Akio Kimura - 12/05/2012
LEVANTE-SE!
Will levantou-se do assento e disse para Herbin:- este meu apartamento está ficando pequeno. Veja esta sala, Herbin, está repleta de equipamentos de informática de última geração e se estende até o meu quarto. Estas máquinas vão acabar me expulsando para alguma prisão virtual.
Herbin riu satisfeito por ter entrado em acordo. Will era um gênio. O "game" teria que ser corrigido porque o filme de seu primo Marcelo não havia ido bem nas bilheterias até então. A idéia de transformar "CIDADÃO ILUSTRE num "game" era uma forma desesperada de se recuperar financeiramente.
- Will, quanto tempo vai levar para terminarmos a adaptação do filme para o "game"?
- Não muito,Tadeu. Temos que fazer você entrar na estória. Explico: você entra no filme como Herbin, um parente próximo de Tadeu, o que é verdade e terminamos com você. Tadeu já está desgastado com aquela ação das cenas do õnibus. Tadeu já não é Tadeu 100%, é J. J.
Os dois dirigiram-se até a cozinha e fizeram um sanduíche americano com uma pitada de bacon moído, o alimento predileto de Will:- o correto seria dispensar a maionese, mas ela é imprenscindivel. Já tentei outros ingredientes, mas deu maionese na cabeça.
Após o lanche, Will conduziu Herbin para o quarto com paredes verdes. Num dos cantos perto da porta, um computador com uma tela de 40" conectado a um aparelho eletronico e ao centro do quarto, uma poltrona reclinável.
Will - Herbin, sente-se e coloque os óculos. Ele produzirá imagens do jeito que você imaginar e se projetará no fundo verde, OK?
Herbin espantou-se com o estúdio e não resisitu a uma pergunta: - Will, se eu me imaginar estar dentro de um carro e me dirigir até a cidade de Evilate, vai aparecer neste fundo verde?
Will - Exatamente como nos filmes a que assistimos. É uma nova tecnologia holográfica. Confesso que o manejo no PC é complicado, mas nada que não me faça resolver. Vamos lá? Concentre-se. Vou preparar alguns aplicativos que vão levar cinco minutos, OK?
Herbin - OK! Então, vamos pra Evilate!
O MUNDO VIRTUAL
" Imediatamente me conduzo ao meu apartamento. Faço as malas e tomo rumo à estrada com o meu carro. Penso que é madrugada, porque há pouca movimento e faz frio. O trânsito está livre e por isso, acelero até o limite da minha habilidade, não mais do que isso. Ganho a rodovia Castelo Branco, passo por alguns pedágios e rodo pela estrada livre. De repente, o sol começa a nascer na minha frente, um parto exuberante da natureza, por isso fiz questão de receber os primeiros raios do sol para aquecer a minha alma. Hummm...
Vejo uma placa: LEMÓPOLIS - 1 KM - EVILATE - 10 KM.
Evilate - Estaciono o carro onde é permitido e entro num estabelecimento chamado "Santo Café". Era um misto de padaria, loja de conveniência, banca de jornal, livraria e comida à quilo. Só faltava serviços de mecânica e borracharia. Sento-me perto da janela por hábito. Gosto de assisitir a movimentação de pessoas e automóveis. De repente vem uma moça me orientar - era para pegar um prato e me servir. Entendi então que era um "self-service" de pães.
Enquanto saboreava um pão de massa folhada de palmito com catupiri e um café encorpado, resolvi pensar por que motivos estaria aqui:
1.º - A frase dita por uma voz da suposta Elisa no bairro do Bixiga na visão de Tadeu - : "siga-me com seus rastros de fogo nestas nebulosas ruas feitas de pedras mortas". Nada demais, mas por quê Tadeu ouviu estas palavras sem nexo? Para mim, a resposta estava no passado. Elisa, amiga e namorada de infância escrevia frases em postes ou em paredes que oferecessem espaços. Mas pela estória no filme, esta frase remetia a minha lembrança ao morro chamado CARECA DO PADRE, de caminhos escorregadios e perigosos. Elisa estava lá enterrada como indigente. O "5", o membro da extinta ROME era o criminoso que tinha confessado que praticara eutanásia a pedido de Elisa diante de seu deplorável estado físico e espiritual. Para quem não se lembra, o "5" era o maníaco que praticava ferimentos em namoradas enquanto praticava sexo, morto pelo Vagner na Praça da Flores. Que Deus o tenha.
2.º - Outra, o doutor Cristo existe. Ele foi o neurocirurgião que me tratou quando aconteceu aquele acidente automobilístico quando eu e a minha mãe discutimos dentro do carro. Quando saí do hospital, não conseguia falar e me comunicava através de gestos até a minha volta da viagem de Piaui. De repente, descobri que conseguia realmente falar. Seria o controle remoto da TV que me fez voltar acidentalmente como eu era antes? A resposta estava na boca do doutor Cristo.
3.º - O que Tadeu viu naquela igreja abandonada? Ao escapar do cativeiro, ele presenciou através de uma fresta, algo terrível. O que seria?
Terminei o meu café e rumei para o mesmo hotel onde Tadeu havia se hospedado e por sorte, consegui o quarto ao lado. Precisava falar com a Lina. Ela teria ido embora? E fui visitá-la. Bati à porta e uma voz respondeu: - é o taxista?
Logo pensei - Lina vai embora. Vai esquecer tudo! Ela não teria coragem de amar Tadeu no corpo de outra pessoa. A porta se abriu e vi a Lina, mesmo sem sorrir, irradiou simpatia. Uma mulata de olhos verdes, cabelos cacheados, corpo em forma e mesma estatura que a minha:- muito prazer! Sou primo de Tadeu, o meu nome é Herbin.
Lina - Primo? Herbin? Ele tinha me dito que você era surdo-mudo!
Herbin - Até outro dia, era. Você me convida para entrar?
Entrei e sentei-me naquela poltrona em frente a TV e ela se pronunciou:- você nem se parece com ele. Qual a razão da sua visita? Eu estou esperando um taxi para ir embora. Os meus pais estão preocupados. Estou aqui há trinta dias e é preciso mostrar a minha cara para que eles não fiquem preocupados. Filha única, você me entende?
Herbin - Entendo. Eu sou também! Então, vou ser direto ao assunto. Gostaria que você me levasse até o doutor Cristo. Fui operado por ele e fiquei sabendo que ele implanta CHIP nas pessoas em que ele faz cirurgia. E como você sabe, fui surdo-mudo até outro dia. E agora falo normamente, uma mudança radical. Creio estar "chipado".
Lina interrompeu repentinamente: - Posso levá-lo até lá sem problema algum. Você tem provas de que você é o primo de Tadeu? Não está se confundindo com o filme? Tem R.G.?
Retirei da minha carteira e mostrei R. G. e algumas fotos minhas quando era surdo-mudo: - que você acha?
Ela analisou e respondeu categoricamente: - sim, quando você era surdo-mudo tinha as linhas do seu rosto mais forte e os olhos mais fechados, o corpo estava ligeriamente curvado. Hoje você está mais firme, erecto. A sua feição está mais magra. Sim, está um pouco diferente. Só por causa disso você quer se encontrar com doutor?
- Sim. Você já teve contato com ele e Tadeu tem um implante dele que agora está no corpo do ex-prefeito J. J.
Lina se surpreendeu: - como você sabe disso?
Respondí - Assisti ao filme.
Lina - Tadeu me falou sobre ele. Então o filme do Marcelo tem tudo sobre o meu relacionamento com Tadeu?
- Sim. É uma longa história. Depois eu conto. E sabia que a fisionomia do J. J. pode vir a parecer com a de Tadeu?
Lina - Eu sei disso. Mas J. J. morreu. Só voltarei para cá no dia dos mortos para oferecer crisântemos em seu túmulo.
Ela não sabia de nada mesmo tendo presenciado o mal estar de J. J. e parou de respirar. Logo Doni acionou o IML no qual Tadeu morrera também: - Lina, você se lembra do grito do J. J. naquela noite no UTI?
- Lembro-me muito bem. Foi um ataque fulminante no coração! Foi horrível!
- Lina, J. J. sofria de catalepsia patológica! Talvez ainda esteja vivo! Vamos desenterrá-lo?
Lina arregalou os olhos e comprimiu a feição com total incompreensão do que tinha ouvido: - você é louco? É crime! É imoral! Só mente insana faria uma coisa dessas! Não estou entendendo!
Fiquei surpreso também pela sua atitude. Ela se assustou julgando-me louco e disse-lhe em tom alto: - Lina, Lázaro tinha catalepsia e Cristo apenas falou - "levanta-te Lázaro"! Então vamos comprar picareta, martelão e outras ferramentas para abrir aquela tumba antes que seja tarde!
Lina paralisou-se por um momento. De repente, os olhos de Lina brilharam como se tivesse acendido por uma luz e o amor ao Tadeu que ela sentia: - topo! Mas vamos já ou você quer se encontrar com doutor primeiro?
Logo respondi me levantando: - por regime de urgência, vamos até o jazigo! E agora!
E saimos em disparada após ter adquirido algumas ferramentas. Enquanto Lina indicava o caminho, apreciava o vasto campo canavial. Havia alguns tratores e caminhões com carregamentos lotados. Para entrar na propriedade de J. J., paramos numa estrada de terra e cortamos a cerca de arame farpado. E lá chegamos. Realmente parecia um mini-vaticano. Era o fruto do dinheiro da corrupção. Ele gostava de luxo até depois da morte. Peguei os binóculos e vi a mansão enorme do ex-prefeito e pensei: - quem estaria tocando esta plantação uma vez que o dono estava morto? A movimentação de trabalho estava normal. Eram caminhões que vinham e saiam. Com certeza, os administradores da fazenda estavam no comando. Pegamos luvas, uma picareta e o martelão para arrombar a tumba. Uma surpresa - a tumba estava violada e sem o caixão, certas pessoas tinham tido a mesma idéia que a minha. Sentamos exaustos e iniciamos a pensar. Quem teria tamanha ousadia de roubar o corpo de J. J.? Lina não se conformava. Passou a chorar ininterruptamente. E eu, tentei recordar-me do filme desde a chegada de Tadeu à cidade de Evilate até a sua morte. Lembrei-me daquela igreja abandonada, onde Tadeu fora feito refém. Isso! Quem sabe uma boa alma tenha levado o caixão para uma missa? Seria a única alternativa: - Lina, vamos até aquela igreja abandonada? Você sabe o caminho. Não é longe. É só ultrapassar aquele 4x4. Mas de repente, veículo preto parou bruscamente. Brequei. Do carro sairam dois homens com pistolas. Sem pensar, dei a ré e fiz um "cavalo de pau" e acelerei ao máximo. Olhei pelo retrovisor e eles estavam longe e atirando. Algumas balas ricochetearam o carro. Virei à direita e segui a rua e depois à esquerda quando me deparei com um ciclista. A freada fez derrapar o carro parando dentro da plantação. A surpresa maior foi a identidade do ciclista: Katinha. Ela reconheceu a Lina e logo notou que estávamos sendo perseguidos. Ela largou a bicicleta, deu um isqueiro nas mãos de Lina e fez gesto para que seguíssemos por dentro do canavial. Fui adiante derrubando pés de cana fazendo "ziguezague". De repente, o celular de Lina tocou. Ela atendeu e era Katinha. Lina só balançava a cabeça e depois desligou e me pediu que parasse o carro: - Katinha ordenou que incendiasse o canavial, pois o vento estava contra nós e contra os nossos amiguinhos lá atrás. Molhei o dedo indicador com saliva e logo entendí. Parei o carro, abri o tanque e acendí o isqueiro. O meu carro! Quase zero! O fogo se alastrou rapidamente devido ao vento e as folhas secas do canavial. Partimos a pé no meio da plantação, correndo a esmo por dezenas de metros fazendo "ziguezague". Quase mortos, alcançamos uma rua e atrás, vimos a nossa obra - incêndio de grandes proporções, a seguir, uma explosão e depois mais outra. Ao longe, os dois perseguidores chamuscados e enfezados solicitando ajuda. A Katinha, tranquilamente pedalava como se nada tivesse acontecido. O que ela estria fazendo por aqui?
Lina com cara de cansada apontou o dedo em direção sudoeste: - é alí!
E fomos enfrentando a pé os caminhos de terra em direção ao local. Lá estava a velha igreja. A porta estava fechada e lembrei-me de uma fresta que tinha no escritorio da igreja. A porta estava semiaberta, igual aos filmes de ação, sempre tinha uma "deixa" fácil para não travar a continuidade da ação. E olhei primeiro. Era assustador: - Lina, dê uma olhada!
Era uma cena horripilante. Seria a mesma cena que Tadeu havia visto? Lina apenas sussurrou: - Nossa!
Reconhecí a corpo de Praxedes pendurado de ponta cabeça e mutilado. Faltava um pedaço de seu pé e o outro, pregado com um enorme prego. Era um sacrilégio torturar um ser humano mesmo que fosse um homem que havia executado várias pessoas e que fora o autor da explosão de uma instituição de crianças deficientes da cidade. O seu pescoço estava ligeiramente cortado com sangue escorrendo e os olhos arrancados e ainda pendurados no rosto. E o pior, estava vivo pedindo para morrer. Os vilões eram os anões. Alguns deles faziam malabarismos no ar com cordas improvisadas, rindo, gargalhando e cantando. E próximo ao altar, o caixão de J. J. Em volta, alguns anões cuspiam e proferiam palavrões ameaçando depredar o caixão para tirar o defunto. No canto da igreja, Lá estavam Volnar e mais dois amarrados e amordaçados. Era um motim e provavelmente, alguns revoltosos estavam cometendo atrocidades por vingança. De repente, um dos anões abriu o caixão e derrubou-o. O defunto de J. J. rolou pelo chão manchado de sangue. Lina desesperou-se, afinal de contas, o CHIP de Tadeu estava lá poderia se perder por ser tamanho de um fio de cabelo. Não aguentei. Entrei abruptamente e interrompi a algazarra da morte. Lina acompanhou-me e rezei para....Deus...não, rezei para Will me livrar desta.
- Parem! O que vocês estão fazendo é um tamanho sacrilégio! Lina, desamarre Volnar.
O líder dos anões respondeu: - quem são vocês para falar deste jeito? Este homem é um demonio e merece ser malhado!
- Não! Não podem fazer isso! É fora de ética!; respondeu Volnar.
O líder gargalhou e sarcasticamete respondeu:- na terra, paga-se quem erra! O inferno é pouca coisa para ele!; e virou-se para o resto e convocou para o massacre; - chega de vocês ficarem pendurados aí! Temos que resolver um problema aqui!
Os anões que faziam malabarismos com as cordas, desceram e se aproximaram munidos de toras de madeira e facas. Um deles chutou o defunto e depois chegaram outros e cercaram-no preparando-se para espancá-lo. Por outro lado, a voz de Volnar eccou no ar:-esperem! Vocês vão matar uma pessoa que não tem nada a ver? Este homem apenas quer colocar a ordem!
Os revoltosos vaiaram Volnar e começaram a cercá-lo quando vi o corpo de J. J. se mexer, o efeito cataléptico havia passado e logo apontei o dedo em sua direção e gritei: - levante-se J. J.!
Todos se viraram e se assustaram com o que estavam assistindo. E aproveitei a "deixa" e repeti a frase: - levante-se!
E J. J. se levantou apoiando-se no pilar da igreja.
Todos se afastaram com olhares assustados.
E aí tive a certeza de que a maioria não conhecia esta doença.
Foi tranquilizante, pois havia a possibilidade de um diálogo aberto: - pessoal, livrem Praxedes lá de cima e chamem uma ambulância!
Tarde demais. Ele estava morto.
FIM continua
Akio Kimura - 14/04/2012
A INCORPORAÇÃO
Quase meia-noite. As duas vítimas baleadas chegaram à clínica do doutor Cristo e foram examinadas superficialmente na maca. Foi constatada que uma não corria risco de morrer e conduzida para o quarto em estado de observação. Era o J. J., ex-prefeito cassado. E a outra, levada diretamente para UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Era Tadeu. O cirurgião de plantão tentava extrair um projétil alojado na região próxima ao coração.
Na sala de espera, Lina cochilava no assento quando doutor Cristo e doutora Silvia dirigiram-se apressados para UTI. Por último, Doni com seus passos lentos parou e a acordou acarinhando a testa: - Lina, precisamos de ajuda. Vamos até o almoxarifado pegar os aventais, máscaras e bonés.
A moça, ainda meio desacordada, acompanhou-o sem falar.
Na UTI, o médico de plantão Reinaldo Galvão conversou rapidamente com doutor Cristo:- retiramos a bala e agora falta verificar o seu estado de saúde. Ele perdeu muito sangue.
- E a sua auxiliar? Ela pode me ajudar?
Doutor Reinaldo baixou a cabeça pensativo e respondeu com uma expressão de dúvida: - não sei se é recomendável, pois ela está aqui há quatorze horas.
No mesmo instante em que conversavam a voz de Doni ecoou no ar: - não é necessário, a Lina está disposta a ajudar-nos. Ela me disse que já foi voluntária numa creche em sua comunidade!
Riram.
Com calma e paciência, Cristo analisou os batimentos cardíacos: - Ok! Doutora, pode instalar os eletrodos no corpo e na cabeça. Precisamos captar o estado do corpo!
Lina ficou estarrecida ao ver Tadeu entubado com respiração forçada. Em suma, o seu estado de saúde era precário. Por um momento, não havia conseguido evitar que as lágrimas rolassem, mas conteve-se discretamente eliminando emoções em seu interior.
Doutor perguntou: - Doni, tudo OK? Podemos retirar o CHIP de Tadeu? Doni assentiu balançando a cabeça positivamente.
Lina logo se pronunciou: - doutor, ele estava satisfeito com o CHIP!
Cristo - Calma, Lina! Temos que retirar o CHIP para evitar acidentes. Um pequeno curto pode danificá-lo e provocar uma parada cardíaca na vítima. Depois o recolocaremos.
De súbito, um "e-mail" de uma enfermeira surgiu na tela de Doni: - doutor Cristo, urgente! O ex-prefeito J. J. teve uma convulsão. Ouça o que está escrito -"Descobrimos um projétil alojado no abdomen. Grato!"
Alguns minutos depois, J. J. foi trazido de maca para a sala de cirurgia. Ele portava máscara ligado a um tambor de oxigênio e respirava com dificuldade. Doutor resmungou: - dois pacientes em estado grave! Que noite!
E ficou assim: Doni em auxílio à doutora Silvia a montar os eletrodos em Tadeu e Lina e Cristo em J. J. para retirada da bala.
Após duas horas, êxito.
O J. J. estava a salvo. Na tela do Doni mostrava o desenho interno do corpo apontando as causas. Só não conseguiram ler a parte da cabeça. O mapa indicava baixo nível de melatonina no cérebro e que poderia ser "uma inibição da sinapse na região do tronco cerebral causando despolarização de movimentos dos nervos". Mas era apenas suposição. O interessante era a súbita manifestação de J. J. que acordava e depois dormia. O doutor acreditava que J. J. era portador do sonambulismo e menos provável, da catalepsia patológica. Mas era apenas um palpite, pois os eletrodos não estavam captando informações necessárias. Faltava atualização no "software", pois era uma linguagem difícil de decifrar.
Enquanto Cristo analisava o desenho da sinapse no computador, um telefonema. Doni atendeu e passou as informações ao Cristo: - Doutor, é do hospital de Lemópolis. A enfermeira está informando que Wagner está correndo risco de morte!
Doutor Cristo - Convoque o doutor Simão!
Doutora Silvia - É dia de folga dele! Teremos que ir até lá e urgente doutor!
- Que raios de hospital é este? Tem que ter pelo menos um médico de plantão! Então vamos! É uma medida de emergência. Doni, você administra aqui e me avise se houver algum problema! Acredito que eles estão a salvos. Mas fique de olho em Tadeu, ele necessita de mais atenção. Qualquer agravante, chame o doutor Reinaldo em sua residência. Lembre-se que temos duas pessoas importantes - o herdeiro deste hospital e o ex-prefeito cassado. E em Lemópolis, está o irmão de Tadeu, o Vagner que também é herdeiro. Doni, hoje é sem dúvida um dia de cão! É a primeira vez que tenho que acreditar em Deus! Deus me ajude!
