais!

Lina - Tadeu, aguenta aí! Respire fundo! Doni, você não tem algum remédio para acalmar a dor?

Doni - Não tenho permissão para oferecer remédios. Sinto muito!

Depois de uma pausa em silêncio, novamente a voz de Tadeu com voz arrastada e respiração arfada olhando para o corpo de J. J.:- Doni, este ao meu lado é o....acho que vou morrer.....

Doni - Ele mesmo! O J. J. Não se preocupe, ele está bem! Ele não tem condições de te matar.

Doni aproximou-se de Tadeu e notou que ele estava enfraquecido e mal conseguia falar e dizia palavras sem sentido. Lina, atenta, entendeu e explicou à Doni: - Doni, ele vai morrer! Ele está sentindo tremor em todo o seu corpo. Ele quer quer que você introduza o CHIP dele na nuca de J. J. e tem que ser rápido! Os olhos estão revirando a toda hora! Faça alguma coisa! Tenho certeza que você sabe!

- Não, Lina, não posso fazer isso! O doutor me mataria! Eu sei que é o seu último desejo. Eu sei que ele poderia salvar Evilate de um caos na pele de J.J. mas não é ético!  E como você o amaria? Um desconhecido?

Lina - É questão de adaptação. O doutor Cristo nos explicou que você teve a feição modificada, Doni. Você era um DOWN. E agora, neste instante, você está sem os traços que o identifique como portador de DOWN. O mesmo pode acontecer com Tadeu. Está certo que J. J. é mais gordo, mas isto é um problema menor. Por favor Doni!

Doni olhou nos olhos de Tadeu e dirigiu-se ao computador. Havia muitas luzes vermelhas em volta da tela, a frequência cardiaca estava fraca. Os traços estavam se tornando em linha reta. Ele estava à beira da morte. Era questão de tempo. Até pensou em chamar o doutor Reinaldo mas desisitiu.

Doni foi até a pia, lavou as mãos e dirigiu-se ao leito e disse:- não sei o que posso fazer, Tadeu. Mas tentarei salvar a sua vida!

E percebeu que olhar de Tadeu se destinava ao corpo de J. J. ao seu lado e à prateleira onde estava armazenado o seu CHIP.

Doni andou de um lado a outro e decidiu: - Está bem! Não acredito NELE, mas seja o que Deus quiser!

Lina - Obrigada Doni!

E rapidamente pegou o controle, dirigiu-se ao corpo de J. J. e passou a monobrar o braço do robô. As mãos mecãnicas apontaram para a nuca. Ele entendeu e virou o corpo de bruços e dirigiu-se até o computador. Os braços movimetavam para a todos os lados até encontrarem o ponto correto onde estava instalado o CHIP.

Os dedos mecânicos lançaram-se até a nuca de J. J. e retiraram um fio e armazenaram num recipiente de vidro com código numérico. Era o CHIP de J. J.

Depois, Doni digitou o código e fez com que o robô esticasse o braço até o recipiente onde estava armazenado o CHIP e acionou ENTER. Um dos dedos do robô pegou o CHIP de Tadeu e introduziu na nuca do J. J.

Doni , de repente soltou um grito de alegria ao ver na tela do computador:- "o CHIP foi introduzido com sucesso" -  conseguimos! Tadeu agora está incorporado no corpo de J. J. e com o tempo, o CHIP terá o seu domínio!

Na tela, um barulho repetido e um assovio agudo. No monitor, um risco prolongado. 

O coração de Tadeu estava prestes a parar a qualquer momento.

Doni, apavorado mediu o pulso a veia da jugular e dirigiu-se até o computador para agitar o desfibrilador do robô.

O corpo de Tadeu esperneou na cama como um peixe fora da água e parou de repente.

Tadeu estava morto.

Na frente do monitor, Doni chorava se perguntando: - Será que fiz cagada? O doutor Cristo vai me crucificar!

Lina, mesmo aos prantos, o consolou:- ele faria mesma coisa o que você fez, fique de consciência tranquila.

Lina fitou os olhos em J. J. e pensou na dificuldade de adaptar o seu amor ao novo corpo de Tadeu: - é emergencial e doloroso!

Doni: - Mas Tadeu ainda vive e viverá enquanto o CHIP durar.

Os dois se abraçaram.

Lina - Obrigada Doni! Muito obrigada mesmo!

FIM continua

 

 

 

 

 

CIDADÃO ILUSTRE 42

DOIS HOMENS VIOLENTOS

Akio Kimura - 12/03/2012

No hotel, Lina assistia a um filme de faroeste na TV, o "cowboy"encarado por Clint Eastwood enfrentando três homens. Foram três disparos. Mas Lina ouviu mais um estampido seguido de um arranque de moto queimando o chão. Ela se levantou da poltrona e se dirigiu à janela. Com certeza, não era o tiro do filme. Lina se estremeceu pensando na possibilidade de Tadeu estar em perigo. Vestiu-se apressadamente e desceu pela escada e foi à rua. Na verdade, ela não sabia o que fazer e nem por onde começar. Pensou e decidiu pelo mais óbvio - dirigir-se até a delegacia e dar queixa do desaparecimento de seu namorado. Por um momento, temeu que o delegado Vanderson estivesse de plantão, mas lembrou-se de que essa turma tinha sido exonerada novamente. Em se tratando de uma cidade como Evilate, tudo que era impossível, poderia se tornar possível em circunstâncias que ocorreram nestes últimos dias; o prefeito J. J., o delegado Vanderson e companhia foram exonerados dos cargos devido a gravação de falcatruas que foi ao ar no You Tube. Após 24 horas, retomaram posse novamente do poder e após duas horas, suspensos através da ação judicial.

Lina entrou na delegacia com certo receio de encontrar-se o Vanderson. Ele não estava lá. De repente uma voz grossa e aguda soou em seus ouvido: - pois não, senhorita!

Era um jovem de óculos usando um terno escuro, gravata e um boné. Lina estranhou a combinação de terno com boné. Era horrível:- doutor...

- Doutor, não! Sou promotor da justiça. Enquanto o delegado novo não chega, estou aqui de plantão por minha vontade própria. Meu nome é Ari, Ariovaldo Peçanha. Você está nervosa, do que se trata?

Lina engoliu em seco e falou pausadamente: - doutor Ari, o senhor ouviu um tiro?

- Ouvi e já enviei dois militares para Praça das Flores. Nós recebemos uma denúncia anônima de que local havia movimentações estranhas e violentas. Por quê a senhorita...

- Lina! O caso é o seguinte doutor, quer dizer, promotor, o meu namorado foi à procura de um assassino.

- Ele é policial?

- Não. Explico. Ele tem um celular que tem conexão com o corpo de outra pessoa. E no celular, se vê como essa pessoa vê e essa pessoa se chama J.J.

O promotor Ari não havia entendido absolutamente nada:- como é que é? Você quer dizer que o celular que está em poder de Tadeu tem conexão no corpo de J. J.? O que o prefeito vê, Tadeu consegue ver o que o J.J. está vendo pelo celular? Complicado hein? Parece um filme americano!

- Pois é, promotor, é como se o celular fosse o J. J.

- Mas e daí? O J. J. não é mais prefeito, mas está aguardando a retomada da posse na prefeitura através da ação judicial. Ele não quer largar o osso!

- Então Ari, pode ser Ari? Promotor é uma palavra comprida. Então Ari, ele viu a arma e ouviu da voz do prefeito, ou melhor, ex-prefeito que o próprio iria assassinar alguém em algum lugar da cidade e Tadeu, inconformado foi para a rua para avisá-lo.

- Lina, como ele sabe quem é a vítima? Como ele vai salvá-la? Poderia ter vindo aqui!

- Não sei. Pensei que ele tivesse passado por aqui.

De repente, o celular do promotor toca. Ele atende e solta uma expressão de penar olhando para Lina:- levou um tiro na cabeça? Quem é?  Não sabe? Vou até aí.

Lina, desesperada, pergunta quase aos prantos: - é Tadeu que levou o tiro?

- Ainda não sabem. Vamos até lá!

O promotor saiu e depois voltou e orientou o seu auxiliar obeso que havia saido da toalete apertando o cinto e cheirando a mão: - Godofredo, aciona o IML e a pericia, Ok? 

Exausto pela correria, Tadeu alcançou outra praça conhecida como Praça da Capoeira e descansou no primeiro assento da entrada. Ele tirou o blusão e rasgou a sua camisa de algodão para estancar sangue de um corte no antebraço. Terminado o trabalho, Tadeu se deitou no banco e adormeceu por uns instantes. Logo após vinte minutos, foi acordado ao som de atabaques e berimbaus e uma turma cantando "Marinheiro só". Abriu arregalando os olhos: - acho que estou no céu!

