CIDADÃO ILUSTRE 38

Akio Kimura - 21/01/2012

O LABORATÓRIO

O barulho dos passos ecoava pelo corredor estreito e labiríntico do prédio dando a impressão de um filme de suspense. Mas não era nada disso, o hospital clínico, aos cuidados do doutor Cristo era asseado e via-se constantemente pessoas desinfetando as paredes da enfermaria e da sala de cirurgia. O doutor conduziu Tadeu e Lina até uma porta de vidro temperado, no qual abriu ao expor a sua íris num quadro luminoso.

Lina pensava sobre o assunto CHIPS com expressão preocupada, e num determinado momento não suportou a carga de informações recebidas anteriormente e perguntou num tom quase irônico: - Doutor, o senhor já pensou na possibilidade de superar o nosso Deus? Ou o senhor está brincando de Deus?

O doutor coçou a orelha direita como se estivesse procurando uma resposta imediata e temporária e falou com vagar: - não, Lina. Não estou brincando de Deus. Como vou superar ou brincar se nunca o vi? Por quê fez a pergunta? A minha intenção é melhorar a qualidade de vida das pessoas.

Lina nem se importou com o cutucão de Tadeu em seu braço para alertá-la de perguntas inconvenientes: - desculpe-me doutor, mas na verdade, o que queria mesmo perguntar era sobre o seu CHIPS que é mais fino que um fio de cabelo. Será que este CHIPS poderia substituir a alma de uma pessoa? Depois que presenciei o teste em Tadeu, que foi "encarnado" pelo nosso prefeito J. J., fiquei estupefata! Qualquer pessoa que tiver posse deste CHIPS poderá criar consequências graves no futuro, principalmente se for do mal. E se esta engenhoca for comercializada tal como os "i PADS" e "i FONES", as pessoas estarão sujeitas a perder as suas próprias identidades e se proliferar, tornará o mundo caótico até as últimas consequências.

Doutor ficou calado até entrarem numa espécie de laboratório. Era uma sala ampla e redonda com várias máquinas brancas munidas de microscópios, caixas para guardar pequenos tubos de ensaio, projetor, computador com monitores enormes. Uma operadora estava manipulando um conjunto de tubos de ensaio, uma outra, o computador com figuras ampliadas de neurônios acompanhados de gráficos indecifráveis. A última operava o microscópio acoplado ao PCU com várias placas com manchas a serem analisadas. 

Doutor olhou para o chão e a fitou nos olhos como quisesse devorá-la: - Lina, na minha maneira de pensar, uma pessoa formada não tem que perder a identidade como se fosse um documento qualquer, a não ser que tenha sido vítima de uma ação violenta ou um paranóico com desejo de vingar a sociedade tecnológica. Um homem nunca perderá moral se tiver caráter. E tem mais, Lina, mesmo que não acredite em Deus, jamais brincaria de Deus. O que estamos fazendo é nada mais do que uma obrigação de acompanhar o fluxo normal de conhecimento e novas descobertas. O que aprendemos hoje, não será o que aprenderemos amanhã. As descobertas se defasam num piscar de olhos. Falei o óbvio, mas não deixa de ser uma verdade. È isto que te atormenta, Lina? As pessoas que fizerem mal uso deste CHIPS, serão punidas de acordo com as leis de ética que surgirão contra novos "cybercrimes".

Lina balançou a cabeça e mostrou uma feição de que os argumentos do doutor eram superficiais. Ele não tinha ido a fundo e até concedeu a vez a Tadeu após outro cutucão: - doutor, haveria possibilidade deste CHIPS oferecer uma longa vida? 

Doutor sorriu e respondeu com um sorriso mais aberto:- você quer dizer, a fonte da juventude? Não há lei que proiba do sujeito viver mais do que os outros. Ter juventude nas mãos é que todo mundo deseja, mas por enquanto, não está em nossos planos. A prioridade é ajudar as pessoas e para ajudar é necessário que a nossa política funcione para o povo e não para os próprios políticos como está acontecendo em Evilate. É claro, o CHIPS ajuda na manutenção do corpo e vai emitir um sinal para o cérebro para que você não consuma alimentos incompatíveis com o seu corpo. E ainda, vai te informar o seu estado de saúde de minuto a minuto. Qualquer anormalidade, você ouvirá um sinal eletromagnético de alerta.

Tadeu se conformou com a resposta e entraram em outro compartimento com placa anunciando OFICINA. Era um laboratório completo. Eram muitas caixas de metal acopladas numa das paredes e em cada qual, identificadas em códigos. Lina perguntou o que guardavam nas caixas e prontamente, doutor respondeu com satisfação: - são todos os tipos de minerais em pó, alguns radioativos e ervas medicinais. E não se assustem, estão bem guardados com devidas precauções e sabemos manipular muito bem. E na outra parede, cofres congeladores onde estão armazenadas placas de vidro especial, experimentos secretos do DNA de seres humanos, primatas, animais selvagens, pássaros e até de insetos. Vejam no canto direito, uma sala separada com enorme microscópio conectado a um computador. O físico, doutor Marcus e a doutora Michele operam aquele microscópio plasmônico. Ele é responsável em "implementar sinais óticos em fios minúsculos com uso da luz para produzir alta densidade de elétrons e isto faz com que haja interconexões ultra-rápidas para carregar dados para o CHIPS. Estes componentes plasmônicos dão eficácia surpreendente reforçando os diodos emissores de luz, sensores químicos e biológicos". Um cientista amigo nosso descobriu o Raio azul, uma luz mais poderosa do que Raio Laser que denominamos RA. Conseguimos manipular este raio, que "transporta todas as informações seguindo o caminho dos neurotransmissores e dirigir-se diretamente para a área de filtragem do hipocampo para o córtex. Este RA é muito importante para os próximos anos. Ele ainda tem a função de captar imagens nos centros nervosos e trazer informações de milhares de substâncias que nós não conhecemos no corpo humano. No cérebro humano, há espaço infinito para armazenar memórias novas. Há um universo dentro de nós. Vocês entenderam? Vocês são importantes para nós.

Lina - Mais ou menos. Pelo que o doutor está nos explicando, creio que nem Deus conseguiria esta façanha. E por quê nós somos importantes?

Doutora Silvia entra imediatamente para dar a resposta:- Lina, você viu a encarnação de J. J. , o nosso ilustre cidadão no corpo de Tadeu?

Lina - Vi. É assustador! Até pensei que os senhores fossem pais de santo!

Doutora Silvia - Pais de Santo nunca conseguirão chegar a este ponto! Vocês viram o DONI? Ele é um exemplo. Nós construímos o CHIPS somente para a personalidade dele e depois, incutimos conhecimentos escolares do Fundamental e Médio. O Superior só quando ele completar dezoito anos. Ele é hábil em informática. Ele leu um livro e todas as informações estão guardadas na sua memória.

Tadeu - Doutora, ele praticamente nasceu novamente e sabendo das coisas. Será que não terá consequências futuramente?

Doutor Cristo se manifesta:- não sabemos. Temos que arriscar e viver para crer.

Lina, de repente bate o olho em dezenas de recipientes de vidro no qual estão vários insetos vivos:- e aqueles?

Doutor Cristo dirige-se até o local e explica: - por incrível que pareça, este é o mais perigoso se cair nas mãos dos maus. Estes insetos como pernilongo, besouro, moscas, possuem um CHIPS teleguiado e trazem informações completas do indivíduo picado. E notem, invadimos a privacidade somente dos maus. E depois, quando precisarmos, solicitamos à  justiça, uma permissão de mandado através da PF. O seu pai tinha este privilégio. Agora que ele morreu, temos que estudar uma alternativa. 

De repente, Tadeu responde:- Sim, invasão de privacidade é uma coisa séria, mesmo que o sujeito seja do mal e quanto aos insetos, doutor, só pode ser brincadeira! Um pernillongo? Quanto tempo eles podem sobreviver neste ambiente?

Doutor:- Seis meses e depois substituo por outro. E se alguém tentar matá-lo a tapas, esqueçam! Nós temos o controle remoto e jogamos como se fosse um game. Para que o pior não aconteça, o mantemos beirando o teto. E antes que me perguntem, é imune a inseticida. É assim que formamos o CHIPS do J. J., que aliás,  já está incutido no corpo de Tadeu. Está bem atualizado.

Lina - Ufa! Parece conversa de pescador! E os "hackers"? Se eles roubarem e venderem para o J.J. ou para qualquer outro candidato a vilão?

Doutora Silvia:-  temos o nosso antivírus. E dos bons! O J. J. e Vanderson sempre estão tentando entrar com três "hackeres" trabalhando dia e noite.

Doutor - Então, Tadeu e Lina, querem entrar nesta aventura?

Lina, pensativa respondeu:- e se não quisermos?

Doutor: - vocês perderão a maior aventura de suas vidas. Vocês voltarão ao trabalho de sempre e morrerão como pessoas comuns com aquela aposentadoria para comprar remédios, vestindo uma bermuda e chinelo. E não termos alternativas se vocês não aceitarem. Você, Tadeu, junto com os seus irmãos Wagner e Katinha são o provedores de tudo isto, vocês são os donos do dinheiro que sustenta este laboratório! São pessoas nos quais confio e se não concordarem, teremos que destruir tudo ou doar para alguma instituição estrangeira confiável.

Tadeu e Lina se afastam e conversam e depois voltam para dar a resposta final. Tadeu: - doutor, nós achamos que estamos neste mundo como predadores da natureza e estamos consumindo a Terra sem sustentabilidade. E vai ser difícil voltar a vida simples depois que conhecemos tudo isto!

Lina arreganha um sorriso mostrando seus dentes branquíssimos:- é maravilhoso, doutor! Eu quero viver esta aventura!

Tadeu: - Uma nova vida, uma nova visão! Colaboraremos até o fim do mundo!

Doutor pula de alegria e parabeniza os dois. Todos se abraçam, fazem uma corrente e cantam "Ciranda, cirandinha".

FIM continua 

 

 

CIDADÃO ILUSTRE 37

O CHAVEIRO MÁGICO

Akio Kimura - 31/12/2011

Tadeu e Lina acompanharam doutor e a doutora até o elevador. Mal entraram, os visitantes estavam defronte a uma porta de metal escrito: ENTRADA SOMENTE COM CREDENCIAMENTO. Tudo era rápido, o casal de doutores não dava trégua um minuto sequer. Eles desceram uma escada em espiral até chegarem num cômodo onde havia uma saída dando num pequeno corredor e dez passos após, uma bifurcação. Tadeu pensou: "deve ser à esquerda", mas viraram para a direita para um corredor estreito até pararem em frente à uma porta de vidro temperado. Bastou um toque da doutora em seu chaveiro que a porta se abriu. Era um corredor sombrio, com chão móvel, recebendo luzes azuis pelo teto. Era na verdade, um banho de luzes, como explicava o doutor, precauções contra bactérias poderosa que por acaso possam estar impregnadas nas roupas, nos cabelos e nos calçados. Logo que sairam do compartimento, outra placa: VESTIÁRIO. Era um quarto com armários e sairam vestidos com macacões brancos, tocas e luvas. O doutor Cristo em explicações rápidas, dizia que o local exigia pureza total devido às cirurgias de alto risco. O casal ficou pasmo quando se viu em frente a equipamentos modernos como uma câmara de tomografia eletroencefálico transparente, braços de robôs, além de computadores e monitores gigantes de alta definição, bem diferentes daquelas que havia visto nos andares superiores: - Estão vendo aqueles braços mecânicos no canto da sala que um cirurgião e seus assistentes estão manipulando? É o robô que injeta drogas em doses exatas no local exato do tumor através dos neurotransmissores. Olhem, há uma pessoa na câmara de tomografia, é o Doni. Estão vendo que há muitos fios colados sobre corpo? São eletrodos para a transmissão de resultados da uma parte cerebral para o monitor. Notaram também os fios conectados nos óculos até o computador? Eles estão ligados aos eletrodos, o que nos possibilita acompanhar a reação do paciente quando ele recebe a dose da droga no local exato. Podem ver que os gráficos estão em constante mutação. São os momentos que estão próximos na captura da região do cérebro afetado. Vejam, ao lado, um médico manipula uma tela do computador através de toques tentando conter  excessos de radiação. A doutora Silvia se antecipa a curiosidade do casal: - O paciente é Doni, um garoto que foi abandonado nas ruas de Evilate. Ele estava em estado deplorável e a ADF, aquela instituição que foi destruída por uma explosão criminosa amparou-o. Como o menino estava em estado de choque, a dona Odete, a diretora, encaminhou-nos para que solucionássemos o problema. Ele tem um tumor que impede o seu desenvolvimento intelectual.

De repente, Tadeu interrompeu: - doutor Cristo, só por curiosidade, qual é a sua função verdadeira? O senhor é médico? É cientista?

Doutor sorriu e respondeu:- sou neurocirurgião, neurocientista e pesquisador.

Lina - pensei que o senhor fosse polivalente, aquele cientista que faz tudo! Faz cirurgias, faz obturações, varre o corredor, faz cafezinho..

Doutor-às vezes faço tudo isto quando há problemas, embora a lei trabalhista proiba estas atividades paralelas.

E riram.  

O doutor parou de rir e sinalizou a sua atenção à doutora Silvia:- prosseguindo...implantamos um CHIPS em Doni e conseguimos normalizar o seu comportamento agressivo. Ontem, aproveitamos para acrescentar o código genético que o doutor conseguiu separar. Este código, uma das menores partículas do genoma, que pode modificar a fisionomia e seu rosto e corpo. Doni já está bem diferente de quando veio.

Tadeu interrompeu com mudança de humor:- vocês não vão me dizer que é uma experiência em ser humano? O senhor enlouqueceu?

O doutor Cristo se surpreendeu com a incompreensão de Tadeu:- calma Tadeu! Doni estará bem. Nós fizemos todos exames possíveis, tudo positivo. É uma experiência que fiz em Zurique com primatas há dez anos. E fiz outra experiência num idoso de 102 anos de idade à beira da morte.

Lina, surpreendida com a informação, perguntou ironicamente:- e como está o idoso? Virou um bebê?

Doutor sorriu forçado mostrando em sua expressão, desprezo pela ironia:- nada disso, Lina! Ele está vivo e está com 112 anos com aparência de 90.

Tadeu ri: - para mim, um idoso de 90 não é diferente de 112. A diferença é pouca e é muito tempo de vida!

Doutor - Infelizmente, o seu corpo não está resisitindo a ação do tempo. Nós temos a solução de reabilitar as células mortas, mas ainda estamos atrasados. A pele emite um cheiro desagradável.

Doutora Silvia: - Igual à da Lisa. Infelizmente, ela morreu. Temos um CHIPS que evita a morte das células, mas ainda é limitado.

Tadeu baixou a cabeça consternado: - fiquei sabendo da morte da Lisa. Vamo prosseguir a conversa.

Lina olhou de soslaio e mudou de assunto: - não ficamos sabendo dessas novidades na mídia.

Doutor Cristo em tom de seriedade, disse apressadamente:- é segredo! Não divulgamos nada, apenas para vocês, que para mim, Tadeu, você herdou tudo isto aqui! Ou para Vagner! Ou para Katinha. O meu medo é que estas descobertas caiam em mãos erradas e usadas para o mal. E este idoso de 112 anos, Tadeu, com aparência de 90, sou eu, Cristopher Shultz!

Tadeu e Lina se entreolharam com sobressalto.

Lina se manifestou: - doutor, o senhor está com aparência de uns 78 anos!

Doutor - Pois é, garotos! Mas a aparência de velho é de velho a partir dos 65. Outra novidade, o verdadeiro corpo de Cristopher Shultz está em Zurique! Este corpo em que estou incorporado é de um americano. Sou alemão de nascimento e naturalizado americano. Roubei este corpo num hospital de Nova Iorque porque fui acusado de desviar segredos e projetos de equipamentos super-modernos. Na verdade, nem precisei roubar. O projeto era meu e sabia tudo de cabeça. Pedí asilo em Zurique com ajuda de um diplomata brasileiro com a ajuda de outro brasileiro que fazia estágio na CIA. Era um importante agente da ABIN, que conhecia o seu pai. Foi realmente cenas de cinema.

Tadeu, novamente em tom irônico - Está provado que o brasileiro não tem jeito! Adora fazer coisas erradas! Explique-me por quê do desentendimento com o Centro de Pesquisas dos EUA?

Doutor - Porque um membro importante do governo americano tinha intenções de aperfeiçoar estes CHIPS para a guerra com motivações comerciais, no qual, eu não concordava. Ele queria patentear em seu nome. E as relações se desgastaram.

Tadeu - Humm! Egoísta! Se FBI ou CIA descobre!....Voltando atrás, doutor, este corpo que agora te pertence, não há perigo do cérebro desta vítima se desenvolver como fosse o seu cérebro? Não haveria mistura de idéias, de comportamento?

Doutor - Só o tempo dirá, arquivei toda a memória deste cidadão, mas há grande risco da memória dele retomar o seu lugar com um simples acidente. Provavelmente, haverá conflito de vontades, de idéias, mas estamos estudando um meio de bloquear ou na medida do possível, que a memória dele não ultrapasse o limite da minha consciência. Estamos num estágio avançado, eu por exemplo, com este chaveiro de controle remoto, posso me transferir para você. É só inserir e colar. Você, Tadeu, se souber manipular este controle remoto, poderá estar em mim.

Tadeu, com expressão de que entendeu não entendendo perguntou com olhos virados para cima: - então este CHIPS que o doutor implantou em mim, por acaso é do senhor?

Doutor Cristo lambe os lábios com certo temor em responder:- ...eu fiz uma cópia do CHIPS e implantei em você. Quando você souber manejar o controle, você será doutor Cristo ou seu pai, seu irmão e recentemente, atualizei e inclui: J. J., Delegado Vanderson e reservei na pasta, mais alguns  espaços em caso de urgência.

Tadeu fica estupefato e Lina pergunta:- para quê? Pode deletar J.J. e Vanderson! E como vou ser tantas pessoas num só corpo, numa só cabeça?

Doutor Silvia- Não se preocupem, isto está longe de acontecer. É necessário conhecer profundamente este controle. É complexo! Tem que ser um genio da informática ou da matemática para se chegar a este ponto. Mas se chegar, terá poderes que nem Deus terá.