E sairam
Enquanto Doni estava compenetrado em interpretar os sinais dos neuronios do J.J. no computador, Lina ouviu a voz agonizante de Tadeu: - Lina, estou sentindo dores! Não aguento mais!
Lina - Tadeu, aguenta aí! Respire fundo! Doni, você não tem algum remédio para acalmar a dor?
Doni - Não tenho permissão para oferecer remédios. Sinto muito!
Depois de uma pausa em silêncio, novamente a voz de Tadeu com voz arrastada e respiração arfada olhando para o corpo de J. J.:- Doni, este ao meu lado é o....acho que vou morrer.....
Doni - Ele mesmo! O J. J. Não se preocupe, ele está bem! Ele não tem condições de te matar.
Doni aproximou-se de Tadeu e notou que ele estava enfraquecido e mal conseguia falar e dizia palavras sem sentido. Lina, atenta, entendeu e explicou à Doni: - Doni, ele vai morrer! Ele está sentindo tremor em todo o seu corpo. Ele quer quer que você introduza o CHIP dele na nuca de J. J. e tem que ser rápido! Os olhos estão revirando a toda hora! Faça alguma coisa! Tenho certeza que você sabe!
- Não, Lina, não posso fazer isso! O doutor me mataria! Eu sei que é o seu último desejo. Eu sei que ele poderia salvar Evilate de um caos na pele de J.J. mas não é ético! E como você o amaria? Um desconhecido?
Lina - É questão de adaptação. O doutor Cristo nos explicou que você teve a feição modificada, Doni. Você era um DOWN. E agora, neste instante, você está sem os traços que o identifique como portador de DOWN. O mesmo pode acontecer com Tadeu. Está certo que J. J. é mais gordo, mas isto é um problema menor. Por favor Doni!
Doni olhou nos olhos de Tadeu e dirigiu-se ao computador. Havia muitas luzes vermelhas em volta da tela, a frequência cardiaca estava fraca. Os traços estavam se tornando em linha reta. Ele estava à beira da morte. Era questão de tempo. Até pensou em chamar o doutor Reinaldo mas desisitiu.
Doni foi até a pia, lavou as mãos e dirigiu-se ao leito e disse:- não sei o que posso fazer, Tadeu. Mas tentarei salvar a sua vida!
E percebeu que olhar de Tadeu se destinava ao corpo de J. J. ao seu lado e à prateleira onde estava armazenado o seu CHIP.
Doni andou de um lado a outro e decidiu: - Está bem! Não acredito NELE, mas seja o que Deus quiser!
Lina - Obrigada Doni!
E rapidamente pegou o controle, dirigiu-se ao corpo de J. J. e passou a monobrar o braço do robô. As mãos mecãnicas apontaram para a nuca. Ele entendeu e virou o corpo de bruços e dirigiu-se até o computador. Os braços movimetavam para a todos os lados até encontrarem o ponto correto onde estava instalado o CHIP.
Os dedos mecânicos lançaram-se até a nuca de J. J. e retiraram um fio e armazenaram num recipiente de vidro com código numérico. Era o CHIP de J. J.
Depois, Doni digitou o código e fez com que o robô esticasse o braço até o recipiente onde estava armazenado o CHIP e acionou ENTER. Um dos dedos do robô pegou o CHIP de Tadeu e introduziu na nuca do J. J.
Doni , de repente soltou um grito de alegria ao ver na tela do computador:- "o CHIP foi introduzido com sucesso" - conseguimos! Tadeu agora está incorporado no corpo de J. J. e com o tempo, o CHIP terá o seu domínio!
Na tela, um barulho repetido e um assovio agudo. No monitor, um risco prolongado.
O coração de Tadeu estava prestes a parar a qualquer momento.
Doni, apavorado mediu o pulso a veia da jugular e dirigiu-se até o computador para agitar o desfibrilador do robô.
O corpo de Tadeu esperneou na cama como um peixe fora da água e parou de repente.
Tadeu estava morto.
Na frente do monitor, Doni chorava se perguntando: - Será que fiz cagada? O doutor Cristo vai me crucificar!
Lina, mesmo aos prantos, o consolou:- ele faria mesma coisa o que você fez, fique de consciência tranquila.
Lina fitou os olhos em J. J. e pensou na dificuldade de adaptar o seu amor ao novo corpo de Tadeu: - é emergencial e doloroso!
Doni: - Mas Tadeu ainda vive e viverá enquanto o CHIP durar.
Os dois se abraçaram.
Lina - Obrigada Doni! Muito obrigada mesmo!
FIM continua
CIDADÃO ILUSTRE 42
DOIS HOMENS VIOLENTOS
Akio Kimura - 12/03/2012
No hotel, Lina assistia a um filme de faroeste na TV, o "cowboy"encarado por Clint Eastwood enfrentando três homens. Foram três disparos. Mas Lina ouviu mais um estampido seguido de um arranque de moto queimando o chão. Ela se levantou da poltrona e se dirigiu à janela. Com certeza, não era o tiro do filme. Lina se estremeceu pensando na possibilidade de Tadeu estar em perigo. Vestiu-se apressadamente e desceu pela escada e foi à rua. Na verdade, ela não sabia o que fazer e nem por onde começar. Pensou e decidiu pelo mais óbvio - dirigir-se até a delegacia e dar queixa do desaparecimento de seu namorado. Por um momento, temeu que o delegado Vanderson estivesse de plantão, mas lembrou-se de que essa turma tinha sido exonerada novamente. Em se tratando de uma cidade como Evilate, tudo que era impossível, poderia se tornar possível em circunstâncias que ocorreram nestes últimos dias; o prefeito J. J., o delegado Vanderson e companhia foram exonerados dos cargos devido a gravação de falcatruas que foi ao ar no You Tube. Após 24 horas, retomaram posse novamente do poder e após duas horas, suspensos através da ação judicial.
Lina entrou na delegacia com certo receio de encontrar-se o Vanderson. Ele não estava lá. De repente uma voz grossa e aguda soou em seus ouvido: - pois não, senhorita!
Era um jovem de óculos usando um terno escuro, gravata e um boné. Lina estranhou a combinação de terno com boné. Era horrível:- doutor...
- Doutor, não! Sou promotor da justiça. Enquanto o delegado novo não chega, estou aqui de plantão por minha vontade própria. Meu nome é Ari, Ariovaldo Peçanha. Você está nervosa, do que se trata?
Lina engoliu em seco e falou pausadamente: - doutor Ari, o senhor ouviu um tiro?
- Ouvi e já enviei dois militares para Praça das Flores. Nós recebemos uma denúncia anônima de que local havia movimentações estranhas e violentas. Por quê a senhorita...
- Lina! O caso é o seguinte doutor, quer dizer, promotor, o meu namorado foi à procura de um assassino.
- Ele é policial?
- Não. Explico. Ele tem um celular que tem conexão com o corpo de outra pessoa. E no celular, se vê como essa pessoa vê e essa pessoa se chama J.J.
O promotor Ari não havia entendido absolutamente nada:- como é que é? Você quer dizer que o celular que está em poder de Tadeu tem conexão no corpo de J. J.? O que o prefeito vê, Tadeu consegue ver o que o J.J. está vendo pelo celular? Complicado hein? Parece um filme americano!
- Pois é, promotor, é como se o celular fosse o J. J.
- Mas e daí? O J. J. não é mais prefeito, mas está aguardando a retomada da posse na prefeitura através da ação judicial. Ele não quer largar o osso!
- Então Ari, pode ser Ari? Promotor é uma palavra comprida. Então Ari, ele viu a arma e ouviu da voz do prefeito, ou melhor, ex-prefeito que o próprio iria assassinar alguém em algum lugar da cidade e Tadeu, inconformado foi para a rua para avisá-lo.
- Lina, como ele sabe quem é a vítima? Como ele vai salvá-la? Poderia ter vindo aqui!
- Não sei. Pensei que ele tivesse passado por aqui.
De repente, o celular do promotor toca. Ele atende e solta uma expressão de penar olhando para Lina:- levou um tiro na cabeça? Quem é? Não sabe? Vou até aí.
Lina, desesperada, pergunta quase aos prantos: - é Tadeu que levou o tiro?
- Ainda não sabem. Vamos até lá!
O promotor saiu e depois voltou e orientou o seu auxiliar obeso que havia saido da toalete apertando o cinto e cheirando a mão: - Godofredo, aciona o IML e a pericia, Ok?
Exausto pela correria, Tadeu alcançou outra praça conhecida como Praça da Capoeira e descansou no primeiro assento da entrada. Ele tirou o blusão e rasgou a sua camisa de algodão para estancar sangue de um corte no antebraço. Terminado o trabalho, Tadeu se deitou no banco e adormeceu por uns instantes. Logo após vinte minutos, foi acordado ao som de atabaques e berimbaus e uma turma cantando "Marinheiro só". Abriu arregalando os olhos: - acho que estou no céu!
Tadeu fez uma pausa, sentou-se e sentiu a sua memória refrescar. Recordou-se do que havia acontecido - um tiro certeiro de seu irmão Vagner na cabeça do 5, o homem chave do ex-delegado Vanderson. Sim, o 5 queria ser morto a qualquer custo. Só restava saber se era verdade o que diziam dele a respeito de ser um maníaco sexual que mutilava as vítimas ou fora tão somente um pretexto para ser morto. O som da capoeira vinha do lado extremo da praça, o som que tomou maior parte de sua infância. Era um momento gratificante ouvir "Marinheiro só". Levantou-se vagarosamente e seguiu em direção ao barulho. No centro da praça, uma surpresa, viu aquele caixão branco que vira há horas seguidas por pessoas mascaradas. Ao seu redor, elementos de branco jogando capoeira. Tadeu reconheceu um senhor de idade, todo de branco: - mestre Paixão?
O senhor ficou surpreso e o reconheceu e abraçaram-se:- Ôpa! Tadeu? Quanto tempo! Ué, o que houve com você? Meteu-se com alguém perigoso? Está todo machucado!
Tadeu, com olhar distante, respondeu:- Não é nada! Quem faleceu?
- O mestre Dinda; respondeu.
Tadeu ficou chocado por uns instantes e lamentou:- ele me ensinou a jogar capoeira por muitos anos. Morreu de quê?
- Ele morreu de pancada. Com 88 anos não resisitiu dos golpes dados por dois de seus ex-alunos. Conheceu o Sombra e o Penado?
- Conhecí! Esses garotos não sabiam da força e habilidade que possuiam. Eles já eram violentos e já praticavam alguns furtos. Ainda continuam assim?
- Pior! Estão mais violentos do que nunca! Estão aterrorizando a cidade a mando do ex-delegado Vanderson. A nova polícia está procurando por eles! Logo vão encontrá-los!
Tadeu ao mesmo tempo que ouvia as palavras do mestre Paixão, assistia à exibição de capoeira. Eram todos caras novas:- são jovens que não conheço, muitos deles devem ser filhos de meus amigos de infância. Que bela homenagem!
O mestre Paixão sorriu e explicou que era o último desejo do mestre Dinda: - ser homenageado nesta praça.
- Mais do que merecido. E a mulher dele e os dois filhos?; perguntou Tadeu.
- A dona Gumercinda faleceu há dois meses. Ela tinha câncer e os filhos estão nos Estados Unidos. Eles montaram uma academia.
- Pudera né, mestre Paixão! Ele fundou esta praça e aqui era o local onde os escravos eram chicoteados. Ele preservou aquela tora de madeira que servia de apoio para acorrentar os escravos. É o símbolo que representa a dor do passado.
- Pois é! Disto não podemos esquecer! A propósito, daqui a pouco faremos a demonstração de capoeira como ele pediu e depois o levaremos para o velório! Você vem Tadeu?
- Sim! É uma obrigação comigo mesmo! Posso mesmo participar?
Mestre Paixão sorriu e respondeu: - é claro que pode, desde que você suporte o seu peso. O seu estado físico está deplorável! Aguenta? Eu apresento para o pessoal, jogo com você e depois, direto para o hospital, combinado?
Tadeu sorriu: -Tudo bem! Obrigado!
Tadeu jogou capoeira com mestre Paixão. Fez gingas, deu meia-lua mas caiu. Os membros o ajudaram a carregar até o assento e o fizeram deitar e o mestre, logo chamou uma ambulãncia pelo celular. Tadeu tirou outra soneca tentanto espantar a exaustão.
De repente, Tadeu acordou assustado ao ouvir uma freada de um veículo. A luz do poste revelava a silhueta do delegado com mais dois homens ao lado - eram o Sombra e Penado, os famigerados capoeiristas da morte.
Tadeu levantou-se e dirigiu-se ao mestre Paixão e disse: - vou ter que ir. O Vanderson está á minha procura, veja!
O mestre ficou tenso pela presença de Sombra e Penado e a avisou ao pessoal para fazer uma roda para esconder Tadeu debaixo do banco. Alguns se sentaram para cobrir a sua presença.
O ex-delegado dirigiu se ao mestre e perguntou num tom autoritário:- por acaso vocês viram Tadeu? O filho do Jorge!
O mestre Paixão respondeu calmamente:- nâo, por aqui ele não apareceu.
Enquanto Vanderson e Paixão conversavam, Sombra e Penado foram até o caixão e o abriram e deram gargalhadas: - olha só quem está aqui! O mestre Dinda! Ahahah! Ele está morto e estes imbecis jogando capoeira para ele!; disse Sombra em tom de zombaria ajeitando os seus cabelos louros caindo na testa e Penado, com seu corpo de Deus grego e cor de ébano competou:- estão pensando que vão ressuscitá-lo? Aí eu mato de novo pra aprender a morrer! Ahahahah!
Mestre Paixão disse ao ex-delegado num tom de repreensão: - Vanderson, diga a esses dois assassinos que respeitem o morto, pelo menos uma vez na vida.
Vanderson com cara de quem não quer nada dirigiu a sua voz aos seus dois asseclas: - Sombra! Penado! Deixe o morto em paz! E feche o caixão!
Os dois obedeceram e caminharam em volta da rapaziada que estava mais assustados do que nunca. E num momento de sorte, o Sombra descobriu Tadeu debaixo do banco: - e olha que surpresa Vanderson! veja quem está aqui! Nada mais do que o senhor Tadeu!
Vanderson com arma em punho abriu o caminho a força empurrando os capoeiristas: - muito bem, Tadeu, a história de sua vida acaba aqui!
O mestre Paixão se aproximou do delegado: - ele precisa ser hospitalizado. Está ferido e sente dores por todo o corpo! Poupe-o!
Vanderson riu com ironia: - vou poupar as dores dele com um tiro na cabeça!; ele apontou arma em direção a Tadeu e puxou o gatilho. O braço ligeiro do mestre desviou a direção do tiro e o ex-delegado sentiu uma cotovelada e uma pancada na mão deixando o revólver cair no chão.
O Sombra e Penado entraram em ação derrubando o mestre com vários golpes de meia-lua e queixadinha. Os alunos tentaram reagir cercando-o. Os dois assassinos, raivosos partiram para violência extrema distribuindo socos e pontapés sem se importarem com a idade derrubando e machucando os garotos. O mestre Paixão levantou-se para reagir, mas prontamente levou um galopante (socos com a mão aberta) e em seguida, o Penado desferiu a ponteira (chute com a ponta do pé). O mestre caiu violentamente e não mais acordou. Os novatos recuaram e alguns chorando quando o Sombra falou gritando: - agora, seus aprendizes de meia pataca, olhem que o Penado vai fazer!
Todos direcionaram os seu olhares para o dito cujo.
Penado caminhou em direção ao caixão do Mestre Dinda e o derrubou fazendo rolar o corpo ao chão. Todos ficam estupefatos, alguns choraram. Outros tentaram colocar o defunto de volta ao caixão, mas contidos pelos golpes dos dois demonios. Neste momento, um tiro.
- Todos vocês, mãos para cima e chega de balbúrdia! E não se mexam!; era a voz do promotor Ari em companhia de Lina e mais três PMs armados; todos pro xilindró! E mãos na nuca! Não se mexam! E você, pai!; dirigindo-se a Vanderson; que faz aqui com arma na mão?
- Vim dialogar com Tadeu para se entregar. Há um B.O. notificado que foi ele que provocou acidente na estrada jogando ferramentas contra os nossos motoqueiros. Pode confiar em mim! Ainda tenho alma de policial, filho!
Tadeu imediatamente reagiu: - mentira! Ele veio me matar!
Promotor Ari:- Calminha! Fique do lado. E você, Lina, fique com ele! Vamos discutir isso na delegacia! E você, pai, fique calmo também! Ouvi falar deste acidente! Um õnibus desgovernou também. Pode ficar com a arma. Ajude-me a acabar com a briga.
Enquanto os PMs se dirigiam para algemar os malvados, Lina e Tadeu se abraçavam trocando beijos. Lina olhou nos olhos de Tadeu e disse emocionada: - pensei que fosse você que tinha morrido!
De repente, o Sombra e Penado reagiram distribuindo golpes para todos os lados derrubando os que viam pela frente. Os garotos, alguns não sabiam o que fazer e decidiram pela fuga. A ordem estava desfeita! O promotor gritava atirando ao ar e quando se deu conta viu a Lina enfrentando o Penado e Tadeu, levando seguidos golpes de "armada" (movimento rotatório lateral golpeando com parte externa do pé) do Sombra. Por outro lado, ex-delegado Vanderson juntou-se ao promotor tentando acalmar os ãnimos. Num piscar de olhos, Lina estava caida, agonizando de dor. O mesmo acontecia com Tadeu. Diante da situação caótica, promotor aproximou-se de Penado e desferiu coronhada na nuca. Penado sentiu e sem medo de arma, partiu para cima com todos os golpes desarmando e derrubando o promotor. Ele saiu se arrastando de costas pelo chão e viu a face raivosa se aproximando. Que golpe seria dado pelo Penado? Sem pensar duas vezes, Ari enfiou a mão no bolso do paletó e se armou com um revólver de cano curto e apertou o gatilho. Um tiro certeiro! Ari se levantou sem acreditar no que havia acontecido. Por outro lado, ao ver o seu amigo caído, o Sombra deu uma voadora para cima do promotor. No ar, um tiro! Desta vez, do próprio Vanderson.
- Obrigado pai! O senhor ainda tem alma de policial!
- Tive que fazer escolha. Escolhí você para a vida, filho!
Quando os dois deram conta, Lina e Tadeu tinham sumido. Estavam apenas alguns garotos da capoeira tentando colocar o corpo do mestre Dinda e ao mesmo tempo, o outro mestre, o Paixão recobrava os sentidos.
- Vanderson, uma pergunta - por quê Lina e Tadeu fugiram?
Vanderson:- eles estão devendo para a lei. Eles tem medo de mim.
Promotor:- pai, o senhor não precisa exercer papel de polícia! O senhor está fora do sistema por enquanto! É contra-lei, sabia?
- Tem razão, filho! Não sei o que deu em mim! Vou-me embora, a Laura espera por mim!
O filho estranhou o nome e perguntou: - Quem é Laura?
Vanderson: - eu disse Laura? Devo estar ficando maluco!; riu zombando de si mesmo; doido varrido! ahahah!
Ari Peçanha ficou com os pensamentos no ar:- este não é o meu pai!; e pegou o seu celular e chamou por Godofredo:- venha cá na Praça da Capoeira, você tem muito a fazer esta noite! Tem um homem no caixão, tem um morto na Praça das Flores e dois aqui na Capoeira.
O promotor foi em direção aos dois PMS que recobravam os sentidos e disse ironicamente: - vocês se lembram o que aconteceu?
FIM continua
O HOMEM QUE QUERIA MORRER NA "MARRA"
Akio Kimura-03/03/2012
Quase todos os estudantes que estavam sentados junto às mesas de bares de Evilate identificaram como tiro de um revólver. Os fogos de artifícios havia cessado. Burburinho geral, mas ninguém ousou levar assunto adiante. Continuaram os bate-papos em goles de cerveja.
O vulto tinha saído detrás das árvores da praça. Ele parou propositadamente sob a luz da luminária eliminando as sombras que escureciam a sua face. Ele estava apenas de blusão e calça "jeans". Na mão direita, uma arma, .45. Ficou calado um tempo esperando alguém se manifestar.
Tadeu - Você? Vagner? Meu irmão, o que você faz aqui?