Tadeu fez uma pausa, sentou-se e sentiu a sua memória refrescar. Recordou-se do que havia acontecido - um tiro certeiro de seu irmão Vagner na cabeça do 5, o homem chave do ex-delegado Vanderson. Sim, o 5 queria ser morto a qualquer custo. Só restava saber se era verdade o que diziam dele a respeito de ser um maníaco sexual que mutilava as vítimas ou fora tão somente um pretexto para ser morto. O som da capoeira vinha do lado extremo da praça, o som que tomou maior parte de sua infância. Era um momento gratificante ouvir "Marinheiro só". Levantou-se vagarosamente e seguiu em direção ao barulho. No centro da praça, uma surpresa, viu aquele caixão branco que vira há horas seguidas por pessoas mascaradas. Ao seu redor, elementos de branco jogando capoeira. Tadeu reconheceu um senhor de idade, todo de branco: - mestre Paixão?

O senhor ficou surpreso e o reconheceu e abraçaram-se:- Ôpa! Tadeu? Quanto tempo! Ué, o que houve com você? Meteu-se com alguém perigoso? Está todo machucado!

Tadeu, com olhar distante, respondeu:- Não é nada! Quem faleceu?

- O mestre Dinda; respondeu.

Tadeu ficou chocado por uns instantes e lamentou:- ele me ensinou a jogar capoeira  por muitos anos. Morreu de quê?

- Ele morreu de pancada. Com 88 anos não resisitiu dos golpes dados por dois de seus ex-alunos. Conheceu o Sombra e o Penado?

- Conhecí! Esses garotos não sabiam da força e habilidade que possuiam. Eles já eram violentos e já praticavam alguns furtos. Ainda continuam assim?

- Pior! Estão mais violentos do que nunca! Estão aterrorizando a cidade a mando do ex-delegado Vanderson. A nova polícia está procurando por eles! Logo vão encontrá-los!

Tadeu ao mesmo tempo que ouvia as palavras do mestre Paixão, assistia à exibição de capoeira. Eram todos caras novas:- são jovens que não conheço, muitos deles devem ser filhos de meus amigos de infância. Que bela homenagem!

O mestre Paixão sorriu e explicou que era o último desejo do mestre Dinda: - ser homenageado nesta praça.

- Mais do que merecido. E a mulher dele e os dois filhos?; perguntou Tadeu.

- A dona Gumercinda faleceu há dois meses. Ela tinha câncer e os filhos estão nos Estados Unidos. Eles montaram uma academia.

- Pudera né, mestre Paixão! Ele fundou esta praça e aqui era o local onde os escravos eram chicoteados. Ele preservou aquela tora de madeira que servia de apoio para acorrentar os escravos. É o símbolo que representa a dor do passado.

- Pois é! Disto não podemos esquecer! A propósito, daqui a pouco faremos a demonstração de capoeira como ele pediu e depois o levaremos para o velório! Você vem Tadeu?

- Sim! É uma obrigação comigo mesmo! Posso mesmo participar?

Mestre Paixão sorriu e respondeu: - é claro que pode, desde que você suporte o seu peso. O seu estado físico está deplorável! Aguenta? Eu apresento para o pessoal, jogo com você e depois, direto para o hospital, combinado?

Tadeu sorriu: -Tudo bem! Obrigado!

Tadeu jogou capoeira com mestre Paixão. Fez gingas, deu meia-lua mas caiu. Os membros o ajudaram a carregar até o assento e o fizeram deitar e o mestre, logo chamou uma ambulãncia pelo celular. Tadeu tirou outra soneca tentanto espantar a exaustão.

De repente, Tadeu acordou assustado ao ouvir uma freada de um veículo. A luz do poste revelava a silhueta do delegado com mais dois homens ao lado - eram o Sombra e Penado, os famigerados capoeiristas da morte.

Tadeu levantou-se e dirigiu-se ao mestre Paixão e disse: - vou ter que ir. O Vanderson está á minha procura, veja!

O mestre ficou tenso pela presença de Sombra e Penado e a avisou ao pessoal para fazer uma roda para esconder Tadeu debaixo do banco. Alguns se sentaram para cobrir a sua presença.

O ex-delegado dirigiu se ao mestre e perguntou num tom autoritário:- por acaso vocês viram Tadeu? O filho do Jorge!

O mestre Paixão respondeu calmamente:- nâo, por aqui ele não apareceu.

Enquanto Vanderson e Paixão conversavam, Sombra e Penado foram até o caixão e o abriram e deram gargalhadas: - olha só quem está aqui! O mestre Dinda! Ahahah! Ele está morto e estes imbecis jogando capoeira para ele!; disse Sombra em tom de zombaria ajeitando os seus cabelos louros caindo na testa e Penado, com seu corpo de Deus grego e cor de ébano competou:- estão pensando que vão ressuscitá-lo? Aí eu mato de novo pra aprender a morrer! Ahahahah!

Mestre Paixão disse ao ex-delegado num tom de repreensão: - Vanderson, diga a esses dois assassinos que respeitem o morto, pelo menos uma vez na vida.

Vanderson com cara de quem não quer nada dirigiu a sua voz aos seus dois asseclas: - Sombra! Penado! Deixe o morto em paz! E feche o caixão!

Os dois obedeceram e caminharam em volta da rapaziada que estava mais assustados do que nunca. E num momento de sorte, o Sombra descobriu Tadeu debaixo do banco: - e olha que surpresa Vanderson! veja quem está aqui! Nada mais do que o senhor Tadeu!

Vanderson com arma em punho abriu o caminho a força empurrando os capoeiristas: - muito bem, Tadeu, a história de sua vida acaba aqui!

O mestre Paixão se aproximou do delegado: - ele precisa ser hospitalizado. Está ferido e sente dores por todo o corpo! Poupe-o!

Vanderson riu com ironia: - vou poupar as dores dele com um tiro na cabeça!; ele apontou arma em direção a Tadeu e puxou o gatilho. O braço ligeiro do mestre desviou a direção do tiro e o ex-delegado sentiu uma cotovelada e uma pancada na mão deixando o revólver cair no chão.

O Sombra e Penado entraram em ação derrubando o mestre com vários golpes de meia-lua e queixadinha. Os alunos tentaram reagir cercando-o. Os dois assassinos, raivosos partiram para violência extrema distribuindo socos e pontapés sem se importarem com a idade derrubando e machucando os garotos. O mestre Paixão levantou-se para reagir, mas prontamente levou um galopante (socos com a mão aberta) e em seguida, o Penado desferiu a ponteira (chute com a ponta do pé). O mestre caiu violentamente e não mais acordou. Os novatos recuaram e alguns chorando quando o Sombra falou gritando: - agora, seus aprendizes de meia pataca, olhem que o Penado vai fazer!

Todos direcionaram os seu olhares para o dito cujo.

Penado caminhou em direção ao caixão do Mestre Dinda e o derrubou fazendo rolar o corpo ao chão. Todos ficam estupefatos, alguns choraram. Outros tentaram colocar o defunto de volta ao caixão, mas contidos pelos golpes dos dois demonios. Neste momento, um tiro.

- Todos vocês, mãos para cima e chega de balbúrdia! E não se mexam!; era a voz do promotor Ari em companhia de Lina e mais três PMs armados; todos pro xilindró! E mãos na nuca! Não se mexam! E você, pai!; dirigindo-se a Vanderson; que faz aqui com arma na mão?

- Vim dialogar com Tadeu para se entregar. Há um B.O. notificado que foi ele que provocou acidente na estrada jogando ferramentas contra os nossos motoqueiros. Pode confiar em mim! Ainda tenho alma de policial, filho!

Tadeu imediatamente reagiu: - mentira! Ele veio me matar!

Promotor Ari:- Calminha! Fique do lado. E você, Lina, fique com ele! Vamos discutir isso na delegacia! E você, pai, fique calmo também! Ouvi falar deste acidente! Um õnibus desgovernou também. Pode ficar com a arma. Ajude-me a acabar com a briga.

Enquanto os PMs se dirigiam para algemar os malvados, Lina e Tadeu se abraçavam trocando beijos. Lina olhou nos olhos de Tadeu e disse emocionada: - pensei que fosse você que tinha morrido!

De repente, o Sombra e Penado reagiram distribuindo golpes para todos os lados derrubando os que viam pela frente. Os garotos, alguns não sabiam o que fazer e decidiram pela fuga. A ordem estava desfeita! O promotor gritava atirando ao ar e quando se deu conta viu a Lina enfrentando o Penado e Tadeu, levando seguidos golpes de "armada" (movimento rotatório lateral golpeando com parte externa do pé) do Sombra. Por outro lado, ex-delegado Vanderson juntou-se ao promotor tentando acalmar os ãnimos. Num piscar de olhos, Lina estava caida, agonizando de dor. O mesmo acontecia com Tadeu. Diante da situação caótica, promotor aproximou-se de Penado e desferiu coronhada na nuca. Penado sentiu e sem medo de arma, partiu para cima com todos os golpes desarmando e derrubando o promotor. Ele saiu se arrastando de costas pelo chão e viu a face raivosa se aproximando. Que golpe seria dado pelo Penado? Sem pensar duas vezes, Ari enfiou a mão no bolso do paletó e se armou com um revólver de cano curto e apertou o gatilho. Um tiro certeiro! Ari se levantou sem acreditar no que havia acontecido. Por outro lado, ao ver o seu amigo caído, o Sombra deu uma voadora para cima do promotor. No ar, um tiro! Desta vez, do próprio Vanderson.