Tadeu - Não, não quero ser um Deus, meu Deus! Quero que retire este CHIPS! É uma violação! É contra a lei da humanidade e do mundo científico. 

De repente, doutor Cristo pega o seu chaveiro a aperta um botão e na telinha, surge a imagem de J. J. e dá o START.

Tadeu sofre uma convulsão. Cai no chão e Lina agacha-se para socorrê-lo: - doutor, o que o senhor fez?

Doutor, calmamente, agacha-se também e mostra a telinha do chaveiro: - olhe, Lina, está fazendo um DOWNLOAD, dura apenas um minuto.

Após um minuto, Tadeu se reabilitou e mexeu os olhos para todos os lados: - que lugar é este?

Tadeu se levantou e prosseguiu: - o que o senhor faz aqui, doutor? Onde estou?     

Todos ficam preocupados. Lina se afasta assustada pelo tom diferente de voz. A doutora Silvia apenas observa com olhar atento e o doutor, com controle remoto na mão sussurra nos ouvidos de Lina: - ele, agora é J. J. de ontem. Temos uma demora de 24 horas para atualizar.

Lina observa atentamente e nota que Tadeu está diferente, principalmente no olhar. Tadeu se manifesta:- por quê voces não respondem? Cadê os papéis? Vocês furtaram? Cadê os papéis?

Doutor - Que papéis, J. J.?

Tadeu vira para os lados e se dirige ao doutor:- vocês me sequestraram? Cadê a Ordem Judicial do STJ para reassumir a prefeitura? Tenho que mostrar à imprensa hoje mesmo!

Todos na sala se entreolharam e doutor perguntou:- o senhor vai reassumir a prefeitura?

Tadeu - Sim. Por isso que estou me preparando e me vejo em frente a vocês!

Doutor rapidamente aciona o controle e desliga e restransfere para o verdadeiro Tadeu, que novamente entra em convulsão.

A doutora se agacha primeiro e passa a mão na testa: - está febril, doutor. Mas temos que estudar um meio de evitar esta convulsão. Pode se ferir e alterar a programação.

Doutor - E esta febre é sinal de rejeição. O santo de Tadeu não cruzou com o de J. J. Preciso pesquisar a respeito, Silvia.

Tadeu se levanta com ajuda da doutora e Lina, preocupada perguntou:-Tadeu? Você está bem?

Ele sorriu:-parece que escorreguei. Desculpem-me.

Doutor pegou o chaveiro e acionou um canal de reportagem.

Locutor: - O prefeito J. J. reassume a prefeitura de Evilate por Ordem Judicial.  

Tadeu - O quê? J. J.? Como pode? Ele é um falso juiz! Todos sabem disso!

Doutor - O país inteiro sabe, não são todos, mas ele tem alguns amigos influentes no Planalto.

Lina - Eles estão cegos de poder e não conseguem enxergar a verdadeira justiça.

Doutor interrompeu a conversa e por distração, disse para Tadeu:- J. J.!, você pode ser a própria solução, pois temos o senhor em nossas mãos. Você está sequestrado!

Todos riram, menos Tadeu: - o que vocês estão dizendo? Que piada é esta?

Lina, com tom de gozação - Explicaremos no caminho, Tadeu. 

Doutor- Logo você vai entender a piada.

Todos riram.

FIM continua 

CIDADÃO ILUSTRE 36

Akio Kimura -18/12/2011

PRAZER É MEU, DR. CRISTO!

Um prédio quadradão de três andares, na verdade, de seis. Havia mais três no subsolo. Ninguém diria que era um mini-hospital ou na melhor das hipóteses, uma clínica, bem no centro de Evilate. Para Lina, mais parecia um centro de pesquisa, pois vira através do vidro, algumas pessoas de jaleco numa sala com microscópios e tubos de ensaios. As mesas estavam repletas de recipientes, sabe lá o que tinha lá dentro. Não havia muitos pacientes e deu-se para notar que eram pacientes bem pacientes, provavelmente,"cobaias humanas" isto porque, alguns deles repuxavam a boca repetidamente, outros, se expressavam com olhar parado no ar. Tirando algumas conclusões, mesmo que duvidosas, pelo simples fato de ter ouvido boatos a respeito do doutor Cristo de que ele era fissurado em ressuscitar pessoas em estado terminal, poderia muito bem ser verdade. Em suma, era um hospital das policlínicas com cara pronto-socorro, dentro de um centro de pesquisas comandado por um gênio esquisito e maluco, sem medo de errar.

O casal pegou o elevador e subiu, desceu, percorreu os corredores. Tadeu tirou uma idéia! O lugar parecia o refúgio dos vilões do cinema. Bem cinematográfico. Só faltava um aquário com peixes enormes atrás da mesa do presidente superintendente. Enfim, o que o casal estava bisbilhotando? A ordem era esperar na sala atendimento. Tadeu resmungou:- é tudo igual, Lina. Os super-vilões do cinema conseguiam montar uma NASA perfeita numa ilha deserta ou um enorme laboratório no topo de uma montanha. Como eles conseguiam verbas? Ninguém explica. E os trabalhadores? Eram registrados em carteira? Os vendedores de materiais de construção emitiam Notas Fiscais? Talvez sim, mas e a construtora? Como conseguia aprovar plantas na prefeitura? Propina no setor público? E todos dizem-se honestos, mas não aquele HONEEESTO, mas sim, com algumas ressalvas.

De repente, seus pensamentos voltaram-se para Elisa, morta, segundo as palavras de um motociclista:- "Gostaria muito de ressuscitá-la". De repente, Lina interrompeu: - Tadeu, acho que foi aqui que Elisa se recuperou. Tadeu nem ouviu, mudou de pensamento e foi parar no seu velho pai: - "de onde ele havia  conseguido uma verba tão grande?" Calculando de viés, tinha uma fortuna aplicada. Eram máquinas de tomografia sofisticadíssimas, salas de cirurgia modernas, robotizadas.  Eram muitas salas, cerca de doze, cada qual, com máquinas a sua mercê.

Foi assim, uma atendente de idade, cerca de 38 anos de idade, morena clara de olhos azuis, magra e linda com um jeito estranho de andar veio ao encontro. Tadeu e Lina notaram que ela não tinha concatenação de movimentos, os dois braços iam juntos na mesma direção. As suas pernas pareciam com os passos de um robô melhorado, mas de qualquer maneira, Tadeu achou que ela fora uma das pacientes que tinha voltado à vida depois do estado de coma: - senhor Tadeu, o doutor Cristo chegou. Sigam-me até o escritório.

Tadeu - a senhora é feliz com esta vida?

Senhora - Sou. Estou viva. Detesto morrer!

Percorreram até o fim de um corredor e numa das portas, um nome: CRISTOPHER SHULTZ - a recepcionista fixou os olhos na placa e uma faixa de luz azul atravessou os seus olhos. A porta se abriu. A sala, quase vazia com uma mesa, um telefone vermelho, uma impressora, um microcomputador e uma estante de vídeos de DVD's antigos.  O provável doutor estava sentado olhando a paisagem de fora através de uma janela e a provável doutora Silvia estava sentada à espera e logo levantou-se da cadeira para cumprimentá-los: - senhor Tadeu, como vai? O senhor me reconhece? Tadeu sorriu e respondeu: - a senhora dos comprimidos...confesso que só dormi 57 horas. Era necessário uma super-dose? Perdí os acontecimentos importantes aqui no qual gostaria de ter participado.

Doutora Silvia esticou os lábios e respondeu: - você estava mais morto do que vivo e a sua pressão arterial estava no topo. A qualquer momento, você poderia apagar-se...para sempre. O seu estresse estava no máximo.

Neste mesmo momento, doutor Cristo virou-se para o casal, levantou-se: - muito prazer em conhecer, Tadeu!

Logo ao vê-lo, deu-se a boa impressão e foi em sua direção, esticou a mão direita:- prazer é meu, doutor Cristo!

O doutor estava de jaleco branco mostrando a sua magreza de um senhor de idade, postura erecta, óculos sem aro, transparentes que confundia com a brancura de seu rosto, por sinal, portador de um queixo quadrado, igual dos desenhos de "anime". A sua boca pequena era compensada pela sua voz firma e estridente. Um defeito: falava alto demais.

Doutor caminhou até a janela, parou e colocou as duas mãos para trás, uma segurando a outra e explicou secamente olhando o céu: - conheci o seu pai em Zurique, numa livraria. Ele folheava um livro escrito em alemão e só por isso, fiz amizade. Mentira. Explico: naquela época, eu era amigo de um político brasileiro influente que fazia parte da ABIN. O interesse dele era o CHIPS que criei, da finura de um fio de cabelo com capacidade de 4 Tegabites. Nanotecnologia. Seu pai me contratou lá mesmo na livraria.

Tadeu, curioso, perguntou:- mas para quê? Já acabou a época de espionagem.

O doutor virou-se e respondeu repentinamente com um leve sotaque alemão: - é aí que você se engana, meu rapaz! A espionagem industrial está a todo vapor e é crime, mas neste país, tudo é permitido. É uma guerra de multinacionais. Ao meu ver, tudo isso acabará um dia porque uma vai adquirindo a outra através da fusão. O governo insistiu neste projeto secreto. Também pode ser lavagem de dinheiro.

Tadeu - E que lavagem! Até o meu pai está no rolo! Mas o que há de se fazer, né?

Cristo - Na verdade, Tadeu, ele é vítima! Estava sendo usado. Ele sabia e não resistiu aos encantos da ciência e do projeto. Mas é o menos ruim. E era o mais honesto de todos.

Tadeu ri com ironia - Professor, numa corrupção, não existe menos ruim. Existe é honesto safado! Faz tudo direitinho, mas ele sabe que há algo de errado. É conivência.

Cristo - Se seu pai está na panela, então, estou também! É isto que você quer dizer?

Tadeu - Exato. O senhor sabe de quem vem a verba e o senhor não fala porque atende aos seus interesses, isto, para o bem da ciência. Estou errado?

Cristo aspirou o ar e soltou balançando a cabeça sorrindo meio torto:- e o que o senhor Tadeu acha de tudo isto?

Tadeu - Perigoso. É o desvio de dinheiro para um plano secreto. Melhor seria informar ao povo de tudo. Este plano é bom, mas é a corrupção fazendo o bem em segredo e que ninguém pode saber porque tem interesse numa fatia da verba. Para mim é tudo estranho, tão estranho quanto eu, que lutei com um homem que não conhecia sobre o teto de um ônibus. Houve um momento em que queria matá-lo em favor de uma cidade. E o pior, eu o salvei e depois o matei. Enganamos as autoridades, mentimos tudo em nome da justiça. Agora sou um criminoso e tenho que conviver com isto para o resto da vida. Até a Lina é cúmplice. Ela me ajudou muito! Ela tombou um ônibus e tinha gente lá, inclusive este com que lutei. Acho que morreram instantâneamente! Portanto, ela também é uma criminosa.

Lina se surpreende com o seu nome em pauta apertando a palma da mão em seu peito: - eeeeuuuu? Tadeu, você matou mais uns três. Não se lembra das ferramentas pesadas que você jogou contra os motoqueiros?

Cristo interrompeu: - Lina, não se preocupe. Tudo foi feito pela sobrevivência, pela defesa. Vocês estavam sendo atacados. Vamos para outro assunto -  o CHIPS que implantei em você, Tadeu, vai te deixar sem esses complexos da vida. Você esquecerá que é culpado. O CHIPS levará você para a razão. Vou te entregar um controle remoto em forma de chaveiro e mais uma cópia para você guardar num cofre de um banco.

Tadeu - O que o senhor está dizendo? Implantou um CHIPS em mim? Quem autorizou? O senhor violou a minha pessoa!

Doutora Silvia - Tadeu, você assinou antes de entrar em coma.

Tadeu - O quê? Assinei? Em coma? Eu?

A doutora abriu uma pasta de folha de alumínio e retirou um documento: - veja se a assinatura confere.

Tadeu ficou estupefato. Era a sua assinatura: - não me lembro disto! Sacanagem!

Doutor Cristo interferiu com delicadeza e com voz baixa: - não vai mudar nada, Tadeu. Você continua a mesma pessoa que sempre foi. É só não utilizar o controle remoto. E você não vai perceber nada. O CHIPS é da finura de um fio de cabelo e não vai te incomodar em nada. Muito pelo contrário, você terá uma vida longa com este CHIPS. Ele cuidará da sua saúde. Se você tiver uma doença rara, ele avisará e se você quiser, pegará o controle e fará uma manipulação para que o remédio vá em dose exata e no lugar certo sem causar sequelas. 

Tadeu caminhou de um lado a outro e depois se aproximou de Lina.- o que você acha? Mando retirar o CHIPS? 

Lina- Não, já que não vai te incomodar, deixa o CHIPS aí. Se pedir para retirar, você vai ter que entrar em coma por mais 57 horas.

Tadeu - Não. Em coma de novo não. De repente, se  eu acordar e J. J. conseguiu recuperar o cargo na prefeitura? Lina, vou deixar este CHIPS em mim, quem sabe, possa viver melhor.

O doutor interrompeu e disse: - Este CHIPS trará muitos beneficios para a população também.

Tadeu, cético de tudo: - será? O que por exemplo?

Doutor Cristo levantou a cabeça caminhando de um lado a outro: - a implantação do CHIPS em crianças para o aprendizado. Temos o CHIPS 00001Azteca que é para crianças problemáticas com dificuldade de aprendizado como os portadores de Síndrome de Down. O CHIPS estimulará o sistema nervoso através do neurocondutor que levará a química faltante no cérebro. Isto serve também para outras doenças.   

 Lina - doutor Cristo, depois pode implantar um CHIPS em mim?

Doutor - Sim. Levará 57 horras.

Lina - Deixa prá lá! O senhor tem sotaque alemão.

Doutor gargalhou e de repente para: - desculpem, pessoal... doutora Silvia, explique a eles.

Doutora postou-se erecta, ajeitando os seus óculos, molhando os lábios antes de falar: - este sotaque alemão é uma falha no tom de voz. O doutor ainda não se adaptou ao CHIPS, assim que adquirir prática, falará bem em todas as línguas. Então, a outra intenção real deste CHIPS é procurar o lado ruim da pessoa e deletar. Tudo que é bom, estará gravada desde a infância. O plano é aplicar em presidiários irrecuperáveis, mas o projeto está em estudos. Há muita gente contra. Por aí, você vê, Tadeu, que o nosso projeto está voltado para questão humanitária.

Tadeu sem se conformar, perguntou:- é só para ricos e famosos ou pobres também terão vez?

Doutor Cristo bate palmas olhando para todos: - de início, só para ricos e famosos para captar recursos. O plano de seu pai, seo Jorge, era desvencilhar-se dos políticos o mais rápido possível e depois, com recursos, atenderíamos os menos favorecidos. Por enquanto, temos que atender os parentes dos políticos e que são muitos. São eles que injetam a verba, que não é pouco. Sem eles, não sobreviveríamos. Vem até estrangeiros fazer tratamento de cancer e com eles que nós enriquecemos.

Tadeu - De onde os políticos tiram o dinheiro?

Doutor - um pouco da loteria, um pouco do INSS, um pouco dos Transportes e assim por diante. E vocês, como se sentem?

Tadeu - Com este CHIPS implantado em meu corpo, sinto-me corrupto.

Todos riram.

Doutor - Vamos conhecer o prédio?

Tadeu e Lina concordaram de imediato. Olharam-se de viés e pela expressão, estavam felizes por conhecer algo novo para acrescentar em suas vidas. É claro, não se sabia o resultado e as consequências de tudo isso. O doutor, embora aparente ser uma boa pessoa, poderia ser um vilão, junto com o seu falecido pai.

Tadeu -  Será que este projeto, realmente tem apoio do governo?

Doutor - Legalmente, ninguém sabe. Ilegalmente, temos muito! Sigam-me! Vou mostrar o resto do prédio.

Tadeu e Lina - Vamos!

FIM continua

 

 

 

CIDADÃO ILUSTRE 32

Akio Kimura - 02/11/2011

YOU TUBE FOR YOU, Mr. J. J.

Logo que Tadeu abriu os olhos, viu imagens embaçadas de pessoas, uma delas, afagando o seu rosto. Sabia apenas que estava deitado num local com iluminação parca. Ouviu algumas palavras ao longe sem conseguir decifrá-las. Ele mexia e remexia os olhos para os lados como se quisesse se livrar de um obstáculo em alguma parte do cérebro. Fechou os olhos e ficou um tempo forçando a respiração até o ar  chegar ao abdomen. Repetiu a operação várias vezes e só parou quando sentiu que um dos vasos sanguíneos acabava de liberar o fluxo na região próxima ao coração. Sentiu um alívio imediato como se o verde de um semáforo tivesse aberto para sempre. Os olhos lentamente começaram a captar imagens nítidas. Ouviu uma voz familiar: - Tadeu, como se sente?

Tadeu, com o seu olhar, vasculhou ao redor e reconheceu alguns de seus amigos anões e os cumprimentou. Tentou se levantar quando Lina, ao seu lado disse num tom autoritário:- fique onde está! Você está fraco!

- Não, Lina! Estou bem! Que lugar é este? O que houve comigo?

Lina e Valter trocaram olhares desconfiados, preocupados com o seu estado de saúde e Lina se manifestou: - você está no esconderijo dos Rivérios, perto da mina. É uma caverna. Encontramos você adormecido à beira de um acostamento. Suponho que você tenha caminhado exaustivamente até se sucumbir.

Tadeu enrugou a testa e com olhar fixo no ar como se quisesse recordar de algo, tentou explicar: -  estava na sacristia daquela igreja abandonada e depois que bebí água de uma jarra, sentí a minha cabeça rodar. Depois, tenho a impressão de ter visto algo terrível dentro da igreja. Ou talvez tenha tido um pesadelo ou delírio. E ainda me recordo que estava correndo com todas as minhas forças. Quanto tempo estou aqui?

Valter com expressão preocupada, respondeu: - há três dias. Encontrei o carro do seo Jorge na ribanceira com pneu estourado. Era Lina e depois, Wagner nos encontrou. Ele trocou o pneu, fez o carro funcionar, e deu a volta, subiu por uma pequena encosta e nos trouxe até aqui em nosso esconderijo secreto.

Tadeu notou que as roupas que vestiam estavam em mau estado: - o que houve? Parece que vocês saíram dos escombros de um terremoto!