Vagner - Vou ajudar você a acabar com este F. D. P.! Ele está querendo que alguém o mate! A consciência está tão pesada que mal consegue dormir. Se é que ele tem juízo! Não dorme de ruindade!
O 5 encarou o Vagner e falou ironicamente: - vejam só quem está aqui! O herói do Zé Povinho tentando me "esculachar"! Você ainda não aprendeu que ser herói não vale a pena? Mas aqui você não precisa apartar uma briga! Estou querendo morrer mesmo!
De repente, do outro lado, uma moto sobe os degraus da praça soltando barulho infernal. O piloto parou e desceu da moto e caminhou em direção aos três sem tirar o capacete e estes ficaram pasmos com a total frieza do motoqueiro empunhando uma pistola. O 5 o reconheceu facilmente, mas os outros não.
5 - Praxedes! Não precisa se esconder por trás do capacete, todos o conhecem como sósia do Elvis que perdeu o emprego de escrivão da polícia e agora está desempregado. Ahhhh! Caiu junto com o delegado Vanderson, seu "puxa-saco"! Antes caçava bandidos e agora é caçado como bandido! O mundo dá voltas mesmo! E estamos aqui reunidos como nos velhos tempos! Só que não é uma guerra de pedrinhas idiotas, agora são tiros e quem me acertar, ganha o jogo. Vamos nos divertir! Eu não faço questão de morrer, será um favor! Aí, economizaremos balas e mortes.
Praxedes tirou o capacete e jogou no chão:- OK, 5! Eu me candidato para te assassinar, você aceita? E você Vagner? Por quê quer matá-lo? Tem que ter um motivo! Parece que viu um fantasma! Sou eu mesmo, Praxedes às suas ordens!
Vagner - E o que você veio fazer aqui, Praxedes? Veio verificar se Tadeu foi pro "espaço" a mando do J.J. e Vanderson?
Praxedes- Sim! Vim para isso mesmo! Mas pelo que vejo, isto aqui está parecendo uma bela reunião de velhos amigos!
Vagner acomodou um dos pés no banco e falou com sutil ironia: - velhos ex-amigos! Você não sabe, Praxedes? Sabe sim! Este idiota do 5 é um monstro, todos sabem disso! Ele dorme de dia e esconde a cara no capacete durante a noite e pilota como um doido procurando alguém para matar. Por isso, ninguém consegue encontrá-lo. E tem mais, é um matador de inocentes, principalmente mulheres. Ele as assedia, leva para o seu esconderijo e mediante a tortura, faz sexo sanguinário. E a Lisa foi uma de suas vítimas. Você conhece a Lisa, ex-namorada de Tadeu? Foi ele que a induziu a participar de atos carnívoros contra o seu próprio pai. E depois, estrupou-a cortando as duas pernas dela.
Tadeu interrompeu a fala de seu irmão: - já estou sabendo desta história e como você sabe, meu irmão? Você conversou com a Lisa?
Vagner - Sim! Ela me contou os detalhes depois que o efeito das drogas passou. Assim como o 5, ela me pediu para matá-la. Não a matei, mas o 5...
O 5 se manifesta rindo: - Ahahahah! Seus "bundas moles"! Matei-a conforme o desejo dela, seus "porras"! Foi fácil! É tudo consequência da droga, que depois de ter ingerido por um tempo, dá uma sensação de culpa. A mente parece se desdobrar em duas, três ou mais e aí, o dependente começa a se mutilar. Fiz um favorà ela! Mas eu não tenho pretensão deste ato. Quero tiro.
Vagner gritou de repente:- covarde!
Subitamente, um disparo! A bala alojou no meio da testa e em meio a fumaça e cheiro de pólvora. O corpo caiu com toda a força do peso.
Tadeu - Putz! O que você fez, meu irmão?
Vagner - não aguentei mais, pessoal! Eu precisava fazer isto! Vá matar diabos no inferno!
Tadeu se assustou com a frieza de seu irmão:- Vagner, ele era doente! Precisava de um tratamento!
Vagner - Não, Tadeu! Ele precisava morrer! Ele estava assediando a nossa irmãzinha Tadeu! A Katinha só tem dez anos! E não me venha com essa conversa de tratamento psiquiátrico, Tadeu! Ele já fez quatro vítimas! E na cadeia, ele não ficaria por muito tempo. Morreria de qualquer jeito, exceto se J.J. retornasse ao cargo de prefeito.
De repente, uma sirene de polícia.
Praxedes - Vamos "zarpar"!
Tadeu - Ei! Se fugirmos é pior!
Vagner - Ninguém pode afirmar que o 5 é amigo deles!
Tadeu - Pode ser aqueles jovens que passaram por aqui fizeram denúncia anônima. O 5 os ameaçou. Vou ficar aqui!
Vagner - Então fique aí, "mermão"! Você vai pagar por um crime que você não cometeu. Você é um inocente que vai pagar caro por um assassinato! E a cadeia é no mínimo oito anos!
Ouviu-se o barulho do arranque da moto de Praxedes que desceu as escadas e empinou a moto na rua e saiu queimando o asfalto.
Vagner disse apenas um "tchau" para Tadeu e disse: - depois te visito na prisão!
Tadeu ficou só observando o corpo do 5. A cabeça estava estourada com pedaços de cérebro esparramado no chão. O 5 estava irreconhecível. E era assim que ele queria estar exposto. E a sirene estava mais próxima.
Tadeu pensou e decidiu falando em voz alta:- pensando bem, vou me "vazar" também! O 5 que se foda!
FIM continua
LABIRINTO
Akio Kimura - 18/02/2012
Sexta. Ebulição em noite de Evilate. A avenida e seus bares estavam repletas de estudantes, em cada esquina churrasqueiros, hotdogueiros e pipoqueiros vendendo os seus "peixes"; transeuntes à procura de diversão, maratonistas alongando os seus passos e vários grupos de jovens manobrando os seus "SKATES" na praça. Algumas pessoas se dispersavam entre uma rua e outra procurando um destino. Tadeu, desacelerou os seus passos e acomodou-se num banco da praça. Após um momento de quase meditação, chegou a conclusão de que o cancelamento de sua ida à delegacia fora benéfico. A probabilidade de ser detido era de 50% devido a sua suspeita sobre o substituto do ex-delegado Vanderson pertencer ao bando. Havia sim, estranhas movimentações em frente a delegacia. E não eram PMs à paisana, eram homens gordos fora de forma que nunca vira, mas com armas nas mãos eram diabos. Estavam sempre com olhares atentos atendendo ao celular e cochichos constantes. Levantou-se decidido, sempre atento à tela do celular e passou a caminhar pelas ruas periféricas da cidade. O que fazer? Estava apreensivo pelo simples fato de estar à procura de um desconhecido marcado para morrer. Para ele, nenhum ser humano tinha o direito de interferir no destino de outrem, somente...Deus? Tadeu era ateu, mas às vezes pairava em suas dúvidas. Deus? E estagnou-se na beirada de uma ponte para ouvir o ruído das águas e refletir: - " e esta tecnologia dos CHIPS do tamanho de um fio de cabelo feito pelo Homem? São CHIPS que foram implantados pelo doutor Cristo nas cabeças do ex-prefeito J.J., da Katinha, do Doni, do Wagner e em mim. Somos privilegiados por Deus? Pelo Homem? E este celular fininho, inquebrável, maleável que permite conectar com os CHIPS e poder assistir a ação em tempo real o que os olhos alheios estão vendo, vigiado pelos meus? Será que Deus não estaria duvidando do que o Homem é capaz? E chegou a cogitar de que deveria separar as duas teses. O Homem é homem e Deus é Deus, mas era incapaz de se aprofundar nos mistérios da teologia. Faltava base. Quem sabe, um dia.
Tadeu interrompeu a divagação após uma explosão de fogos de artifícios. Pegou o celular e verificou que os olhos do J. J. já estavam a caminho para algum lugar. Tadeu caminhou cem metros e atravessou um viaduto e tentou identificar as ruas que estavam sendo gravadas no celular; esforçava-se ao máximo para não confundir as imagens e reforçou a memória falando alto:- "os meus olhos procuram um lugar onde os olhos de J. J. estão vendo". A tela denunciava que o ex-prefeito J. J. provavelmente pilotava uma motocicleta e se encontrava numa rua de paralelepípedos. Tadeu virou à esquerda, atravessou uma rua e se deu numa alameda repleta de mansões. De súbito, ouviu distante, o ronco de motores. O celular mostrava J. J. parando num farol observando três mulheres uniformizadas atravessando a faixa de pedestres. Tadeu identificou e foi de encontro a uma ladeira e subiu. Evidentemente, ao pegar uma rua à direita e ao tirar olhos da tela, deparou-se com as mulheres uniformizadas. Estava na pista certa e entrou numa rua estreita, com casas da década de 20 ou mais. Estavam elas enfileiradas, bem pintadas. Encostou-se sob a luz de um poste de ferro antigo e avistou pessoas enfileiradas e mascaradas acompanhando um caixão ao som de atabaque e berimbau. Dirigiam-se ao cemitério. "Quem seriam"? Féretro à noite? Para não perder de vista, Tadeu abandonou a curiosidade do estranho enterro e foi em frente sem tirar a vista do celular, que no momento, mostrava a imagem para os lados. De um, uma VAN e do outro, um motociclista com capacete, provavelmente o Número 5, um dos últimos homens da ROME(Rondas Ostensivas em Motocicletas de Evilate), da organização não governamental. Tadeu reconheceu o lugar - Praça das Flores - dirigiu-se apressadamente até às proximidades da praça, olhou para os lados e caminhou pelas sombras das árvores. Encostou-se num pé enorme de seringueira e retomou os olhos para a tela, viu um homem de costas sob a mesma árvore. Tadeu notou que a claridade na praça tinha se avolumado junto com roncos dos motores. Depois de alguns segundos, percebeu que as costas de um homem debaixo da árvore eram as suas e surpreendeu-se com uma voz dizendo: - passeando meu rapaz? Tadeu se lamentou por este vacilo. Calmamente, desligou o botão do chaveiro e ao mesmo tempo, acionou a gravação do celular guardando-o no bolso da camisa sob o blusão. O prefeito J. J. desceu de sua moto e o 5, sem tirar o capacete aproximou-se e ao reconhecê-lo caminhou em sua volta e chamou o Vanderson: - vejam só quem está aqui, delegado! Tadeu! Podemos terminar o nosso trabalho por aqui!
Vanderson soltou uma risada: - você trouxe o invólucro preto e o desintegrador de corpos?
O 5 fez uma cara de lamento: - não!
O J. J. cortou as palavras do 5 com o seu vozeirão:-Muito bem, então vocês são velhos conhecidos! Podem me dizer quem é?
O ex-delegado Vanderson respondeu prontamente:- é o Tadeu, filho do "seo" Jorge! Vai me dizer que o senhor não o conhecia?
O J.J. sorriu ironicamente: - é claro que o conhecia! Já o vi muitas vezes pela janela da prefeitura; ele está hospedado no hotel a cem metros. Sei tudo a seu respeito! O 5 me deu todas as informações.
Tadeu analisou a expressão do J. J. e diretamente perguntou: - eu sei que você pretende assassinar alguém, J. J.!
O ex-prefeito se surpreendeu e olhou sério para Tadeu:- como sabe disso? E depois, desconfiado, fitou nos olhos do 5 e do ex-delegado e continuou a falar cuspindo no chão - só nós sabemos e você Tadeu, tem conhecimento a quem vamos assassinar?
Vanderson riu falando: - você nem imagina! Ele tem um irmão e uma irmã chamada Katinha.
O sangue de Tadeu fervilhou nas veias e ameaçou agredir o ex-delegado: - f.d.p!
O J. J. e o 5 seguraram-no pelos braços e Vanderson, socou-o no queixo. Tadeu caiu e ao levantar a cabeça, recebeu um chute no rosto. De repente, o celular de J. J toca. Os três ficaram em silêncio enquanto o ex-prefeito caminhava de um lado a outro, confirmando positivamente a cabeça e desligou o fone. Chegou até Tadeu, agachou-se e falou pausadamente: - resumindo, meu amigo, a sua família inteira será assassinada, pessoa por pessoa. O primeiro foi "seo" e o segundo seria o Wagner, que para nós, o mais perigoso. Ele tem habilidade com a arma, mas isto não é problema. Não temos pressa. Qualquer dia, ele estará desarmado. Quanto a Katinha e sua mãe, a empregada de vocês estará pingando cianureto no café, chá e comida todos os dias, mas aos poucos. Daqui a um ano, digamos que elas terão problemas sérios de saúde. E você quer saber o motivo? Tudo começou quando soubemos que o "seo" Jorge, o seu digníssimo pai pertencia ao serviço de inteligência do governo federal, a ABIN. E aí, meu caro amigo, ele perdeu o "status" conosco. E a terra de vocês é valiosa. Recebemos na prefeitura, um grupo estrangeiro interessado nestas terras e prometemos que daqui a dois anos fecharemos o negócio. É a minha última cartada. Não pretendo ser político, desejo de me aposentar é muito grande. Os meus filhos são formados e estão na lista para se candidatarem a vereador. E serão eleitos! A política é muita lucrativa, senhor Tadeu! É uma pena deixá-lo nas mãos do 5. E também não pretendo manchar as minhas mãos de sangue. O 5 quer muito este momento. Uma vingança em nome do seu irmão Rodrigo, você se lembra? Ele morreu em consequência de uma pedrada na cabeça atirada por você.
Tadeu interrompeu para poder justificar em voz alta:-guerra de pedras, foi uma brincadeira de moleques! Poderia ser ao contrário!
Vanderson: - poderia, mas não foi. Esta execução fica por conta do 5. Bom divertimento!
J. J. - Temos que ir, Vanderson. Há um oficial de justiça nos esperando na porta. Talvez voltemos ao nosso cargo amanhã. Lembranças para o "seo" Jorge lá no céu, Tadeu. De coração! E foi em direção à motocicleta gargalhando.
Tadeu levantou-se, mas o 5 deu-lhe um pontapé no ombro. Alguns estudantes que passavam no local pararam:- algum problema aí, meu amigo?
O 5 empunhou a sua arma e os ameaçou:- o cara é traficante amigão! Ele está armado também. Vaza! Vai ter tiroteio aqui!
Os estudantes sairam em disparada.
Tadeu, ainda deitado de lado, ensanguentado, perguntou: - o que te dói?
O 5 apoiou um dos pés no banco com a mão armada apoiada no joelho: - meu caro, não estou querendo vingança. Só matei bandidos! Eu quanto a Lisa, pratiquei a eutanásia. Ela estava sofrendo muito! Quando você se foi Tadeu, depois de um ano, nós "ficamos" até acontecer a fatídica morte do pai. Dizem as más línguas que ela teve surto antropofágico e comeu a carne do próprio pai. Ela via coisas, bichos, monstros e ouvia vozes e você não deu notícias e nem chegou a visitá-la. Ela surtou por sua causa, Tadeu, ela queria ir até São Paulo para te encontrar, mas o pai proibiu. O amor tem dessas coisas. E depois que ela amputou as duas pernas e sobrevivia com os remédios do doutor Cristo, chegou um momento alto da depressão e pediu para mim: - mate-me se me amas! Não aguento dores, não aguento tomar remédios e não suporto mais este cheiro de cadáver que tenho. Suplico-lhe, mate-me!
- E você a matou? Não foi por sua causa que ela surtou? O que fez com ela para ela praticar cenas de antropofagia? Foi você que induziu a isso!
O 5 baixou a cabeça e percebeu que não podia mais enganá-lo. Respirou fundo olhando para o céu, engoliu em seco e confessou: - sou um monstro, Tadeu, mas a amei intensamente quando ela amputou as pernas. Tenho atração pelas pessoas especiais. Ela está naquele morro, de dificil acesso. Está enterrada debaixo dos paralelepípedos.
Tadeu baixou a cabeça, chorou e e tentou entender o sofrimento na qual Lisa passou mas foi interrompido pela voz firme do 5: - agora, quero que você me mate!
Tadeu se surpreendeu:- o quê? Você sente dores na alma também?
5 - Sou um forte, mas tenho as minhas fraquezas. E tenho a minha consciência também! Um dia sentei-me na mesa de um bar e descobri que a minha vida nunca teve sentido.
Tadeu - Que bom para você! Só agora você descobriu? Nunca é tarde para se redimir, mesmo que seja detrás das grades! Matar é o que você mais ama! Vai abandonar o sonho de sua vida? Você precisa se tratar. Na prisão é o seu melhor lugar. Tem psiquiatras de valor.
5 - Sem ironias, Tadeu. É sério, ontem à noite olhei-me no espelho e não me reconhecí. Em meus olhos enxerguei somente o mal. E não desejo te matar e nem me matar. Você me mata em nome das pessoas que morreram pelas minha mãos.
E ofereceu a sua arma coclocando-a no assento.
Tadeu levantou-se com dificuldades apoiando-se no banco para se levantar e disse: - não julgo ninguém e nem faço justiça com as minha mãos. Somente em defesa própria! Se eu te matar, vou preso e é isso que você quer!
O 5 desferiu outro pontapé, levantou-o pela gola do blusão e socou-o no abdomen e no rosto.
Caído, Tadeu analisou a arma sobre o banco e ouviu a voz do 5: - vamos, atire logo antes que te mate e alguém apareça por aqui!
De repente, detrás do seringueiro, uma voz: - deixa que eu faço, Tadeu. Você é um bunda mole! Eu tenho que acertar contas com este F.D.P!
Tadeu viu o vulto e reconheceu quando ele ficou debaixo do poste de iluminação: - você?
Quase todos os estudantes souberam distinguir o barulho do tiro com o barulho de uma bombinha de festas: - um tiro!
Era um barulho seco vindo da praça.
FIM continua
OS OLHOS DE UM CELULAR
Akio Kimura - 05/02/2012
Tadeu e Lina seguiram os doutores e atravessaram um corredor curto até dar numa escada em caracol. De repente uma voz vinda de trás ecoou pelo ar: - doutor, vou terminar aquele trabalho, posso? Doutor Cristo virou-se e fez um aceno com a mão positivamente. Era o Doni. Ele cumprimentou o casal, aproximou-se do doutor e passou a dialogar em voz baixa e depois foi apresentado: - Tadeu, Lina, este é o Doni de quem falei. Ele se recuperou rápido!
Tadeu logo estendeu a mão: - muito prazer, já ouvi falar, é você que.....
Lina deu um cutucão no braço para interrompê-los e se apresentou dando beijinho no rosto de Doni:- sou a Lina, prazer em conhecê-lo.
Doni: - Prazer.
E não falou mais nada, juntou-se aos doutores que já estavam descendo degraus de concreto.
Tadeu cochichou aos ouvidos de Lina: - ele não tem traços de um DOWN. Parece um cara normal.
Lina, com dedo nos lábios com expressão pensativa: - notei que ele tem sobrepeso, não sorri e é lacônico.
Tadeu - Antes assim do que antes.
A sala de verificação tinha excesso computadores e telas enormes para uma sala pequena. Doni logo se apossou teclando para verficar o andamento das operações. Focou num paciente do quarto 21, cuja operação estava no final. O braço do robô assentou-se na cabeça calva à procura de um local correto. Lina, interessada, perguntou à doutora Silvia num tom baixo de voz: - que tipo de operação?
Doutora respondeu sem tirar os olhos do monitor:- é um implante. Este empresário argentino teve uma convulsão repentina e foi trazido para a nossa clínica. Detectamos um tumor no cérebro. Estamos utilizando um método em que o DNA e enzimas calculam os teores para ganhar dados de diversas moléculas biológicas e com isto, oferecem resultados com um código indicando o local correto do tumor. Ele está na região do neo-córtex. O seu cérebro está ativo, embora tenha tido falta de ar, mas se recuperou bem com a utilização do aparelho. Agora, veja na tela como a substância química injetada está se dirigindo até o local lesionado. A mancha escura desaparecerá em duas horas.
Doutor dirigiu-se ao Tadeu como se tivesse lembrado de algo:- sabia que seu pai teve início de Mal de Alzheimer? Utilizamos este método e foi um sucesso, assim, como o do prefeito J.J.
Tadeu se surpreendeu: - o prefeito? O senhor operou?