- Obrigado pai! O senhor ainda tem alma de policial!

- Tive que fazer escolha. Escolhí você para a vida, filho!

Quando os dois deram conta, Lina e Tadeu tinham sumido. Estavam apenas alguns garotos da capoeira tentando colocar o corpo do mestre Dinda e ao mesmo tempo, o outro mestre, o Paixão recobrava os sentidos.

- Vanderson, uma pergunta - por quê Lina e Tadeu fugiram?

Vanderson:- eles estão devendo para a lei. Eles tem medo de mim.

Promotor:- pai, o senhor não precisa exercer papel de polícia! O senhor está fora do sistema por enquanto! É contra-lei, sabia?

- Tem razão, filho! Não sei o que deu em mim! Vou-me embora, a Laura espera por mim!

O filho estranhou o nome e perguntou: - Quem é Laura?

Vanderson: - eu disse Laura? Devo estar ficando maluco!; riu zombando de si mesmo; doido varrido! ahahah!

Ari Peçanha ficou com os pensamentos no ar:- este não é o meu pai!; e pegou o seu celular e chamou por Godofredo:- venha cá na Praça da Capoeira, você tem muito a fazer esta noite! Tem um homem no caixão, tem um morto na Praça das Flores e dois aqui na Capoeira.

O promotor foi em direção aos dois PMS que recobravam os sentidos e disse ironicamente: - vocês se lembram o que aconteceu?

FIM continua



 

 

 

CIDADÃO ILUSTRE 41

O HOMEM QUE QUERIA MORRER NA "MARRA"

Akio Kimura-03/03/2012

Quase todos os estudantes que estavam sentados junto às mesas de bares de Evilate identificaram como tiro de um revólver. Os fogos de artifícios havia cessado. Burburinho geral, mas ninguém ousou levar assunto adiante. Continuaram os bate-papos em goles de cerveja.

O vulto tinha saído detrás das árvores da praça. Ele parou propositadamente sob a luz da luminária eliminando as sombras que escureciam a sua face. Ele estava apenas de blusão e calça "jeans". Na mão direita, uma arma, .45. Ficou calado um tempo esperando alguém se manifestar.

Tadeu - Você? Vagner? Meu irmão, o que você faz aqui?

Vagner - Vou ajudar você a acabar com este F. D. P.! Ele está querendo que alguém o mate! A consciência está tão pesada que mal consegue dormir. Se é que ele tem juízo! Não dorme de ruindade!

O 5 encarou o Vagner e falou ironicamente: - vejam só quem está aqui! O herói do Zé Povinho tentando me "esculachar"! Você ainda não aprendeu que ser herói não vale a pena? Mas aqui você não precisa apartar uma briga! Estou querendo morrer mesmo!

De repente, do outro lado, uma moto sobe os degraus da praça soltando barulho infernal. O piloto parou e desceu da moto e caminhou em direção aos três sem tirar o capacete e estes ficaram pasmos com a total frieza do motoqueiro empunhando uma pistola. O 5 o reconheceu facilmente, mas os outros não.

5 - Praxedes! Não precisa se esconder por trás do capacete, todos o conhecem como sósia do Elvis que perdeu o emprego de escrivão da polícia e agora está desempregado. Ahhhh! Caiu junto com o delegado Vanderson, seu "puxa-saco"! Antes caçava bandidos e agora é caçado como bandido! O mundo dá voltas mesmo! E estamos aqui reunidos como nos velhos tempos! Só que não é uma guerra de pedrinhas idiotas, agora são tiros e quem me acertar, ganha o jogo. Vamos nos divertir! Eu não faço questão de morrer, será um favor! Aí, economizaremos balas e mortes.

Praxedes tirou o capacete e jogou no chão:- OK, 5! Eu me candidato para te assassinar, você aceita? E você Vagner? Por quê quer matá-lo? Tem que ter um motivo! Parece que viu um fantasma! Sou eu mesmo, Praxedes às suas ordens!

Vagner - E o que você veio fazer aqui, Praxedes? Veio verificar se Tadeu foi pro "espaço" a mando do J.J. e Vanderson?

Praxedes- Sim! Vim para isso mesmo! Mas pelo que vejo, isto aqui está parecendo uma bela reunião de velhos amigos!

Vagner acomodou um dos pés no banco e falou com sutil ironia: - velhos ex-amigos! Você não sabe, Praxedes? Sabe sim! Este idiota do 5 é um monstro, todos sabem disso! Ele dorme de dia e esconde a cara no capacete durante a noite e pilota como um doido procurando alguém para matar. Por isso, ninguém consegue encontrá-lo. E tem mais, é um matador de inocentes, principalmente mulheres. Ele as assedia, leva para o seu esconderijo e mediante a tortura, faz sexo sanguinário. E a Lisa foi uma de suas vítimas. Você conhece a Lisa, ex-namorada de Tadeu? Foi ele que a induziu a participar de atos carnívoros contra o seu próprio pai. E depois, estrupou-a cortando as duas pernas dela.

Tadeu interrompeu a fala de seu irmão: - já estou sabendo desta história e como você sabe, meu irmão? Você conversou com a Lisa?

Vagner - Sim! Ela me contou os detalhes depois que o efeito das drogas passou. Assim como o 5, ela me pediu para matá-la. Não a matei, mas o 5...

O 5 se manifesta rindo: - Ahahahah! Seus "bundas moles"! Matei-a conforme o desejo dela, seus "porras"! Foi fácil! É tudo consequência da droga, que depois de ter ingerido por um tempo, dá uma sensação de culpa. A mente parece se desdobrar em duas, três ou mais e aí,  o dependente começa a se mutilar. Fiz um favorà ela! Mas eu não tenho pretensão deste ato. Quero tiro.

Vagner gritou de repente:- covarde!

Subitamente, um disparo! A bala alojou no meio da testa e em meio a fumaça e cheiro de pólvora. O corpo caiu com toda a força do peso.

Tadeu - Putz! O que você fez, meu irmão?

Vagner - não aguentei mais, pessoal! Eu precisava fazer isto! Vá matar diabos no inferno!

Tadeu se assustou com a frieza de seu irmão:- Vagner, ele era doente! Precisava de um tratamento!

Vagner - Não, Tadeu! Ele precisava morrer! Ele estava assediando a nossa irmãzinha Tadeu! A Katinha só tem dez anos! E não me venha com essa conversa de tratamento psiquiátrico, Tadeu! Ele já fez quatro vítimas! E na cadeia, ele não ficaria por muito tempo. Morreria de qualquer jeito, exceto se J.J. retornasse ao cargo de prefeito.

De repente, uma sirene de polícia.

Praxedes - Vamos "zarpar"!

Tadeu - Ei! Se fugirmos é pior!

Vagner - Ninguém pode afirmar que o 5 é amigo deles!

Tadeu - Pode ser aqueles jovens que passaram por aqui fizeram denúncia anônima. O 5 os ameaçou. Vou ficar aqui!

Vagner - Então fique aí, "mermão"! Você  vai pagar por um crime que você não cometeu. Você é um inocente que vai pagar caro por um assassinato! E a cadeia é no mínimo oito anos!

Ouviu-se o barulho do arranque da moto de Praxedes que desceu as escadas e empinou a moto na rua e saiu queimando o asfalto.

Vagner disse apenas um "tchau" para Tadeu e disse: - depois te visito na prisão!

Tadeu ficou só observando o corpo do 5. A cabeça estava estourada com pedaços de cérebro esparramado no chão. O 5 estava irreconhecível. E era assim que ele queria estar exposto.  E a sirene estava mais próxima.

Tadeu pensou e decidiu falando em voz alta:- pensando bem, vou me "vazar" também! O 5 que se foda!

FIM continua

CIDADÃO ILUSTRE 40

LABIRINTO

Akio Kimura - 18/02/2012

 Sexta. Ebulição em noite de Evilate. A avenida e seus bares estavam repletas de estudantes, em cada esquina churrasqueiros, hotdogueiros e pipoqueiros vendendo os seus "peixes"; transeuntes à procura de diversão, maratonistas alongando os seus passos e vários grupos de jovens manobrando os seus "SKATES" na praça. Algumas pessoas se dispersavam entre uma rua e outra procurando um destino. Tadeu, desacelerou os seus passos e acomodou-se num banco da praça. Após um momento de quase meditação, chegou a conclusão de que o cancelamento de sua ida à delegacia fora benéfico. A probabilidade de ser detido era de 50% devido a sua suspeita sobre o substituto do ex-delegado Vanderson pertencer ao bando. Havia sim, estranhas movimentações em frente a delegacia. E não eram PMs à paisana, eram homens gordos fora de forma que nunca vira, mas com armas nas mãos eram diabos. Estavam sempre com olhares atentos atendendo ao celular e cochichos constantes. Levantou-se decidido, sempre atento à tela do celular e passou a caminhar pelas ruas periféricas da cidade. O que fazer? Estava apreensivo pelo simples fato de estar à procura de um desconhecido marcado para morrer. Para ele, nenhum ser humano tinha o direito de interferir no destino de outrem, somente...Deus? Tadeu era ateu, mas às vezes pairava em suas dúvidas. Deus? E estagnou-se na beirada de uma ponte para ouvir o ruído das águas e refletir: - " e esta tecnologia dos CHIPS do tamanho de um fio de cabelo feito pelo Homem? São CHIPS que foram implantados pelo doutor Cristo nas cabeças do ex-prefeito J.J., da Katinha, do Doni, do Wagner e em mim. Somos privilegiados por Deus? Pelo Homem? E este celular fininho, inquebrável, maleável que permite conectar com os CHIPS e poder assistir a ação em tempo real o que os olhos alheios estão vendo, vigiado pelos meus? Será que Deus não estaria duvidando do que o Homem é capaz? E chegou a cogitar de que deveria separar as duas teses. O Homem é homem e Deus é Deus, mas era incapaz de se aprofundar nos mistérios da teologia. Faltava base. Quem sabe, um dia. 