Mais uma vez, Lina e Valter entreolharam-se e por fim, Lina resolveu falar:- Pior que isso! Aconteceu uma tragédia, Tadeu. A metade da comunidade anã foi dizimada pelos homens do delegado Vanderson. Valter e mais estes que estão aqui, escaparam pelo túnel. Volnar, Volkon e Áurea morreram. E o incrível é que pela manhã, o delegado Vanderson e seus peritos de meia pataca vieram investigar o ocorrido como se nada soubessem, com aquelas caras de mistério. Não encontraram nenhum corpo, é claro, eles próprios recolheram naquela noite. E se encontrassem algum corpo, certamente utilizariam aquele extintor maldito e saco preto que faz as pessoas virarem pó! E o pior, Tadeu, encontraram armas, mas eram daqui, do Valter. Eles transformaram o terreiro numa festa de São João! Colocaram bandeirinhas, bombinhas no chão, sacos de pipocas, batatas doces e muitas garrafas de teor alcoolico. Tinha também garrafas de refrigerantes e copos descartáveis. E agora, anunciaram pelo rádio que Valter é suspeito de tê-lo sequestrado, Tadeu. O plano deles estão funcionando de vento em popa.

Tadeu pensou o por quê do motivo deste conflito: - Valter, eles invadiram assim de repente?

- Não. Eles avisaram que queriam conversar conosco e resolver a questão judicialmente. Eles trouxeram até o seu pai e um Oficial de Justiça para nos convencer. E eu pergunto por quê não vieram de dia?  

- Meu pai veio? Do lado deles? Não acredito!

Valter interrompeu de imediato: - não, Tadeu! Não pense assim. Eles os usaram como isca. E tenho que te dizer, Tadeu, o seu pai foi...

Tadeu arregalou os olhos e soltou uma expressão de surpresa: - o meu pai foi o quê?

Lina, abraça-o e diz com voz fraquejada e emotiva: - mataram o seu pai! Valter viu. Foi uma tocaia! O tiro partiu dos fundos do quintal. Foi um atirador que estava num dos galhos de eucalipto. Era um deles para incriminar, uma maneira fácil de começar a briga armada.

Tadeu se levantou e se sentou na beirada da cama. Tapou os olhos com as mãos e começou a chorar. Lina sentou-se ao lado abraçando-o carinhosamente em silêncio. De repente, Tadeu soltou voz tremida: - estas lágrimas secas de nada valem porque não estava presente no momento para evitar a sua morte. Como foi?

Valter engoliu em seco e respondeu: - na cabeça. E eles sumiram com o corpo. Puseram o corpo dentro daquele maldito saco preto...

Tadeu ficou quieto por um momento e perguntou pela mãe e pela Katinha. Valter respondeu: - elas estão bem agora. Antes do massacre, a dona Odete e a empregada estavam sumidas. E você, também Tadeu.

- E agora?

Lina deu um beijo no rosto e respondeu: - estão bem, Tadeu! Depois que Wagner nos socorreu, ele foi até a mansão e lá estavam deitadas, adormecidas com TV ligada. É claro, depois da "operação massacre" provavelmente foram soltas. A Katinha nos avisou que está tudo bem. Ela filmou as pessoas que entraram na mansão. Eram pessoas conhecidas de sua mãe, provavelmente amante do J.J., se lembra daquela "zinha"? Pois é, muito simpática com máscara, as sem, ela é dos diabos! Ela veio com dois capangas e ofereceram um chá legítimo da Inglaterra. Ela mesma fez questão de preparar. Só que "batizada" com "Boa noite, Cinderela".

- É o mesmo chá que bebí na igreja! Estava numa jarra! F.d.p.!

Valter interrompeu o assunto e dirigiu o seu olhar para Tadeu:- o pior é que estamos sendo acusados de sequestro e assassinato de seu pai, Tadeu. Não temos tanta habilidade para acertar um tiro na cabeça. 

Tadeu saiu da cama e ajoelhou-se para ficar da mesma altura de Valter e abraçou-o carinhosamente:- o importante é que sei que você é inocente! Fique de consciência tranquila! E vocês tem alguma coisa em mente? Não podemos ficar trancafiados numa caverna. É pior do que prisão.

Lina sorriu e explicou: - está tudo planejado, Tadeu. Só falta alguns detalhes! Explico e nos critique se algo estiver fora de senso.

Tadeu - Está bem!

Lina piscou várias vezes como se estivesse organizando o arquivo cerebral para expor as suas palavras:- bem...é o seguinte...até agora conseguimos pegar alguns mantimentos com a ajuda da Katinha. Ela enche a mochila de alimentos não perecíveis e deixa num local chamado de "careca do padre". É uma rocha que é careca em cima e tem vegetação ao redor. As mochilas, cerca de três, se encontram debaixo de num único pé de "engá" que tem lá. Mas é preciso cuidado porque de vez em quando, há vigias contratados rondando por lá. Tem que evitar lanternas. E nas altas horas da madrugada, Valter e mais dois, que conhecem o atalho pelo cheiro, trazem as mochilas.

- E outro plano, Lina?

- O outro plano já é mais complexo, mas é a única saída.

- Por quê, Lina?; perguntou Tadeu com curiosidade.

Valter entra no meio da conversa:- Lina, me deixa explicar a ele?

Lina sorri: - é claro, a idéia foi sua.

- Tadeu, é o seguinte: estamos nos querendo entregar num dia movimentado da semana. Talvez, na Sexta-Feira, na véspera de um feriado onde todos estarão se preparando para viajar. Você sabe que muita gente sai às 17,30 h. E neste horário de pico é que iremos nos entregar caminhando tranquilamente pela avenida em direção à delegacia. É claro, com uma placa segura por mim com seguintes dizeres: "Delegado Vanderson, estamos nos entregando de livre e de espontânea vontade". Katinha vai filmar e colocar no You Tube. Que tal?

Tadeu pensou: - You Tube for you, Mr. J. J.! Se vocês ficarem por aqui por muito tempo, acabarão descobrindo e serão mortos pelos homens de preto. Como diz o ditado popular, "a melhor defesa é o ataque". Mas tem os seus detalhes que podem fazer diferenças - surpresa e transparência.

Valter agradeceu e cumprimentaram-se com apertos de mãos e disse: - Os homens de preto, Tadeu, já foram úteis para sociedade. Eu mesmo fui refém de bandidos no caixa eletrônico num Sábado à noite. Eles levaram  o que tinha sacado e me obrigaram a tirar até o limite, me ameaçaram de morte, mas os homens de preto chegaram na hora certa, mataram o que apontava a arma na minha cabeça e perseguiram os outros. Também foram mortos. Após uma hora, vieram devolver o dinheiro roubado. Eles eram guardiões eficientes, mas de uns tempos para cá, com renovação de pessoal, o excesso de poder os fez perder o bom senso que existiam neles.

- Nem tudo que é bom dura para sempre, Valter. Por isso, é preciso renovar. Mas estes, renovaram para o pior. Agora, temos que reverter a situação.

Lina interrompe e pergunta ao Valter:- e o celular  da Elisa que veio na mochila?

Valter - Está aqui no meu bolso da camisa. Você pode entregar este celular número dois para o doutor Cristo?

Tadeu fica curioso:- ei! Celular da Elisa?

Valter - Sim. O professor pediu para Katinha, o celular número dois. Elisa perdeu o dela. Está sem comunicação.

- Como? Aonde está a Elisa?; perguntou Tadeu afoito dirigindo-se a Valter.

- Ela está num local secreto. O doutor quer este celular para copiar os dados num "chip". E eu não posso ir. Lina é a única pessoa que tem trânsito livre na cidade.

Tadeu - Trânsito livre? Ah! Ah! Você tem certeza disso? 

Valter - Não. Tenho as minhas desconfianças. Creio que até Lina esteja sendo vigiada.

- Então, façamos o seguinte, eu e a Lina iremos até a cidade durante a madrugada. Tenho que conhecer este tal do doutor Cristo!

Lina - Você não está bem, Tadeu!

- Estou! Tomaremos o máximo de cuidado, Lina. Vocês estão de acordo?

Valter rindo - É claro, é a única alternativa!

Todos concordaram e comemoraram e Tadeu convidou Lina para exercícios de capoeira: - vamos treinar? Preciso liberar energias retidas.

Lina sorriu: - eu também! Estou com corpo duro!

E foram para um terreno plano de mãos dadas.

FIM continua

 

 

 

CIDADÃO ILUSTRE 30

Akio Kimura-08/10/2011

EM TODO O EXTERMÍNIO, SEMPRE RESTA ALGUÉM PARA CONTAR HISTÓRIA NO FUTURO

INTERRUPÇÃO - MSN MESSENGER NO DVD - HERBIN

- Putz! Essa não entendí! O diretor do filme, o meu querido primo Marcelo não queria demonstrar cenas violentas e por isso, substituiu-as por desenhos. E agora, o fazendeiro seo Jorge que estava intermediando o acordo entre a prefeitura e a comunidade dos anões, leva um tirambaço na cabeça espalhando seu cérebro no chão! Por que não em História em Quadrinhos? Explique-me, Will. Ou foi você, o responsável pela modificação? O filme tá uma merda! Ou é uma coisa ou é outra, meu caro!

WILL RESPONDE A HERBIN

- Calma, Herbin, confesso, eu modifiquei! Queria verificar como seria o filme com cenas violentas. E ficou melhor. Está mais comercial, entendeu?

HERBIN

- Então me responda, não vai mais camuflar a violência? O diretor não vai aprovar.

WILL

- Herbin, você assistiu a este filme inacabado, sabia? O diretor me convidou para fazer a edição de última hora porque ele ficou sem verba. Você sabe, quando a "coisa" pesa no bolso, haja desespero! Houve alguns cortes e modificações. Quero que assista o resto! O filme já está em cartaz. Câmbio, desligando e voltando ao vídeo.

HERBIN

- Brincadeira!...Câmbio. O seo Jorge morreu!

Os corpos de seo Jorge e Oficial de Justiça Edemar foram recolhidos próximo a "Van" e colocados dentro de um invólucro preto por quatro homens, trajando macacões brancos, luvas e máscara respiratória. Um deles retirou um extintor e rosqueou na extremidade do saco e acionou liberando elementos desconhecidos. Era o mesmo sistema que Tadeu e Lina havia presenciado. Simplesmente, os corpos tinham se transformado em pó.

Valter acendeu a lanterna e viu o homem de macacão às gargalhadas:-Volnar, olhe! O seo Jorge e aquele Oficial da Justiça viraram pó.

Volkon - Como eles conseguem? Só pode ser química!

Valter - São raios. Mas que raios? Gama? Laser?

O anão Valter pressentindo perigo,  decidiu reunir os principais homens, Volnar, Volgen, Volkon e Vivio e orientou: - peguem três galões de combustível e derramem na vala que rodeia a casa enquanto eu preparo uma tocha.

Minutos depois, do outro lado, o delegado Vanderson observava o círculo de fogo:- de fato, uma bela defesa! Parabéns, Valter! Você estava preparado! Praxedes, manda o pessoal atacar com fuzis, ideal para longa distância! E após atravessarem o círculo de fogo, deixem os fuzis deste lado e utilizem pistolas! Eles são amadores! Só quatro deles sabem manejar as armas! Capacete! Colete! Ao ataque! Atirando sem parar!

Os quatro líderes anões sentem dificuldades com os fuzis enormes e pesados obrigando-os a apoiar sobre caixas de madeira enquanto outros, à frente, revidam aos tiros com pistolas protegendo-se atrás das barricadas de toras e sacos de areia. As balas inimigas são certeiras. Logo de início, Volgen é atingido na região do torax imobilizando-o e Vivio leva um tiro no pescoço e cai sem pronunciar uma palavra. Valter consegue atingir um inimigo, mas em vão. Eles apenas caem e depois se levantam. Todos eles, sem exceção, estão devidamente protegidos por capacetes e coletes à prova de bala. Valter deixa o fuzil de lado e corre para socorrer Volgen que agoniza, rasga a camisa e tenta estancar o sangue. Os anões olham-se um aos outros apresentando faces de pavor por nunca terem passado por esta situação.

Volkon, preocupado com a violência cega e desvantagem descomunal, ergue-se levantando as mãos em sinal de rendição:- parado! Nós nos rendemos! Por favor! Há mulheres e crianças aqui!

Um disparo atinge Volkon na perna. Valter abandona Volgen dirige-se para socorrê-lo, pega-o pelo colarinho e arrasta até a barricada e efetua a mesma operação com a camiseta para deter o sangue. Valter chama os dois homens para ajudá-lo a levar para a enfermaria improvisada no galpão. E retorna preocupado, mas com com ideal convicto na cabeça apontando o seu olhar para as estrelas: - render, jamais!

E dá meia-volta dirigindo-se aos seus dois auxiliares:- vocês dois, quando retornarem, tragam o fuzil Bushmaster calibre 223 com noventa capsulas, uma pistola Taurus e os Glock calibre 40. E tragam pistolas .45 e deixem as armas espalhadas no chão.

Os homens de Vanderson conseguem atravessar o círculo de fogo e avançam atirando sem parar. Valter, com seus nervos em chamas, mas confiante, pega o Bushmaster, arrasta-se até a barricada e atira nas pernas dos inimigos. Sucesso total! Muitos homens caem com canelas estropiadas e mal conseguem se levantar.

Valter - Aí, pessoal! Peguem estas pistolas espalhadas no chão e dirijam-se aos inimigos atingidos, removam os seus capacetes e atirem na cabeça! 

Os poucos que restavam dos anões, o número já era maior do que dos inimigos. Mas alguns não conseguiram executar a tarefa, pois ao se aproximar dos soldados caídos, alguns foram baleados com tiros certeiros.

De repente, os disparos cessaram. Ouvia-se apenas gemidos incessantes. O delegado, desnorteado, havia perdido quase todos homens. Alguns de seus tinham retornado com ferimentos leves e acharam por bem, não se arriscarem. Quanto menos se esperava, ouvia-se o ronco das motocicletas. Era a ROME, a temida Rondas Ostensivas de Motociclistas de Evilate, iluminado a escuridão com seus adesivos luminosos nas roupas, o famoso grupo armado, caçador de fugitivos de alta periculosidade, pertencente ao prefeito J.J. através de sua ONG, na verdade, uma milícia.

A ROME se aproximou-se de Vanderson e o lider, o O-5 apenas se desculpou do atraso: - foi mal o nosso atraso! Recebemos uma notícia falsa de que os fugitivos da prisão estavam nas proximidades de Evilate. E só depois que recebemos o seu recado, delegado Vanderson! Tem um traidor em nossa turma!

O delegado se irrita:- Oliveira 5, não está vendo que estou mascarado? Agora, não sou delegado! Chame-me pelo número 13, está bem? Quero que vocês ataquem com força total. Olhem para os nossos homens! Estão feridos nas pernas. O Valter é esperto! E quanto ao traidor, resolveremos depois!

Oliveira 5 - Nós calçamos botas a prova de bala. O único lugar que eles podem nos ferir é na bunda, mas isso não é problema, estamos montados nas motos!

Vanderson- Chega de lorotas! Ataquem! Exterminem todos!

Os roncos forte das máquinas em ritmo de aceleração prenunciavam derramamento sangue. Os anões, os poucos que ainda restavam, estavam atentos às ordens do lider que se posicionava estrategicamente. Valter sabia o local onde havia um declive e era por alí que viriam, pois, para as motos voarem atravessando a vala, teriam que ter uma subida. Do outro lado, as motos começaram a rodear, uma turma em sentido horário e a outra, anti. Na verdade, ele procuravam por  algum declive, exatamente como Valter havia pensado. E nessas alturas da situação, já passado a primeira meia-hora, o círculo de fogo já havia se esgotado deixando um rastro de nuvens negras obstruindo a luz das estrelas. Os anões sabiam do potencial de destruição da ROME e estavam apavorados. Alguns correram até a vala acenando e gritando que queriam se render. Valter tentara impedir, mas já era tarde, pois uma bala de raspão na cabeça o deixara inconsciente. Todos os três que se renderam foram baleados. As motos tomaram distância e voaram sobre a vala invadindo o terreno. Um dos anões vendo a invasão, revidou disparando o seu Glock, mas é atingido mortalmente no peito. Outros levantaram os braços e chegaram a ficar de costas para o inimigo pedindo paz. Eles sabiam muito bem que os homens de preto não atiravam pelas costas, mas eles estavam em constante movimentação rodeando-os. E quando tinham a oportunidade de ficarem de frente, atiravam sem dó.

Mas mesmo assim, o resultado final é que quatro dos anões conseguiram furar o cerco dirigindo-se até o matagal repleto de eucaliptos. E os outros que estavam escondidos na casa, seguiram o mesmo exemplo. Os motoqueiros se direcionaram preferencialmente para os fugitivos que sumiram como fantasmas na escuridão. Somente um anão fora encontrado e executado com um disparo no coração. As caminhonetes, com seus farois Santo Antonio entraram em ação iluminando a mata, mas devido as irregularidades do terreno, não conseguiram trafegar onde havia rochas enfileiradas.

E para a surpresa de Valter que estava inconsciente e que acabava de abrir os olhos, presenciou outro tipo de ronco de motor, desta vez, mais poderoso, um helicóptero que fora acionado para iluminar as cercanias.

Valter, ao notar que os homens de preto estavam ocupados na perseguição na mata, arrastou-se cuidadosamente com mais dois de seus homens e se dirigiram até o galpão. A fuga de emergência era pela passagem secreta, através de um tunel que se esticava até a extremidade do sítio. Muitos sobreviventes o acompanharam. As mulheres e crianças certamente já havia alcançado um lugar seguro. Valter, por último, com sua experiência e calma, se apossou de uma pasta verde contendo papéis de sua propriedade.

Na mata, alguns dos anões foram executados sumariamente. O auxilio das luzes do helicóptero contribuiram em muito, encontrando mais alguns anões e que também tiveram o seu destino selado. 