Doutor:- sim e não fique com cara de patrulheiro. Operei-o como um ser humano e não como político. Neste ramo, todos os doentes são iguais, independente de tudo. E a novidade é que além de implantar com "operação inseto", tive a oportunidade de implantar um CHIP que Doni fez em seus aplicativos. Este CHIP está relacionado com os nervos ópticos. Pelo celular qualquer, pode-se ver aonde o portador está se direcionando, istó é, o celular são os olhos dele. Você tem o seu aparelho?
Tadeu remexeu os bolsos e encontrou um: - é da Katinha, pode ser? O que o senhor vai fazer?
- Vou solicitar ao Doni que configure, pode ser?
Tadeu - Não é invasão de privacidade? Neste caso necessitaria uma permissão judicial.
O doutor riu, deu uns passos à direita e disse compenetradamente: - Tadeu, esqueça isso! Você é um homem maduro e saberá se julgar quando chegar a hora. Se você achar que não deve se intromenter, não se intrometa. Se achar que é correto, vá em frente! Dane-se a ética! Você estará agindo em nome do povo. Você não está assassinando ninguém. Todo o cidadão tem o direito de se manifestar e o direito de ficar calado.
Tadeu sorriu no canto da boca: - o doutor acha que na hora vou saber decidir?
- Completamente. Quem pergunta é porque está interessado, Dê-me o celular! O resto é com você e seu controle remoto, o seu chaveiro mágico. Lembra-se? Doni vai fazer as configurações, OK?
De volta ao hotel, entre hambúrgueres e refrigerantes na mesa, Lina estava em frente à TV à procura de notícias das 8. Da última vez, o ex-prefeito J.J. tinha reassumido as funções de prefeito. Era uma triste notícia. E Tadeu, alheio às notícias, estava esticado na poltrona manipulando o chaveiro mágico.
Subitamente, uma notícia; Lina pulou de alegria:- até que enfim, um jornal!
Locutor de TV - BOMBA! O EX-PREFEITO J. J. QUE HAVIA REASSUMIDO A PREFEITURA, FOI AFASTADO PELO MP ATRAVÉS DE UM MANDADO JUDICIAL.
Os dois se levantaram e se abraçaram gritando juntos: - que o prefeito não reassuma novamente! Vamos assistir!
A TV mostra imagens dos PF carregando inúmeras caixas de arquivo morto. Depois é mostrado uma gravação em video, o sítio dos Riverios onde os anões foram vítimas dos motoqueiros que atacaram com violência extrema. A câmera mostra rastros de sangue nas proximidades dos Eucaliptos. É mostrado também, os sobreviventes dos Rivérios, na cadeia por motivo de segurança. O jornal menciona também excesso de acidentes e números de mortos nas últimas semanas referindo-se a uma possível ligação com o massacre. E no final, jornal opina sobre o envolvimento do prefeito e do delegado Vanderson. E termina agradecendo à uma suposta Branca de Neve que enviou as imagens à TV e ao YOU TUBE.
Tadeu, num surto de quase loucura gritou: - Lina, Katinha gravou tudo! Só pode ter sido ela! Ela é muito corajosa! Os dois trocaram beijos de alegria, encaminharam-se ao chuveiro e praticaram sexo debaixo da água quente como há tempo não fazia.
Lina atravessou a metade da madrugada num sono profundo, mas Tadeu, insone, manipulava o seu chaveiro mágico ou controle remoto conectado ao celular procurando descobrir o seu funcionamento. Lá pelas 9, foi surpreendido com as imagens alheias e para certificar, apontou o celular em direção à Lina e depois deu um giro de 360 graus e notou que a imagem não era do quarto, e era em tempo real. Era sempre visto por cima. As mãos estavam retirando uma arma dentro de uma gaveta de criado mudo. Rapidamente, Tadeu telefonou para Doni e o repreendeu: - há imagens alheias no celular! Não digitei nenhuma senha!
Do outro lado, Doni respondeu:-se liga, Tadeu! À estas horas? Ninguém merece! Não percebeu que a sua senha é óptica? Esta senha é baseada no DNA familiar, portanto, qualquer pessoa da sua família poderá ter acesso a este tipo de imagem. Se não gostou, é só não assisitir.
Tadeu - Doni, não tinha acreditado em vocês. De quem é?
Doni faz ironia via telefone: - ora! É dum cara que você gosta muito! Se não quer, jogue o aparelho fora!
Tadeu continuou a assistir:- Doni, vou desligar. Desculpe a minha burrice!...Lina, acorde! Veja!
Lina - Isto é invasão de privacidade! Desliga!
Tadeu não desligou e continuou a ver. Ele se assustou ao ver a mão direita pegando uma pistola e guardando no bolso da jaqueta de couro. A mão pega o celular e disca com a mão esquerda. Ele anda e vai em direção ao espelho e vai identificando a face com as luzes fracas do abajur. Era realmente J.J.! E alguém atende: - alo, Vanderson? Aqui é o J.J. Você está pronto? Está bem, ele não pode escapar! Você está levando a arma parecida com a dele? Não? Ele não tem? Tem certeza? Pegamos ele e depois o irmão dele. O tiro tem que ser na cabeça porque ele sempre usou colete a prova de bala. E o lugar do encontro é o de sempre. Não podemos ser vistos. Vou com um fusca velho e um boné preto, você, trate de arrumar um carro velho e coloque aquela peruca para cobrir uma parte da sua careca! O quê? Contratar pistoleiros? Dá na mesma! Se eles forem pegos, vão nos denunciar. E se formos pegos, vamos ser presos do mesmo jeito. E não se esqueça da VAN e do saco preto e o extintor desintegrador de matéria. Temos que sumir com os corpos. Ninguém pode saber deste desintegrador.
Tadeu fica de olhos arregalados com a frieza do J.J. e espontâneamnte acorda a companheira:- Lina! Vai ter um assasinato!
Lina aproximou os olhos da tela e vê um homem da ROME de costas olhando pela janela deixando à mostra, o N.º 5.
Tadeu, sem perda de tempo, começou a se vestir quando Lina o interceptou pegando-o pelos braços: - aonde pensa que vai?
Tadeu fixou os seus olhos com firmeza e disse :- vou até a delegacia! Vai ter um assassinato!
Lina o cerca novamente:- você é louco? Deixa para as autoridades, pô! E não se esqueça que o delegado está nas imediações. Você conhece o delegado, não conhece? Ele está solto!
E sem se importar com as palavras de sua garota, desvencilhou-se de suas garras e disse num tom autoritário:- Lina, telefone para a PF, envie e-mail para oposição, jornais e Tvs. Diga que o J.J. vai assassinar alguém!
E saiu apressado batendo a porta e com celular na mão.
Lina - Putz! Cara teimoso! Alô, é da delegacia?
- Sim. O que deseja?
- Vai ter um assassinato! Dê um rolê na cidade! Blitz é uma boa! O prefeito J.J. vai assassinar alguém!
- Ô menina! Deixe de ser boba! Este tipo de pegadinha já não funciona por aqui! Hoje assassinei um gato. Passei por cima dele com o meu carro!
E assim, Lina ficou sem dormir, tentando ligar para Tadeu onde só caia na Caixa Postal. Restava esperar ou cair na rua à sua procura. Era só questão de tempo.
FIM - continua
O CHAVEIRO MÁGICO
Akio Kimura - 31/12/2011
Tadeu e Lina acompanharam doutor e a doutora até o elevador. Mal entraram, os visitantes estavam defronte a uma porta de metal escrito: ENTRADA SOMENTE COM CREDENCIAMENTO. Tudo era rápido, o casal de doutores não dava trégua um minuto sequer. Eles desceram uma escada em espiral até chegarem num cômodo onde havia uma saída dando num pequeno corredor e dez passos após, uma bifurcação. Tadeu pensou: "deve ser à esquerda", mas viraram para a direita para um corredor estreito até pararem em frente à uma porta de vidro temperado. Bastou um toque da doutora em seu chaveiro que a porta se abriu. Era um corredor sombrio, com chão móvel, recebendo luzes azuis pelo teto. Era na verdade, um banho de luzes, como explicava o doutor, precauções contra bactérias poderosa que por acaso possam estar impregnadas nas roupas, nos cabelos e nos calçados. Logo que sairam do compartimento, outra placa: VESTIÁRIO. Era um quarto com armários e sairam vestidos com macacões brancos, tocas e luvas. O doutor Cristo em explicações rápidas, dizia que o local exigia pureza total devido às cirurgias de alto risco. O casal ficou pasmo quando se viu em frente a equipamentos modernos como uma câmara de tomografia eletroencefálico transparente, braços de robôs, além de computadores e monitores gigantes de alta definição, bem diferentes daquelas que havia visto nos andares superiores: - Estão vendo aqueles braços mecânicos no canto da sala que um cirurgião e seus assistentes estão manipulando? É o robô que injeta drogas em doses exatas no local exato do tumor através dos neurotransmissores. Olhem, há uma pessoa na câmara de tomografia, é o Doni. Estão vendo que há muitos fios colados sobre corpo? São eletrodos para a transmissão de resultados da uma parte cerebral para o monitor. Notaram também os fios conectados nos óculos até o computador? Eles estão ligados aos eletrodos, o que nos possibilita acompanhar a reação do paciente quando ele recebe a dose da droga no local exato. Podem ver que os gráficos estão em constante mutação. São os momentos que estão próximos na captura da região do cérebro afetado. Vejam, ao lado, um médico manipula uma tela do computador através de toques tentando conter excessos de radiação. A doutora Silvia se antecipa a curiosidade do casal: - O paciente é Doni, um garoto que foi abandonado nas ruas de Evilate. Ele estava em estado deplorável e a ADF, aquela instituição que foi destruída por uma explosão criminosa amparou-o. Como o menino estava em estado de choque, a dona Odete, a diretora, encaminhou-nos para que solucionássemos o problema. Ele tem um tumor que impede o seu desenvolvimento intelectual.
De repente, Tadeu interrompeu: - doutor Cristo, só por curiosidade, qual é a sua função verdadeira? O senhor é médico? É cientista?
Doutor sorriu e respondeu:- sou neurocirurgião, neurocientista e pesquisador.
Lina - pensei que o senhor fosse polivalente, aquele cientista que faz tudo! Faz cirurgias, faz obturações, varre o corredor, faz cafezinho..
Doutor-às vezes faço tudo isto quando há problemas, embora a lei trabalhista proiba estas atividades paralelas.
E riram.
O doutor parou de rir e sinalizou a sua atenção à doutora Silvia:- prosseguindo...implantamos um CHIPS em Doni e conseguimos normalizar o seu comportamento agressivo. Ontem, aproveitamos para acrescentar o código genético que o doutor conseguiu separar. Este código, uma das menores partículas do genoma, que pode modificar a fisionomia e seu rosto e corpo. Doni já está bem diferente de quando veio.
Tadeu interrompeu com mudança de humor:- vocês não vão me dizer que é uma experiência em ser humano? O senhor enlouqueceu?
O doutor Cristo se surpreendeu com a incompreensão de Tadeu:- calma Tadeu! Doni estará bem. Nós fizemos todos exames possíveis, tudo positivo. É uma experiência que fiz em Zurique com primatas há dez anos. E fiz outra experiência num idoso de 102 anos de idade à beira da morte.
Lina, surpreendida com a informação, perguntou ironicamente:- e como está o idoso? Virou um bebê?
Doutor sorriu forçado mostrando em sua expressão, desprezo pela ironia:- nada disso, Lina! Ele está vivo e está com 112 anos com aparência de 90.
Tadeu ri: - para mim, um idoso de 90 não é diferente de 112. A diferença é pouca e é muito tempo de vida!
Doutor - Infelizmente, o seu corpo não está resisitindo a ação do tempo. Nós temos a solução de reabilitar as células mortas, mas ainda estamos atrasados. A pele emite um cheiro desagradável.
Doutora Silvia: - Igual à da Lisa. Infelizmente, ela morreu. Temos um CHIPS que evita a morte das células, mas ainda é limitado.
Tadeu baixou a cabeça consternado: - fiquei sabendo da morte da Lisa. Vamo prosseguir a conversa.
Lina olhou de soslaio e mudou de assunto: - não ficamos sabendo dessas novidades na mídia.
Doutor Cristo em tom de seriedade, disse apressadamente:- é segredo! Não divulgamos nada, apenas para vocês, que para mim, Tadeu, você herdou tudo isto aqui! Ou para Vagner! Ou para Katinha. O meu medo é que estas descobertas caiam em mãos erradas e usadas para o mal. E este idoso de 112 anos, Tadeu, com aparência de 90, sou eu, Cristopher Shultz!
Tadeu e Lina se entreolharam com sobressalto.
Lina se manifestou: - doutor, o senhor está com aparência de uns 78 anos!
Doutor - Pois é, garotos! Mas a aparência de velho é de velho a partir dos 65. Outra novidade, o verdadeiro corpo de Cristopher Shultz está em Zurique! Este corpo em que estou incorporado é de um americano. Sou alemão de nascimento e naturalizado americano. Roubei este corpo num hospital de Nova Iorque porque fui acusado de desviar segredos e projetos de equipamentos super-modernos. Na verdade, nem precisei roubar. O projeto era meu e sabia tudo de cabeça. Pedí asilo em Zurique com ajuda de um diplomata brasileiro com a ajuda de outro brasileiro que fazia estágio na CIA. Era um importante agente da ABIN, que conhecia o seu pai. Foi realmente cenas de cinema.
Tadeu, novamente em tom irônico - Está provado que o brasileiro não tem jeito! Adora fazer coisas erradas! Explique-me por quê do desentendimento com o Centro de Pesquisas dos EUA?
Doutor - Porque um membro importante do governo americano tinha intenções de aperfeiçoar estes CHIPS para a guerra com motivações comerciais, no qual, eu não concordava. Ele queria patentear em seu nome. E as relações se desgastaram.
Tadeu - Humm! Egoísta! Se FBI ou CIA descobre!....Voltando atrás, doutor, este corpo que agora te pertence, não há perigo do cérebro desta vítima se desenvolver como fosse o seu cérebro? Não haveria mistura de idéias, de comportamento?
Doutor - Só o tempo dirá, arquivei toda a memória deste cidadão, mas há grande risco da memória dele retomar o seu lugar com um simples acidente. Provavelmente, haverá conflito de vontades, de idéias, mas estamos estudando um meio de bloquear ou na medida do possível, que a memória dele não ultrapasse o limite da minha consciência. Estamos num estágio avançado, eu por exemplo, com este chaveiro de controle remoto, posso me transferir para você. É só inserir e colar. Você, Tadeu, se souber manipular este controle remoto, poderá estar em mim.
Tadeu, com expressão de que entendeu não entendendo perguntou com olhos virados para cima: - então este CHIPS que o doutor implantou em mim, por acaso é do senhor?
Doutor Cristo lambe os lábios com certo temor em responder:- ...eu fiz uma cópia do CHIPS e implantei em você. Quando você souber manejar o controle, você será doutor Cristo ou seu pai, seu irmão e recentemente, atualizei e inclui: J. J., Delegado Vanderson e reservei na pasta, mais alguns espaços em caso de urgência.
Tadeu fica estupefato e Lina pergunta:- para quê? Pode deletar J.J. e Vanderson! E como vou ser tantas pessoas num só corpo, numa só cabeça?
Doutor Silvia- Não se preocupem, isto está longe de acontecer. É necessário conhecer profundamente este controle. É complexo! Tem que ser um genio da informática ou da matemática para se chegar a este ponto. Mas se chegar, terá poderes que nem Deus terá.
Tadeu - Não, não quero ser um Deus, meu Deus! Quero que retire este CHIPS! É uma violação! É contra a lei da humanidade e do mundo científico.
De repente, doutor Cristo pega o seu chaveiro a aperta um botão e na telinha, surge a imagem de J. J. e dá o START.
Tadeu sofre uma convulsão. Cai no chão e Lina agacha-se para socorrê-lo: - doutor, o que o senhor fez?
Doutor, calmamente, agacha-se também e mostra a telinha do chaveiro: - olhe, Lina, está fazendo um DOWNLOAD, dura apenas um minuto.
Após um minuto, Tadeu se reabilitou e mexeu os olhos para todos os lados: - que lugar é este?
Tadeu se levantou e prosseguiu: - o que o senhor faz aqui, doutor? Onde estou?
Todos ficam preocupados. Lina se afasta assustada pelo tom diferente de voz. A doutora Silvia apenas observa com olhar atento e o doutor, com controle remoto na mão sussurra nos ouvidos de Lina: - ele, agora é J. J. de ontem. Temos uma demora de 24 horas para atualizar.
Lina observa atentamente e nota que Tadeu está diferente, principalmente no olhar. Tadeu se manifesta:- por quê voces não respondem? Cadê os papéis? Vocês furtaram? Cadê os papéis?
Doutor - Que papéis, J. J.?
Tadeu vira para os lados e se dirige ao doutor:- vocês me sequestraram? Cadê a Ordem Judicial do STJ para reassumir a prefeitura? Tenho que mostrar à imprensa hoje mesmo!
Todos na sala se entreolharam e doutor perguntou:- o senhor vai reassumir a prefeitura?
Tadeu - Sim. Por isso que estou me preparando e me vejo em frente a vocês!
Doutor rapidamente aciona o controle e desliga e restransfere para o verdadeiro Tadeu, que novamente entra em convulsão.
A doutora se agacha primeiro e passa a mão na testa: - está febril, doutor. Mas temos que estudar um meio de evitar esta convulsão. Pode se ferir e alterar a programação.
Doutor - E esta febre é sinal de rejeição. O santo de Tadeu não cruzou com o de J. J. Preciso pesquisar a respeito, Silvia.
Tadeu se levanta com ajuda da doutora e Lina, preocupada perguntou:-Tadeu? Você está bem?
Ele sorriu:-parece que escorreguei. Desculpem-me.
Doutor pegou o chaveiro e acionou um canal de reportagem.
Locutor: - O prefeito J. J. reassume a prefeitura de Evilate por Ordem Judicial.
Tadeu - O quê? J. J.? Como pode? Ele é um falso juiz! Todos sabem disso!
Doutor - O país inteiro sabe, não são todos, mas ele tem alguns amigos influentes no Planalto.
Lina - Eles estão cegos de poder e não conseguem enxergar a verdadeira justiça.
Doutor interrompeu a conversa e por distração, disse para Tadeu:- J. J.!, você pode ser a própria solução, pois temos o senhor em nossas mãos. Você está sequestrado!
Todos riram, menos Tadeu: - o que vocês estão dizendo? Que piada é esta?
Lina, com tom de gozação - Explicaremos no caminho, Tadeu.
Doutor- Logo você vai entender a piada.
Todos riram.
FIM continua
Akio Kimura -18/12/2011
PRAZER É MEU, DR. CRISTO!
Um prédio quadradão de três andares, na verdade, de seis. Havia mais três no subsolo. Ninguém diria que era um mini-hospital ou na melhor das hipóteses, uma clínica, bem no centro de Evilate. Para Lina, mais parecia um centro de pesquisa, pois vira através do vidro, algumas pessoas de jaleco numa sala com microscópios e tubos de ensaios. As mesas estavam repletas de recipientes, sabe lá o que tinha lá dentro. Não havia muitos pacientes e deu-se para notar que eram pacientes bem pacientes, provavelmente,"cobaias humanas" isto porque, alguns deles repuxavam a boca repetidamente, outros, se expressavam com olhar parado no ar. Tirando algumas conclusões, mesmo que duvidosas, pelo simples fato de ter ouvido boatos a respeito do doutor Cristo de que ele era fissurado em ressuscitar pessoas em estado terminal, poderia muito bem ser verdade. Em suma, era um hospital das policlínicas com cara pronto-socorro, dentro de um centro de pesquisas comandado por um gênio esquisito e maluco, sem medo de errar.
O casal pegou o elevador e subiu, desceu, percorreu os corredores. Tadeu tirou uma idéia! O lugar parecia o refúgio dos vilões do cinema. Bem cinematográfico. Só faltava um aquário com peixes enormes atrás da mesa do presidente superintendente. Enfim, o que o casal estava bisbilhotando? A ordem era esperar na sala atendimento. Tadeu resmungou:- é tudo igual, Lina. Os super-vilões do cinema conseguiam montar uma NASA perfeita numa ilha deserta ou um enorme laboratório no topo de uma montanha. Como eles conseguiam verbas? Ninguém explica. E os trabalhadores? Eram registrados em carteira? Os vendedores de materiais de construção emitiam Notas Fiscais? Talvez sim, mas e a construtora? Como conseguia aprovar plantas na prefeitura? Propina no setor público? E todos dizem-se honestos, mas não aquele HONEEESTO, mas sim, com algumas ressalvas.