Tadeu interrompeu a divagação após uma explosão de fogos de artifícios. Pegou o celular e verificou que os olhos do J. J. já estavam a caminho para algum lugar. Tadeu caminhou cem metros e atravessou um viaduto e tentou identificar as ruas que estavam sendo gravadas no celular; esforçava-se ao máximo para não confundir as imagens e reforçou a memória falando alto:- "os meus olhos procuram um lugar onde os olhos de J. J. estão vendo". A tela denunciava que o ex-prefeito J. J. provavelmente pilotava uma motocicleta e se encontrava numa rua de paralelepípedos. Tadeu virou à esquerda, atravessou uma rua e se deu numa alameda repleta de mansões. De súbito, ouviu distante, o ronco de motores. O celular mostrava J. J. parando num farol observando três mulheres uniformizadas atravessando a faixa de pedestres. Tadeu identificou e foi de encontro a uma ladeira e subiu. Evidentemente, ao pegar uma rua à direita e ao tirar olhos da tela, deparou-se com as mulheres uniformizadas. Estava na pista certa e entrou numa rua estreita, com casas da década de 20 ou mais. Estavam elas enfileiradas, bem pintadas. Encostou-se sob a luz de um poste de ferro antigo e avistou pessoas enfileiradas e mascaradas acompanhando um caixão ao som de atabaque e berimbau. Dirigiam-se ao cemitério. "Quem seriam"? Féretro à noite? Para não perder de vista, Tadeu abandonou a curiosidade do estranho enterro e foi em frente sem tirar a vista do celular, que no momento, mostrava a imagem para os lados. De um, uma VAN e do outro, um motociclista com capacete, provavelmente o Número 5, um dos últimos homens da ROME(Rondas Ostensivas em Motocicletas de Evilate), da organização não governamental. Tadeu reconheceu o lugar - Praça das Flores - dirigiu-se apressadamente até às proximidades da praça, olhou para os lados e caminhou pelas sombras das árvores. Encostou-se num pé enorme de seringueira e retomou os olhos para a tela, viu um homem de costas sob a mesma árvore. Tadeu notou que a claridade na praça tinha se avolumado junto com roncos dos motores. Depois de alguns segundos, percebeu que as costas de um homem debaixo da árvore eram as suas  e surpreendeu-se com uma voz dizendo: - passeando  meu rapaz? Tadeu se lamentou por este vacilo. Calmamente, desligou o botão do chaveiro e ao mesmo tempo, acionou a gravação do celular guardando-o no bolso da camisa sob o blusão. O prefeito J. J. desceu de sua moto e o 5, sem tirar o capacete aproximou-se e ao reconhecê-lo caminhou em sua volta e chamou o Vanderson: - vejam só quem está aqui, delegado! Tadeu! Podemos terminar o nosso trabalho por aqui!

Vanderson soltou uma risada: - você trouxe o invólucro preto e o desintegrador de corpos?

O 5 fez uma cara de lamento: - não!

O J. J. cortou as palavras do 5 com o seu vozeirão:-Muito bem, então vocês são velhos conhecidos! Podem me dizer quem é?

O ex-delegado Vanderson respondeu prontamente:- é o Tadeu, filho do "seo" Jorge! Vai me dizer que o senhor não o conhecia?

O J.J. sorriu ironicamente: - é claro que o conhecia! Já o vi muitas vezes pela janela da prefeitura; ele está hospedado no hotel a cem metros. Sei tudo a seu respeito! O 5 me deu todas as informações.

Tadeu analisou a expressão do J. J. e diretamente perguntou: - eu sei que você pretende assassinar alguém, J. J.!

O ex-prefeito se surpreendeu e olhou sério para Tadeu:- como sabe disso? E depois, desconfiado, fitou nos olhos do 5 e do ex-delegado e continuou a falar cuspindo no chão - só nós sabemos e você Tadeu, tem conhecimento a quem vamos assassinar? 

Vanderson riu falando: - você nem imagina! Ele tem um irmão e uma irmã chamada Katinha.

O sangue de Tadeu fervilhou nas veias e ameaçou agredir o ex-delegado: - f.d.p!

O J. J. e o 5 seguraram-no pelos braços e Vanderson, socou-o no queixo. Tadeu caiu e ao levantar a cabeça, recebeu um chute no rosto. De repente, o celular de J. J toca. Os três ficaram em silêncio enquanto o ex-prefeito caminhava de um lado a outro, confirmando positivamente a cabeça e desligou o fone. Chegou até Tadeu, agachou-se e falou pausadamente: - resumindo, meu amigo, a sua família inteira será assassinada, pessoa por pessoa. O primeiro foi "seo" e o segundo seria o Wagner, que para nós, o mais perigoso. Ele tem habilidade com a arma, mas isto não é problema. Não temos pressa. Qualquer dia, ele estará desarmado. Quanto a Katinha e sua mãe, a empregada de vocês estará pingando cianureto no café, chá e comida todos os dias, mas aos poucos. Daqui a um ano, digamos que elas terão problemas sérios de saúde. E você quer saber o motivo? Tudo começou quando soubemos que o "seo" Jorge, o seu digníssimo pai pertencia ao serviço de inteligência do governo federal, a ABIN. E aí, meu caro amigo, ele perdeu o "status" conosco. E a terra de vocês é valiosa. Recebemos na prefeitura, um grupo estrangeiro interessado nestas terras e prometemos que daqui a dois anos fecharemos o negócio. É a minha última cartada. Não pretendo ser político, desejo de me aposentar é muito grande. Os meus filhos são formados e estão na lista para se candidatarem a vereador. E serão eleitos! A política é muita lucrativa, senhor Tadeu! É uma pena deixá-lo nas mãos do 5. E também não pretendo manchar as minhas mãos de sangue. O 5 quer muito este momento. Uma vingança em nome do seu irmão Rodrigo, você se lembra? Ele morreu em consequência de uma pedrada na cabeça atirada por você.

Tadeu interrompeu para poder justificar em voz alta:-guerra de pedras, foi uma brincadeira de moleques! Poderia ser ao contrário!

Vanderson: - poderia, mas não foi. Esta execução fica por conta do 5. Bom divertimento!

J. J. - Temos que ir, Vanderson. Há um oficial de justiça nos esperando na porta. Talvez voltemos ao nosso cargo amanhã. Lembranças para o "seo" Jorge lá no céu, Tadeu. De coração! E foi em direção à motocicleta gargalhando. 

Tadeu levantou-se, mas o 5 deu-lhe um pontapé no ombro. Alguns estudantes que passavam no local pararam:- algum problema aí, meu amigo?

O 5 empunhou a sua arma e os ameaçou:- o cara é traficante amigão! Ele está armado também. Vaza! Vai ter tiroteio aqui!

Os estudantes sairam em disparada.

Tadeu, ainda deitado de lado, ensanguentado, perguntou: - o que te dói?

O 5 apoiou um dos pés no banco com a mão armada apoiada no joelho: - meu caro, não estou querendo vingança. Só matei bandidos! Eu quanto a Lisa, pratiquei a eutanásia. Ela estava sofrendo muito! Quando você se foi Tadeu, depois de um ano, nós "ficamos" até acontecer a fatídica morte do pai. Dizem as más línguas que ela teve surto antropofágico e comeu a carne do próprio pai. Ela via coisas, bichos, monstros e ouvia vozes e você não deu notícias e nem chegou a visitá-la. Ela surtou por sua causa, Tadeu, ela queria ir até São Paulo para te encontrar, mas o pai proibiu. O amor tem dessas coisas. E depois que ela amputou as duas pernas e sobrevivia com os remédios do doutor Cristo, chegou um momento alto da depressão e pediu para mim: - mate-me se me amas! Não aguento dores, não aguento tomar remédios e não suporto mais este cheiro  de cadáver que tenho. Suplico-lhe, mate-me!

- E você a matou? Não foi por sua causa que ela surtou? O que fez com ela para ela praticar cenas de antropofagia? Foi você que induziu a isso! 

O 5 baixou a cabeça e percebeu que não podia mais enganá-lo. Respirou fundo olhando para o céu, engoliu em seco e confessou: - sou um monstro, Tadeu, mas a amei intensamente quando ela amputou as pernas. Tenho atração pelas pessoas especiais. Ela está naquele morro, de dificil acesso. Está enterrada debaixo dos paralelepípedos. 