O delegado Vanderson, depois de ter vistoriado a casa, entrou no galpão à procura da pasta verde, mas sem encontrar. A primeira regra ditada por ele era uma solicitação de que ninguém tocasse nos objetos da casa e do galpão. A segunda ordem era recolhimento de cadáveres e fazer virarem pó.  A terceira, recolhimento das capsulas deflagradas, montar uma fogueira de São João e bandeirinhas coloridas no alto. A quarta, espalhar copos de plásticos usados e a quinta, colocar sobre a mesa, quentão e sanduíches. E á última, deixar instrumentos musicais á vista e garrafas PET de refrigerantes.

No galpão, Vanderson descobriu uma pequena passagem debaixo da máquina processadora de folha de eucaliptos. O W 14, o mais magro dos homens tentara entrar no buraco do tunel, mas sem sucesso. O seu corpo tinha se entalado e e também alvo de brincadeiras: - esqueceu de calcular o diâmetro? Ruim de buraco! E deve haver uma saída, pessoal. Entrou por um buraco, tem que sair pelo outro!

Num canto da sala, delegado Vanderson - o 13, se indagava com a cabeça encostada na parede: - esta operação foi um equívoco. O que nós fizemos foi um massacre. E em todo massacre, sempre há alguns sobreviventes para contar história no futuro. 

O-5 que havia escutado o pensamento alto do 13 disse: - a merda está feita, e mesmo com a limpeza total, o cheiro permanecerá por resto de nossas vidas. 

O azar de Lina é que havia se perdido numa curva fechada derrapando o carro até cair numa pequena ribanceira. E não conseguia dar ignição.

Ao longe, estampidos de fogos de artifícios colorindo o céu: - Eles estão comemorando Festas Juninas!

E para surpresa sua, um helicóptero passava sobre a sua cabeça em direção à cidade. E minutos após, muitos veículos e por último, os homens de preto, a ROME.

Lina estranhou a movimentação. Tentou em vão, comunicar-se com o celular de Katinha, seo Jorge e até de Tadeu sem resultados positivos. Exausta e com frio, entrou no carro para descansar até que alguém a descobrisse na primeira hora da manhã.

 FIM continua

CIDADÃO ILUSTRE 29

Akio Kimura - 01/10/2011

ESTOPIM

Tarde, dezessete horas e trinta minutos. Valter e Volnar, dois dos lideres da comunidade dos anões retornaram ao sítio após receberem a mensagem de Katinha, um e-mail via celular: "Valter, um Oficial de Justiça em seu sítio acompanhado do delegado Vanderson. Uma intimação sobre a questão de terras".

Por não acreditar em autoridades, Valter e Volnar traçaram alguns preparativos de defesa contra um eventual ataque armado. O dois anões conheciam bem o delegado, era do tipo que detestava perder viagem, e, provavelmente, seriam ameaçados com palavras ou com armas. No mínimo.

O resto da turma dos anões permaneceu na mina de safira. Tinha a missão de encontrar mais algumas lascas para despesas do mês. E por surpresa, encontraram uma lasca de esmeralda num dos becos da caverna. Por segurança, deixaram-na intacta. Não se sabia o tamanho exato, mas presumidamente, era enorme. Os anões sempre estiveram cientes de que a mina estava segura, pois, para se adentrar, uma pessoa normal não teria condições de passar por uma fenda entre as rochas.  

Valter ficou encarregado da estratégia de defesa e Volnar, na preparação das armas, juntamente com a ex-enteada do prefeito J. J., a Aurea, a única de estatura normal.

Ao redor da casa, tinha um sistema de defesa, uma vala de três metros de largura e um de fundura, repleto de arames farpados, tampado com toras de eucalipto. Em caso de ataque, bastava retirar as toras, jogar pneus velhos, madeiras, lixos inflamáveis formando uma barricada de fogo. No quintal, em torno da casa, os anões cavavam muitos buracos para dificultar as ações dos motoqueiros voadores.

Valter sabia que se houvesse um ataque, a comunidade inteira seria dizimada numa questão de horas, pois sempre ouvira dizer que a ficalização não era simplesmente pelas irregularidades em que esta terra foi adquirida, mas sim, também por interesse pela jazida de safira. E sabia que J. J. era o cara.

No cinema da cidade, Lina assiste ao filme de Tadeu. Nunca havia imaginado que o seu namorado atuasse tão bem e que estava em sua melhor forma. Ela assistia aquela parte em que Tadeu se esforçava para  livrar o seu corpo deitado e amarrado na cadeira e a seguinte cena, a figura de Valter e sua turma jogando galões de combustíveis e óleo queimado na vala. Ele orientava estrategicamente o pessoal em suas devidas posições, protegidos por sacos de areia, cerca de doze ao redor da casa. As mulheres e crianças se abrigavam  no porão secreto do galpão, ligado por um túnel até a casa com a função de municiar as armas. 

INTERRUPÇÃO NO DVD- MSN MESSENGER - HERBIN

Herbin - Will, não vai ficar confuso? A realidade e a ficção estão se juntando, é isso?

Will - É isso aí! muitos chamam de metacinema ou realismo fantástico.

Herbin - Você não acha que estragou o filme? Eu não aprecio este tipo de filme. Tá uma bosta!

Will - Herbin, você nem assistiu ao filme inteiro. Critique depois que assistir. Câmbio, desligando.

CONTINUA

Valter comenta com Volnar que irá dialogar e que o uso de armas, será o último recurso e a possibilidade de um acordo amigável será preferencial, mas em caso de confronto, a rendição estava descartada.

Lina assiste ao filme com nervos a flor da pele.

Quase ao anoitecer, o ronco dos motores emudecem os pios dos pássaros. As luzes dos faróis riscam o céu de uma tarde escura dizimando a poesia do lugar.

Surge na frente, um carro sedan preto. Logo a seguir, um Hilux, veículo conhecido do seo Jorge e depois, duas caminhonetes com faróis acesos acima da cabine, três ônibus e um caminhão Constellation com carroceria de quase vinte metros de comprimento carregado de tubos misteriosos. Valter balbuciou:-estão usando veículos da prefeitura inapropriadamente. E sentiu calafrios. Volnar engoliu a saliva em seco. Perceberam que não vieram para brincar. Valter toma uma decisão pedindo para que os homens ficassem de prontidão com armas em punho. Eles param numa distância de cinquenta metros. De máscaras, o delegado Vanderson é o primeiro a sair da viatura e depois, o polivalente Praxedes. Do Hilux, sai um homem desconhecido, provavelmente Oficial de Justiça, provavelmente, um Oficial falso. Todos eram falsos, de ficha suja. Valter não se conformava como o povo ainda não havia percebido essa enganação. E a seguir, pelo lado do motorista, por surpresa de todos os anões, o amigo seo Jorge etão logo, as duas caminhonetes de trás, acenderam os faróis: - Olá, Valter! Tudo bem? Este homem ao meu lado é um Oficial de Justiça. Queremos dialogar para entrarmos num acordo.

Valter, em contraluz, enxergava apenas as silhuetas e para ter uma visão melhor, acendeu a sua potente lanterna para certificar se era realmente o seo Jorge: - Estou surpreso! Pensei em todos, menos no senhor!

Seo Jorge:- Eles apelaram para que eu viesse até você porque tenho um bom trânsito e também para evitar um possível contratempo. Este é o Oficial da Justiça, o Edemar, você permite que ele fale?

Valter, antes de responder, cochicha nos ouvidos de um dos membros:- (Vivio, filme tudo! Você está proibido de morrer!) Já sei o que ele vai falar. É o ultimato. Existe isso na lei dos Direitos do Cidadão? Se eu não concordar, o ultimato que vocês inventaram vai servir para quê? Que nós saiamos daqui de algemados?

De repente, sem licença, o oficial Edemar pega um autofalante manual  e interrompe a fala de Valter: - o senhor está intimado a comparecer no foro para regularizar os papéis desta propriedade: Habite-se, Escritura, Vintenária e a exploração clandestina de minérios! E também IPTU devido há dois anos.

Valter escuta sem muita convicção em relação aos papéis: - e precisa de tanta gente assim? Por quê?

O Oficial Edemar:- Senhor Valter não compareceu na Prefeitura para se atualizar. Foi intimado várias vezes. Estou esperando a resposta! Valter Riverios, o senhor terá de nos acompanhar agora, queira ou não queira. Eu sei que o senhor está me entendendo.

Valter:- senhor Edemar, não é possível atendê-lo agora. Poderia ser amanhã? Preciso juntar os papéis!

OFicial Edemar:- senhor Valter, se não me responder, tenho ordens para levá-los até o albergue municipal, temos vaga para todos.

Valter - Para todos? Exclusivamente para nós?

Oficial Edemar - Deixe de ironias! Estamos falando sério! Ah! Há um boato que o senhor está fortemente armado! Sabia que o porte ilegal de armas é um crime? E tem mais, o senhor é suspeito de sequestro do  Tadeu, filho do seo Jorge. Precisamos verificar se é aqui, o cativeiro!

Valter, desnorteado com a acusação, ironicamente responde: - o quê? Sequestrar o meu amigo Tadeu? Vocês estão loucos! Faz me rir! Seo Jorge sabe que nunca iria cometer uma besteira desse tipo!

Volnar bate palmas devagar para caracterizar o absurdo que estava ouvindo: - é armação, seus F.D.P.!

Seo Jorge aproxima-se do oficial e discute: - Edemar, que absurdo é esse? Sabe do que está acusando? É coisa séria! Vocês estão usando de todos os artifícios sem medir as consequências!

Enquanto seo Jorge discutem, Valter e Volnar dialogam a respeito das armas: - Volnar, temos admitir que as armas nossas são ilegais! Temos que tomar uma decisão. Eles são profissionais da arma! Veja o delegado, de máscara! Só a silhueta dele é suficiente para identificá-lo! Ele está até babando para nos atacar! E nós não temos a mínima chance para derrotá-los.

Volnar - A nossa vida está em jogo e a preservação é prioridade no momento. O que fazemos?

O seo Jorge termina a discussão com Edemar e dirige-se ao Valter: - a conversação está sendo gravada, Valter. Para evitar transtornos para ambos, é necessário um ceder. O senhor Edemar nem pensa nesta possibilidade! Valter, por favor, é só mudar-se para o galpão da prefeitura! Lá tem comida, TV, campinho de futebol..

Valter- Desde quando um Oficial de Justiça decide? Tem que ser um juiz! Tem que ter um julgamento!

Volnar interrompe e dirige palavras ao irmão: -  Valter, Volgen conversou com as mulheres e chegaram à conlusão de que o bom senso é a melhor solução. As mulheres e crianças estão chorando.

No  desenrolar da reunião, um dos motoqueiros, com sigla M 14 aproxima-se de Vanderson: - delegado Vanderson, o plano parece que vai fracassar, eles vão se entregar! Não é melhor avisar o W 16?

Delegado - Não me chame pelo nome, seu imbecil! Neste momento, não sou delegado Vanderson! Não está vendo que estou encapuzado? 

M 14- Mas o senhor é facilmente identificável! Será reconhecido pela barriga, doutor!

Delegado - Cale a boca, seu idiota! M14, checou as armas? Estas armas são iguais das deles? Todos de luvas? E as bandeirnhas coloridas de São João para pendurar? E a equipe do 5? Não chegou ainda?

M 14 - Tudo Ok, só o 5 que ainda não chegou! Ele está cuidando do Tadeu lá na igreja abandonada. Já comuniquei a ele que os fugitivos estão à solta nesta região. Legal, delegado! Depois do massacre, o local parecerá um final de festa de São João com pequenos entreveros! E os copinhos descartáveis usados serão espalhados pelo terreno. As garrafas de pinga, batata doce e milho cozido. E o W 16 está a postos. Está vendo naquele eucalipto atrás do galpão? É ele!

Vanderson - M 14!. Não está vendo que está escuro? Como posso enxergar o W 16 apontando a arma, seu imbecil! Se toca! Vai, dá ordem de soltar fogos! E não me chame de delegado, me chame de Uno!

De repente, o céu clareia. Todos ficam maravilhados com o espetáculo de pirotecnia que vinha daquele caminhão enorme da prefeitura.

Valter e turma olham o céu colorido com chuva de prata, constrastando com as suas fisionomias aflitas. A previsão da continuação do diálogo não era favorável.

Entre barulhos de rojões e bombas, subitamente, dois tiros secos, diferentes, ecoam no ar.

O seo Jorge é atingido por um tiro certeiro na cabeça caindo inerte, com cérebro espalhado no chão. O Oficial Edemar é atingido no coração. Estava estático no chão.

Valter percebe que o tiro viera de um dos pés de eucalipto dos fundos: - pessoal, deitem-se! É uma armadilha!

No cinema, Lina é tomada pela aflição. Após ver o personagem do seo Jorge ser atingido na cabeça, ela sente uma sensação de horror e abandona a sessão. Joga o bilhete de cinema que estava em seu poder e dirige-se até o estacionamento.

Lina - por favor, o carro do seo Jorge!

O rapaz permitiu que Lina se apossasse do carro, pois era a segunda vez que solicitara por causa emergencial.

Lina acelerou cantando pneu em direção ao sítio dos Riverios. É claro que chegaria a tempo para salvá-los, pois havia um ano que prestara serviço à polícia intermediando a rendição de um de seus garotos da comunidade, com sucesso total.

FIM continua 

 

 

 

CIDADÃO ILUSTRE 25

Akio Kimura-03/09/2011

NADA ALÉM DAS SUPOSIÇÕES

O amanhecer ainda estava longe de soltar as suas clareiras. O sítio de Elisa no topo do morro permanecia em silêncio. De repente, entre as árvores, ronco de duas motos com um na garupa quebravam a quietude do lugar. Eram dois homens das ROME retornando. Tadeu abriu os olhos devido ao barulho e sentiu que estava fortemente amarrado por uma corda de nylon, sentado na cadeira. Olhou ao redor e reconheceu a sala - "casa da Elisa!". Tentou desvencilhar-se das amarras, sem sucesso. A dor intensa na cabeça fez com que ele desistisse de qualquer tentativa de escape. A última visão, antes de cair no sono novamante, foi a presença de dois membros da ROME iluminando o seu rosto e uma voz grave: - vamos levá-lo para aquela igreja abandonada onde ninguém irá procurá-lo. E outra voz, soltou uma gargalhada exagerada: - ah! ah! ah! Boa idéia! Depois que os fugitivos do presídio mataram e deceparam a cabeça do padre, ninguém mais foi lá!  O povão diz que há vozes de lamento, de gritaria e chicotadas atormentando as pessoas que veem o interior da igreja. O engraçado é que a gente nunca viu e ouviu essas coisas estranhas. E você, particularmente? O outro da voz grave respondeu categoricamente: - o povo é cagão, se impressiona por coisica de nada! Só porque a igreja é do século 19! O "troxa" do seo Jorge ainda está tentando recuperar. Para quê se nem turistas querem visitar! Me poupem! E depois, vamos explodir esse 4x4 do rapaz lá nas imediações, muitas pessoas vão pensar que foram as assombrações! Ah! Ah!...

No hotel, a cidade de Evilate já estava tomada por sons de buzinas de carros. Lina acordou e logo apalpou o lado da cama. Tadeu não havia chegado e rapidamente, acionou o celular e ouviu o "ring" sobre a mesa. Ele não tinha levado o seu aparelho. Ligou para celular do seo Jorge: - vamos dar tempo ao tempo, Lina. Ele pode aparecer por aí a qualquer momento. Ele sempre foi um andarilho solitário. A Katinha? Ela está dormindo, com certeza! Você pode telefonar para dona Odete, ela está lá na mansão se preparando para ir à uma reunião na outra cidade. Você está sem carro? Então faça o seguinte, vá até o estacionamento Parking Evilate e fale com Geodésio, aviso a ele agora mesmo. É meu carro, um "Agile" cinza.

Após uma hora, Lina chegou à mansão da fazenda de seo Jorge. O vigia a reconheceu e permitiu a entrada e a empregada, de imediato, ofereceu café da manhã: - não, obrigada, tomo café depois; já que a dona Odete viajou, queria falar com Katinha, ela está?

No quarto, Lina pegou a Katinha envolto com suas lições de férias diante do computador: - Katinha, cadê o Tadeu? Você se encontrou com ele? E a Elisa, está bem? Ela já voltou para casa?

Katinha, soltou um sorriso angelical fechando o site: - bom dia, Lina. Elisa está bem, mas está de cama na clínica do doutor Cristo, mas não me encontrei com Tadeu. Eu, doutor e a doutora removemos Elisa rapidamente da casa pro hospital. Tadeu foi pro sítio da Elisa?

Lina retorceu os lábios, balançou a cabeça e respondeu: - foi e ainda não voltou.

Com o carro, Lina e Katinha sairam à procura do paradeiro de Tadeu. Passaram primeiro no sítio dos Riverios e ninguém soube informar, pois o anão Valter e os seus principais líderes estavam ausentes devido ao trabalho na mina e captação de folhas de eucalipto. A seguir, direcionaram-se para o sítio de Elisa e encontraram a polícia investigando o caso. Havia um carro com emblema da PM, um particular e uma ambulância. Estava no comando, o delegado Vanderson, o polivalente Praxedes que apesar de ser escrivão, conferia minuciosamente os locais com sinais suspeitos e mandava o auxiliar Piter, um jovem de vinte e três anos fotografar.

Lina cumprimentou o delegado, que retribuiu com expressão acabrunhada: - bom dia. Você é a noiva de Tadeu? 

- Sim, ele esteve aqui? Ele não voltou e então resolvi procurá-lo.

O delegado roçou a sua barba mal feita e disse: - soubemos através do doutor Cristo que Elisa está internada na clínica, mas o Cristo e Elisa não foram encontrados lá.

Lina se direcionou para Katinha: - e aí, Katinha?

A garota de doze anos apertou o ursinho de pelúcia e respondeu com ar de incerteza: - Elisa pode ter tido algum problema grave e transferida para um hospital mais equipado...

 Vanderson interrompeu e cortou as palavras da menina: - E temos outro porém, senhorita...

- Lina! Que porém?

- Praxedes encontrou um pequeno gravador. Você quer ouvir?

Lina ouviu a gravação com a voz de Tadeu: - escondi o corpo perto dos eucaliptos. Só não me lembro do lugar, estava escuro demais. Era perto de um rio.

- Fale seu nome!

-Tadeu! Filho do Jorge!

Lina ficou espantada e chocada ao reconhecer a voz do namorado e mais ainda, afirmando o crime.