De repente, seus pensamentos voltaram-se para Elisa, morta, segundo as palavras de um motociclista:- "Gostaria muito de ressuscitá-la". De repente, Lina interrompeu: - Tadeu, acho que foi aqui que Elisa se recuperou. Tadeu nem ouviu, mudou de pensamento e foi parar no seu velho pai: - "de onde ele havia conseguido uma verba tão grande?" Calculando de viés, tinha uma fortuna aplicada. Eram máquinas de tomografia sofisticadíssimas, salas de cirurgia modernas, robotizadas. Eram muitas salas, cerca de doze, cada qual, com máquinas a sua mercê.
Foi assim, uma atendente de idade, cerca de 38 anos de idade, morena clara de olhos azuis, magra e linda com um jeito estranho de andar veio ao encontro. Tadeu e Lina notaram que ela não tinha concatenação de movimentos, os dois braços iam juntos na mesma direção. As suas pernas pareciam com os passos de um robô melhorado, mas de qualquer maneira, Tadeu achou que ela fora uma das pacientes que tinha voltado à vida depois do estado de coma: - senhor Tadeu, o doutor Cristo chegou. Sigam-me até o escritório.
Tadeu - a senhora é feliz com esta vida?
Senhora - Sou. Estou viva. Detesto morrer!
Percorreram até o fim de um corredor e numa das portas, um nome: CRISTOPHER SHULTZ - a recepcionista fixou os olhos na placa e uma faixa de luz azul atravessou os seus olhos. A porta se abriu. A sala, quase vazia com uma mesa, um telefone vermelho, uma impressora, um microcomputador e uma estante de vídeos de DVD's antigos. O provável doutor estava sentado olhando a paisagem de fora através de uma janela e a provável doutora Silvia estava sentada à espera e logo levantou-se da cadeira para cumprimentá-los: - senhor Tadeu, como vai? O senhor me reconhece? Tadeu sorriu e respondeu: - a senhora dos comprimidos...confesso que só dormi 57 horas. Era necessário uma super-dose? Perdí os acontecimentos importantes aqui no qual gostaria de ter participado.
Doutora Silvia esticou os lábios e respondeu: - você estava mais morto do que vivo e a sua pressão arterial estava no topo. A qualquer momento, você poderia apagar-se...para sempre. O seu estresse estava no máximo.
Neste mesmo momento, doutor Cristo virou-se para o casal, levantou-se: - muito prazer em conhecer, Tadeu!
Logo ao vê-lo, deu-se a boa impressão e foi em sua direção, esticou a mão direita:- prazer é meu, doutor Cristo!
O doutor estava de jaleco branco mostrando a sua magreza de um senhor de idade, postura erecta, óculos sem aro, transparentes que confundia com a brancura de seu rosto, por sinal, portador de um queixo quadrado, igual dos desenhos de "anime". A sua boca pequena era compensada pela sua voz firma e estridente. Um defeito: falava alto demais.
Doutor caminhou até a janela, parou e colocou as duas mãos para trás, uma segurando a outra e explicou secamente olhando o céu: - conheci o seu pai em Zurique, numa livraria. Ele folheava um livro escrito em alemão e só por isso, fiz amizade. Mentira. Explico: naquela época, eu era amigo de um político brasileiro influente que fazia parte da ABIN. O interesse dele era o CHIPS que criei, da finura de um fio de cabelo com capacidade de 4 Tegabites. Nanotecnologia. Seu pai me contratou lá mesmo na livraria.
Tadeu, curioso, perguntou:- mas para quê? Já acabou a época de espionagem.
O doutor virou-se e respondeu repentinamente com um leve sotaque alemão: - é aí que você se engana, meu rapaz! A espionagem industrial está a todo vapor e é crime, mas neste país, tudo é permitido. É uma guerra de multinacionais. Ao meu ver, tudo isso acabará um dia porque uma vai adquirindo a outra através da fusão. O governo insistiu neste projeto secreto. Também pode ser lavagem de dinheiro.
Tadeu - E que lavagem! Até o meu pai está no rolo! Mas o que há de se fazer, né?
Cristo - Na verdade, Tadeu, ele é vítima! Estava sendo usado. Ele sabia e não resistiu aos encantos da ciência e do projeto. Mas é o menos ruim. E era o mais honesto de todos.
Tadeu ri com ironia - Professor, numa corrupção, não existe menos ruim. Existe é honesto safado! Faz tudo direitinho, mas ele sabe que há algo de errado. É conivência.
Cristo - Se seu pai está na panela, então, estou também! É isto que você quer dizer?
Tadeu - Exato. O senhor sabe de quem vem a verba e o senhor não fala porque atende aos seus interesses, isto, para o bem da ciência. Estou errado?
Cristo aspirou o ar e soltou balançando a cabeça sorrindo meio torto:- e o que o senhor Tadeu acha de tudo isto?
Tadeu - Perigoso. É o desvio de dinheiro para um plano secreto. Melhor seria informar ao povo de tudo. Este plano é bom, mas é a corrupção fazendo o bem em segredo e que ninguém pode saber porque tem interesse numa fatia da verba. Para mim é tudo estranho, tão estranho quanto eu, que lutei com um homem que não conhecia sobre o teto de um ônibus. Houve um momento em que queria matá-lo em favor de uma cidade. E o pior, eu o salvei e depois o matei. Enganamos as autoridades, mentimos tudo em nome da justiça. Agora sou um criminoso e tenho que conviver com isto para o resto da vida. Até a Lina é cúmplice. Ela me ajudou muito! Ela tombou um ônibus e tinha gente lá, inclusive este com que lutei. Acho que morreram instantâneamente! Portanto, ela também é uma criminosa.
Lina se surpreende com o seu nome em pauta apertando a palma da mão em seu peito: - eeeeuuuu? Tadeu, você matou mais uns três. Não se lembra das ferramentas pesadas que você jogou contra os motoqueiros?
Cristo interrompeu: - Lina, não se preocupe. Tudo foi feito pela sobrevivência, pela defesa. Vocês estavam sendo atacados. Vamos para outro assunto - o CHIPS que implantei em você, Tadeu, vai te deixar sem esses complexos da vida. Você esquecerá que é culpado. O CHIPS levará você para a razão. Vou te entregar um controle remoto em forma de chaveiro e mais uma cópia para você guardar num cofre de um banco.
Tadeu - O que o senhor está dizendo? Implantou um CHIPS em mim? Quem autorizou? O senhor violou a minha pessoa!
Doutora Silvia - Tadeu, você assinou antes de entrar em coma.
Tadeu - O quê? Assinei? Em coma? Eu?
A doutora abriu uma pasta de folha de alumínio e retirou um documento: - veja se a assinatura confere.
Tadeu ficou estupefato. Era a sua assinatura: - não me lembro disto! Sacanagem!
Doutor Cristo interferiu com delicadeza e com voz baixa: - não vai mudar nada, Tadeu. Você continua a mesma pessoa que sempre foi. É só não utilizar o controle remoto. E você não vai perceber nada. O CHIPS é da finura de um fio de cabelo e não vai te incomodar em nada. Muito pelo contrário, você terá uma vida longa com este CHIPS. Ele cuidará da sua saúde. Se você tiver uma doença rara, ele avisará e se você quiser, pegará o controle e fará uma manipulação para que o remédio vá em dose exata e no lugar certo sem causar sequelas.
Tadeu caminhou de um lado a outro e depois se aproximou de Lina.- o que você acha? Mando retirar o CHIPS?
Lina- Não, já que não vai te incomodar, deixa o CHIPS aí. Se pedir para retirar, você vai ter que entrar em coma por mais 57 horas.
Tadeu - Não. Em coma de novo não. De repente, se eu acordar e J. J. conseguiu recuperar o cargo na prefeitura? Lina, vou deixar este CHIPS em mim, quem sabe, possa viver melhor.
O doutor interrompeu e disse: - Este CHIPS trará muitos beneficios para a população também.
Tadeu, cético de tudo: - será? O que por exemplo?
Doutor Cristo levantou a cabeça caminhando de um lado a outro: - a implantação do CHIPS em crianças para o aprendizado. Temos o CHIPS 00001Azteca que é para crianças problemáticas com dificuldade de aprendizado como os portadores de Síndrome de Down. O CHIPS estimulará o sistema nervoso através do neurocondutor que levará a química faltante no cérebro. Isto serve também para outras doenças.
Lina - doutor Cristo, depois pode implantar um CHIPS em mim?
Doutor - Sim. Levará 57 horras.
Lina - Deixa prá lá! O senhor tem sotaque alemão.
Doutor gargalhou e de repente para: - desculpem, pessoal... doutora Silvia, explique a eles.
Doutora postou-se erecta, ajeitando os seus óculos, molhando os lábios antes de falar: - este sotaque alemão é uma falha no tom de voz. O doutor ainda não se adaptou ao CHIPS, assim que adquirir prática, falará bem em todas as línguas. Então, a outra intenção real deste CHIPS é procurar o lado ruim da pessoa e deletar. Tudo que é bom, estará gravada desde a infância. O plano é aplicar em presidiários irrecuperáveis, mas o projeto está em estudos. Há muita gente contra. Por aí, você vê, Tadeu, que o nosso projeto está voltado para questão humanitária.
Tadeu sem se conformar, perguntou:- é só para ricos e famosos ou pobres também terão vez?
Doutor Cristo bate palmas olhando para todos: - de início, só para ricos e famosos para captar recursos. O plano de seu pai, seo Jorge, era desvencilhar-se dos políticos o mais rápido possível e depois, com recursos, atenderíamos os menos favorecidos. Por enquanto, temos que atender os parentes dos políticos e que são muitos. São eles que injetam a verba, que não é pouco. Sem eles, não sobreviveríamos. Vem até estrangeiros fazer tratamento de cancer e com eles que nós enriquecemos.
Tadeu - De onde os políticos tiram o dinheiro?
Doutor - um pouco da loteria, um pouco do INSS, um pouco dos Transportes e assim por diante. E vocês, como se sentem?
Tadeu - Com este CHIPS implantado em meu corpo, sinto-me corrupto.
Todos riram.
Doutor - Vamos conhecer o prédio?
Tadeu e Lina concordaram de imediato. Olharam-se de viés e pela expressão, estavam felizes por conhecer algo novo para acrescentar em suas vidas. É claro, não se sabia o resultado e as consequências de tudo isso. O doutor, embora aparente ser uma boa pessoa, poderia ser um vilão, junto com o seu falecido pai.
Tadeu - Será que este projeto, realmente tem apoio do governo?
Doutor - Legalmente, ninguém sabe. Ilegalmente, temos muito! Sigam-me! Vou mostrar o resto do prédio.
Tadeu e Lina - Vamos!
FIM continua
Akio Kimura - 02/11/2011
YOU TUBE FOR YOU, Mr. J. J.
Logo que Tadeu abriu os olhos, viu imagens embaçadas de pessoas, uma delas, afagando o seu rosto. Sabia apenas que estava deitado num local com iluminação parca. Ouviu algumas palavras ao longe sem conseguir decifrá-las. Ele mexia e remexia os olhos para os lados como se quisesse se livrar de um obstáculo em alguma parte do cérebro. Fechou os olhos e ficou um tempo forçando a respiração até o ar chegar ao abdomen. Repetiu a operação várias vezes e só parou quando sentiu que um dos vasos sanguíneos acabava de liberar o fluxo na região próxima ao coração. Sentiu um alívio imediato como se o verde de um semáforo tivesse aberto para sempre. Os olhos lentamente começaram a captar imagens nítidas. Ouviu uma voz familiar: - Tadeu, como se sente?
Tadeu, com o seu olhar, vasculhou ao redor e reconheceu alguns de seus amigos anões e os cumprimentou. Tentou se levantar quando Lina, ao seu lado disse num tom autoritário:- fique onde está! Você está fraco!
- Não, Lina! Estou bem! Que lugar é este? O que houve comigo?
Lina e Valter trocaram olhares desconfiados, preocupados com o seu estado de saúde e Lina se manifestou: - você está no esconderijo dos Rivérios, perto da mina. É uma caverna. Encontramos você adormecido à beira de um acostamento. Suponho que você tenha caminhado exaustivamente até se sucumbir.
Tadeu enrugou a testa e com olhar fixo no ar como se quisesse recordar de algo, tentou explicar: - estava na sacristia daquela igreja abandonada e depois que bebí água de uma jarra, sentí a minha cabeça rodar. Depois, tenho a impressão de ter visto algo terrível dentro da igreja. Ou talvez tenha tido um pesadelo ou delírio. E ainda me recordo que estava correndo com todas as minhas forças. Quanto tempo estou aqui?
Valter com expressão preocupada, respondeu: - há três dias. Encontrei o carro do seo Jorge na ribanceira com pneu estourado. Era Lina e depois, Wagner nos encontrou. Ele trocou o pneu, fez o carro funcionar, e deu a volta, subiu por uma pequena encosta e nos trouxe até aqui em nosso esconderijo secreto.
Tadeu notou que as roupas que vestiam estavam em mau estado: - o que houve? Parece que vocês saíram dos escombros de um terremoto!
Mais uma vez, Lina e Valter entreolharam-se e por fim, Lina resolveu falar:- Pior que isso! Aconteceu uma tragédia, Tadeu. A metade da comunidade anã foi dizimada pelos homens do delegado Vanderson. Valter e mais estes que estão aqui, escaparam pelo túnel. Volnar, Volkon e Áurea morreram. E o incrível é que pela manhã, o delegado Vanderson e seus peritos de meia pataca vieram investigar o ocorrido como se nada soubessem, com aquelas caras de mistério. Não encontraram nenhum corpo, é claro, eles próprios recolheram naquela noite. E se encontrassem algum corpo, certamente utilizariam aquele extintor maldito e saco preto que faz as pessoas virarem pó! E o pior, Tadeu, encontraram armas, mas eram daqui, do Valter. Eles transformaram o terreiro numa festa de São João! Colocaram bandeirinhas, bombinhas no chão, sacos de pipocas, batatas doces e muitas garrafas de teor alcoolico. Tinha também garrafas de refrigerantes e copos descartáveis. E agora, anunciaram pelo rádio que Valter é suspeito de tê-lo sequestrado, Tadeu. O plano deles estão funcionando de vento em popa.
Tadeu pensou o por quê do motivo deste conflito: - Valter, eles invadiram assim de repente?
- Não. Eles avisaram que queriam conversar conosco e resolver a questão judicialmente. Eles trouxeram até o seu pai e um Oficial de Justiça para nos convencer. E eu pergunto por quê não vieram de dia?
- Meu pai veio? Do lado deles? Não acredito!
Valter interrompeu de imediato: - não, Tadeu! Não pense assim. Eles os usaram como isca. E tenho que te dizer, Tadeu, o seu pai foi...
Tadeu arregalou os olhos e soltou uma expressão de surpresa: - o meu pai foi o quê?
Lina, abraça-o e diz com voz fraquejada e emotiva: - mataram o seu pai! Valter viu. Foi uma tocaia! O tiro partiu dos fundos do quintal. Foi um atirador que estava num dos galhos de eucalipto. Era um deles para incriminar, uma maneira fácil de começar a briga armada.
Tadeu se levantou e se sentou na beirada da cama. Tapou os olhos com as mãos e começou a chorar. Lina sentou-se ao lado abraçando-o carinhosamente em silêncio. De repente, Tadeu soltou voz tremida: - estas lágrimas secas de nada valem porque não estava presente no momento para evitar a sua morte. Como foi?
Valter engoliu em seco e respondeu: - na cabeça. E eles sumiram com o corpo. Puseram o corpo dentro daquele maldito saco preto...
Tadeu ficou quieto por um momento e perguntou pela mãe e pela Katinha. Valter respondeu: - elas estão bem agora. Antes do massacre, a dona Odete e a empregada estavam sumidas. E você, também Tadeu.
- E agora?
Lina deu um beijo no rosto e respondeu: - estão bem, Tadeu! Depois que Wagner nos socorreu, ele foi até a mansão e lá estavam deitadas, adormecidas com TV ligada. É claro, depois da "operação massacre" provavelmente foram soltas. A Katinha nos avisou que está tudo bem. Ela filmou as pessoas que entraram na mansão. Eram pessoas conhecidas de sua mãe, provavelmente amante do J.J., se lembra daquela "zinha"? Pois é, muito simpática com máscara, as sem, ela é dos diabos! Ela veio com dois capangas e ofereceram um chá legítimo da Inglaterra. Ela mesma fez questão de preparar. Só que "batizada" com "Boa noite, Cinderela".
- É o mesmo chá que bebí na igreja! Estava numa jarra! F.d.p.!
Valter interrompeu o assunto e dirigiu o seu olhar para Tadeu:- o pior é que estamos sendo acusados de sequestro e assassinato de seu pai, Tadeu. Não temos tanta habilidade para acertar um tiro na cabeça.
Tadeu saiu da cama e ajoelhou-se para ficar da mesma altura de Valter e abraçou-o carinhosamente:- o importante é que sei que você é inocente! Fique de consciência tranquila! E vocês tem alguma coisa em mente? Não podemos ficar trancafiados numa caverna. É pior do que prisão.
Lina sorriu e explicou: - está tudo planejado, Tadeu. Só falta alguns detalhes! Explico e nos critique se algo estiver fora de senso.
Tadeu - Está bem!
Lina piscou várias vezes como se estivesse organizando o arquivo cerebral para expor as suas palavras:- bem...é o seguinte...até agora conseguimos pegar alguns mantimentos com a ajuda da Katinha. Ela enche a mochila de alimentos não perecíveis e deixa num local chamado de "careca do padre". É uma rocha que é careca em cima e tem vegetação ao redor. As mochilas, cerca de três, se encontram debaixo de num único pé de "engá" que tem lá. Mas é preciso cuidado porque de vez em quando, há vigias contratados rondando por lá. Tem que evitar lanternas. E nas altas horas da madrugada, Valter e mais dois, que conhecem o atalho pelo cheiro, trazem as mochilas.
- E outro plano, Lina?
- O outro plano já é mais complexo, mas é a única saída.
- Por quê, Lina?; perguntou Tadeu com curiosidade.
Valter entra no meio da conversa:- Lina, me deixa explicar a ele?
Lina sorri: - é claro, a idéia foi sua.
- Tadeu, é o seguinte: estamos nos querendo entregar num dia movimentado da semana. Talvez, na Sexta-Feira, na véspera de um feriado onde todos estarão se preparando para viajar. Você sabe que muita gente sai às 17,30 h. E neste horário de pico é que iremos nos entregar caminhando tranquilamente pela avenida em direção à delegacia. É claro, com uma placa segura por mim com seguintes dizeres: "Delegado Vanderson, estamos nos entregando de livre e de espontânea vontade". Katinha vai filmar e colocar no You Tube. Que tal?
Tadeu pensou: - You Tube for you, Mr. J. J.! Se vocês ficarem por aqui por muito tempo, acabarão descobrindo e serão mortos pelos homens de preto. Como diz o ditado popular, "a melhor defesa é o ataque". Mas tem os seus detalhes que podem fazer diferenças - surpresa e transparência.
Valter agradeceu e cumprimentaram-se com apertos de mãos e disse: - Os homens de preto, Tadeu, já foram úteis para sociedade. Eu mesmo fui refém de bandidos no caixa eletrônico num Sábado à noite. Eles levaram o que tinha sacado e me obrigaram a tirar até o limite, me ameaçaram de morte, mas os homens de preto chegaram na hora certa, mataram o que apontava a arma na minha cabeça e perseguiram os outros. Também foram mortos. Após uma hora, vieram devolver o dinheiro roubado. Eles eram guardiões eficientes, mas de uns tempos para cá, com renovação de pessoal, o excesso de poder os fez perder o bom senso que existiam neles.
- Nem tudo que é bom dura para sempre, Valter. Por isso, é preciso renovar. Mas estes, renovaram para o pior. Agora, temos que reverter a situação.
Lina interrompe e pergunta ao Valter:- e o celular da Elisa que veio na mochila?