Tadeu baixou a cabeça, chorou e e tentou entender o sofrimento na qual Lisa passou mas foi interrompido pela voz firme do 5: - agora, quero que você me mate!

Tadeu se surpreendeu:- o quê? Você sente dores na alma também?

 5 - Sou um forte, mas tenho as minhas fraquezas. E tenho a minha consciência também! Um dia sentei-me na mesa de um bar e descobri que a minha vida nunca teve sentido.

Tadeu - Que bom para você! Só agora você descobriu? Nunca é tarde para se redimir, mesmo que seja detrás das grades! Matar é o que você mais ama! Vai abandonar o sonho de sua vida? Você precisa se tratar. Na prisão é o seu melhor lugar. Tem psiquiatras de valor.

5 - Sem ironias, Tadeu. É sério, ontem à noite olhei-me no espelho e não me reconhecí. Em meus olhos enxerguei somente o mal. E não desejo te matar e nem me matar. Você me mata em nome das pessoas que morreram pelas minha mãos.

E ofereceu a sua arma coclocando-a no assento.

Tadeu levantou-se com dificuldades apoiando-se no banco para se levantar e disse: - não julgo ninguém e nem faço justiça com as minha mãos. Somente em defesa própria! Se eu te matar, vou preso e é isso que você quer!

O 5 desferiu outro pontapé, levantou-o pela gola do blusão e socou-o no abdomen e no rosto.

Caído, Tadeu analisou a arma sobre o banco e ouviu a voz do 5: - vamos, atire logo antes que te mate e alguém apareça por aqui!

De repente, detrás do seringueiro, uma voz: - deixa que eu faço, Tadeu. Você é um bunda mole! Eu tenho que acertar contas com este F.D.P!

Tadeu viu o vulto e reconheceu quando ele ficou debaixo do poste de iluminação: - você?

Quase todos os estudantes souberam distinguir o barulho do tiro com o barulho de uma bombinha de festas: - um tiro!

Era um barulho seco vindo da praça.

FIM continua

 

                              

CIDADÃO ILUSTRE 39

OS OLHOS DE UM CELULAR

Akio Kimura - 05/02/2012

Tadeu e Lina seguiram os doutores e atravessaram um corredor curto até dar numa escada em caracol. De repente uma voz vinda de trás ecoou pelo ar: - doutor, vou terminar aquele trabalho, posso? Doutor Cristo virou-se e fez um aceno com a mão positivamente. Era o Doni. Ele cumprimentou o casal, aproximou-se do doutor e passou a dialogar em voz baixa e depois foi apresentado: - Tadeu, Lina, este é o Doni de quem falei. Ele se recuperou rápido!

Tadeu logo estendeu a mão: - muito prazer, já ouvi falar, é você que.....

Lina deu um cutucão no braço para interrompê-los e se apresentou dando beijinho no rosto de Doni:- sou a Lina, prazer em conhecê-lo.

Doni: - Prazer.

E não falou mais nada, juntou-se aos doutores que já estavam descendo degraus de concreto.

Tadeu cochichou aos ouvidos de Lina: - ele não tem traços de um DOWN. Parece um cara normal.

Lina, com dedo nos lábios com expressão pensativa: - notei que ele tem sobrepeso, não sorri e é lacônico.

Tadeu - Antes assim do que antes.

A sala de verificação tinha excesso computadores e telas enormes para uma sala pequena. Doni logo se apossou teclando para verficar o andamento das operações. Focou num paciente do quarto 21, cuja operação estava no final. O braço do robô assentou-se na cabeça calva à procura de um local correto. Lina, interessada, perguntou à doutora Silvia num tom baixo de voz: - que tipo de operação? 

Doutora respondeu sem tirar os olhos do monitor:- é um implante. Este empresário argentino teve uma convulsão repentina e foi trazido para a nossa clínica. Detectamos um tumor no cérebro. Estamos utilizando um método em que o DNA e enzimas calculam os teores para ganhar dados de diversas moléculas  biológicas e com isto, oferecem resultados com um código indicando o local correto do tumor. Ele está na região do neo-córtex. O seu cérebro está ativo, embora tenha tido falta de ar, mas se recuperou bem com a utilização do aparelho. Agora, veja na tela como a substância química injetada está se dirigindo até o local lesionado. A mancha escura desaparecerá em duas horas.

Doutor dirigiu-se ao Tadeu como se tivesse lembrado de algo:- sabia que seu pai teve início de Mal de Alzheimer? Utilizamos este método e foi um sucesso, assim, como o do prefeito J.J.

Tadeu se surpreendeu: - o prefeito? O senhor operou?

Doutor:- sim e não fique com cara de patrulheiro. Operei-o como um ser humano e não como político. Neste ramo, todos os doentes são iguais, independente de tudo. E a novidade é que além de implantar com "operação inseto", tive a oportunidade de implantar um CHIP que Doni fez em seus aplicativos. Este CHIP está relacionado com os nervos ópticos. Pelo celular qualquer, pode-se ver aonde o portador está se direcionando, istó é, o celular são os olhos dele. Você tem o seu aparelho?

Tadeu remexeu os bolsos e encontrou um: - é da Katinha, pode ser? O que o senhor vai fazer?

- Vou solicitar ao Doni que configure, pode ser?

Tadeu - Não é invasão de privacidade? Neste caso necessitaria uma permissão judicial.

O doutor riu, deu uns passos à direita e disse compenetradamente: - Tadeu, esqueça isso! Você é um homem maduro e saberá se julgar quando chegar a hora. Se você achar que não deve se intromenter, não se intrometa. Se achar que é correto, vá em frente! Dane-se a ética! Você estará agindo em nome do povo. Você não está assassinando ninguém. Todo o cidadão tem o direito de se manifestar e o direito de ficar calado.

Tadeu sorriu no canto da boca: - o doutor acha que na hora vou saber decidir?

- Completamente. Quem pergunta é porque está interessado, Dê-me o celular! O resto é com você e seu controle remoto, o seu chaveiro mágico. Lembra-se? Doni vai fazer as configurações, OK?

 De volta ao hotel, entre hambúrgueres e refrigerantes na mesa, Lina estava em frente à TV à procura de notícias das 8. Da última vez, o ex-prefeito J.J. tinha reassumido as funções de prefeito. Era uma triste notícia. E Tadeu, alheio às notícias, estava esticado na poltrona manipulando o chaveiro mágico.

Subitamente, uma notícia; Lina pulou de alegria:- até que enfim, um jornal!

Locutor de TV - BOMBA! O EX-PREFEITO J. J. QUE HAVIA REASSUMIDO A PREFEITURA, FOI AFASTADO PELO MP ATRAVÉS DE UM MANDADO JUDICIAL.

Os dois se levantaram e se abraçaram gritando juntos: - que o prefeito não reassuma novamente! Vamos assistir!

A TV mostra imagens dos PF carregando inúmeras caixas de arquivo morto. Depois é mostrado uma gravação em video, o sítio dos Riverios onde os anões foram vítimas dos motoqueiros que atacaram com violência extrema. A câmera mostra rastros de sangue nas proximidades dos Eucaliptos. É mostrado também, os sobreviventes dos Rivérios, na cadeia por motivo de segurança. O jornal menciona também excesso de acidentes e números de mortos nas últimas semanas referindo-se a uma possível ligação com o massacre. E no final, jornal opina sobre o envolvimento do prefeito e do delegado Vanderson. E termina agradecendo à uma suposta Branca de Neve que enviou as imagens à TV e ao YOU TUBE.

Tadeu, num surto de quase loucura gritou: - Lina, Katinha gravou tudo! Só pode ter sido ela! Ela é muito corajosa! Os dois trocaram beijos de alegria, encaminharam-se ao chuveiro e praticaram sexo debaixo da água quente como há tempo não fazia.

Lina atravessou a metade da madrugada num sono profundo, mas Tadeu, insone, manipulava o seu chaveiro mágico ou controle remoto conectado ao celular procurando descobrir o seu funcionamento. Lá pelas 9, foi surpreendido com as imagens alheias e para certificar, apontou o celular em direção à Lina e depois deu um giro de 360 graus e notou que a imagem não era do quarto, e era em tempo real. Era sempre visto por cima. As mãos estavam retirando uma arma dentro de uma gaveta de criado mudo. Rapidamente, Tadeu telefonou para Doni e o repreendeu: - há imagens alheias no celular! Não digitei nenhuma senha!

Do outro lado, Doni respondeu:-se liga, Tadeu! À estas horas? Ninguém merece! Não percebeu que a sua senha é óptica? Esta senha é baseada no DNA familiar, portanto, qualquer pessoa da sua família poderá ter acesso a este tipo de imagem. Se não gostou, é só não assisitir.

Tadeu - Doni, não tinha acreditado em vocês. De quem é?

Doni faz ironia via telefone: - ora! É dum cara que você gosta muito! Se não quer, jogue o aparelho fora!

Tadeu continuou a assistir:- Doni, vou desligar.  Desculpe a minha burrice!...Lina, acorde! Veja!

Lina - Isto é invasão de privacidade! Desliga!