O delegado desligou o aparelho. Lina, nervosamente, com lágrimas nos olhos soltou palavras de defesa:-

- delegado, Tadeu não faria uma coisa dessas! Ele tem excelente índole! Ele não é um assassino!

Katinha, ao lado, começou com a crise de choro:- meu irmão é honesto e trabalhador!

Delegado colocou as duas mãos para trás e caminhou de um lado a outro: - calma, Lina. O corpo de Elisa não foi encontrado ainda. Estamos procurando doutor Cristo também. Nós checaremos todos os hospitais. No momento, não temos prova de nada, mas temos que deter o senhor Tadeu como suspeito por causa desta gravação. Ele sumiu. O carro dele não está aqui. Se ele for inocente e possuidor de excelente índole, não há o que se preocupar. 

Lina acalmou-se e pensativa, disse: - e se ele foi forçado a dizer mediante a tortura?

O delegado traçou um sorriso irônico balançando a cabeça para os lados: - um inocente suportaria uma tortura. Um homem de verdade quando mata, se entrega e quando se envergonha de um ato errado, pede desculpas.

Lina olhou para o delegado como se o analisasse psicologicamente e disse em tom de desafio: - qualquer homem não suportaria torturas, principalmente aquele que ama a vida. Se nunca mentiu, ele mentirá para se salvar mesmo que seja por alguns minutos a mais. O limite da dor é que decide.

Vanderson fitou nos olhos de Lina com olhar de menosprezo: - você não é homem para falar sobre a dor do homem. Você fala pelo lado da mulher que é mais vulnerável.

Lina se deteve e por fim falou: - o senhor fala da tortura como se fosse um machucado. Para mim, uma ameaça de mão levantada já seria uma agressão, o meu coração se aceleraria e os meus nervos explodiriam. E fique sabendo, senhor Vanderson, a mulher não consegue bater num homem, a única forma de superar a força física é soltar palavras ferinas que valem mais do que um murro bem dado!

O delegado Vanderson ri: - aí que está! A mulher também é uma torturadora! As palavras ferinas podem arruinar o sentimento de qualquer homem.  Então, estamos quites. Por isso que a mulher apanha!

Lina põe a mão na cintura e fala com os dentes cerrados: - neste caso, é uma discussão entre um homem e uma mulher, são discussões pessoais. No caso de Tadeu, é uma confissão forçada.

No auge da discussão, Praxedes interrompe a conversa e aproxima-se do delegado com dois objetos num saco plástico: - Vanderson, olha que encontrei: uma lanterna e um boné.

Lina logo reconheceu a lanterna: - é do Tadeu! Pode me dar?

O delegado:- Não! Temos que analisar este objeto no laboratório. E este boné tem o nome gravado de Valter. É o anão! Ele será intimado a depor. Hoje mesmo iremos trazer um trator para procurar o corpo perto dos eucaliptos.

E o delegado voltou-se para Lina: - Lina, chega de filosofar né?

Lina calou-se, olhou para Katinha que apertava o seu urso de pelúcia contra o peito e disse: - Katinha, desculpe-me por trazer você para cá. Você não merecia ouvir essas discussões violentas. Foi um pecado.

Katinha olhou e sorriu e disse naturalmente: -  Não se preocupe com isso, Lina. Pecado para mim é algo invisível, que não se vê, é apenas uma abertura de um caminho para o assédio espiritual. O pecado é uma forma de fraqueza da pessoa que acredita. Nada mais do que isso.

Lina abraçou-a forte: - então, vamos embora. Tadeu vai aparecer por aqui inocente da vida.

FIM continua

 

 

 

CIDADÃO ILUSTRE 21

Akio Kimura - 23/07/2011

UM DIA DAQUELES

Tadeu tinha um longo caminho a percorrer até o centro da cidade, certo que, Evilate era uma pequena cidade do interior, mas a pé, do local do acidente até o centro eram quilômetros consideráveis. E devido à explosão da instituição ADF/ACD, havia movimentação de tráfego intensa que chegava enfileirar por alguns quilômetros, fluxo insatisfatório. O incrível era a quantidade de equipes de TV e de jornais, vindo de cidades vizinhas. Eram inúmeras e por isso, os buzinaços alcançavam decibéis altíssimos, principalmente quando o trânsito estagnava. No ar, pairava a fumaça expelida dos escapamentos dos automóveis fazendo um coro de intermináveis tosses dentro dos veículos.

De repente, à sua frente, faróis de um carro fazia pisca-pisca acompanhado do som de uma buzina, por acaso, muito familiar. Era o seu 4x4 russo. Tadeu apressou os passos e foi ao encontro: - Lina! Você é louca? Você está indo para o local do acidente?

Lina, com misto de tristeza e acabrunhamento respondeu: - queria ir até o local, Tadeu.

Tadeu entrou no carro, se acomodou:- Lina, não há condições de prosseguir! Se formos, chegaremos ao entardecer, é melhor voltarmos. 

Lina olhou fixamente nos olhos e respondeu com impaciência na voz: - ué! Você se esqueceu que eu tinha compromisso amanhã com a instituição? Queria oferecer ajuda ao pessoal. Sou voluntária!

Tadeu respirou fundo com cara de lamento: - pois é, Lina, você esqueceu, eu falei para você pelo celular. Não há sobreviventes. Sinto muito!

Lina ficou consternada derramando lágrimas no rosto, deu um tempo: - Tadeu, o que está acontecendo nesta cidade? Parece ato de terrorismo! Eram pessoas inocentes que se preocupavam com o próximo! E de repente somem sem mais nem menos? E não me diga que Deus quis assim!

Tadeu tenta confortá-la: - Lina, acalme-se. Você deve saber que acidentes acontecem. O destino nos encaminha para a morte repentinamente sem aviso prévio. Mas se a explosão foi intencional, há paranóicos nesta cidade e é preciso investigar nos mínimos detalhes! Já conversei com o delegado, Lina, ele suspeita que foram os botijões de gás que explodiram, mas encontrei um material plástico que parecia restos de dinamite. Tinha cheiro de pólvora. A perícia estava procurando mais pedaços do material, quando encontraram um canivete dentro da cozinha. Quem seria o dono do canivete?

Lina fez o contorno para caminho de volta sem se importar com as palavras do namorado, mas se importou com os protestos dos motoristas, principalmente da buzina estridente de um BMW e uma voz rústica do motorista: - é isso mesmo que você tem que fazer, voltar pra casa e dirigir um fogão, dona Maria!

- Lina: - vai tomá no cu, seu filho da puta! 

Tadeu fica surpreso com a reação de Lina. Realmente, era outra Lina, mas ao mesmo tempo, reconhece  o carro do prefeito: - É o J. J.!

Lina - Ele está indo pra p. q. p.!

 

Lina vê o BMW próximo ao seu carro e por descortesia faz um "O" juntando o seu polegar com o indicador: - ó prá você!

Tadeu: - Lina! Pô! Para com isso!

O carro blindado passa rente à Lina sem dar importância. O motorista levanta o vidro escuro fechando a janela.

Lina - F. d. p.!

Tadeu: - Lina! Por favor! Eu quero marcar audiência com o prefeito!

Lina se acalma e dá continuidade à conversa: - Tadeu, como você sabe que é o prefeito? E para que audiência? Você quer salvar a cidade, quer ser um heroi? Vai querer resolver na porrada?

Tadeu ri  e responde: - Lina! Calma! Só por que o motorista disse aquilo, você se alterou? Não estou te reconhecendo! E por acaso tenho pinta de heroi?

Lina também sorri: - tem! Você é forte, sabe artes marciais e capoeira. Sabe atirar. Sabe fotografar. E não tem medo! E eu estou morrendo de medo de você ser morto! Você sabe do que eles são capazes! Eles fazem você virar pó! Lembra-se? Ensacam a pessoa junto com elemento químico e pronto!

- Lembro-me e como! Mas a minha intenção não é fazer terrorismo. A minha proposta é denunciar as autoridades que estão fazendo o que querem sem consultar o povo. Quero no mínimo, evitar abuso de poder.

Lina, calada, ouve a voz de Tadeu até chegar na estrada e diz: - Cacete! Como voce vai encontrar provas concretas? Polícia que é polícia não consegue, pô!

Tadeu percebe o cansaço e estresse no rosto dela: - quer que eu dirija?

 

 

Lina respira fundo e se entrega: - está bem, você dirige. Desculpe a minha grosseria.

- Já passei por isso também. Saí até do carro com peito inflado para enfrentar o dito cujo, mas quando ele apontou um "três oitão" murchei igual a uma bexiga quando solta o ar. Hoje estou calminho, calminho!

Lina sorri: - só um "três oitão" para te dar educação no trânsito - dá uma pausa e volta a falar - não acha que ele vai tirar proveito deste acidente para se promover?

Tadeu - Pelo que falam dele, é bem populista. Os acidentes deste porte podem gerar crises.

Lina, pensativa, resolve falar: - aposto que vai inventar um monte de baboseiras. Mesmo que não tenha sido proposital, qualquer idiota perceberia que aqueles botijões velhos estavam próximos do perigo. É não deixa de ser descaso das autoridades.

Subitamente, o 4x4 derrapa no asfalto e sai da pista parando no acostamento. Lina, assustada, encostou a cabeça no painel com início de choro: - hoje é o dia!

Tadeu: - Você está bem?

- Estou. Acho que tinha óleo derramado na pista. Podem ser o pneus também.

Tadeu desce do carro, verfica os pneus e constata que estão em bom estado e a seguir, vai até o local da derrapagem e vê óleo esparramado em quantidade exorbitante. Ele volta para o carro e pega o cobertor velho enquanto, Lina, curiosamente pergunta: - o que você pretende fazer?

- Vou enxugar o óleo do asfalto, assim, evitarei que mais acidentes ocorram. Fique vigiando. Se vir qualquer veículo, me avise. O óleo foi jogado propositadamente. Tinha uma lata vazia de óleo lá.

Lina - F. d. p.! Depois de limpar o asfalto, jogue fora o cobertor. Eu é que não vou lavá-lo!

Tadeu gargalha e segue em direção ao óleo derramado.

Enquanto Tadeu limpava o asfalto, Lina vem em seu encalço com voz abarrotada e ofegante: - Tadeu, aqueles motoqueiros, os de uniforme preto! Vamos embora!

- Não dá tempo!

Eram cerca de cinco homens montados nas motos que variavam de Hayabasa, Bandit, Tenerèe, Ducati e até Comet. Eles cercam o casal em círculo. Lina abraça-se ao Tadeu com todas as forças de seu desespero, e ele, por sua vez, tentava aparentar calma: - oi pessoal, estava limpando o asfalto. Dei uma derrapada aqui da hora! Podem tirar o capacete? Talvez conheça algum de vocês. Nasci e me criei aqui e o meu nome é Tadeu. Você não me conhecem? É a terceira vez que vocês me abordam!

A resposta dos motoqueiros não eram em palavras, mas sim, aceleravam sem sair do lugar preso pela embreagem e soltavam barulhos ensurdecedores como se estivessem ralhando com o casal. Parecia até uma ameaça do tipo: - não se intrometam! Caiam fora antes que seja tarde! E depois, desmancharam o círculo e postaram-se em fila. O primeiro tinha o número 5, provavelmente, o chefe. Aceleraram por quase trinta segundos e deram a partida empinando e roncando os motores.

Tadeu e Lina viram os motociclistas sumirem a toda a velocidade até sumirem ao longo da estrada.

- Lina, é uma ameaça. Eles querem a gente fora daqui! Eu sentí isso! Ninguém tirou o capacete! Falta de educação!

Lina, paralisada, com as duas mãos tremulando:-Talvez seja imaginação nossa, talvez seja coincidência.

Tadeu, pensativo, respondeu: - não, Lina! Talvez estejamos imaginando a coincidência, mas não devemos de maneira nenhuma, descartar a realidade do momento. Também não devemos fugir, afinal de contas, sou daqui! Evilate, amo-te Evilate!

Lina - Que tal o perdoarmos? Não! Mudei de idéia! Fica como está! Tudo que se perdoa, sobra sacrifício para alguém. E este alguém é o povo de Evilate!

- Vamos para o hotel, Lina. Depois do banho, pensaremos melhor!

Lina - Ufa! Que dia!

FIM continua


 


 

CIDADÃO ILUSTRE 20

Akio Kimura-09/07/2011

A MORTE É COMO UMA LÂMPADA QUE SE QUEIMA 

Tadeu caminhou despreocupadamente pela avenida principal de Evilate com as mãos nos bolsos. Nem as buzinas estridentes das motocicletas o incomodavam, tampouco fumaças de óleo diesel expelidas pelos caminhões. Os seus pensamentos estavam longe, tão longe quanto aos amigos que aqui deixara, há dez anos, anos pra caramba. Saudades. E logo, lembrou-se de Tico, um garoto sarará, cujo pai era proprietário de um boteco. Alongou os seus passos pensando dirigindo-se em direção a famosa escadaria, que mais mudava de nome do que qualquer 171: Escadaria do Tubarão, do Beco, Santo Antonio e vários outros nomes até chegar ao atual - Escadaria do Doutor João Jônatas, o prefeito da cidade.

A praça era semelhante à da Dom Orione, no Bixiga, em São Paulo. Para Tadeu, a escadaria era especial. Há muitos anos, fora o seu local preferido para encontros com a primeira e única namorada: Elisa. E era por isso, analisava Tadeu, que sofrera um nó na memória naquele dia de Domingo quando fotografava, fazendo-o confundir as duas praças. Desceu os degraus um por um e relembrou aquele momento em que vira a figura de Elisa. Lamentava muito que ela, hoje, estivesse no ápice do sofrimento: prótese nas pernas, plástica facial, dores corporais e feridas que ela provavelmente escondia. No fundo, sentia-se culpado pela separação, mas os seus estudos eram prioritários na época. Poderia sim, tê-la levado à São Paulo e morarem juntos, mas devido às circunstâncias, não fora possível. Tadeu afastou-se com expressão de lamento e evitou que a emoção tomasse conta e fez com que os seus pensamentos voltassem para os amigos: André, Edgar, Tico - Tico! Lembrou-se que estava a meio caminho do Bar do Tico, companheiro de time, amigo dos tempos idos, centroavante do time que marcava muitos gols e que ninguém da cidade entendera porque não se tornara profissional.

Tico ofereceu cerveja e petiscos de presunto e gorgonzola cortados em pequenos pedaços. Era horário ideal, estava sem freguesia no momento. Relembraram a infância, iguais das outras crianças: brincadeira de pega-pega, esconde-esconde, bolinha de gude e pião, sem falar em empinar pipas nas férias escolares. No fervor da conversa, de súbito, a surpresa, Praxedes estava à porta do bar e Tadeu, antecipou-se: - ué! Você me seguiu, Praxedes?

- Não - respondeu o escrivão da polícia - vim te encontrar de própósito, Tadeu.

- Ja nos encontramos agora há pouco, Praxedes. Será que temos assuntos a conversar?

Tico estranhou a maneira brusca dos dois, pois eram amigos de verdade até aos dezoito e agora, pareciam se odiar:- ei, vocês dois, pra que palavras tão ásperas? Vocês brigaram?

Praxedes deu um sorriso e com olhar defensivo, respondeu:- não, Tico - e desviou o olhar para Tadeu - você está em outra e eu aqui, como sempre eu desejei: trabalhar na polícia. Só não queria que a nossa amizade se abalasse por ideais contrários.

Tadeu sorriu e convidou à mesa: - então junte-se a nós para conversar, Praxedes.

Praxedes:- estou a serviço. Apenas queria dizer que a nossa amizade pessoal continuasse independentemente de tudo que possa ocorrer. Estou funcionário e recebo ordens e eu sei o que você está pensando a meu respeito. Estou um vilão para você, mas em certas situações, dependemos das circunstâncias que nos envolvem. Um dia, você poderá estar na mesma situação que a minha, em qualquer trabalho que seja. No mundo de hoje, ninguém é cem por cento. Ninguém é dono da razão, ao contrário, temos que ser apenas o dono da nossa sobrevivência. Um dia, você pode se tornar um vilão sem se notar.

Tadeu sorriu ironicamente: - Praxedes, eu te entendo. Já tive brigas por causa de circunstâncias estranhas. Mas é preciso lutar antes do envolvimento. Não creio que eu entre numa situação de risco. A amizade continua, se é que existe "amizade inimiga", "fogo amigo" ou "melhor do inimigos", tudo bem. Se me sentir bem com a sua morte ou vice-versa, a amizade continua e seria ótimo comparecermos no enterro um do outro. A hipocrisia às vezes faz bem, o mais difícil é enganar a nossa consciência. Estarei atento, não me deixarei enganar e evitarei que qualquer tipo de poder mude a minha pessoa. Mas ainda sinto amizade por você, Praxedes. Eu sinto isso!

Praxedes assentiu com a cabeça, sorriu e apertou as mãos de Tadeu: - obrigado, que seja assim, sinto o mesmo, senão, não te procuraria. Então, Tadeu, seja o que Deus quiser!

Tadeu levantou-se e deu um abraço forte: - não é o meu costume, mas por exceção, vamos deixar a nossa amizade nas mãos Dele! 

Praxedes caminhou até a porta do bar, parou e virou-se para os dois:- então, estamos em boas mãos.

Após alguns minutos, um forte estrondo sacudiu a cidade. Os petiscos, garrafa de cerveja e copos espatiram-se. Tadeu e Tico se seguraram na mesa fixa ao chão e se assustaram com a quantidade de garrrafas de bebidas que cairam da estante.

- Tadeu, o que é isso? O chão tremeu!

Tadeu logo se pôs de pé e saiu do bar: - não há vulcão e nem terremoto por  aqui!

Tico acompanhou-o e quando chegaram à rua, presenciaram muitas pessoas gritando, correndo e já tinha até carros saindo em debandada. Era a rapidez do pânico.

Tadeu levantou a cabeça e avistou um fogaréu de fumaça preta desenhando o céu no morro. Havia muitas árvores caídas e dezenas em chamas. O mais grave era o casarão, metade havia desaparecido e outra metade em chamas. Nas ruas, havia pessoas chorando, sirenes da polícia tocando, bombeiros e ambulâncias se preparando para o socorro. Tadeu avistou Praxedes no carro e imediatamente, pediu carona:- Praxedes, você está indo pro Morro?

Praxedes, faz gesto com a cabeça e responde: - entra!