Valter - Está aqui no meu bolso da camisa. Você pode entregar este celular número dois para o doutor Cristo?
Tadeu fica curioso:- ei! Celular da Elisa?
Valter - Sim. O professor pediu para Katinha, o celular número dois. Elisa perdeu o dela. Está sem comunicação.
- Como? Aonde está a Elisa?; perguntou Tadeu afoito dirigindo-se a Valter.
- Ela está num local secreto. O doutor quer este celular para copiar os dados num "chip". E eu não posso ir. Lina é a única pessoa que tem trânsito livre na cidade.
Tadeu - Trânsito livre? Ah! Ah! Você tem certeza disso?
Valter - Não. Tenho as minhas desconfianças. Creio que até Lina esteja sendo vigiada.
- Então, façamos o seguinte, eu e a Lina iremos até a cidade durante a madrugada. Tenho que conhecer este tal do doutor Cristo!
Lina - Você não está bem, Tadeu!
- Estou! Tomaremos o máximo de cuidado, Lina. Vocês estão de acordo?
Valter rindo - É claro, é a única alternativa!
Todos concordaram e comemoraram e Tadeu convidou Lina para exercícios de capoeira: - vamos treinar? Preciso liberar energias retidas.
Lina sorriu: - eu também! Estou com corpo duro!
E foram para um terreno plano de mãos dadas.
FIM continua
Akio Kimura-08/10/2011
EM TODO O EXTERMÍNIO, SEMPRE RESTA ALGUÉM PARA CONTAR HISTÓRIA NO FUTURO
INTERRUPÇÃO - MSN MESSENGER NO DVD - HERBIN
- Putz! Essa não entendí! O diretor do filme, o meu querido primo Marcelo não queria demonstrar cenas violentas e por isso, substituiu-as por desenhos. E agora, o fazendeiro seo Jorge que estava intermediando o acordo entre a prefeitura e a comunidade dos anões, leva um tirambaço na cabeça espalhando seu cérebro no chão! Por que não em História em Quadrinhos? Explique-me, Will. Ou foi você, o responsável pela modificação? O filme tá uma merda! Ou é uma coisa ou é outra, meu caro!
WILL RESPONDE A HERBIN
- Calma, Herbin, confesso, eu modifiquei! Queria verificar como seria o filme com cenas violentas. E ficou melhor. Está mais comercial, entendeu?
HERBIN
- Então me responda, não vai mais camuflar a violência? O diretor não vai aprovar.
WILL
- Herbin, você assistiu a este filme inacabado, sabia? O diretor me convidou para fazer a edição de última hora porque ele ficou sem verba. Você sabe, quando a "coisa" pesa no bolso, haja desespero! Houve alguns cortes e modificações. Quero que assista o resto! O filme já está em cartaz. Câmbio, desligando e voltando ao vídeo.
HERBIN
- Brincadeira!...Câmbio. O seo Jorge morreu!
Os corpos de seo Jorge e Oficial de Justiça Edemar foram recolhidos próximo a "Van" e colocados dentro de um invólucro preto por quatro homens, trajando macacões brancos, luvas e máscara respiratória. Um deles retirou um extintor e rosqueou na extremidade do saco e acionou liberando elementos desconhecidos. Era o mesmo sistema que Tadeu e Lina havia presenciado. Simplesmente, os corpos tinham se transformado em pó.
Valter acendeu a lanterna e viu o homem de macacão às gargalhadas:-Volnar, olhe! O seo Jorge e aquele Oficial da Justiça viraram pó.
Volkon - Como eles conseguem? Só pode ser química!
Valter - São raios. Mas que raios? Gama? Laser?
O anão Valter pressentindo perigo, decidiu reunir os principais homens, Volnar, Volgen, Volkon e Vivio e orientou: - peguem três galões de combustível e derramem na vala que rodeia a casa enquanto eu preparo uma tocha.
Minutos depois, do outro lado, o delegado Vanderson observava o círculo de fogo:- de fato, uma bela defesa! Parabéns, Valter! Você estava preparado! Praxedes, manda o pessoal atacar com fuzis, ideal para longa distância! E após atravessarem o círculo de fogo, deixem os fuzis deste lado e utilizem pistolas! Eles são amadores! Só quatro deles sabem manejar as armas! Capacete! Colete! Ao ataque! Atirando sem parar!
Os quatro líderes anões sentem dificuldades com os fuzis enormes e pesados obrigando-os a apoiar sobre caixas de madeira enquanto outros, à frente, revidam aos tiros com pistolas protegendo-se atrás das barricadas de toras e sacos de areia. As balas inimigas são certeiras. Logo de início, Volgen é atingido na região do torax imobilizando-o e Vivio leva um tiro no pescoço e cai sem pronunciar uma palavra. Valter consegue atingir um inimigo, mas em vão. Eles apenas caem e depois se levantam. Todos eles, sem exceção, estão devidamente protegidos por capacetes e coletes à prova de bala. Valter deixa o fuzil de lado e corre para socorrer Volgen que agoniza, rasga a camisa e tenta estancar o sangue. Os anões olham-se um aos outros apresentando faces de pavor por nunca terem passado por esta situação.
Volkon, preocupado com a violência cega e desvantagem descomunal, ergue-se levantando as mãos em sinal de rendição:- parado! Nós nos rendemos! Por favor! Há mulheres e crianças aqui!
Um disparo atinge Volkon na perna. Valter abandona Volgen dirige-se para socorrê-lo, pega-o pelo colarinho e arrasta até a barricada e efetua a mesma operação com a camiseta para deter o sangue. Valter chama os dois homens para ajudá-lo a levar para a enfermaria improvisada no galpão. E retorna preocupado, mas com com ideal convicto na cabeça apontando o seu olhar para as estrelas: - render, jamais!
E dá meia-volta dirigindo-se aos seus dois auxiliares:- vocês dois, quando retornarem, tragam o fuzil Bushmaster calibre 223 com noventa capsulas, uma pistola Taurus e os Glock calibre 40. E tragam pistolas .45 e deixem as armas espalhadas no chão.
Os homens de Vanderson conseguem atravessar o círculo de fogo e avançam atirando sem parar. Valter, com seus nervos em chamas, mas confiante, pega o Bushmaster, arrasta-se até a barricada e atira nas pernas dos inimigos. Sucesso total! Muitos homens caem com canelas estropiadas e mal conseguem se levantar.
Valter - Aí, pessoal! Peguem estas pistolas espalhadas no chão e dirijam-se aos inimigos atingidos, removam os seus capacetes e atirem na cabeça!
Os poucos que restavam dos anões, o número já era maior do que dos inimigos. Mas alguns não conseguiram executar a tarefa, pois ao se aproximar dos soldados caídos, alguns foram baleados com tiros certeiros.
De repente, os disparos cessaram. Ouvia-se apenas gemidos incessantes. O delegado, desnorteado, havia perdido quase todos homens. Alguns de seus tinham retornado com ferimentos leves e acharam por bem, não se arriscarem. Quanto menos se esperava, ouvia-se o ronco das motocicletas. Era a ROME, a temida Rondas Ostensivas de Motociclistas de Evilate, iluminado a escuridão com seus adesivos luminosos nas roupas, o famoso grupo armado, caçador de fugitivos de alta periculosidade, pertencente ao prefeito J.J. através de sua ONG, na verdade, uma milícia.
A ROME se aproximou-se de Vanderson e o lider, o O-5 apenas se desculpou do atraso: - foi mal o nosso atraso! Recebemos uma notícia falsa de que os fugitivos da prisão estavam nas proximidades de Evilate. E só depois que recebemos o seu recado, delegado Vanderson! Tem um traidor em nossa turma!
O delegado se irrita:- Oliveira 5, não está vendo que estou mascarado? Agora, não sou delegado! Chame-me pelo número 13, está bem? Quero que vocês ataquem com força total. Olhem para os nossos homens! Estão feridos nas pernas. O Valter é esperto! E quanto ao traidor, resolveremos depois!
Oliveira 5 - Nós calçamos botas a prova de bala. O único lugar que eles podem nos ferir é na bunda, mas isso não é problema, estamos montados nas motos!
Vanderson- Chega de lorotas! Ataquem! Exterminem todos!
Os roncos forte das máquinas em ritmo de aceleração prenunciavam derramamento sangue. Os anões, os poucos que ainda restavam, estavam atentos às ordens do lider que se posicionava estrategicamente. Valter sabia o local onde havia um declive e era por alí que viriam, pois, para as motos voarem atravessando a vala, teriam que ter uma subida. Do outro lado, as motos começaram a rodear, uma turma em sentido horário e a outra, anti. Na verdade, ele procuravam por algum declive, exatamente como Valter havia pensado. E nessas alturas da situação, já passado a primeira meia-hora, o círculo de fogo já havia se esgotado deixando um rastro de nuvens negras obstruindo a luz das estrelas. Os anões sabiam do potencial de destruição da ROME e estavam apavorados. Alguns correram até a vala acenando e gritando que queriam se render. Valter tentara impedir, mas já era tarde, pois uma bala de raspão na cabeça o deixara inconsciente. Todos os três que se renderam foram baleados. As motos tomaram distância e voaram sobre a vala invadindo o terreno. Um dos anões vendo a invasão, revidou disparando o seu Glock, mas é atingido mortalmente no peito. Outros levantaram os braços e chegaram a ficar de costas para o inimigo pedindo paz. Eles sabiam muito bem que os homens de preto não atiravam pelas costas, mas eles estavam em constante movimentação rodeando-os. E quando tinham a oportunidade de ficarem de frente, atiravam sem dó.
Mas mesmo assim, o resultado final é que quatro dos anões conseguiram furar o cerco dirigindo-se até o matagal repleto de eucaliptos. E os outros que estavam escondidos na casa, seguiram o mesmo exemplo. Os motoqueiros se direcionaram preferencialmente para os fugitivos que sumiram como fantasmas na escuridão. Somente um anão fora encontrado e executado com um disparo no coração. As caminhonetes, com seus farois Santo Antonio entraram em ação iluminando a mata, mas devido as irregularidades do terreno, não conseguiram trafegar onde havia rochas enfileiradas.
E para a surpresa de Valter que estava inconsciente e que acabava de abrir os olhos, presenciou outro tipo de ronco de motor, desta vez, mais poderoso, um helicóptero que fora acionado para iluminar as cercanias.
Valter, ao notar que os homens de preto estavam ocupados na perseguição na mata, arrastou-se cuidadosamente com mais dois de seus homens e se dirigiram até o galpão. A fuga de emergência era pela passagem secreta, através de um tunel que se esticava até a extremidade do sítio. Muitos sobreviventes o acompanharam. As mulheres e crianças certamente já havia alcançado um lugar seguro. Valter, por último, com sua experiência e calma, se apossou de uma pasta verde contendo papéis de sua propriedade.
Na mata, alguns dos anões foram executados sumariamente. O auxilio das luzes do helicóptero contribuiram em muito, encontrando mais alguns anões e que também tiveram o seu destino selado.
O delegado Vanderson, depois de ter vistoriado a casa, entrou no galpão à procura da pasta verde, mas sem encontrar. A primeira regra ditada por ele era uma solicitação de que ninguém tocasse nos objetos da casa e do galpão. A segunda ordem era recolhimento de cadáveres e fazer virarem pó. A terceira, recolhimento das capsulas deflagradas, montar uma fogueira de São João e bandeirinhas coloridas no alto. A quarta, espalhar copos de plásticos usados e a quinta, colocar sobre a mesa, quentão e sanduíches. E á última, deixar instrumentos musicais á vista e garrafas PET de refrigerantes.
No galpão, Vanderson descobriu uma pequena passagem debaixo da máquina processadora de folha de eucaliptos. O W 14, o mais magro dos homens tentara entrar no buraco do tunel, mas sem sucesso. O seu corpo tinha se entalado e e também alvo de brincadeiras: - esqueceu de calcular o diâmetro? Ruim de buraco! E deve haver uma saída, pessoal. Entrou por um buraco, tem que sair pelo outro!
Num canto da sala, delegado Vanderson - o 13, se indagava com a cabeça encostada na parede: - esta operação foi um equívoco. O que nós fizemos foi um massacre. E em todo massacre, sempre há alguns sobreviventes para contar história no futuro.
O-5 que havia escutado o pensamento alto do 13 disse: - a merda está feita, e mesmo com a limpeza total, o cheiro permanecerá por resto de nossas vidas.
O azar de Lina é que havia se perdido numa curva fechada derrapando o carro até cair numa pequena ribanceira. E não conseguia dar ignição.
Ao longe, estampidos de fogos de artifícios colorindo o céu: - Eles estão comemorando Festas Juninas!
E para surpresa sua, um helicóptero passava sobre a sua cabeça em direção à cidade. E minutos após, muitos veículos e por último, os homens de preto, a ROME.
Lina estranhou a movimentação. Tentou em vão, comunicar-se com o celular de Katinha, seo Jorge e até de Tadeu sem resultados positivos. Exausta e com frio, entrou no carro para descansar até que alguém a descobrisse na primeira hora da manhã.
FIM continua
Akio Kimura - 01/10/2011
ESTOPIM
Tarde, dezessete horas e trinta minutos. Valter e Volnar, dois dos lideres da comunidade dos anões retornaram ao sítio após receberem a mensagem de Katinha, um e-mail via celular: "Valter, um Oficial de Justiça em seu sítio acompanhado do delegado Vanderson. Uma intimação sobre a questão de terras".
Por não acreditar em autoridades, Valter e Volnar traçaram alguns preparativos de defesa contra um eventual ataque armado. O dois anões conheciam bem o delegado, era do tipo que detestava perder viagem, e, provavelmente, seriam ameaçados com palavras ou com armas. No mínimo.
O resto da turma dos anões permaneceu na mina de safira. Tinha a missão de encontrar mais algumas lascas para despesas do mês. E por surpresa, encontraram uma lasca de esmeralda num dos becos da caverna. Por segurança, deixaram-na intacta. Não se sabia o tamanho exato, mas presumidamente, era enorme. Os anões sempre estiveram cientes de que a mina estava segura, pois, para se adentrar, uma pessoa normal não teria condições de passar por uma fenda entre as rochas.
Valter ficou encarregado da estratégia de defesa e Volnar, na preparação das armas, juntamente com a ex-enteada do prefeito J. J., a Aurea, a única de estatura normal.
Ao redor da casa, tinha um sistema de defesa, uma vala de três metros de largura e um de fundura, repleto de arames farpados, tampado com toras de eucalipto. Em caso de ataque, bastava retirar as toras, jogar pneus velhos, madeiras, lixos inflamáveis formando uma barricada de fogo. No quintal, em torno da casa, os anões cavavam muitos buracos para dificultar as ações dos motoqueiros voadores.
Valter sabia que se houvesse um ataque, a comunidade inteira seria dizimada numa questão de horas, pois sempre ouvira dizer que a ficalização não era simplesmente pelas irregularidades em que esta terra foi adquirida, mas sim, também por interesse pela jazida de safira. E sabia que J. J. era o cara.
No cinema da cidade, Lina assiste ao filme de Tadeu. Nunca havia imaginado que o seu namorado atuasse tão bem e que estava em sua melhor forma. Ela assistia aquela parte em que Tadeu se esforçava para livrar o seu corpo deitado e amarrado na cadeira e a seguinte cena, a figura de Valter e sua turma jogando galões de combustíveis e óleo queimado na vala. Ele orientava estrategicamente o pessoal em suas devidas posições, protegidos por sacos de areia, cerca de doze ao redor da casa. As mulheres e crianças se abrigavam no porão secreto do galpão, ligado por um túnel até a casa com a função de municiar as armas.
INTERRUPÇÃO NO DVD- MSN MESSENGER - HERBIN
Herbin - Will, não vai ficar confuso? A realidade e a ficção estão se juntando, é isso?
Will - É isso aí! muitos chamam de metacinema ou realismo fantástico.
Herbin - Você não acha que estragou o filme? Eu não aprecio este tipo de filme. Tá uma bosta!
Will - Herbin, você nem assistiu ao filme inteiro. Critique depois que assistir. Câmbio, desligando.
CONTINUA
Valter comenta com Volnar que irá dialogar e que o uso de armas, será o último recurso e a possibilidade de um acordo amigável será preferencial, mas em caso de confronto, a rendição estava descartada.
Lina assiste ao filme com nervos a flor da pele.
Quase ao anoitecer, o ronco dos motores emudecem os pios dos pássaros. As luzes dos faróis riscam o céu de uma tarde escura dizimando a poesia do lugar.
Surge na frente, um carro sedan preto. Logo a seguir, um Hilux, veículo conhecido do seo Jorge e depois, duas caminhonetes com faróis acesos acima da cabine, três ônibus e um caminhão Constellation com carroceria de quase vinte metros de comprimento carregado de tubos misteriosos. Valter balbuciou:-estão usando veículos da prefeitura inapropriadamente. E sentiu calafrios. Volnar engoliu a saliva em seco. Perceberam que não vieram para brincar. Valter toma uma decisão pedindo para que os homens ficassem de prontidão com armas em punho. Eles param numa distância de cinquenta metros. De máscaras, o delegado Vanderson é o primeiro a sair da viatura e depois, o polivalente Praxedes. Do Hilux, sai um homem desconhecido, provavelmente Oficial de Justiça, provavelmente, um Oficial falso. Todos eram falsos, de ficha suja. Valter não se conformava como o povo ainda não havia percebido essa enganação. E a seguir, pelo lado do motorista, por surpresa de todos os anões, o amigo seo Jorge etão logo, as duas caminhonetes de trás, acenderam os faróis: - Olá, Valter! Tudo bem? Este homem ao meu lado é um Oficial de Justiça. Queremos dialogar para entrarmos num acordo.
Valter, em contraluz, enxergava apenas as silhuetas e para ter uma visão melhor, acendeu a sua potente lanterna para certificar se era realmente o seo Jorge: - Estou surpreso! Pensei em todos, menos no senhor!
Seo Jorge:- Eles apelaram para que eu viesse até você porque tenho um bom trânsito e também para evitar um possível contratempo. Este é o Oficial da Justiça, o Edemar, você permite que ele fale?
Valter, antes de responder, cochicha nos ouvidos de um dos membros:- (Vivio, filme tudo! Você está proibido de morrer!) Já sei o que ele vai falar. É o ultimato. Existe isso na lei dos Direitos do Cidadão? Se eu não concordar, o ultimato que vocês inventaram vai servir para quê? Que nós saiamos daqui de algemados?
De repente, sem licença, o oficial Edemar pega um autofalante manual e interrompe a fala de Valter: - o senhor está intimado a comparecer no foro para regularizar os papéis desta propriedade: Habite-se, Escritura, Vintenária e a exploração clandestina de minérios! E também IPTU devido há dois anos.
Valter escuta sem muita convicção em relação aos papéis: - e precisa de tanta gente assim? Por quê?
O Oficial Edemar:- Senhor Valter não compareceu na Prefeitura para se atualizar. Foi intimado várias vezes. Estou esperando a resposta! Valter Riverios, o senhor terá de nos acompanhar agora, queira ou não queira. Eu sei que o senhor está me entendendo.
Valter:- senhor Edemar, não é possível atendê-lo agora. Poderia ser amanhã? Preciso juntar os papéis!
OFicial Edemar:- senhor Valter, se não me responder, tenho ordens para levá-los até o albergue municipal, temos vaga para todos.
Valter - Para todos? Exclusivamente para nós?
Oficial Edemar - Deixe de ironias! Estamos falando sério! Ah! Há um boato que o senhor está fortemente armado! Sabia que o porte ilegal de armas é um crime? E tem mais, o senhor é suspeito de sequestro do Tadeu, filho do seo Jorge. Precisamos verificar se é aqui, o cativeiro!
Valter, desnorteado com a acusação, ironicamente responde: - o quê? Sequestrar o meu amigo Tadeu? Vocês estão loucos! Faz me rir! Seo Jorge sabe que nunca iria cometer uma besteira desse tipo!
Volnar bate palmas devagar para caracterizar o absurdo que estava ouvindo: - é armação, seus F.D.P.!
Seo Jorge aproxima-se do oficial e discute: - Edemar, que absurdo é esse? Sabe do que está acusando? É coisa séria! Vocês estão usando de todos os artifícios sem medir as consequências!