Tadeu não desligou e continuou a ver.  Ele se assustou ao ver a mão direita pegando uma pistola e guardando no bolso da jaqueta de couro. A mão pega o celular e disca com a mão esquerda. Ele anda e vai em direção ao espelho e vai identificando a face com as luzes fracas do abajur. Era realmente J.J.! E alguém atende: - alo, Vanderson? Aqui é o J.J. Você está pronto? Está bem, ele não pode escapar! Você está levando a arma parecida com a dele? Não? Ele não tem? Tem certeza? Pegamos ele e depois o irmão dele. O tiro tem que ser na cabeça porque ele sempre usou colete a prova de bala. E o lugar do encontro é o de sempre. Não podemos ser vistos. Vou com um fusca velho e um boné preto, você, trate de arrumar um carro velho e coloque aquela peruca para cobrir uma parte da sua careca! O quê? Contratar pistoleiros? Dá na mesma! Se eles forem pegos, vão nos denunciar. E se formos pegos, vamos ser presos do mesmo jeito. E não se esqueça da VAN e do saco preto e o extintor desintegrador de matéria. Temos que sumir com os corpos. Ninguém pode saber deste desintegrador.

Tadeu fica de olhos arregalados com a frieza do J.J. e espontâneamnte acorda a companheira:- Lina! Vai ter um assasinato!

Lina aproximou os olhos da tela e vê um homem da ROME de costas olhando pela janela deixando à mostra,  o N.º 5.

Tadeu, sem perda de tempo, começou a se vestir quando Lina o interceptou pegando-o pelos braços: - aonde pensa que vai?

Tadeu fixou os seus olhos com firmeza e disse :- vou até a delegacia! Vai ter um assassinato!

Lina o cerca novamente:- você é louco? Deixa para as autoridades, pô! E não se esqueça que o delegado está nas imediações. Você conhece o delegado, não conhece? Ele está solto!

E sem se importar com as palavras de sua garota, desvencilhou-se de suas garras e disse num tom autoritário:- Lina, telefone para a PF, envie e-mail para oposição, jornais e Tvs. Diga que o J.J. vai assassinar alguém!

E saiu apressado batendo a porta e com celular na mão.

Lina - Putz! Cara teimoso! Alô, é da delegacia?

- Sim. O que deseja?

- Vai ter um assassinato! Dê um rolê na cidade! Blitz é uma boa! O prefeito J.J. vai assassinar alguém!

- Ô menina! Deixe de ser boba! Este tipo de pegadinha já não funciona por aqui! Hoje assassinei um gato. Passei por cima dele com o meu carro!

E assim, Lina ficou sem dormir, tentando ligar para Tadeu onde só caia na Caixa Postal. Restava esperar ou cair na rua à sua procura. Era só questão de tempo.

FIM - continua

 

 

 

 

 

 

CIDADÃO ILUSTRE 37

O CHAVEIRO MÁGICO

Akio Kimura - 31/12/2011

Tadeu e Lina acompanharam doutor e a doutora até o elevador. Mal entraram, os visitantes estavam defronte a uma porta de metal escrito: ENTRADA SOMENTE COM CREDENCIAMENTO. Tudo era rápido, o casal de doutores não dava trégua um minuto sequer. Eles desceram uma escada em espiral até chegarem num cômodo onde havia uma saída dando num pequeno corredor e dez passos após, uma bifurcação. Tadeu pensou: "deve ser à esquerda", mas viraram para a direita para um corredor estreito até pararem em frente à uma porta de vidro temperado. Bastou um toque da doutora em seu chaveiro que a porta se abriu. Era um corredor sombrio, com chão móvel, recebendo luzes azuis pelo teto. Era na verdade, um banho de luzes, como explicava o doutor, precauções contra bactérias poderosa que por acaso possam estar impregnadas nas roupas, nos cabelos e nos calçados. Logo que sairam do compartimento, outra placa: VESTIÁRIO. Era um quarto com armários e sairam vestidos com macacões brancos, tocas e luvas. O doutor Cristo em explicações rápidas, dizia que o local exigia pureza total devido às cirurgias de alto risco. O casal ficou pasmo quando se viu em frente a equipamentos modernos como uma câmara de tomografia eletroencefálico transparente, braços de robôs, além de computadores e monitores gigantes de alta definição, bem diferentes daquelas que havia visto nos andares superiores: - Estão vendo aqueles braços mecânicos no canto da sala que um cirurgião e seus assistentes estão manipulando? É o robô que injeta drogas em doses exatas no local exato do tumor através dos neurotransmissores. Olhem, há uma pessoa na câmara de tomografia, é o Doni. Estão vendo que há muitos fios colados sobre corpo? São eletrodos para a transmissão de resultados da uma parte cerebral para o monitor. Notaram também os fios conectados nos óculos até o computador? Eles estão ligados aos eletrodos, o que nos possibilita acompanhar a reação do paciente quando ele recebe a dose da droga no local exato. Podem ver que os gráficos estão em constante mutação. São os momentos que estão próximos na captura da região do cérebro afetado. Vejam, ao lado, um médico manipula uma tela do computador através de toques tentando conter  excessos de radiação. A doutora Silvia se antecipa a curiosidade do casal: - O paciente é Doni, um garoto que foi abandonado nas ruas de Evilate. Ele estava em estado deplorável e a ADF, aquela instituição que foi destruída por uma explosão criminosa amparou-o. Como o menino estava em estado de choque, a dona Odete, a diretora, encaminhou-nos para que solucionássemos o problema. Ele tem um tumor que impede o seu desenvolvimento intelectual.

De repente, Tadeu interrompeu: - doutor Cristo, só por curiosidade, qual é a sua função verdadeira? O senhor é médico? É cientista?

Doutor sorriu e respondeu:- sou neurocirurgião, neurocientista e pesquisador.

Lina - pensei que o senhor fosse polivalente, aquele cientista que faz tudo! Faz cirurgias, faz obturações, varre o corredor, faz cafezinho..

Doutor-às vezes faço tudo isto quando há problemas, embora a lei trabalhista proiba estas atividades paralelas.

E riram.  

O doutor parou de rir e sinalizou a sua atenção à doutora Silvia:- prosseguindo...implantamos um CHIPS em Doni e conseguimos normalizar o seu comportamento agressivo. Ontem, aproveitamos para acrescentar o código genético que o doutor conseguiu separar. Este código, uma das menores partículas do genoma, que pode modificar a fisionomia e seu rosto e corpo. Doni já está bem diferente de quando veio.

Tadeu interrompeu com mudança de humor:- vocês não vão me dizer que é uma experiência em ser humano? O senhor enlouqueceu?

O doutor Cristo se surpreendeu com a incompreensão de Tadeu:- calma Tadeu! Doni estará bem. Nós fizemos todos exames possíveis, tudo positivo. É uma experiência que fiz em Zurique com primatas há dez anos. E fiz outra experiência num idoso de 102 anos de idade à beira da morte.

Lina, surpreendida com a informação, perguntou ironicamente:- e como está o idoso? Virou um bebê?

Doutor sorriu forçado mostrando em sua expressão, desprezo pela ironia:- nada disso, Lina! Ele está vivo e está com 112 anos com aparência de 90.

Tadeu ri: - para mim, um idoso de 90 não é diferente de 112. A diferença é pouca e é muito tempo de vida!

Doutor - Infelizmente, o seu corpo não está resisitindo a ação do tempo. Nós temos a solução de reabilitar as células mortas, mas ainda estamos atrasados. A pele emite um cheiro desagradável.

Doutora Silvia: - Igual à da Lisa. Infelizmente, ela morreu. Temos um CHIPS que evita a morte das células, mas ainda é limitado.

Tadeu baixou a cabeça consternado: - fiquei sabendo da morte da Lisa. Vamo prosseguir a conversa.

Lina olhou de soslaio e mudou de assunto: - não ficamos sabendo dessas novidades na mídia.

Doutor Cristo em tom de seriedade, disse apressadamente:- é segredo! Não divulgamos nada, apenas para vocês, que para mim, Tadeu, você herdou tudo isto aqui! Ou para Vagner! Ou para Katinha. O meu medo é que estas descobertas caiam em mãos erradas e usadas para o mal. E este idoso de 112 anos, Tadeu, com aparência de 90, sou eu, Cristopher Shultz!

Tadeu e Lina se entreolharam com sobressalto.

Lina se manifestou: - doutor, o senhor está com aparência de uns 78 anos!

Doutor - Pois é, garotos! Mas a aparência de velho é de velho a partir dos 65. Outra novidade, o verdadeiro corpo de Cristopher Shultz está em Zurique! Este corpo em que estou incorporado é de um americano. Sou alemão de nascimento e naturalizado americano. Roubei este corpo num hospital de Nova Iorque porque fui acusado de desviar segredos e projetos de equipamentos super-modernos. Na verdade, nem precisei roubar. O projeto era meu e sabia tudo de cabeça. Pedí asilo em Zurique com ajuda de um diplomata brasileiro com a ajuda de outro brasileiro que fazia estágio na CIA. Era um importante agente da ABIN, que conhecia o seu pai. Foi realmente cenas de cinema.