Tadeu e Praxedes chegaram primeiro ao local do sinistro e se separaram. O casarão estava quase todo destruído. O seu primeiro ato foi procurar sobreviventes. Embora, Tadeu aparentasse calma, o seu rosto denotava desespero. Nunca vira algo assim em sua vida diante de seus olhos e parou para se lembrar de um diálogo de um personagem de teatro que havia assistido: - "Gases fatais! Explosões apocalípticas! Caos! Era como se fosse uma diarréia urbana ocasionada pelos intestinos podres dos satãs, tão somente por terem bebido vinho sagrado dos deuses corruptos". Era isso literalmente. Ou pragmaticamente?

Tadeu percorreu para todos os lados e viu corpos carbonizados sem mínima chance de identificá-los. E o pensamento tilintava: - seria o corpo da Neide Neusa? Ou daquele vigia? E os corpos daquelas crianças especiais? Somente DNA para saber - e não sabia o que fazer diante do horror do momento. Estava vulnerável em todos os pontos. Aos poucos, as sirenes, pisca-pisca de luzes, barulhos de carros e vozes de comando tomavam conta do lugar. Os repórteres do jornal da cidade fotografavam a tragédia em primeira mão. 

O delegado Vanderson comandava a todos com a sua voz potente. Tadeu não tinha nada a fazer, os bombeiros se encarregavam de executar o serviço e aos poucos, aproximou-se do delegado: - Vanderson, é o horror em sua mais extrema tradução.

Vanderson apenas olhou as chamas consumindo os resíduos e bombeiros tentando reduzir o fogo e virou-se para Tadeu: - o horror é o cheiro de carne queimada, carne humana, Tadeu. Nunca vi um acidente como este em Evilate!

Tadeu para o delegado: - creio que o senhor tenha que averiguar se foi realmente acidente!

Vanderson se surpreendeu com as palavras e respondeu irado: - o que? Você acha que foi intencional? Quem seria o doido? Não há doidos em Evilate!

Tadeu: - nunca se sabe, delegado. Há mais doidos no mundo do que se possa imaginar. Os doidos mal sabem que estão doidos!

- O que você quer dizer com isso? Está suspeitando de alguém?

Tadeu respondeu roçando a sua mão esquerda no queixo:- não, mas nos dias de hoje, tudo é válido. Os quatro botijões de gás não fariam estragos tão intensos, Vander.

- Será que não?

O delegado avista Praxedes e grita: - quero que você observe melhor o terreno. Procure indícios, pegadas, armas ou coisas parecidas. Vamos averiguar se foi uma obra intencional. E depois procure interrogar os vândalos que estão presos, ele devem saber de alguma coisa.

Tadeu despediu-se do delegado e se retirou caminhando nas imediações, olhando para o chão a fim de encontrar algo que pudesse desvendar este estranho acidente.

Encontrou um canivete suiço e um pedaço de tubo plástico chamuscado com forte cheiro de pólvora e chamou a perícia. Tadeu pensou na possibilidade de ser uma parte do dinamite. Os peritos recolheram o material para análise de laboratório e segundo a previsão, o resultado sairia em três dias. Era um tempo longo e desanimou. Tadeu não tinha mais vontade de prosseguir, o cenário era horripilante e deu-se por encerrado a sua colaboração. Nada mais havia de se fazer e atendeu o celular que tocava seguidamente. Era a Lina, assustada com a explosão:- Lina, estou aqui no local e já estou indo embora. Este trabalho é somente para autoridades. Sim, Lina, estivemos aqui hoje pela manhã. Todos morreram, infelizmente. Escapamos por pouco! - Tadeu sentiu o choro de Lina. Preocupado, não esperou a carona de Praxedes e foi-se embora a pé, devagar. No caminho, agachou-se para pegar um caderno queimado e chamuscado, com escrita infantil - "o azar, às vezes é a própria condução para a sorte e a ".  

Tadeu não tinha entendido o significado. Faltava terminar a frase. Quem teria escrito se na ACD havia somente crianças especiais? Seria algum idoso?

De qualquer maneira, se fosse alguém especial fora de série, nada mais importava, todos estavam dizimados. A vida para Tadeu, era a mesma que uma lâmpada que se acende e que se apaga. 

 FIM continua

CIDADÃO ILUSTRE 18

Akio Kimura - 14/06/2011

A DOR É FRACA, O MEDO É FORTE

Tadeu e Lina passaram à noite na mansão por insistência do pai. No fundo, Lina desejava voltar ao hotel e contatar com a diretora da ADF/ACD, pois recebera um e-mail da Elisa confirmando a agenda, sem hora marcada para o encontro. Seo Jorge os havia convidado para conhecer o canavial, a usina, o galpão, a garagem de ônibus e o escritório, mas gentilmente recusado com promessa de voltar à fazenda nos próximos dias. Seo Jorge deixou-os à vontade no café da manhã. Enquanto fazia o seu desjejum, Tadeu, não conseguia guardar a ansiedade e estava disposto a encontrar-se com o delegado Vanderson, grande amigo de seu pai no passado e que muitas vezes, quando era pequenino, o pegara no colo. Tadeu custava a acreditar que o delegado estivesse envolvido em falcatruas, assim como Praxedes, o escrivão da polícia, seu amigo de infância, um grande caráter e agora, suspeito de pertencer ao bando. Tadeu precisava conversar, tirar as suas próprias conclusões, pois os boatos poderiam ser falsos. E torcia por isso.

Lina sentiu ausência da Katinha, mas logo ela surgiu com saci de pelúcia nos braços: - oi Katinha, nós estamos indo embora, mas voltaremos depois.

Katinha fez cara de tristeza, baixou a cabeça. Tadeu notou que ela pouco falava, era totalmente o oposto que o seo Jorge havia informado sobre ela. Lina, disfarçadamente perguntou: - Katinha, está com sono? Volta pra cama, não precisa ficar preocupada conosco, tá?

Tadeu deu uma golada no café e abraçou-a: - o sono deixa a gente indisposto, né irmãzinha? É melhor descansar. E sonhe bastante, tá? Quero que você conte os seus sonhos. Os sonhos não envelhecem.

De súbito Katinha arregalou os olhos: - Tadeu, o sonho envelhece sim. Sabe como? De acordo com a idade que temos. Se morrermos antes, o sonho morre também junto conosco e isto quer dizer que se o sonho morrer antes e não morrermos, teremos a oportunidade de criar um novo sonho, mais perto do real..

Tadeu sorriu e deu lugar à companheira para abraçá-la: - quem que te disse isso?

- Li na Internet. E vocês? Vão voltar?

Tadeu  passa as mão na cabeça, sorri, mas quem responde é a Lina: - vamos sim, Katinha. Agora, volte para cama, tá? E avise a sua mãe que voltaremos.

Katinha sorriu enquanto os dois se retiravam quando a empregada surgiu e perguntou:- vocês não vão comer o meu "cup cake" que fiz para vocês? Para que tanta pressa se vocês estão de férias?

Os dois se entreolharam e voltaram à mesa. Katinha, como num passe de mágica, juntou-se a eles. E a seguir, veio a dona Odete para compartilhar à mesa.

Antes de levá-la de carro para ADF/ACD no Morro, à meio caminho, contornaram uma rotatória que dá para uma estradinha de terra onde se lia uma placa: Casarão Antigo.  O local era onde Tadeu costumava nadar com os amiguinhos e principalmente, brincar de arremessar pedrinhas rentes à água sem afundar a pedra no primeiro toque. Lina ouve atenciosamente a história do passado de seu companheiro: - Praxedes era o campeão, Lina. Ele afundava a pedra com quatro toques.

Pararam o carro perto de uma paineira gigante e logo atrás, um portal com a placa CASARÃO ANTIGO, com dois vigias. No estacionamento, um ônibus de excursão, provavelmente de estudantes do Fundamental. Era uma casa antiga construída por coronéis na época da escravidão, mantida por seu pai, seo Jorge: - meu pai sempre primou pela preservação da cultura. A área é enorme. Há até uma pequena floresta, e la em cima, uma espécie de zoológico. Quando ele recebeu estas terras de herança, ele seguiu os conselhos do pai para preservar esta área.

Entraram e se encontraram com o grupo de crianças em férias e alguns adultos com máquinas fotográficas. Tadeu reconheceu a monitora, uma antiga amiga de infância, Juliana. Trocaram cumprimentos com beijos no rosto, conversaram rapidamente. Lina entendeu que a professora estava apressada porque tinha que estar atenta aos movimentos do grupo, pois eram cerca de quinze crianças de diferentes cidades. Não podia perdê-las de vista.

Entraram. No quintal amplo, antes de do casarão, debaixo de um pequeno abrigo, coberto por telhados da época, um enorme tronco de madeira de lei, embutido verticamente no chão com argolas e correntes penduradas, o local exato onde os escravos sofriam castigos. Lina emocionou-se por ser afro-descendente e deixou escorrer lágrimas: - Tadeu, é descendente de coronel?

Tadeu, quase sem jeito, respondeu francamente: - sim. Lamento por isso.

Lina balançou a cabeça negativamente: - não se lamente, Tadeu. Nós estamos vivendo o presente e o passado, embora tenha sido triste para os negros, hoje, ao menos estamos vivendo, amando e trabalhando juntos. Mas ainda temos que lutar muito, embora a miscigenação tenha aos poucos, disseminando uma pequena parte do problema.

Tadeu abraça-a: - obrigado por ser compreensiva. Fico muito constrangido quando alguém fica sabendo que sou descendente dos coronéis.

E entram no casarão.  Na exposição da cozinha, fogão à lenha, panelas de barro e de ferro, cuias, garfos franceses e pratos portugueses. Havia até moringa de argila, um recipiente para armazenar água para beber. Na sala, mesa enorme de madeira maciça e cadeiras rústicas. No quarto, camas também de madeiras pesadas e armários de imbuia. Neste armário, Tadeu mostra à Lina que, na época de sua infãncia, tinha um fundo falso que só ele sabia e era onde se guardava as suas bolinhas de gude e gibís antigos de estimação. Havia ainda, uma bola de futebol e um  pião com fieira enrolada. Ao abrir o fundo falso debaixo da gaveta, Tadeu se surpreendeu. Além desses objetos de infância, havia um par de próteses, uma muleta, bengala e suportes de segurança para alpinismo.

Lina, ao ver os objetos, identificou rapidamente: - é da Elisa! Mas por quê ela guarda os apetrechos aqui?

Tadeu pensou e respondeu: - talvez ela já tenha trocado esses equipamentos. Está bem usado.

De repente, Lina pede para Tadeu fechar o armário: - Tadeu, fecha! As crianças estão vindo para este quarto!

Tadeu fecha o armário e saem antes das crianças entrarem. A monitora Juliana os cuprimenta novamente em tom de brincadeira:- óia aqui nóis travéis!   

O casal deixa o local e vai para a cabana dos escravos. Não havia quase nada. Apenas um altar em forma de casinha, feito com restos de azulejos portugueses que sobraram de uma construção. Havia uma estátua feita de barro, com rosto irreconhecível, provavelmente, da Santa Bárbara, a Iansã. Tadeu mostrou outro esconderijo, debaixo do altar: - aqui me escondia quando brincava de esconde-esconde. Batia "pique" sempre!

E outra surpresa ao remover o altar: - Lina, veja!

No esconderijo, havia pistolas, fuzis, uniformes cinzas, capacetes de motociclistas, luvas, máscaras e outros objetos. Lina logo matou a xarada: - deve ser daqueles que tranformaram a pessoa em pó! Se lembra?

Tadeu logo discordou: - sim! Mas eles usavam uniformes pretos. Estes, são cinzas. Foram aqueles que me abordaram no bar. Eles foram bacanas!

Lina, sem entender, perguntou: - então há duas facções armadas?

Tadeu: - três! A oficial da PM do estado, ROME da prefeitura e este de uniforme cinza que não sei o nome. Para não fazer confusão, vou apelidar de OS CINZAS.

Lina, expressando temor em seus olhos, diz com voz trêmula: - Tadeu, vamos embora! Este lugar está dando arrepios!

- Vamos sim e agora!

No caminho, Tadeu mostra um caminho da floresta que sobe morro acima. O chão é de terra, mas há pedras centenárias embutidas no chão para facilitar a caminhada: - seguindo aquelas pedras, dá lá onde há viveiros de pássaros.

Lina, preocupada, se manifesta: - nós vamos lá? Depois que eu vi, não desejo ir!

Tadeu tenta convencê-la: - vamos. Lá tem coisa interessante! Sabia que lá tem uma caverna onde os escravos se esconderam quando houve uma rebelião? Tem manuscritos escritos na linguagem Iorubá. Os documentos estão bem preservados dentro de um balcão, protegido por vidros temperados na parte superior. Quando sai daqui para São Paulo a estudo, havia dois faxineiros negros, descendentes, que cuidavam do museu. Vamos lá? Eles trabalham com muito amor. São verdadeiros guardiões.

Lina, desanimada pelo que viu até o momentos, resolve recusar: - Tadeu, deixa para outro dia. Hoje, estou assustada! Estou com medo, você não está?

-  Você está com medo porque tem fraqueza na dor. Eu estou apenas assustado no momento.

Lina reprova as falas de Tadeu: -  O susto define o medo momentâneamente, mas isso não quer dizer que eu tenha fraqueza na dor. O medo é mais forte e me fere. Tadeu, vamos deixar de filosofar e vamos embora! Tá enchendo o saco!

- Está bem! Temos tempo suficiente, afinal de contas, estamos de férias!

Lina sorri e agradece.

E foram em direção à cidade, mais precisamente, para ADF/ACD, o local que mais interessava à Lina.

FIM continua

 

CIDADÃO ILUSTRE 17

Akio Kimura - 05/06-2011

BRINCANDO DE DEUS

Seo Jorge, com seu jeito bonachão, estava feliz da vida por ter realizado o seu sonho de ter construído uma mansão, fez questão de levar o filho para o salão de festas no andar de cima. Sairam da biblioteca e percorreram um corredor com oito quartos de hóspedes, quatro de cada lado, quase um hotel. No meio, subiram uma escada espiral até o andar de cima e ao lado direito da escada, quatro quartos, um de casal e três de solteiro. Seo Jorge foi explicando para Tadeu: - este, depois do meu, é o quarto da Katinha, o seguinte, é do Wagner e este último é o seu. Sempre achamos que você voltaria um dia.

Tadeu abraçou-o com franqueza e sorriu agradecido: - obrigado pai, pela consideração.

O pai sorriu satisfeito e apontou o lado direito, onde começava o salão. Era uma porta enorme tapado por uma bela cortina grená, igual a dos cinemas. Logo ao lado, duas toaletes, obviamente, masculina e feminina. E o salão estava repleta de mesas redondas e cadeiras de peroba, reforçada para eventuais sobrepesos. E no fundo, a cozinha, ou melhor, a churrasqueira, separada por uma parede de vidro. E no teto, um exaustor para expulsar a fumaça para o exterior. Do lado direito do salão, três amplas janelas com vistas para o campo. Do lado oposto, um pequeno palco, encoberto por uma cortina azulada e prateada. E do lado, um outra escada que dá para o mesanino.

- Belo salão, seo Jorge, dá para montar uma churrascaria num caso de emergência. E este mesanino?

Seo Jorge coçou a cabeça e respondeu com sorriso zombeteiro:- quem sabe viro um "restaureteur"? Ehh..Ah..Este mesanino, Tadeu, era o meu escritório. Antes era todo aberto, agora, está fechado com uma porta de aço.

- Por quê tudo isso?

- Você não vai acreditar, era o meu escritório, mas agora é da Katinha. Ela bateu o pé querendo e conseguiu me convencer. E a porta de aço, é uma exigência dela.

Tadeu se surpreendeu com a atitude da sua irmãzinha caçula:- exigência? Para quê? Ela só tem dez anos!

- Só dez, imagine quando tiver onze! Ela quer concentração total para realização de trabalhos de escola sem que ninguém a interrompa. Desde pequena, ela foi sempre assim.

Tadeu pensou bem e respondeu: - é melhor assim! Ela tem razão. Estudar é sagrado.

O pai levou-o até a escada, abriu a porta emitindo voz num microfone acoplado ao lado da porta. Em seguida, outro equipamento acoplado na parede para a leitura das íris. A porta se abriu escorregando para o lado esquerdo.

Seo Jorge aproximou-se de Tadeu e explicou em poucas palavras em voz baixa:- é o estúdio dela. É onde ela estuda, é onde está o seu computador e onde ela faz as gravações de vídeo. Veja, tem tudo! Até equipamento de som para animar a festa. Ela sempre dá uma de DJ. Ela é fissurada nisso e tudo me faz crer que ela seguirá os seus passos. Ela adora gravar imagens. E mais adiante, naquele balcão redondo, há um orifício no chão para gravar em grande angular para obter a visão total do salão. No canto direito da parede, descendo esta escada, ela tem uma visão ampla do palco. Este é o mundinho dela.

Tadeu, estupefato, descansou sobre uma cadeira e balançou a cabeça: - isso porque ela só tem dez anos! Ela domina bem os equipamentos?

Seo Jorge sorriu ironicamente: - parece que ela nasceu sabendo! Quando você quiser, ela te mostra tudo. Eu não sei mexer nestas geringonças! E ela ainda tem tempo para visitar os Rivérios e a Elisa. Ela vai de bicicleta depois de ter feito as tarefas escolares.

- Que proeza! E o senhor está verficando o que ela faz na internet?

Seo Jorge senta-se na cadeira do computador e responde com ar confiante:- ela é do tipo que mostra tudo aos pais. Ela não tem medo. Ela é de confiança. Ela sabe lidar com as situações.

Tadeu olha fixamente para o pai e explica:- pai, as crianças de hoje, são diferentes fora da escola.

- Já notei, mas Katinha é normal. Eu e a sua mãe temos acompanhado todos os passos. Ela é bem feitinha. Não se preocupe. Mas enquanto você estiver aqui, pode ajudar-me a verificar se há mudança de comportamento. Somente uma vez que a peguei com pensamento longe e quando a interrompi, ela me disse que estava viajando no imaginário, longe daqui e me perguntou qual seria a profundidade do abismo que separa o real e a fantasia. Você sabe, Tadeu?

- Não. Talvez não haja essa lacuna profunda. Às vezes o real e o imaginário possam estar mais próxima do que se imagina. E o que ela respondeu?