Enquanto seo Jorge discutem, Valter e Volnar dialogam a respeito das armas: - Volnar, temos admitir que as armas nossas são ilegais! Temos que tomar uma decisão. Eles são profissionais da arma! Veja o delegado, de máscara! Só a silhueta dele é suficiente para identificá-lo! Ele está até babando para nos atacar! E nós não temos a mínima chance para derrotá-los.
Volnar - A nossa vida está em jogo e a preservação é prioridade no momento. O que fazemos?
O seo Jorge termina a discussão com Edemar e dirige-se ao Valter: - a conversação está sendo gravada, Valter. Para evitar transtornos para ambos, é necessário um ceder. O senhor Edemar nem pensa nesta possibilidade! Valter, por favor, é só mudar-se para o galpão da prefeitura! Lá tem comida, TV, campinho de futebol..
Valter- Desde quando um Oficial de Justiça decide? Tem que ser um juiz! Tem que ter um julgamento!
Volnar interrompe e dirige palavras ao irmão: - Valter, Volgen conversou com as mulheres e chegaram à conlusão de que o bom senso é a melhor solução. As mulheres e crianças estão chorando.
No desenrolar da reunião, um dos motoqueiros, com sigla M 14 aproxima-se de Vanderson: - delegado Vanderson, o plano parece que vai fracassar, eles vão se entregar! Não é melhor avisar o W 16?
Delegado - Não me chame pelo nome, seu imbecil! Neste momento, não sou delegado Vanderson! Não está vendo que estou encapuzado?
M 14- Mas o senhor é facilmente identificável! Será reconhecido pela barriga, doutor!
Delegado - Cale a boca, seu idiota! M14, checou as armas? Estas armas são iguais das deles? Todos de luvas? E as bandeirnhas coloridas de São João para pendurar? E a equipe do 5? Não chegou ainda?
M 14 - Tudo Ok, só o 5 que ainda não chegou! Ele está cuidando do Tadeu lá na igreja abandonada. Já comuniquei a ele que os fugitivos estão à solta nesta região. Legal, delegado! Depois do massacre, o local parecerá um final de festa de São João com pequenos entreveros! E os copinhos descartáveis usados serão espalhados pelo terreno. As garrafas de pinga, batata doce e milho cozido. E o W 16 está a postos. Está vendo naquele eucalipto atrás do galpão? É ele!
Vanderson - M 14!. Não está vendo que está escuro? Como posso enxergar o W 16 apontando a arma, seu imbecil! Se toca! Vai, dá ordem de soltar fogos! E não me chame de delegado, me chame de Uno!
De repente, o céu clareia. Todos ficam maravilhados com o espetáculo de pirotecnia que vinha daquele caminhão enorme da prefeitura.
Valter e turma olham o céu colorido com chuva de prata, constrastando com as suas fisionomias aflitas. A previsão da continuação do diálogo não era favorável.
Entre barulhos de rojões e bombas, subitamente, dois tiros secos, diferentes, ecoam no ar.
O seo Jorge é atingido por um tiro certeiro na cabeça caindo inerte, com cérebro espalhado no chão. O Oficial Edemar é atingido no coração. Estava estático no chão.
Valter percebe que o tiro viera de um dos pés de eucalipto dos fundos: - pessoal, deitem-se! É uma armadilha!
No cinema, Lina é tomada pela aflição. Após ver o personagem do seo Jorge ser atingido na cabeça, ela sente uma sensação de horror e abandona a sessão. Joga o bilhete de cinema que estava em seu poder e dirige-se até o estacionamento.
Lina - por favor, o carro do seo Jorge!
O rapaz permitiu que Lina se apossasse do carro, pois era a segunda vez que solicitara por causa emergencial.
Lina acelerou cantando pneu em direção ao sítio dos Riverios. É claro que chegaria a tempo para salvá-los, pois havia um ano que prestara serviço à polícia intermediando a rendição de um de seus garotos da comunidade, com sucesso total.
FIM continua
Akio Kimura-03/09/2011
NADA ALÉM DAS SUPOSIÇÕES
O amanhecer ainda estava longe de soltar as suas clareiras. O sítio de Elisa no topo do morro permanecia em silêncio. De repente, entre as árvores, ronco de duas motos com um na garupa quebravam a quietude do lugar. Eram dois homens das ROME retornando. Tadeu abriu os olhos devido ao barulho e sentiu que estava fortemente amarrado por uma corda de nylon, sentado na cadeira. Olhou ao redor e reconheceu a sala - "casa da Elisa!". Tentou desvencilhar-se das amarras, sem sucesso. A dor intensa na cabeça fez com que ele desistisse de qualquer tentativa de escape. A última visão, antes de cair no sono novamante, foi a presença de dois membros da ROME iluminando o seu rosto e uma voz grave: - vamos levá-lo para aquela igreja abandonada onde ninguém irá procurá-lo. E outra voz, soltou uma gargalhada exagerada: - ah! ah! ah! Boa idéia! Depois que os fugitivos do presídio mataram e deceparam a cabeça do padre, ninguém mais foi lá! O povão diz que há vozes de lamento, de gritaria e chicotadas atormentando as pessoas que veem o interior da igreja. O engraçado é que a gente nunca viu e ouviu essas coisas estranhas. E você, particularmente? O outro da voz grave respondeu categoricamente: - o povo é cagão, se impressiona por coisica de nada! Só porque a igreja é do século 19! O "troxa" do seo Jorge ainda está tentando recuperar. Para quê se nem turistas querem visitar! Me poupem! E depois, vamos explodir esse 4x4 do rapaz lá nas imediações, muitas pessoas vão pensar que foram as assombrações! Ah! Ah!...
No hotel, a cidade de Evilate já estava tomada por sons de buzinas de carros. Lina acordou e logo apalpou o lado da cama. Tadeu não havia chegado e rapidamente, acionou o celular e ouviu o "ring" sobre a mesa. Ele não tinha levado o seu aparelho. Ligou para celular do seo Jorge: - vamos dar tempo ao tempo, Lina. Ele pode aparecer por aí a qualquer momento. Ele sempre foi um andarilho solitário. A Katinha? Ela está dormindo, com certeza! Você pode telefonar para dona Odete, ela está lá na mansão se preparando para ir à uma reunião na outra cidade. Você está sem carro? Então faça o seguinte, vá até o estacionamento Parking Evilate e fale com Geodésio, aviso a ele agora mesmo. É meu carro, um "Agile" cinza.
Após uma hora, Lina chegou à mansão da fazenda de seo Jorge. O vigia a reconheceu e permitiu a entrada e a empregada, de imediato, ofereceu café da manhã: - não, obrigada, tomo café depois; já que a dona Odete viajou, queria falar com Katinha, ela está?
No quarto, Lina pegou a Katinha envolto com suas lições de férias diante do computador: - Katinha, cadê o Tadeu? Você se encontrou com ele? E a Elisa, está bem? Ela já voltou para casa?
Katinha, soltou um sorriso angelical fechando o site: - bom dia, Lina. Elisa está bem, mas está de cama na clínica do doutor Cristo, mas não me encontrei com Tadeu. Eu, doutor e a doutora removemos Elisa rapidamente da casa pro hospital. Tadeu foi pro sítio da Elisa?
Lina retorceu os lábios, balançou a cabeça e respondeu: - foi e ainda não voltou.
Com o carro, Lina e Katinha sairam à procura do paradeiro de Tadeu. Passaram primeiro no sítio dos Riverios e ninguém soube informar, pois o anão Valter e os seus principais líderes estavam ausentes devido ao trabalho na mina e captação de folhas de eucalipto. A seguir, direcionaram-se para o sítio de Elisa e encontraram a polícia investigando o caso. Havia um carro com emblema da PM, um particular e uma ambulância. Estava no comando, o delegado Vanderson, o polivalente Praxedes que apesar de ser escrivão, conferia minuciosamente os locais com sinais suspeitos e mandava o auxiliar Piter, um jovem de vinte e três anos fotografar.
Lina cumprimentou o delegado, que retribuiu com expressão acabrunhada: - bom dia. Você é a noiva de Tadeu?
- Sim, ele esteve aqui? Ele não voltou e então resolvi procurá-lo.
O delegado roçou a sua barba mal feita e disse: - soubemos através do doutor Cristo que Elisa está internada na clínica, mas o Cristo e Elisa não foram encontrados lá.
Lina se direcionou para Katinha: - e aí, Katinha?
A garota de doze anos apertou o ursinho de pelúcia e respondeu com ar de incerteza: - Elisa pode ter tido algum problema grave e transferida para um hospital mais equipado...
Vanderson interrompeu e cortou as palavras da menina: - E temos outro porém, senhorita...
- Lina! Que porém?
- Praxedes encontrou um pequeno gravador. Você quer ouvir?
Lina ouviu a gravação com a voz de Tadeu: - escondi o corpo perto dos eucaliptos. Só não me lembro do lugar, estava escuro demais. Era perto de um rio.
- Fale seu nome!
-Tadeu! Filho do Jorge!
Lina ficou espantada e chocada ao reconhecer a voz do namorado e mais ainda, afirmando o crime.
O delegado desligou o aparelho. Lina, nervosamente, com lágrimas nos olhos soltou palavras de defesa:-
- delegado, Tadeu não faria uma coisa dessas! Ele tem excelente índole! Ele não é um assassino!
Katinha, ao lado, começou com a crise de choro:- meu irmão é honesto e trabalhador!
Delegado colocou as duas mãos para trás e caminhou de um lado a outro: - calma, Lina. O corpo de Elisa não foi encontrado ainda. Estamos procurando doutor Cristo também. Nós checaremos todos os hospitais. No momento, não temos prova de nada, mas temos que deter o senhor Tadeu como suspeito por causa desta gravação. Ele sumiu. O carro dele não está aqui. Se ele for inocente e possuidor de excelente índole, não há o que se preocupar.
Lina acalmou-se e pensativa, disse: - e se ele foi forçado a dizer mediante a tortura?
O delegado traçou um sorriso irônico balançando a cabeça para os lados: - um inocente suportaria uma tortura. Um homem de verdade quando mata, se entrega e quando se envergonha de um ato errado, pede desculpas.
Lina olhou para o delegado como se o analisasse psicologicamente e disse em tom de desafio: - qualquer homem não suportaria torturas, principalmente aquele que ama a vida. Se nunca mentiu, ele mentirá para se salvar mesmo que seja por alguns minutos a mais. O limite da dor é que decide.
Vanderson fitou nos olhos de Lina com olhar de menosprezo: - você não é homem para falar sobre a dor do homem. Você fala pelo lado da mulher que é mais vulnerável.
Lina se deteve e por fim falou: - o senhor fala da tortura como se fosse um machucado. Para mim, uma ameaça de mão levantada já seria uma agressão, o meu coração se aceleraria e os meus nervos explodiriam. E fique sabendo, senhor Vanderson, a mulher não consegue bater num homem, a única forma de superar a força física é soltar palavras ferinas que valem mais do que um murro bem dado!
O delegado Vanderson ri: - aí que está! A mulher também é uma torturadora! As palavras ferinas podem arruinar o sentimento de qualquer homem. Então, estamos quites. Por isso que a mulher apanha!
Lina põe a mão na cintura e fala com os dentes cerrados: - neste caso, é uma discussão entre um homem e uma mulher, são discussões pessoais. No caso de Tadeu, é uma confissão forçada.
No auge da discussão, Praxedes interrompe a conversa e aproxima-se do delegado com dois objetos num saco plástico: - Vanderson, olha que encontrei: uma lanterna e um boné.
Lina logo reconheceu a lanterna: - é do Tadeu! Pode me dar?
O delegado:- Não! Temos que analisar este objeto no laboratório. E este boné tem o nome gravado de Valter. É o anão! Ele será intimado a depor. Hoje mesmo iremos trazer um trator para procurar o corpo perto dos eucaliptos.
E o delegado voltou-se para Lina: - Lina, chega de filosofar né?
Lina calou-se, olhou para Katinha que apertava o seu urso de pelúcia contra o peito e disse: - Katinha, desculpe-me por trazer você para cá. Você não merecia ouvir essas discussões violentas. Foi um pecado.
Katinha olhou e sorriu e disse naturalmente: - Não se preocupe com isso, Lina. Pecado para mim é algo invisível, que não se vê, é apenas uma abertura de um caminho para o assédio espiritual. O pecado é uma forma de fraqueza da pessoa que acredita. Nada mais do que isso.
Lina abraçou-a forte: - então, vamos embora. Tadeu vai aparecer por aqui inocente da vida.
FIM continua
Akio Kimura - 23/07/2011
UM DIA DAQUELES
Tadeu tinha um longo caminho a percorrer até o centro da cidade, certo que, Evilate era uma pequena cidade do interior, mas a pé, do local do acidente até o centro eram quilômetros consideráveis. E devido à explosão da instituição ADF/ACD, havia movimentação de tráfego intensa que chegava enfileirar por alguns quilômetros, fluxo insatisfatório. O incrível era a quantidade de equipes de TV e de jornais, vindo de cidades vizinhas. Eram inúmeras e por isso, os buzinaços alcançavam decibéis altíssimos, principalmente quando o trânsito estagnava. No ar, pairava a fumaça expelida dos escapamentos dos automóveis fazendo um coro de intermináveis tosses dentro dos veículos.
De repente, à sua frente, faróis de um carro fazia pisca-pisca acompanhado do som de uma buzina, por acaso, muito familiar. Era o seu 4x4 russo. Tadeu apressou os passos e foi ao encontro: - Lina! Você é louca? Você está indo para o local do acidente?
Lina, com misto de tristeza e acabrunhamento respondeu: - queria ir até o local, Tadeu.
Tadeu entrou no carro, se acomodou:- Lina, não há condições de prosseguir! Se formos, chegaremos ao entardecer, é melhor voltarmos.
Lina olhou fixamente nos olhos e respondeu com impaciência na voz: - ué! Você se esqueceu que eu tinha compromisso amanhã com a instituição? Queria oferecer ajuda ao pessoal. Sou voluntária!
Tadeu respirou fundo com cara de lamento: - pois é, Lina, você esqueceu, eu falei para você pelo celular. Não há sobreviventes. Sinto muito!
Lina ficou consternada derramando lágrimas no rosto, deu um tempo: - Tadeu, o que está acontecendo nesta cidade? Parece ato de terrorismo! Eram pessoas inocentes que se preocupavam com o próximo! E de repente somem sem mais nem menos? E não me diga que Deus quis assim!
Tadeu tenta confortá-la: - Lina, acalme-se. Você deve saber que acidentes acontecem. O destino nos encaminha para a morte repentinamente sem aviso prévio. Mas se a explosão foi intencional, há paranóicos nesta cidade e é preciso investigar nos mínimos detalhes! Já conversei com o delegado, Lina, ele suspeita que foram os botijões de gás que explodiram, mas encontrei um material plástico que parecia restos de dinamite. Tinha cheiro de pólvora. A perícia estava procurando mais pedaços do material, quando encontraram um canivete dentro da cozinha. Quem seria o dono do canivete?
Lina fez o contorno para caminho de volta sem se importar com as palavras do namorado, mas se importou com os protestos dos motoristas, principalmente da buzina estridente de um BMW e uma voz rústica do motorista: - é isso mesmo que você tem que fazer, voltar pra casa e dirigir um fogão, dona Maria!
- Lina: - vai tomá no cu, seu filho da puta!
Tadeu fica surpreso com a reação de Lina. Realmente, era outra Lina, mas ao mesmo tempo, reconhece o carro do prefeito: - É o J. J.!
Lina - Ele está indo pra p. q. p.!
Lina vê o BMW próximo ao seu carro e por descortesia faz um "O" juntando o seu polegar com o indicador: - ó prá você!
Tadeu: - Lina! Pô! Para com isso!
O carro blindado passa rente à Lina sem dar importância. O motorista levanta o vidro escuro fechando a janela.
Lina - F. d. p.!
Tadeu: - Lina! Por favor! Eu quero marcar audiência com o prefeito!
Lina se acalma e dá continuidade à conversa: - Tadeu, como você sabe que é o prefeito? E para que audiência? Você quer salvar a cidade, quer ser um heroi? Vai querer resolver na porrada?
Tadeu ri e responde: - Lina! Calma! Só por que o motorista disse aquilo, você se alterou? Não estou te reconhecendo! E por acaso tenho pinta de heroi?
Lina também sorri: - tem! Você é forte, sabe artes marciais e capoeira. Sabe atirar. Sabe fotografar. E não tem medo! E eu estou morrendo de medo de você ser morto! Você sabe do que eles são capazes! Eles fazem você virar pó! Lembra-se? Ensacam a pessoa junto com elemento químico e pronto!
- Lembro-me e como! Mas a minha intenção não é fazer terrorismo. A minha proposta é denunciar as autoridades que estão fazendo o que querem sem consultar o povo. Quero no mínimo, evitar abuso de poder.
Lina, calada, ouve a voz de Tadeu até chegar na estrada e diz: - Cacete! Como voce vai encontrar provas concretas? Polícia que é polícia não consegue, pô!
Tadeu percebe o cansaço e estresse no rosto dela: - quer que eu dirija?
Lina respira fundo e se entrega: - está bem, você dirige. Desculpe a minha grosseria.
- Já passei por isso também. Saí até do carro com peito inflado para enfrentar o dito cujo, mas quando ele apontou um "três oitão" murchei igual a uma bexiga quando solta o ar. Hoje estou calminho, calminho!
Lina sorri: - só um "três oitão" para te dar educação no trânsito - dá uma pausa e volta a falar - não acha que ele vai tirar proveito deste acidente para se promover?
Tadeu - Pelo que falam dele, é bem populista. Os acidentes deste porte podem gerar crises.
Lina, pensativa, resolve falar: - aposto que vai inventar um monte de baboseiras. Mesmo que não tenha sido proposital, qualquer idiota perceberia que aqueles botijões velhos estavam próximos do perigo. É não deixa de ser descaso das autoridades.
Subitamente, o 4x4 derrapa no asfalto e sai da pista parando no acostamento. Lina, assustada, encostou a cabeça no painel com início de choro: - hoje é o dia!
Tadeu: - Você está bem?
- Estou. Acho que tinha óleo derramado na pista. Podem ser o pneus também.
Tadeu desce do carro, verfica os pneus e constata que estão em bom estado e a seguir, vai até o local da derrapagem e vê óleo esparramado em quantidade exorbitante. Ele volta para o carro e pega o cobertor velho enquanto, Lina, curiosamente pergunta: - o que você pretende fazer?
- Vou enxugar o óleo do asfalto, assim, evitarei que mais acidentes ocorram. Fique vigiando. Se vir qualquer veículo, me avise. O óleo foi jogado propositadamente. Tinha uma lata vazia de óleo lá.
Lina - F. d. p.! Depois de limpar o asfalto, jogue fora o cobertor. Eu é que não vou lavá-lo!
Tadeu gargalha e segue em direção ao óleo derramado.
Enquanto Tadeu limpava o asfalto, Lina vem em seu encalço com voz abarrotada e ofegante: - Tadeu, aqueles motoqueiros, os de uniforme preto! Vamos embora!
- Não dá tempo!
Eram cerca de cinco homens montados nas motos que variavam de Hayabasa, Bandit, Tenerèe, Ducati e até Comet. Eles cercam o casal em círculo. Lina abraça-se ao Tadeu com todas as forças de seu desespero, e ele, por sua vez, tentava aparentar calma: - oi pessoal, estava limpando o asfalto. Dei uma derrapada aqui da hora! Podem tirar o capacete? Talvez conheça algum de vocês. Nasci e me criei aqui e o meu nome é Tadeu. Você não me conhecem? É a terceira vez que vocês me abordam!
A resposta dos motoqueiros não eram em palavras, mas sim, aceleravam sem sair do lugar preso pela embreagem e soltavam barulhos ensurdecedores como se estivessem ralhando com o casal. Parecia até uma ameaça do tipo: - não se intrometam! Caiam fora antes que seja tarde! E depois, desmancharam o círculo e postaram-se em fila. O primeiro tinha o número 5, provavelmente, o chefe. Aceleraram por quase trinta segundos e deram a partida empinando e roncando os motores.
Tadeu e Lina viram os motociclistas sumirem a toda a velocidade até sumirem ao longo da estrada.
- Lina, é uma ameaça. Eles querem a gente fora daqui! Eu sentí isso! Ninguém tirou o capacete! Falta de educação!