Tadeu, novamente em tom irônico - Está provado que o brasileiro não tem jeito! Adora fazer coisas erradas! Explique-me por quê do desentendimento com o Centro de Pesquisas dos EUA?

Doutor - Porque um membro importante do governo americano tinha intenções de aperfeiçoar estes CHIPS para a guerra com motivações comerciais, no qual, eu não concordava. Ele queria patentear em seu nome. E as relações se desgastaram.

Tadeu - Humm! Egoísta! Se FBI ou CIA descobre!....Voltando atrás, doutor, este corpo que agora te pertence, não há perigo do cérebro desta vítima se desenvolver como fosse o seu cérebro? Não haveria mistura de idéias, de comportamento?

Doutor - Só o tempo dirá, arquivei toda a memória deste cidadão, mas há grande risco da memória dele retomar o seu lugar com um simples acidente. Provavelmente, haverá conflito de vontades, de idéias, mas estamos estudando um meio de bloquear ou na medida do possível, que a memória dele não ultrapasse o limite da minha consciência. Estamos num estágio avançado, eu por exemplo, com este chaveiro de controle remoto, posso me transferir para você. É só inserir e colar. Você, Tadeu, se souber manipular este controle remoto, poderá estar em mim.

Tadeu, com expressão de que entendeu não entendendo perguntou com olhos virados para cima: - então este CHIPS que o doutor implantou em mim, por acaso é do senhor?

Doutor Cristo lambe os lábios com certo temor em responder:- ...eu fiz uma cópia do CHIPS e implantei em você. Quando você souber manejar o controle, você será doutor Cristo ou seu pai, seu irmão e recentemente, atualizei e inclui: J. J., Delegado Vanderson e reservei na pasta, mais alguns  espaços em caso de urgência.

Tadeu fica estupefato e Lina pergunta:- para quê? Pode deletar J.J. e Vanderson! E como vou ser tantas pessoas num só corpo, numa só cabeça?

Doutor Silvia- Não se preocupem, isto está longe de acontecer. É necessário conhecer profundamente este controle. É complexo! Tem que ser um genio da informática ou da matemática para se chegar a este ponto. Mas se chegar, terá poderes que nem Deus terá.

Tadeu - Não, não quero ser um Deus, meu Deus! Quero que retire este CHIPS! É uma violação! É contra a lei da humanidade e do mundo científico. 

De repente, doutor Cristo pega o seu chaveiro a aperta um botão e na telinha, surge a imagem de J. J. e dá o START.

Tadeu sofre uma convulsão. Cai no chão e Lina agacha-se para socorrê-lo: - doutor, o que o senhor fez?

Doutor, calmamente, agacha-se também e mostra a telinha do chaveiro: - olhe, Lina, está fazendo um DOWNLOAD, dura apenas um minuto.

Após um minuto, Tadeu se reabilitou e mexeu os olhos para todos os lados: - que lugar é este?

Tadeu se levantou e prosseguiu: - o que o senhor faz aqui, doutor? Onde estou?     

Todos ficam preocupados. Lina se afasta assustada pelo tom diferente de voz. A doutora Silvia apenas observa com olhar atento e o doutor, com controle remoto na mão sussurra nos ouvidos de Lina: - ele, agora é J. J. de ontem. Temos uma demora de 24 horas para atualizar.

Lina observa atentamente e nota que Tadeu está diferente, principalmente no olhar. Tadeu se manifesta:- por quê voces não respondem? Cadê os papéis? Vocês furtaram? Cadê os papéis?

Doutor - Que papéis, J. J.?

Tadeu vira para os lados e se dirige ao doutor:- vocês me sequestraram? Cadê a Ordem Judicial do STJ para reassumir a prefeitura? Tenho que mostrar à imprensa hoje mesmo!

Todos na sala se entreolharam e doutor perguntou:- o senhor vai reassumir a prefeitura?

Tadeu - Sim. Por isso que estou me preparando e me vejo em frente a vocês!

Doutor rapidamente aciona o controle e desliga e restransfere para o verdadeiro Tadeu, que novamente entra em convulsão.

A doutora se agacha primeiro e passa a mão na testa: - está febril, doutor. Mas temos que estudar um meio de evitar esta convulsão. Pode se ferir e alterar a programação.

Doutor - E esta febre é sinal de rejeição. O santo de Tadeu não cruzou com o de J. J. Preciso pesquisar a respeito, Silvia.

Tadeu se levanta com ajuda da doutora e Lina, preocupada perguntou:-Tadeu? Você está bem?

Ele sorriu:-parece que escorreguei. Desculpem-me.

Doutor pegou o chaveiro e acionou um canal de reportagem.

Locutor: - O prefeito J. J. reassume a prefeitura de Evilate por Ordem Judicial.  

Tadeu - O quê? J. J.? Como pode? Ele é um falso juiz! Todos sabem disso!

Doutor - O país inteiro sabe, não são todos, mas ele tem alguns amigos influentes no Planalto.

Lina - Eles estão cegos de poder e não conseguem enxergar a verdadeira justiça.

Doutor interrompeu a conversa e por distração, disse para Tadeu:- J. J.!, você pode ser a própria solução, pois temos o senhor em nossas mãos. Você está sequestrado!

Todos riram, menos Tadeu: - o que vocês estão dizendo? Que piada é esta?

Lina, com tom de gozação - Explicaremos no caminho, Tadeu. 

Doutor- Logo você vai entender a piada.

Todos riram.

FIM continua 

CIDADÃO ILUSTRE 36

Akio Kimura -18/12/2011

PRAZER É MEU, DR. CRISTO!

Um prédio quadradão de três andares, na verdade, de seis. Havia mais três no subsolo. Ninguém diria que era um mini-hospital ou na melhor das hipóteses, uma clínica, bem no centro de Evilate. Para Lina, mais parecia um centro de pesquisa, pois vira através do vidro, algumas pessoas de jaleco numa sala com microscópios e tubos de ensaios. As mesas estavam repletas de recipientes, sabe lá o que tinha lá dentro. Não havia muitos pacientes e deu-se para notar que eram pacientes bem pacientes, provavelmente,"cobaias humanas" isto porque, alguns deles repuxavam a boca repetidamente, outros, se expressavam com olhar parado no ar. Tirando algumas conclusões, mesmo que duvidosas, pelo simples fato de ter ouvido boatos a respeito do doutor Cristo de que ele era fissurado em ressuscitar pessoas em estado terminal, poderia muito bem ser verdade. Em suma, era um hospital das policlínicas com cara pronto-socorro, dentro de um centro de pesquisas comandado por um gênio esquisito e maluco, sem medo de errar.

O casal pegou o elevador e subiu, desceu, percorreu os corredores. Tadeu tirou uma idéia! O lugar parecia o refúgio dos vilões do cinema. Bem cinematográfico. Só faltava um aquário com peixes enormes atrás da mesa do presidente superintendente. Enfim, o que o casal estava bisbilhotando? A ordem era esperar na sala atendimento. Tadeu resmungou:- é tudo igual, Lina. Os super-vilões do cinema conseguiam montar uma NASA perfeita numa ilha deserta ou um enorme laboratório no topo de uma montanha. Como eles conseguiam verbas? Ninguém explica. E os trabalhadores? Eram registrados em carteira? Os vendedores de materiais de construção emitiam Notas Fiscais? Talvez sim, mas e a construtora? Como conseguia aprovar plantas na prefeitura? Propina no setor público? E todos dizem-se honestos, mas não aquele HONEEESTO, mas sim, com algumas ressalvas.

De repente, seus pensamentos voltaram-se para Elisa, morta, segundo as palavras de um motociclista:- "Gostaria muito de ressuscitá-la". De repente, Lina interrompeu: - Tadeu, acho que foi aqui que Elisa se recuperou. Tadeu nem ouviu, mudou de pensamento e foi parar no seu velho pai: - "de onde ele havia  conseguido uma verba tão grande?" Calculando de viés, tinha uma fortuna aplicada. Eram máquinas de tomografia sofisticadíssimas, salas de cirurgia modernas, robotizadas.  Eram muitas salas, cerca de doze, cada qual, com máquinas a sua mercê.

Foi assim, uma atendente de idade, cerca de 38 anos de idade, morena clara de olhos azuis, magra e linda com um jeito estranho de andar veio ao encontro. Tadeu e Lina notaram que ela não tinha concatenação de movimentos, os dois braços iam juntos na mesma direção. As suas pernas pareciam com os passos de um robô melhorado, mas de qualquer maneira, Tadeu achou que ela fora uma das pacientes que tinha voltado à vida depois do estado de coma: - senhor Tadeu, o doutor Cristo chegou. Sigam-me até o escritório.

Tadeu - a senhora é feliz com esta vida?

Senhora - Sou. Estou viva. Detesto morrer!