- A Katinha respondeu com pensamento de criança, infantilmente: - a profundidade do abismo é a mesma, o que difere é a pressão acumulada. É como uma placa tectônica. A pressão faz com que a placa se assente fazendo com que o real e a fantasia se encontrem. E o surto, é o leite derramando, pressionado pelo excesso de calor. É a loucura. 

 Tadeu riu:- seo Jorge, essas coisas a gente lê na Internet. Mas é um bom começo.

O pai admitiu e respondeu: - pelo menos, ela lê de tudo, o que é muito importante. 

Os dois voltaram para o salão se dirigiram à cozinha. Seo Jorge abriu a geladeira e pegou queijo suiço, copa, rosbife e azeitonas montando uma tábua de frios. Tadeu ajudou-o a abrir uma garrafa de vinho Malbec, tinto seco. Tadeu sentou-se à mesa e perguntou sobre o médico que operou Elisa: - e o médico que realizou a operação?

Seo Jorge tomou posse do cálice de vinho, cheirou e aspirou profundamente tentando identificar o sabor:-  tonel de carvalho, leve perfume de frutas vermelhas e baunilha e respondeu à pergunta: - na verdade, quem fez a cirurgia e implantou próteses, foi uma equipe especializada do Doutor Cristóvão, com sucesso.

- E o implante do Chips?

O pai respondeu depois do gole paradisíaco e disse para Tadeu, cheire e beba. Sinta o líquido em sua boca; e continuou a conversa; - e o doutor Cristóvão é um neocirurgião, cientista e inventor. Nunca haverá uma pessoa como ele. A história dele é incrível! É surreal, surpreendente e possível nos dias de hoje. Ele é um foragido da justiça americana. Não sabemos se ele é ele ou é outra pessoa. Ele trabalhava num Centro de Pesquisa dos EUA, altamente confidencial que estuda a mente humana.

- Parece interessante, pai, continue.

- O nome dele é Cristhopher Jr., mas  adotamos o nome de doutor Cristóvão, ou melhor, à moda brasileira,  Dr. Cristo. Ele se meteu numa enrascada, ele o colega chamado Amiggio desviavam as suas próprias descobertas para seus proveitos vendendo para outros países. Ele não teve alternativas e teve que se evadir do país. O Amiggio está lá, pagando pelo que fez em serviços de pesquisa, isto é, está trabalhando de graça.

- Eles não foram honestos.

Seo Jorge espetou mais um queijo, saboreou mastigando lentamente e sorveu mais um gole de vinho:- o fato é que ele mesmo iniciou as falcatruas com a conivência do Amiggio. É que eles tinham os mesmos ideais. Serem transparentes, até venderam a relatórios secretos para WikiLeaks. Eles não admitiam pesquisas secretas. Achavam que o mundo deveria ter o direito saber tudo que estavam em andamento. Houve um desentendimento com alto comando e por castigo, punição! E se revoltaram quando a verba foi cortada pela metade e consequentemente, os salários abaixados. E Dr. Cristo veio para o Brasil, um país muito famoso pela impunidade, que para eles, um país maravilhoso, democrático. E é ai que entro na panela, Tadeu. Estou financiando um foragido da justiça americana. Estou me equilibrando numa navalha afiadíssima.

- Por quê isso, pai? O senhor se mete como espião dos dois lados aqui em Evilate tentando acabar com o bando de charlatães que governam o município e paradoxalmente,  protege e financia um dos homens mais procurados dos EUA. O senhor é doido! A qualquer hora, esta placa tectônica vai se assentar, ou o leite pode derramar subitamente.

Seo Jorge respondeu laconicamente: - não tenho medo de morrer!

- Não se trata disso, pai. E nós? E se o senhor for preso?

Seo Jorge se acalma e tenta explicar: - Tadeu, na verdade, estou querendo ver o espetáculo. Depois que Dr. Cristo implantou um chips no pescoço da Elisa, fiquei maravilhado. É a primeira vez que o doutor fez a cirurgia com um chips de ponta chamado Nanotecnologia, já ouviu falar nisso?

- Já! É uma tendência desta era. 

- Pois é. Estou financiando o projeto de "Nanochips" do Dr. Cristo. O que está implantado na Elisa é um chips do tamanho de um fio de cabelo. Não incomoda o corpo humano. É um chips que permite gravar a memória da vida inteira de uma pessoa. Permite viver quase normalmente. O exemplo é o próprio doutor. Na verdade, ele é um implantado. O verdadeiro Doutor Cristo é um cientista alemão que ainda vive no suburbio de Zurique. A idade dele é avançada, talvez mais de cem anos. O "Nanochips" o faz sobreviver no corpo de outra pessoa, basta implantá-lo.

- Em outra pessoa? Como assim, seo Jorge?

Seo Jorge pausou e olhou fixamente nos olhos de Tadeu: - filho, vou resumir porque eu mesmo não sei explicar direito. Este doutor Cristo que está aí, era um cadáver roubado de um hospital de Denver, onde o verdadeiro doutor Cristo estava ministrando palestra no próprio salão. Neste dia, o doutor foi informado que havia um cadáver fresco e lá mesmo, nas altas madrugadas, com ajuda de um grupo de médicos e várias enfermeiras, implantou "Nanochips".

- E que dados tinha no Nanochips?

Seo Jorge postou os cotovelos na mesa aproximando-se de Tadeu: - você não vai acreditar. Os dados são todos da vida dele, desde o nascimento até hoje. Este chips é o mais perfeito que ele conseguiu construir porque detecta doenças de todos os tipos. Ele é doutor Cristo e o doutor Cristhopher. Eles trocam e-mail entre eles mesmos - Evilate-Zurique.

- Pai, isso não é possível!

- É possível sim! A Elisa, na verdade, estava semi-morta. O doutor Cristo copiou os dados do cérebro sa Elisa no Nanochips e implantou.

Tadeu arregalou os olhos, respirou fundo com expressão assustada: - quer dizer que Elisa é semi-morta-viva, assim como este doutor? 

O pai enrrugou a testa e disse com certeza:- sim!

- O doutor está brincando de Deus!

Os dois se olharam com pensamentos para o céu e permaneceram quietos por alguns segundos.

- Ou de Demonio! Filho, vamos descer. Este salão está me dando calafrios.

- Vamo sim pai! É prá já!

- Pai, e o Wagner?

- Ele está ocupado. Depois da ronda pela região, ele teve que viajar às pressas para São Paulo parasresolver algumas questões sobre a exportação de etanol para o exterior.

- Muito bem, então não vou revê-lo tão cedo. Qual é o número ou sigla quando ele faz a ronda?

- Ele não quer ser identificado, mas direi: - dois meninos de bicicletas na beira do lago observam dois patos. Fácil!

FIM continua    

CIDADÃO ILUSTRE 10

Akio Kimura - 09/03/2011 - Não recomendado para menores e pessoas sensíveis.

UM CASO BIZARRO

Desde a hora em que Elisa convidara Tadeu e Lina para entrar em sua casa, o condor Jô observava-os com seu olhos aguçados. A ave já sabia distinguir os amigos e os inimigos de sua dona pela expressão facial e corporal, pelo tom de voz e movimentos bruscos. Ficou no poleiro caçando tranquilamente os seus piolhos por baixo das asas.

Tadeu com ar de preocupação, assentou-se comodamente no sofá, olhou em volta da sala. Tudo indicava que o cheiro forte de medicamentos nas prateleiras já começava a incomodar. Olhou de soslaio para Lina demonstrando receio pela pergunta que iria fazer. Engoliu em seco, tossiu, passou a língua nos lábios e perguntou: - Elisa, como foi o início de sua...como posso te dizer...da morte de seu pai?; imediatamente, Elisa tomou parte da pergunta e respondeu sem nenhum constrangimento: - tudo começou com a volta dele para casa após o serviço de roça. Ele mesmo fez a "janta". Eram cogumelos enormes que pareciam cascos de tartarugas. Ele cortou cuidadosamente como se cortasse um "filé-mignon", temperou com ervas e alguns ingredientes que ele havia adquirido num camelô da cidade e grelhou na pequena churrasqueira de ferro. Experimentei um pedaço e sabor era de picanha. 

Lina sorriu surpresa com a descoberta e perguntou: - o seu pai era um pesquisador? Os cogumelos, se bem tratados e descobrir como eliminar toxinas, poderiam substituir a carne! 

Elisa esfregou as mãos no rosto como se estivesse procurando uma resposta convincente, mas o seu olhar suscitou dúvidas: - Lina, seria sensacional se ele fosse um estudioso, pois não aconteceria o que aconteceu com ele; - o que houve? O cogumelo era venenoso?; -não sei, Lina. Ele era idoso e tinha mil problemas de saúde, embora ele não admitisse. Veja o que houve: após duas horas, ele ficou febril, com dores na garganta e cabeça. E eu não fiquei. Por precaução, ele tomou comprimidos e foi se deitar. Mas após dez minutos, ele teve espasmos e vômitos. A cena foi horrível! Era a primeira vez que tinha visto desespero no rosto de meu pai, os seus olhos estavam esbugalhados e respirava com dificuldade até desfalecer batendo o rosto sobre a mesa. Ao acordar pela manhã, fiz café reforçado, um misto quente, ovos mexidos e salada de frutas. E outra surpresa impressionante, ele não conseguia ingerir nenhum pedaço de pão e nem mesmo sorver café com leite. A sua fala ficou travada. Pedi para que ele mostrasse a língua, e ela estava lilás e seca feito carne de sol. Notei ausência de saliva. Desesperada, chamei pelo hospital, mas em vão. Por ser Sábado, o motorista de ambulância estava de folga. 

Tadeu, impressionado com a história, respondeu e perguntou: - Lina, esta cidade ainda tem seus defeitos.

Lina: -  seu pai tinha pressão baixa? Era diabético? Ou foi realmente o cogumelo que fez efeito?

Elisa levantou-se apoiando na bengala e dirigiu-se à mesa: - não sei, Lina. Nunca tivemos essa preocupação de medir pressão arterial.  Ele, teimoso, nunca quis entrar num hospital. Quanto ao diabetes, talvez. Eu tenho. Agora, ele sempre  colheu cogumelos. Mas ele não é um especialista, estes últimos, eram  diferentes, mas isto não quer dizer que sejam os vilões. Logo que acordei Domingo pela manhã, ouvi um grito estridente. Um grito de terror. Ele havia falecido. Estava caído no chão. Não respirava mais. Os seus olhos estavam cinzentos e sem vida. A sua cama estava molhada de sangue. As paredes estavam manchadas com rastros de mãos. Provavelmente, ele havia tentado se apoiar. Não sabia o que fazer. Era a primeira vez que  encarava a morte com sangue. É claro, sempre cuidei dos especiais e velhos na Associação, presenciei pessoas morrendo, mas não desse jeito. Mas também, não queria aceitar a sua morte. Tinha enorme esperança de que ele voltasse a si. Limpei o quarto, vestí-o com a sua melhor roupa. A minha intenção, quando ele acordasse, era levá-lo para a missa das oito. Ele não acordou. Acendí velas ao seu redor e rezei por horas como se fosse uma beata, afinal de contas, ele era o meu pai e eu tinha conhecimento de que pedir a vida de volta era impossível e contra a natureza do ser vivo. No decorrer das horas o seu corpo foi se deteriorando até entrar em fase de decomposição. O ar fétido invadiu toda a casa, impregnando-se nas paredes, nos poros da minha pele, no ar que respirava intoxicando os meus pulmões. Pela janela, presenciei os urubus no céu rondando. Tinha que acreditar em sua morte. De repente, os pássaros revoaram para outras bandas. O que teria acontecido? Por um momento, pensei estar num sonho. Era presença de um grande abutre, com pose de rei, com suas asas de grande envergadura e garras poderosas os havia expulsado. Ele plainou no céu por uns minutos até aterrisar em frente à minha porta. Ele queria entrar. Ouvia o pio dele, parecido com o de peru, mas eu o ouvia como se fosse palavra articulada: Jô! Jô! E assim, abri a porta e ele entrou. Vocês o viram pousar no poleiro, é enorme. Ele foi diretamente até o quarto e iniciou-se a bicar o corpo. Por um momento, o vi como se fosse um anjo. Sim, naquele momento, ele era um anjo. Ouvia até a sua voz dizendo: - sirva-se. E impelido pela imaginação, pelo subconsciente, acompanhei-o a saciar a fome com carne podre de meu pai. Vomitei, senti-me mal, mas no entanto o pássaro ingeria com muito gosto. Acompanhei-o degustando pedaço por pedaço. Cada mastigada, era uma viagem para o inferno. Meu Deus! Como pude suportar? Era um castigo? Como não tive a capacidade de analisar um erro tão nojento? Sabia exatamente que, de um lado, o meu consciente me dizia que o meu ato de canibalismo era um sacrifício sem fundamentos, irreal. E por outro, movido pela loucura, pela inércia da minha razão no momento, o meu ato de canibalismo era correto. Naquela hora, desejei tanto encontrar um caminho no arcoiris para poder sonhar com a realidade. E veio com os Rivérios, os anões, você os conhece, Tadeu. Eles sentiram o cheiro, entraram na casa e me socorreram. 

Lina, com expressão de mal-estar, perguntou: - por quê não chamou alguém pelo celular? Pedir socorro! O que deu em você?

Elisa abaixou a cabeça e tentou explicar: - Lina, nem tive tempo para pensar em socorro. Já estava envolvida numa situação plena de surto. O nosso cérebro é vasto e às vezes nos leva para a extremidade nos atos. É um momento em que sentimos o vazio na alma e não ficamos imunes ao comportamento bizarro. É um momento em que perdemos o bom senso por alguns segundos. É como se fosse uma droga forte e poderosa tentando arrancar a alma à força.

- E no Hospital? Como te socorreram?, perguntou Tadeu.

- Não me atenderam. Os Rivérios me levaram para uma clínica desconhecida, situada numa travessa da avenida principal, a Clínica do doutor Cristopher. Ele me salvou a vida. Estava mais morta do que viva, era um zumbi em estado de putrefação. Fiquei quase dois meses em suas mãos. Quando voltei a si, tinha duas próteses nas minhas pernas. Tinha um "chips" da finura de um fio de cabelo embutido na parte interna do pescoço. E a minha voz estava perdida, mas ele conseguiu recuperar com uma operação complicada que durou quase sete horas.

Tadeu forçou a memória.

- Doutor Cristopher? Epa! Espere! Doutor Cristopher ou Cristo como alguns o chamam, acho que já ouvi esse nome! Ele operou o meu primo! O Herbin! 

MSN - Fiquei surpreso, Will! Herbin sou eu! O que estou fazendo neste filme? Será que vou aparecer aí?

Will -  Também fiquei chocado. O que tem a ver você, que está fora do filme?

Herbin - Doutor Cristo também! Ele vai aparecer, mas quando, não sei! Will, você está manipulando essa estória absurda! Vai piorar as coisas! Não modifique o roteiro!

Will - Vai melhorar, creio eu!

Herbin - Will, a estória tem dono! Você não tem direito de modificar sem autorização do autor!

Will - Não se preocupe, depois deleto a parte modificada.

Herbin - Você está jogando, não está?

Will- Não. Só estou brincando. Agora, cá entre nós, esse condor é do "peru"!

Herbin - Da Bolívia, Will! Câmbio.

E o filme prosseguiu.

Tadeu levantou-se do sofá e disse: - Elisa, temos que visitar os Rivérios. Você quer mandar algum recado?

- Não. Eles costumam passar por aqui depois do trabalho para ver se estou bem. E você , Lina, foi um prazer conhecê-la. Espero que a ACD aceite a sua colaboração. De qualquer maneira, enviarei um e-mail recomendando a sua pessoa.

- Grata! Foi muito prazer em conhecê-la!

FIM-continua

 

 

CIDADÃO ILUSTRE 02

Akio Kimura - 23/01/2011

AS IMAGENS DO IMAGINÁRIO

MSN

À primeira vista, Tadeu é daquele tipo que ama a fotografia e faz dela, extensão de sua vida. É um daqueles que capta imagens do cotidiano para aprisioná-las eternamente em sua alma. Poderia também ser um fugitivo da realidade ou sequestrador de fantasias para refugiar em si próprio. Ou seria ele, simplesmente, um fotógrafo que busca imagens de impacto e ao mesmo tempo, tentar impregnar uma dose de poesia?

MSN

- Herbin, não pedi o seu ponto de vista. Você disse-me para não interromper o filme e estou respeitando isso. Para de falar "babaquices"! Impregnar uma dose de poesia! Ah!Ah! Tá pensando que é o Miazawa Kazufumi com "Shima Uta" que faz as letras parecerem fotografias?  

- Parou, Will! Parou! São apenas anotações que nada tem a ver com a banda "The Boom"! Nem pensei nisso! Foi apenas uma emergência banal! E Kazufumi é da década passada! Você é um "yonsei", senhor William Furushita de Almeida! Bye!

Tadeu caminha pela ruas do Bixiga entre poucos carros que se movimentam. De repente, mira a sua máquina num senhor de boné italiano esperando o farol verde para travessia. De repente, Tadeu sente um mal estar. Os seus olhos embaçam a ponto de se apoiar numa parede de uma casa. Pressão alta? Baixa? Ele leva as mãos à nuca e sente no pescoço, as veias pulsando forte. Ele dirige-se até a guia da calçada e senta-se. Respira fundo várias vezes e mesmo assim, põe o seu olho no visor e tenta enquadrar o senhor de boné: - não posso perder essa! É um típico italiano!

Um calafrio toma conta do corpo. Subitamente, no quadro, a figura de uma menina com capuz vermelho na cabeça, que lembrava o filme "Morte em Veneza" de Nicollas Roeg; cujo personagem principal tinha essa visão e perseguia o "Chapeuzinho" pelos becos de Veneza. Tadeu foca rapidamente e dispara os "cliques" no automático, fotos seguidas de outras. Ele nota que há uma neblina azulada envolvendo a garota e por um momento, afasta os olhos do visor interrompendo a operação. Queria se localizar e caminha até encontrar placa de rua: Rui Barbosa, a sua rua onde residira há muito tempo até aos dezessete anos e que nem havia reconhecido sequer. Suspirou e pensou alto: - vê se pode! Estou aqui me reencontrando!