Lina, paralisada, com as duas mãos tremulando:-Talvez seja imaginação nossa, talvez seja coincidência.
Tadeu, pensativo, respondeu: - não, Lina! Talvez estejamos imaginando a coincidência, mas não devemos de maneira nenhuma, descartar a realidade do momento. Também não devemos fugir, afinal de contas, sou daqui! Evilate, amo-te Evilate!
Lina - Que tal o perdoarmos? Não! Mudei de idéia! Fica como está! Tudo que se perdoa, sobra sacrifício para alguém. E este alguém é o povo de Evilate!
- Vamos para o hotel, Lina. Depois do banho, pensaremos melhor!
Lina - Ufa! Que dia!
FIM continua
Akio Kimura-09/07/2011
A MORTE É COMO UMA LÂMPADA QUE SE QUEIMA
Tadeu caminhou despreocupadamente pela avenida principal de Evilate com as mãos nos bolsos. Nem as buzinas estridentes das motocicletas o incomodavam, tampouco fumaças de óleo diesel expelidas pelos caminhões. Os seus pensamentos estavam longe, tão longe quanto aos amigos que aqui deixara, há dez anos, anos pra caramba. Saudades. E logo, lembrou-se de Tico, um garoto sarará, cujo pai era proprietário de um boteco. Alongou os seus passos pensando dirigindo-se em direção a famosa escadaria, que mais mudava de nome do que qualquer 171: Escadaria do Tubarão, do Beco, Santo Antonio e vários outros nomes até chegar ao atual - Escadaria do Doutor João Jônatas, o prefeito da cidade.
A praça era semelhante à da Dom Orione, no Bixiga, em São Paulo. Para Tadeu, a escadaria era especial. Há muitos anos, fora o seu local preferido para encontros com a primeira e única namorada: Elisa. E era por isso, analisava Tadeu, que sofrera um nó na memória naquele dia de Domingo quando fotografava, fazendo-o confundir as duas praças. Desceu os degraus um por um e relembrou aquele momento em que vira a figura de Elisa. Lamentava muito que ela, hoje, estivesse no ápice do sofrimento: prótese nas pernas, plástica facial, dores corporais e feridas que ela provavelmente escondia. No fundo, sentia-se culpado pela separação, mas os seus estudos eram prioritários na época. Poderia sim, tê-la levado à São Paulo e morarem juntos, mas devido às circunstâncias, não fora possível. Tadeu afastou-se com expressão de lamento e evitou que a emoção tomasse conta e fez com que os seus pensamentos voltassem para os amigos: André, Edgar, Tico - Tico! Lembrou-se que estava a meio caminho do Bar do Tico, companheiro de time, amigo dos tempos idos, centroavante do time que marcava muitos gols e que ninguém da cidade entendera porque não se tornara profissional.
Tico ofereceu cerveja e petiscos de presunto e gorgonzola cortados em pequenos pedaços. Era horário ideal, estava sem freguesia no momento. Relembraram a infância, iguais das outras crianças: brincadeira de pega-pega, esconde-esconde, bolinha de gude e pião, sem falar em empinar pipas nas férias escolares. No fervor da conversa, de súbito, a surpresa, Praxedes estava à porta do bar e Tadeu, antecipou-se: - ué! Você me seguiu, Praxedes?
- Não - respondeu o escrivão da polícia - vim te encontrar de própósito, Tadeu.
- Ja nos encontramos agora há pouco, Praxedes. Será que temos assuntos a conversar?
Tico estranhou a maneira brusca dos dois, pois eram amigos de verdade até aos dezoito e agora, pareciam se odiar:- ei, vocês dois, pra que palavras tão ásperas? Vocês brigaram?
Praxedes deu um sorriso e com olhar defensivo, respondeu:- não, Tico - e desviou o olhar para Tadeu - você está em outra e eu aqui, como sempre eu desejei: trabalhar na polícia. Só não queria que a nossa amizade se abalasse por ideais contrários.
Tadeu sorriu e convidou à mesa: - então junte-se a nós para conversar, Praxedes.
Praxedes:- estou a serviço. Apenas queria dizer que a nossa amizade pessoal continuasse independentemente de tudo que possa ocorrer. Estou funcionário e recebo ordens e eu sei o que você está pensando a meu respeito. Estou um vilão para você, mas em certas situações, dependemos das circunstâncias que nos envolvem. Um dia, você poderá estar na mesma situação que a minha, em qualquer trabalho que seja. No mundo de hoje, ninguém é cem por cento. Ninguém é dono da razão, ao contrário, temos que ser apenas o dono da nossa sobrevivência. Um dia, você pode se tornar um vilão sem se notar.
Tadeu sorriu ironicamente: - Praxedes, eu te entendo. Já tive brigas por causa de circunstâncias estranhas. Mas é preciso lutar antes do envolvimento. Não creio que eu entre numa situação de risco. A amizade continua, se é que existe "amizade inimiga", "fogo amigo" ou "melhor do inimigos", tudo bem. Se me sentir bem com a sua morte ou vice-versa, a amizade continua e seria ótimo comparecermos no enterro um do outro. A hipocrisia às vezes faz bem, o mais difícil é enganar a nossa consciência. Estarei atento, não me deixarei enganar e evitarei que qualquer tipo de poder mude a minha pessoa. Mas ainda sinto amizade por você, Praxedes. Eu sinto isso!
Praxedes assentiu com a cabeça, sorriu e apertou as mãos de Tadeu: - obrigado, que seja assim, sinto o mesmo, senão, não te procuraria. Então, Tadeu, seja o que Deus quiser!
Tadeu levantou-se e deu um abraço forte: - não é o meu costume, mas por exceção, vamos deixar a nossa amizade nas mãos Dele!
Praxedes caminhou até a porta do bar, parou e virou-se para os dois:- então, estamos em boas mãos.
Após alguns minutos, um forte estrondo sacudiu a cidade. Os petiscos, garrafa de cerveja e copos espatiram-se. Tadeu e Tico se seguraram na mesa fixa ao chão e se assustaram com a quantidade de garrrafas de bebidas que cairam da estante.
- Tadeu, o que é isso? O chão tremeu!
Tadeu logo se pôs de pé e saiu do bar: - não há vulcão e nem terremoto por aqui!
Tico acompanhou-o e quando chegaram à rua, presenciaram muitas pessoas gritando, correndo e já tinha até carros saindo em debandada. Era a rapidez do pânico.
Tadeu levantou a cabeça e avistou um fogaréu de fumaça preta desenhando o céu no morro. Havia muitas árvores caídas e dezenas em chamas. O mais grave era o casarão, metade havia desaparecido e outra metade em chamas. Nas ruas, havia pessoas chorando, sirenes da polícia tocando, bombeiros e ambulâncias se preparando para o socorro. Tadeu avistou Praxedes no carro e imediatamente, pediu carona:- Praxedes, você está indo pro Morro?
Praxedes, faz gesto com a cabeça e responde: - entra!
Tadeu e Praxedes chegaram primeiro ao local do sinistro e se separaram. O casarão estava quase todo destruído. O seu primeiro ato foi procurar sobreviventes. Embora, Tadeu aparentasse calma, o seu rosto denotava desespero. Nunca vira algo assim em sua vida diante de seus olhos e parou para se lembrar de um diálogo de um personagem de teatro que havia assistido: - "Gases fatais! Explosões apocalípticas! Caos! Era como se fosse uma diarréia urbana ocasionada pelos intestinos podres dos satãs, tão somente por terem bebido vinho sagrado dos deuses corruptos". Era isso literalmente. Ou pragmaticamente?
Tadeu percorreu para todos os lados e viu corpos carbonizados sem mínima chance de identificá-los. E o pensamento tilintava: - seria o corpo da Neide Neusa? Ou daquele vigia? E os corpos daquelas crianças especiais? Somente DNA para saber - e não sabia o que fazer diante do horror do momento. Estava vulnerável em todos os pontos. Aos poucos, as sirenes, pisca-pisca de luzes, barulhos de carros e vozes de comando tomavam conta do lugar. Os repórteres do jornal da cidade fotografavam a tragédia em primeira mão.
O delegado Vanderson comandava a todos com a sua voz potente. Tadeu não tinha nada a fazer, os bombeiros se encarregavam de executar o serviço e aos poucos, aproximou-se do delegado: - Vanderson, é o horror em sua mais extrema tradução.
Vanderson apenas olhou as chamas consumindo os resíduos e bombeiros tentando reduzir o fogo e virou-se para Tadeu: - o horror é o cheiro de carne queimada, carne humana, Tadeu. Nunca vi um acidente como este em Evilate!
Tadeu para o delegado: - creio que o senhor tenha que averiguar se foi realmente acidente!
Vanderson se surpreendeu com as palavras e respondeu irado: - o que? Você acha que foi intencional? Quem seria o doido? Não há doidos em Evilate!
Tadeu: - nunca se sabe, delegado. Há mais doidos no mundo do que se possa imaginar. Os doidos mal sabem que estão doidos!
- O que você quer dizer com isso? Está suspeitando de alguém?
Tadeu respondeu roçando a sua mão esquerda no queixo:- não, mas nos dias de hoje, tudo é válido. Os quatro botijões de gás não fariam estragos tão intensos, Vander.
- Será que não?
O delegado avista Praxedes e grita: - quero que você observe melhor o terreno. Procure indícios, pegadas, armas ou coisas parecidas. Vamos averiguar se foi uma obra intencional. E depois procure interrogar os vândalos que estão presos, ele devem saber de alguma coisa.
Tadeu despediu-se do delegado e se retirou caminhando nas imediações, olhando para o chão a fim de encontrar algo que pudesse desvendar este estranho acidente.
Encontrou um canivete suiço e um pedaço de tubo plástico chamuscado com forte cheiro de pólvora e chamou a perícia. Tadeu pensou na possibilidade de ser uma parte do dinamite. Os peritos recolheram o material para análise de laboratório e segundo a previsão, o resultado sairia em três dias. Era um tempo longo e desanimou. Tadeu não tinha mais vontade de prosseguir, o cenário era horripilante e deu-se por encerrado a sua colaboração. Nada mais havia de se fazer e atendeu o celular que tocava seguidamente. Era a Lina, assustada com a explosão:- Lina, estou aqui no local e já estou indo embora. Este trabalho é somente para autoridades. Sim, Lina, estivemos aqui hoje pela manhã. Todos morreram, infelizmente. Escapamos por pouco! - Tadeu sentiu o choro de Lina. Preocupado, não esperou a carona de Praxedes e foi-se embora a pé, devagar. No caminho, agachou-se para pegar um caderno queimado e chamuscado, com escrita infantil - "o azar, às vezes é a própria condução para a sorte e a ".
Tadeu não tinha entendido o significado. Faltava terminar a frase. Quem teria escrito se na ACD havia somente crianças especiais? Seria algum idoso?
De qualquer maneira, se fosse alguém especial fora de série, nada mais importava, todos estavam dizimados. A vida para Tadeu, era a mesma que uma lâmpada que se acende e que se apaga.
FIM continua
Akio Kimura - 14/06/2011
A DOR É FRACA, O MEDO É FORTE
Tadeu e Lina passaram à noite na mansão por insistência do pai. No fundo, Lina desejava voltar ao hotel e contatar com a diretora da ADF/ACD, pois recebera um e-mail da Elisa confirmando a agenda, sem hora marcada para o encontro. Seo Jorge os havia convidado para conhecer o canavial, a usina, o galpão, a garagem de ônibus e o escritório, mas gentilmente recusado com promessa de voltar à fazenda nos próximos dias. Seo Jorge deixou-os à vontade no café da manhã. Enquanto fazia o seu desjejum, Tadeu, não conseguia guardar a ansiedade e estava disposto a encontrar-se com o delegado Vanderson, grande amigo de seu pai no passado e que muitas vezes, quando era pequenino, o pegara no colo. Tadeu custava a acreditar que o delegado estivesse envolvido em falcatruas, assim como Praxedes, o escrivão da polícia, seu amigo de infância, um grande caráter e agora, suspeito de pertencer ao bando. Tadeu precisava conversar, tirar as suas próprias conclusões, pois os boatos poderiam ser falsos. E torcia por isso.
Lina sentiu ausência da Katinha, mas logo ela surgiu com saci de pelúcia nos braços: - oi Katinha, nós estamos indo embora, mas voltaremos depois.
Katinha fez cara de tristeza, baixou a cabeça. Tadeu notou que ela pouco falava, era totalmente o oposto que o seo Jorge havia informado sobre ela. Lina, disfarçadamente perguntou: - Katinha, está com sono? Volta pra cama, não precisa ficar preocupada conosco, tá?
Tadeu deu uma golada no café e abraçou-a: - o sono deixa a gente indisposto, né irmãzinha? É melhor descansar. E sonhe bastante, tá? Quero que você conte os seus sonhos. Os sonhos não envelhecem.
De súbito Katinha arregalou os olhos: - Tadeu, o sonho envelhece sim. Sabe como? De acordo com a idade que temos. Se morrermos antes, o sonho morre também junto conosco e isto quer dizer que se o sonho morrer antes e não morrermos, teremos a oportunidade de criar um novo sonho, mais perto do real..
Tadeu sorriu e deu lugar à companheira para abraçá-la: - quem que te disse isso?
- Li na Internet. E vocês? Vão voltar?
Tadeu passa as mão na cabeça, sorri, mas quem responde é a Lina: - vamos sim, Katinha. Agora, volte para cama, tá? E avise a sua mãe que voltaremos.
Katinha sorriu enquanto os dois se retiravam quando a empregada surgiu e perguntou:- vocês não vão comer o meu "cup cake" que fiz para vocês? Para que tanta pressa se vocês estão de férias?
Os dois se entreolharam e voltaram à mesa. Katinha, como num passe de mágica, juntou-se a eles. E a seguir, veio a dona Odete para compartilhar à mesa.
Antes de levá-la de carro para ADF/ACD no Morro, à meio caminho, contornaram uma rotatória que dá para uma estradinha de terra onde se lia uma placa: Casarão Antigo. O local era onde Tadeu costumava nadar com os amiguinhos e principalmente, brincar de arremessar pedrinhas rentes à água sem afundar a pedra no primeiro toque. Lina ouve atenciosamente a história do passado de seu companheiro: - Praxedes era o campeão, Lina. Ele afundava a pedra com quatro toques.
Pararam o carro perto de uma paineira gigante e logo atrás, um portal com a placa CASARÃO ANTIGO, com dois vigias. No estacionamento, um ônibus de excursão, provavelmente de estudantes do Fundamental. Era uma casa antiga construída por coronéis na época da escravidão, mantida por seu pai, seo Jorge: - meu pai sempre primou pela preservação da cultura. A área é enorme. Há até uma pequena floresta, e la em cima, uma espécie de zoológico. Quando ele recebeu estas terras de herança, ele seguiu os conselhos do pai para preservar esta área.
Entraram e se encontraram com o grupo de crianças em férias e alguns adultos com máquinas fotográficas. Tadeu reconheceu a monitora, uma antiga amiga de infância, Juliana. Trocaram cumprimentos com beijos no rosto, conversaram rapidamente. Lina entendeu que a professora estava apressada porque tinha que estar atenta aos movimentos do grupo, pois eram cerca de quinze crianças de diferentes cidades. Não podia perdê-las de vista.
Entraram. No quintal amplo, antes de do casarão, debaixo de um pequeno abrigo, coberto por telhados da época, um enorme tronco de madeira de lei, embutido verticamente no chão com argolas e correntes penduradas, o local exato onde os escravos sofriam castigos. Lina emocionou-se por ser afro-descendente e deixou escorrer lágrimas: - Tadeu, é descendente de coronel?
Tadeu, quase sem jeito, respondeu francamente: - sim. Lamento por isso.
Lina balançou a cabeça negativamente: - não se lamente, Tadeu. Nós estamos vivendo o presente e o passado, embora tenha sido triste para os negros, hoje, ao menos estamos vivendo, amando e trabalhando juntos. Mas ainda temos que lutar muito, embora a miscigenação tenha aos poucos, disseminando uma pequena parte do problema.
Tadeu abraça-a: - obrigado por ser compreensiva. Fico muito constrangido quando alguém fica sabendo que sou descendente dos coronéis.
E entram no casarão. Na exposição da cozinha, fogão à lenha, panelas de barro e de ferro, cuias, garfos franceses e pratos portugueses. Havia até moringa de argila, um recipiente para armazenar água para beber. Na sala, mesa enorme de madeira maciça e cadeiras rústicas. No quarto, camas também de madeiras pesadas e armários de imbuia. Neste armário, Tadeu mostra à Lina que, na época de sua infãncia, tinha um fundo falso que só ele sabia e era onde se guardava as suas bolinhas de gude e gibís antigos de estimação. Havia ainda, uma bola de futebol e um pião com fieira enrolada. Ao abrir o fundo falso debaixo da gaveta, Tadeu se surpreendeu. Além desses objetos de infância, havia um par de próteses, uma muleta, bengala e suportes de segurança para alpinismo.
Lina, ao ver os objetos, identificou rapidamente: - é da Elisa! Mas por quê ela guarda os apetrechos aqui?
Tadeu pensou e respondeu: - talvez ela já tenha trocado esses equipamentos. Está bem usado.
De repente, Lina pede para Tadeu fechar o armário: - Tadeu, fecha! As crianças estão vindo para este quarto!
Tadeu fecha o armário e saem antes das crianças entrarem. A monitora Juliana os cuprimenta novamente em tom de brincadeira:- óia aqui nóis travéis!
O casal deixa o local e vai para a cabana dos escravos. Não havia quase nada. Apenas um altar em forma de casinha, feito com restos de azulejos portugueses que sobraram de uma construção. Havia uma estátua feita de barro, com rosto irreconhecível, provavelmente, da Santa Bárbara, a Iansã. Tadeu mostrou outro esconderijo, debaixo do altar: - aqui me escondia quando brincava de esconde-esconde. Batia "pique" sempre!
E outra surpresa ao remover o altar: - Lina, veja!
No esconderijo, havia pistolas, fuzis, uniformes cinzas, capacetes de motociclistas, luvas, máscaras e outros objetos. Lina logo matou a xarada: - deve ser daqueles que tranformaram a pessoa em pó! Se lembra?
Tadeu logo discordou: - sim! Mas eles usavam uniformes pretos. Estes, são cinzas. Foram aqueles que me abordaram no bar. Eles foram bacanas!
Lina, sem entender, perguntou: - então há duas facções armadas?
Tadeu: - três! A oficial da PM do estado, ROME da prefeitura e este de uniforme cinza que não sei o nome. Para não fazer confusão, vou apelidar de OS CINZAS.
Lina, expressando temor em seus olhos, diz com voz trêmula: - Tadeu, vamos embora! Este lugar está dando arrepios!
- Vamos sim e agora!
No caminho, Tadeu mostra um caminho da floresta que sobe morro acima. O chão é de terra, mas há pedras centenárias embutidas no chão para facilitar a caminhada: - seguindo aquelas pedras, dá lá onde há viveiros de pássaros.
Lina, preocupada, se manifesta: - nós vamos lá? Depois que eu vi, não desejo ir!
Tadeu tenta convencê-la: - vamos. Lá tem coisa interessante! Sabia que lá tem uma caverna onde os escravos se esconderam quando houve uma rebelião? Tem manuscritos escritos na linguagem Iorubá. Os documentos estão bem preservados dentro de um balcão, protegido por vidros temperados na parte superior. Quando sai daqui para São Paulo a estudo, havia dois faxineiros negros, descendentes, que cuidavam do museu. Vamos lá? Eles trabalham com muito amor. São verdadeiros guardiões.
Lina, desanimada pelo que viu até o momentos, resolve recusar: - Tadeu, deixa para outro dia. Hoje, estou assustada! Estou com medo, você não está?
- Você está com medo porque tem fraqueza na dor. Eu estou apenas assustado no momento.
Lina reprova as falas de Tadeu: - O susto define o medo momentâneamente, mas isso não quer dizer que eu tenha fraqueza na dor. O medo é mais forte e me fere. Tadeu, vamos deixar de filosofar e vamos embora! Tá enchendo o saco!
- Está bem! Temos tempo suficiente, afinal de contas, estamos de férias!
Lina sorri e agradece.
E foram em direção à cidade, mais precisamente, para ADF/ACD, o local que mais interessava à Lina.
FIM continua
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