Percorreram até o fim de um corredor e numa das portas, um nome: CRISTOPHER SHULTZ - a recepcionista fixou os olhos na placa e uma faixa de luz azul atravessou os seus olhos. A porta se abriu. A sala, quase vazia com uma mesa, um telefone vermelho, uma impressora, um microcomputador e uma estante de vídeos de DVD's antigos.  O provável doutor estava sentado olhando a paisagem de fora através de uma janela e a provável doutora Silvia estava sentada à espera e logo levantou-se da cadeira para cumprimentá-los: - senhor Tadeu, como vai? O senhor me reconhece? Tadeu sorriu e respondeu: - a senhora dos comprimidos...confesso que só dormi 57 horas. Era necessário uma super-dose? Perdí os acontecimentos importantes aqui no qual gostaria de ter participado.

Doutora Silvia esticou os lábios e respondeu: - você estava mais morto do que vivo e a sua pressão arterial estava no topo. A qualquer momento, você poderia apagar-se...para sempre. O seu estresse estava no máximo.

Neste mesmo momento, doutor Cristo virou-se para o casal, levantou-se: - muito prazer em conhecer, Tadeu!

Logo ao vê-lo, deu-se a boa impressão e foi em sua direção, esticou a mão direita:- prazer é meu, doutor Cristo!

O doutor estava de jaleco branco mostrando a sua magreza de um senhor de idade, postura erecta, óculos sem aro, transparentes que confundia com a brancura de seu rosto, por sinal, portador de um queixo quadrado, igual dos desenhos de "anime". A sua boca pequena era compensada pela sua voz firma e estridente. Um defeito: falava alto demais.

Doutor caminhou até a janela, parou e colocou as duas mãos para trás, uma segurando a outra e explicou secamente olhando o céu: - conheci o seu pai em Zurique, numa livraria. Ele folheava um livro escrito em alemão e só por isso, fiz amizade. Mentira. Explico: naquela época, eu era amigo de um político brasileiro influente que fazia parte da ABIN. O interesse dele era o CHIPS que criei, da finura de um fio de cabelo com capacidade de 4 Tegabites. Nanotecnologia. Seu pai me contratou lá mesmo na livraria.

Tadeu, curioso, perguntou:- mas para quê? Já acabou a época de espionagem.

O doutor virou-se e respondeu repentinamente com um leve sotaque alemão: - é aí que você se engana, meu rapaz! A espionagem industrial está a todo vapor e é crime, mas neste país, tudo é permitido. É uma guerra de multinacionais. Ao meu ver, tudo isso acabará um dia porque uma vai adquirindo a outra através da fusão. O governo insistiu neste projeto secreto. Também pode ser lavagem de dinheiro.

Tadeu - E que lavagem! Até o meu pai está no rolo! Mas o que há de se fazer, né?

Cristo - Na verdade, Tadeu, ele é vítima! Estava sendo usado. Ele sabia e não resistiu aos encantos da ciência e do projeto. Mas é o menos ruim. E era o mais honesto de todos.

Tadeu ri com ironia - Professor, numa corrupção, não existe menos ruim. Existe é honesto safado! Faz tudo direitinho, mas ele sabe que há algo de errado. É conivência.

Cristo - Se seu pai está na panela, então, estou também! É isto que você quer dizer?

Tadeu - Exato. O senhor sabe de quem vem a verba e o senhor não fala porque atende aos seus interesses, isto, para o bem da ciência. Estou errado?

Cristo aspirou o ar e soltou balançando a cabeça sorrindo meio torto:- e o que o senhor Tadeu acha de tudo isto?

Tadeu - Perigoso. É o desvio de dinheiro para um plano secreto. Melhor seria informar ao povo de tudo. Este plano é bom, mas é a corrupção fazendo o bem em segredo e que ninguém pode saber porque tem interesse numa fatia da verba. Para mim é tudo estranho, tão estranho quanto eu, que lutei com um homem que não conhecia sobre o teto de um ônibus. Houve um momento em que queria matá-lo em favor de uma cidade. E o pior, eu o salvei e depois o matei. Enganamos as autoridades, mentimos tudo em nome da justiça. Agora sou um criminoso e tenho que conviver com isto para o resto da vida. Até a Lina é cúmplice. Ela me ajudou muito! Ela tombou um ônibus e tinha gente lá, inclusive este com que lutei. Acho que morreram instantâneamente! Portanto, ela também é uma criminosa.

Lina se surpreende com o seu nome em pauta apertando a palma da mão em seu peito: - eeeeuuuu? Tadeu, você matou mais uns três. Não se lembra das ferramentas pesadas que você jogou contra os motoqueiros?

Cristo interrompeu: - Lina, não se preocupe. Tudo foi feito pela sobrevivência, pela defesa. Vocês estavam sendo atacados. Vamos para outro assunto -  o CHIPS que implantei em você, Tadeu, vai te deixar sem esses complexos da vida. Você esquecerá que é culpado. O CHIPS levará você para a razão. Vou te entregar um controle remoto em forma de chaveiro e mais uma cópia para você guardar num cofre de um banco.

Tadeu - O que o senhor está dizendo? Implantou um CHIPS em mim? Quem autorizou? O senhor violou a minha pessoa!

Doutora Silvia - Tadeu, você assinou antes de entrar em coma.

Tadeu - O quê? Assinei? Em coma? Eu?

A doutora abriu uma pasta de folha de alumínio e retirou um documento: - veja se a assinatura confere.

Tadeu ficou estupefato. Era a sua assinatura: - não me lembro disto! Sacanagem!

Doutor Cristo interferiu com delicadeza e com voz baixa: - não vai mudar nada, Tadeu. Você continua a mesma pessoa que sempre foi. É só não utilizar o controle remoto. E você não vai perceber nada. O CHIPS é da finura de um fio de cabelo e não vai te incomodar em nada. Muito pelo contrário, você terá uma vida longa com este CHIPS. Ele cuidará da sua saúde. Se você tiver uma doença rara, ele avisará e se você quiser, pegará o controle e fará uma manipulação para que o remédio vá em dose exata e no lugar certo sem causar sequelas. 

Tadeu caminhou de um lado a outro e depois se aproximou de Lina.- o que você acha? Mando retirar o CHIPS? 

Lina- Não, já que não vai te incomodar, deixa o CHIPS aí. Se pedir para retirar, você vai ter que entrar em coma por mais 57 horas.

Tadeu - Não. Em coma de novo não. De repente, se  eu acordar e J. J. conseguiu recuperar o cargo na prefeitura? Lina, vou deixar este CHIPS em mim, quem sabe, possa viver melhor.

O doutor interrompeu e disse: - Este CHIPS trará muitos beneficios para a população também.

Tadeu, cético de tudo: - será? O que por exemplo?

Doutor Cristo levantou a cabeça caminhando de um lado a outro: - a implantação do CHIPS em crianças para o aprendizado. Temos o CHIPS 00001Azteca que é para crianças problemáticas com dificuldade de aprendizado como os portadores de Síndrome de Down. O CHIPS estimulará o sistema nervoso através do neurocondutor que levará a química faltante no cérebro. Isto serve também para outras doenças.   

 Lina - doutor Cristo, depois pode implantar um CHIPS em mim?

Doutor - Sim. Levará 57 horras.

Lina - Deixa prá lá! O senhor tem sotaque alemão.

Doutor gargalhou e de repente para: - desculpem, pessoal... doutora Silvia, explique a eles.

Doutora postou-se erecta, ajeitando os seus óculos, molhando os lábios antes de falar: - este sotaque alemão é uma falha no tom de voz. O doutor ainda não se adaptou ao CHIPS, assim que adquirir prática, falará bem em todas as línguas. Então, a outra intenção real deste CHIPS é procurar o lado ruim da pessoa e deletar. Tudo que é bom, estará gravada desde a infância. O plano é aplicar em presidiários irrecuperáveis, mas o projeto está em estudos. Há muita gente contra. Por aí, você vê, Tadeu, que o nosso projeto está voltado para questão humanitária.

Tadeu sem se conformar, perguntou:- é só para ricos e famosos ou pobres também terão vez?

Doutor Cristo bate palmas olhando para todos: - de início, só para ricos e famosos para captar recursos. O plano de seu pai, seo Jorge, era desvencilhar-se dos políticos o mais rápido possível e depois, com recursos, atenderíamos os menos favorecidos. Por enquanto, temos que atender os parentes dos políticos e que são muitos. São eles que injetam a verba, que não é pouco. Sem eles, não sobreviveríamos. Vem até estrangeiros fazer tratamento de cancer e com eles que nós enriquecemos.

Tadeu - De onde os políticos tiram o dinheiro?

Doutor - um pouco da loteria, um pouco do INSS, um pouco dos Transportes e assim por diante. E vocês, como se sentem?

Tadeu - Com este CHIPS implantado em meu corpo, sinto-me corrupto.

Todos riram.

Doutor - Vamos conhecer o prédio?

Tadeu e Lina concordaram de imediato. Olharam-se de viés e pela expressão, estavam felizes por conhecer algo novo para acrescentar em suas vidas. É claro, não se sabia o resultado e as consequências de tudo isso. O doutor, embora aparente ser uma boa pessoa, poderia ser um vilão, junto com o seu falecido pai.

Tadeu -  Será que este projeto, realmente tem apoio do governo?

Doutor - Legalmente, ninguém sabe. Ilegalmente, temos muito! Sigam-me! Vou mostrar o resto do prédio.

Tadeu e Lina - Vamos!

FIM continua

 

 

 

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