E retornou o seu olhar para o visor. Nada. O momento de um sonho havia se dissipado tão rápido quanto viera. Em seu corpo, uma sensação de cansaço, um suadouro na testa e a dor intensa na cabeça. Quantas vezes tivera essa sensação? Muitas. O fato de ter visto a neblina e a menina não era motivo para se preocupar, era fruto do imaginário produzido pelo estresse e não era a primeira vez. Sentou-se novamente na guia da calçada. Passou a mão esquerda na testa e sentiu temperatura alta. Febre. Calafrio. Ele retira um comprimido do bolso de seu blusão e o mastiga vorazmente. Uma pausa com respiração funda, diversas vezes. Uma nítida melhora. Pega a máquina e olha novamente o visor como se estivesse se concentrando. Aos poucos, torna a ver manchas azuladas se movimentando da direita para esquerda do quadro até sumir; gira a máquina para os lados à procura da garotinha de capuz vermelho. Sem tirar os olhos do visor, ele percorre às cegas pela calçada. Não queria perdê-la de maneira nenhuma porque sabia que era um raro momento de excitação de seu cérebro. A mancha retorna novamente pelo lado esquerdo formando um vulto pequenino que se movimenta, emitindo passos mecânicos, num cenário escuro e fantasmagórico. Tadeu ajusta o obturador para 60 e diafragma 2 sem tirar os olhos do visor e aperta o botão várias vezes: - peguei!

Ao retirar os olhos do visor, a claridade normal. Mas sentiu no ar, odor desagradável de carniça e rapidamente, verficou as solas de seus sapatos: - não, não foi o que eu pensei.

MSN

Logo, dei uma pausa no PCU e perguntei ao Will: -  Will, pare de brincar! Deixe-me assistir ao filme! Você está manipulando a estória! Por quê botou carniça no assunto? Até parece aquele personagem amarelado do "Sin City", o torturador baixinho! Lembra-se? Com Bruce Willis! Jessica Alba! Filme do diretor Robert Rodriguez!

- Sim, assistí ao filme, mas não tem nada a ver com o cheiro de carniça! É porque você peidou, Herbin! Continue assistindo, não estou mexendo em nada. Sou inocente!

- Tá! Entendí!

Tadeu fecha e abre os olhos e vê aquele senhor de boné chegando do outro lado da calçada, o que lhe causou estranheza - há poucos segundos, no mesmo local, presença da menina era incontestável. Ele havia se deslocado do lugar, tinha caminhado e no entanto, estava no mesmo lugar. E deduziu o seguinte: 1 - seria falta de oxigênio no cérebro que faz ter essas visões duplas. 2 - é sabido que em situação como essa, o cérebro libera substâncias para alimentar a banda neural para a sua própria sobrevivência. 3 -Em alguns casos, poderia haver uma separação dos neuronios acarretando imagens desfiguradas e extraordinárias do passado ou de pessoas queridas. E anotou em sua caderneta com uma interrogação: o tempo e o espaço estava se fundindo? Serviço para o seu analista.

Tadeu sente uma estranha sensação. Talvez por um lapso de tempo e inconsciência fervilhante, para não se perder, passa a acelerar os passos à procura por placas de ruas conhecidas como: Jaceguai, Santo Antonio, Treze de Maio até parar nas imediações da Rua dos Ingleses. Ele sobe uma pequena escadaria pulando os degraus de dois em dois:- Uma praça? Antigamente tinha um teatro por aqui; pensou. Tadeu enfoca o local. No visor, novamente a volta das neblinas azuladas. Subitamente, uma voz feminina, cheia de eco, atravessa sibilando em seus ouvidos como se estivesse girando em sua volta: "siga-me com seus rastros de fogo nestas nebulosas ruas feitas de pedras mortas".  Ele "clica" retirando os olhos do visor. Uma claridade intensa. Sente um princípio de desmaio, ânsia de vômito. Os seus olhos se fecham. Senta-se novamente.

Após o transe de alguns segundos, ele acorda. O senhor de boné se vira e olha em sua direção. Rapidamente, ele aciona o botão: - peguei!

Olha em volta, se levanta e caminha em direção às pessoas. Solicita informações para alguns moradores a respeito de uma garota perdida. Alguns estranham e respondem apenas com gestos negativos. Caminha apressado para uma rua estreita e ladeirada: Praça das Bandeiras. O terminal de ônibus. E foi para uma ruela onde havia deixado o seu carro. Na paleta, uma multa.

O seu corpo já denunciava cansaço exagerado, por isso, despede-se do bairro com um ritual costumeiro: olhando para as casas e prédios,  faz reverência juntando as mãos para o céu, como se agradecesse por ter tido uma ótima experiência. Fora um dia produtivo.  

Deu a volta no quarteirão, entrou no seu carro em direção à Avenida Nove de Julho.

Ainda sim, tinha uma tarde inteira para se recuperar do transe.

FIM-Continua

UM CIDADÃO ILUSTRE 01

Akio Kimura - 18/02/2007(CONTINUAÇÃO DE CRUZES NO INFERNO)

O "GAME"

 Ao entrar no apartamento, notei uma nítida mudança na decoração da sala. O meu bar estava postado à esquerda, longe da janela para que as bebidas e os meus cálices de cristal não ficassem expostas ao sol. À direita, uma tela nova LCD 42" estava pregada na parede e à frente, uma poltrona americana "novinha em folha", de três lugares, aquela em que se puxa uma alavanca e o assento se move transformando-se num sofá-cama. E as posições dos quadros nas paredes estavam fora do alcance dos raios solares. Assim é a Zefa, bastava a minha ausência para que encontrasse motivos para modificar a disposição da sala. E ainda, ela havia jogado no lixo, todos os bagulhos que tinha na prateleira do "rack", principalmente o meu diploma de curso superior. Somente livros havia escapado da devassa.

- Zefa! Cadê o meu canudo que estava no "rack" junto com os meus CDs?

Zefa, com seu jeito matreiro. com cara de medo, respondeu quase que sussurrando: - Herbin, joguei fora! Não tinha nada dentro! Estava tão vazio quanto a minha cabeça.

Sorri pela piada, balancei a cabeça olhando para o chão. O velho tapete tinha sido susbstituido por um persa. Aí, me lembrei que recebera somente o canudo na festa de formatura. O certificado receberia após um mês na secretária da faculdade. Passaram-se quatro anos e ainda não tinha nem sequer pensado em buscar o dito cujo.

- Por quê você trocou o tapete e o sofá?

- Tapete foi rasgado pelo cão. O sofá estava todo mordido! Estava com cheiro de bosta. O Bob fez a festa!

Bob era o meu cão de estimação. Um "beagle", aquele baixinho de corpo comprido e olhar meigo, parecido com uma enguia e Zefa continuou:

- Bob estava com diarréia e a sala ficou empesteada! Ele pulou nos braços de Will e deixou ele fedido! Foi embora xingando! Não aguentei de rir!

- Will? O que ele veio fazer aqui?

- Eu pedi ajuda pra ele. Não foi ele que deu Bob de presente para você? Disse que cãozinho estava muito doente e ele veio correndinho!

- E ele resolveu?

- Resolveu! Ele chamou um veterinário e ele disse que o Bob estava com "cinamose". Não tinha mais escapatória. Pedi para "eutanasiar" o bichinho. Herbin, você não vai denunciar para Sociedade dos Protetores de Animais, vai?

- É claro que não! Bob já estava no "fim da picada" e estava mais velho do que "Papai Noel"! Nunca iria fazer isso com a minha melhor empregada e a minha melhor ex-esposa.

Ela sorriu e aquela aparência de cansaço e medo havia desaparecido num piscar de olhos.

- Zefa, não se preocupe, não vou ter mais cão dentro de um apartamento.

Dispensei-a antes do horário, pois queria ficar só. Queria beber um "drink", é claro! Coloquei alguns cubos de gelo moído num copo fundo, duas partes de brandy e uma parte de creme de menta e duas gotas de "ginger-alle". Sentei-me na poltrona, liguei a TV sorvendo aos poucos, a ponto de estalar a língua a cada gole.

Pena que as notícias de TV sejam as mesmas de sempre, noticiadas com ênfase sensacionalista como: sequestro, corrupção, mortes, desastres automotivos, inundações e pandemias. Nada de notícias boas. Após horas de insonia, pego o meu teclado avulso e na tela do LCD tento entrar no "game" do Will, que me libera o jogo pelo MSN.

- Que jogo que você quer, Herbin?

- Do roteiro de cinema. Dá para fazer esse obséquio?

- Dá. É filme em que seu primo Tadeu é protagonista, filho do seu tio Antonio.

- Will, então me libera! E por favor, não jogue o jogo! Quero só assistir!

Entro e já reconheço o lugar: bairro da Bela Vista, carinhosamente chamado de Bixiga.

Domingo de manhã.

Uma senhora idosa caminha pela 13 de Maio com um terço na mão, um véu na cabeça com ingênuo andar de criança. Ela se dirige até a igreja Achiropita. Do outro lado, atrás das colunas dos viadutos, Tadeu está armado com uma máquina fotográfica, aquela antiga, cujo filme exige revelação e cópia através de processos químicos. Ele ajeita e dispara automaticamente, alguns cliques em direção à velhinha.

De repente, no monitor, mostra um "close" do fotógrafo. O que teria acontecido? Será que Will está se intrometendo na estória? Ei Will! para com isso! Ele nem se dá conta. Então vai pra P.Q.P!

O semblante do fotógrafo mostra-se fatigado com traços de depressão. De súbito, entra um ruído. A cena mostra os bastidores, uma espécie de "making-up". É uma discussão sobre o final do filme com o diretor e também sobre o nome do personagem: Tadeu. 

O monitor exibe a cena com vários homens uniformizados e armados com pistolas dentro de um cinema, com filme em exibição. Eles procuram um fugitivo, papel desempenhado por Tadeu, que está quase no meio da sala, entre duas moças. A lanterna dos perseguidores iluminam todas as poltronas, entre elas, a de Tadeu, que, afoito de vez, foge pelo corredor em direção à entrada, mas Tadeu é alvejado com cinco disparos, caindo inerte nas proximidades da porta. A platéia se aterroriza e dá início a um tumulto, mas contido pelos policiais que incentivam a assistir ao filme. E esse final é que intrigava o Tadeu. Ele é carregado até o camburão como se fosse um vilão. É claro, o filme era todo repleto de metáforas, mas Tadeu ator, não se convencia com esse final. O personagem era um excelente homem. E na tela do cinema, ainda com filme em exibição, o mesmo acontecimento. Um homem era baleado exatamente no mesmo lugar e fazia com que a platéia imaginasse que a perseguição dentro do cinema fosse uma encenação. O filme na tela acaba com a vítima sendo carregada para fora do cinema. As duas cenas formam uma espécie de elipse.

Marcelo era o dono do projeto, era produtor, diretor e lamentava ter desperdiçado quase trinta horas na edição do filme para discutir esse final. E a discussão ficara no ar: - Tadeu, é para o pessoal pensar!

- Não vai dar dinheiro! Nós vamos ficar devendo pra todo mundo. O pessoal gosta de final maniqueísta!

Tadeu sai desolado do estúdio e é uma manhã de Domingo. Mês? Maio, talvez, Junho ou Julho. Frio de danar, daqueles que fazem soltar fumaça pela boca. E alí estava Tadeu, no Bixiga para espairecer a sua mente. O clima frio fazia lembrar algum canto do mundo ao observar casas antigas. Itália, talvez. E ao fundo, espigões com ares futuristas. Esses casarões! Que obra de arte! Aonde estariam os descendentes desses que foram moradores há muito tempo? Provavelmente na Vila Mariana, Saúde, Brás, Pari, Mooca, Pinheiros, Butantã, Morumbi ou Alphaville? Quem sabe em Tókio? Eles deveriam preservar esses patrimonios históricos, se é que compensa. É preciso amar muito a cidade. Só assim.

Tadeu dá um tempo, examina a sua velha Nikon 35 mm, segura firme e circunda os olhos ao redor. Uma bela casa dos anos 20. Calcula a luminosidade do tempo e decide abrir o diafragma da objetiva para 5.6 e obturador a 60? Era isso mesmo que um professor dissera para fazer? A sua intenção era aplicar um chicote enquadrando o velho casarão e desfocar um automóvel em movimento à sua frente. Feito isso, compensaria o estresse obtido com a discussão. Só precisaria ficar só, era evidente que ninguém se atreveria a acordar cedo num Domingo gelado só  para ver um fotógrafo fotografando os detalhes das casas, dos portões de ferro e os telhados redondos arquitetado pelo honorável Ramos de Azevedo. Só para desestressar? Não, creio que não. E tinha certeza que as fotos sairiam como ele tinha planejado.

A sua cabeça estava sã. E foi garimpar mais imagens pelo bairro. Na escadaria da Don Orione.

Esse era o seu Domingo que ainda não tinha terminado.

Apenas começado.

FIM - (continua)


 

ESTÓRIA DE GORO 20-FINAL ALTERNATIVO

Akio Kimura - 30/12/2010

NADA DO BEM QUE ME FAÇA MAL

- Paulo, escute aqui, você disse que seu nome é Brás Cubas?

A doutora Lena mordeu seus lábios inferiores e arregalou os seus olhos, pausou alguns segundos e prosseguiu: - Paulo, você leu aquele livro que comprei no sebo?

Respondí calmamente: - lí e anotei e estou anotando agora este momento.

- Não era para anotar! Você tem ciência de que o livro é uma ficção?

Levantei-me da cadeira e respondí o que me veio à cabeça: - não sei. Estou saindo com a "Virgília" secretamente. É casada, mas é a mim que ela ama de verdade. "Lobo Neves" já era! Foda-se ele e a sua política!

- "Virgília"? Ela é personagem do livro! Por quê você veio me procurar aqui na prisão? Você está fora da razão. Perdeu a noção da realidade, Paulo! Você está confuso! Precisa de um tratamento!

De fato, não sabia responder. Poderia ter sido a presença do delegado, aquele falso, que cruzei no corredor, comparsa da doutora. E o que ele estava fazendo por aqui? Ninguém notou que o homem é um criminoso? E qual o motivo de eu estar aqui? Por causa da doutora? Do seu belo corpo que já deixou de ser? 

Deixei-a sem resposta, não conseguia encará-la de frente. As nossas conversas não tinham mais razão de ser. Por quê? Súbito, um vazio, um vácuo profundo no meu cérebro. O que dizer? Sem me despedir, virei as costas e me fui. Ouví apenas a doutora Lena gritando o meu nome. 

Faxina geral. Na pequena sala do apartamento, armei o caixão sobre o tapete. Os copos tinindo na cristaleira, o assoalho brilhando e o banheiro com cheiro de pinho. Comprei flores para cobrir em volta do caixão. Bebí um gole de Absinto e vestí o meu melhor terno. Deixei café pronto para pessoas que por acaso, queiram me ver mais morto do que vivo. E a minha cabeça estourando de dor. Olhei pela última vez, cada canto da sala. Olhei também o valor das dívidas tributárias. Morrerei devendo, graças a Deus! E desta vez estava seguro de que ninguém iria me importunar, de me levar para o hospital como fez o Goro há alguns anos. Retirei da minha caixa de jóias, a única jóia: o meu relógio, aquele relógio que "Quincas Borba" me furtara e que lhe dera tamanha sorte em sua vida, recebera uma herança de um tio e fizera questão de devolver-me. Acendí as velas nos castiçais que estavam postados em quatro cantos ao redor do caixão e na minha cabeceira, uma pequena cruz de madeira bruta, de peroba. Entrei e me ajeitei no caixão recordando-me das pessoas que se cruzaram comigo nessa vida. Lá estava "Dona Plácida" que me alugou a casa para os meus encontros com a minha amada "Virgília". Lá estavam os falecidos "Quincas Borba" com cara de louco; o político afoito e ambicioso "Lobo Neves" que tomou o meu lugar na política; a "Nhá Loló" que poderia ter sido a minha esposa se não fosse manca e até a vivíssima doutora Lena que "amei três anos e uma propriedade". Havia outras pessoas como o alforriado "negro Prudêncio" chicoteando o seu escravo e o seu cachorro; o "conselheiro Dutra" aconselhando o seu genro e Goro anotando tudo num bloco de notas.

Os meus olhos estão cansados, há dores na cabeça, nos pulmões e nas pernas, com tremores contínuos. Respiro fundo e sinto falta de ar. Tento contar as pessoas presentes, nove, dez, onze? Onze. O desespero me invade, é chegada a hora. O médico havia me dado apenas seis meses de vida e hoje completo exatamente os seis meses e mais um dedinho de prosa. Tento me acalmar. Esperneio-me como um peixe no anzol. Vejo imagens em flashes rápidos do passado, "Marcela" e a doutora abrindo a caixa de Pandora; a "Virgília" chorando com lágrimas de verdade lamentando o nosso filho morto; a Gelma, a minha antiga namorada que sumiu sem acenar um adeus e o propagador de "Humanitas", o grande "Quincas Borba" pronunciando a sua frase: "Aos vencedores, as batatas!" E Goro que escreveu um ditado numa de suas páginas do diário: Aos perdedores, os males! Mas que venham para o bem e nada do bem que nos façam mal. Nada a ver, senhor Goro! Todos nós perderemos no final. A morte é insubstituível. Nada é para sempre.

E de repente o corpo flui no ar. É como deitar na cama e descansar.

Fecho os olhos suavemente.

Ando por uma estrada sinuosa e abismal. O caminho é espinhoso, machucam os pés.

E Goro que me escreveu um dia, mais uma de suas asneiras: o espinho é um guardião, defensor de preciosidades que não podemos ver, mas que é possível perceber. Fiquei no ar. Seriam as flores das roseiras e dos cactos? Goro! As flores desabrocham, envelhecem e depois morrem feito humanos!

O fogo frio percorre as minhas veias. Vejo fiapos de luzes iluminando o meu cérebro.

De súbito, tudo escurece.

Sinto-me no ar. É como se um mágico me levitasse.

Morri? 

Será para sempre?

De qualquer maneira, prosseguirei o meu solilóquio.

E como será a minha vida quando abrir os olhos novamente?

Nada anotei nestes meus últimos momentos.

FIM

Pesquisa: Google e o livro Memórias Póstumas de Brás Cubas.

 

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